terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Beijo Interrompido

Apenas uma vez atravessei aquela porta. Havia muitos anos que passava por lá, mas nunca me atrevera a entrar. Finalmente, após tanto tempo, resolvi que daria vazão a minha curiosidade e ignoraria meus escrúpulos. Não tinha a menor idéia sobre o que iria encontrar uma vez que atravessa-se o velho marco de madeira podre e tinta descascada que emoldurava aquela porta.
Segurei a maçaneta com firmeza, forcei um pouco e ela cedeu. Parecia que fazia décadas desde que ela fora utilizada pela última vez, e provavelmente fazia mesmo. Sinto o metal desgastado na palma de minha mão, igualmente desgastada. Estranha semelhança, pois ambos foram desgastados em atividades cheias de ânimo e alegria: as pessoas passavam por esta porta recebidas por um belo sorriso branco como marfim em lábios negros, para aventuras que as vezes levavam a desgraça; ao mesmo tempo que minhas mãos não receberam nenhum cumprimento nas aventuras que escolhi, mas sempre atravessava meus limites mirando para aventuras em que eu sabia que poderiam me custar mais caro do que eu estava disposto a pagar. Neste caso, eu sabia como proceder. Felizmente nunca foi necessário.
Então, com estas mãos, sem ninguém para abrir a porta para mim, girei a maçaneta, abri a porta e entrei no salão. Embora o tempo tivesse cobrado seu preço, estava tudo lá, pelo menos em minha mente. Nunca havia atravessado aquelas portas antes, mas eu sabia exatamente o que esperar. O candelabro, os castiçais, lembranças de uma época que jamais voltará, mas que se desloca em minha mente de maneira expressiva.
Caminho pelo salão, deixo a porta aberta para que a luz entre e indique o caminho e a poeira no ar dança criando padrões que distraem minha percepção. A cada passo que dou, me distancio mais do mundo que deixei para trás ao cruzar aquele marco e fico mais imerso num velho mundo novo que se desnuda perante meus olhos, antes de chegar no seu clímax.
Naquela velha poltrona de reclinar-se, que encontra-se exatamente ao norte do salão pelo qual caminho, diretamente no centro da visão das pessoas que por aqui caminhavam, passando por outras pessoas que bebiam e dançavam, uma linda mulher se estica, com seus braços jogados sobre o encosto, as pernas pendendo na outra extremidade e um lindo vestido de um tecido que raramente poderei ver agora. Seus cabelos são lindos, sua aparência, daqui, me transmite uma maciez tal, uma naturalidade, uma certa tristeza... Tristeza na languidez de seus gestos, embora eu tenha certeza que pelo menos estes são ensaiados, que comove minha alma, mesmo tendo perfeito conhecimento do ingênuo engodo.
Caminho com passos firmes em direção a ela, já não controlo mais meu corpo ou meus movimentos. De pé, a poucos centímetros dela, apresento-me, como se ela realmente estivesse lá. Reclino minha cabeça e sento com cuidado ao seu lado, envolvendo sua cintura em meus braços, descendo meu rosto até o seu e beijando seu rosto quente.
Quando estou próximo aos seus doces lábios cobertos de cor carmim, desperto sentado em uma velha e empoeirada poltrona. Sozinho em um velho e empoeirado salão.
A minha frente uma porta aberta, por onde entra a luz do crepúsculo. É o meu crepúsculo que observo.
Deixo que a porta se feche sozinha. Resigno-me a minha situação. Sentado aqui espero o momento de encontrar-me com tudo o que pude vislumbrar hoje.

Escrito por mim.

2 comentários:

Soaroir Maria de Campos disse...

Somando...


Beijo Interrompido
Soaroir de Campos
24/5/09

(categoria tristeza/abortion)


Mote:“O beijo que não te dei”


nem metade dos dias se passara;
na efervescência de todas as ignorâncias,
entre castidades e reles humanidade,
desorientada escuridão deitou seu véu
no cascateado colo feminino de vida,
subestimada vida que exaltou a morte
daquele sem nome, batizado ou velório,
e nunca um beijo - visto que ainda
se lhe formavam as mãos e o rosto.
pela alma apossada sem consentimento,
corpo arrebatado sem resgate – do ser
do ter a vida e que de por quês partiu
sem saber responder -
não há acima luz nenhuma que alivie,
ou na terra o que substitua ou recompense
o leite do peito e o beijo negados.

http://pote-de-poesias.blogspot.com/2009/05/poesia-de-amor.html

Mr. Cortex disse...

Obrigado por compartilhar. (;