segunda-feira, 20 de agosto de 2007

A Liberdade de Skinner

A hipótese de que o homem não é livre é essencial para a aplicação do método científico ao estudo do comportamento humano. O homem interior livre que se responsabiliza pelo comportamento do organismo biológico é um mero substituto pré-científico para o tipo de causas que são descobertas através da analise científica. Todas essas causas permanecem fora do indivíduo... A ciência insiste que a ação é iniciada por forças que se impõem ao indivíduo, e que a liberdade é apenas outro nome dado ao comportamento cujas causas ainda não foram descobertas.”

Skinner, 1953



É fato conhecido que Skinner era bastante radical em seus pontos de vista, logo é justo encaixá-lo em uma visão determinista radical – como suas próprias palavras supracitadas afirmam – onde não há conciliação entre a cadeia de eventos passados e presentes e a capacidade do ser humano decidir suas próprias ações.

Enquanto essa visão consegue um bom respaldo no âmbito da ciência clássica, onde a causalidade física sempre foi objeto do estudo não só do corpo como também da mente, não podemos deixar de pensar nas implicações éticas para tal ponto de vista. Se não existe liberdade de escolha, não é possível tomar os indivíduos como responsáveis moralmente por seus atos.

Mas é preciso admirar o Skinner pois, diferentemente de um Hobbes1, ele não iria, ao ser confrontado com esse paradoxo, recorrer a um remendo como a alegação de que, apesar do determinismo, o indivíduo é responsável por seus atos – logo possui livre arbítrio – quando poderia ter tomado uma outra atitude se tivesse escolhido assim proceder. Tais remendos dentro das linhas clássicas do pensamento acadêmico só colaboram para as distorções que ainda são praticadas na sociedade.

É muito difícil saber o quanto o comportamento humano é pré-determinado; sociólogos modernos costumam julgar apenas os fatores sociais, biólogos, geneticistas e neurocientistas buscam as explicações apenas nos fatores físicos. Já os psicólogos buscam causas diferentes em suas diferentes teorias: comportamentalistas buscam as respostas no ambiente, psicanalistas buscam as respostas em conflitos inconscientes, humanistas buscam nos problemas de adaptação. A verdade é que sozinhas, todas essas teorias apresentam argumentos relativamente fracos para a questão do livre arbítrio, mas se todas estas vozes forem harmonizadas, teremos um corpo de respostas bastante sólido onde sobra muito pouco espaço para o livre arbítrio.

Será que algum dia, quando essa harmonia estiver consolidada e aceita de maneira mais ampla pela sociedade, chegaremos a conclusão de que estamos completamente a mercê da causalidade lógica determinada pelo meio em que vivemos, condições sócio-econômicas, psicológicas, genéticas e biológicas? Minha resposta para esta pergunta é negativa. O cérebro humano é complexo demais em seus processos, complexo o suficiente para dar margem à um certo nível de autonomia e escolha aos seus portadores.

Enquanto os exemplos de como o meio e os aspectos sócio-econômicos influenciam no desenvolvimento e comportamento individual já são bem conhecidos, a neurociência vem trazendo novas respostas e revitalizando velhas questões. Não só pessoas que sofreram derrames ou acidentes nos quais ficaram constatados danos em seus lobos frontais, mas também crianças que sofreram negligência e até mesmo adolescentes normais – por possuírem uma atividade nesta região do cérebro bem menor em comparação àquela que pode ser mensurada em um adulto, são mais sujeitos a cometer crimes violentos por terem sua capacidade de julgamento e avaliação de riscos comprometida.2 Importa aqui o discernimento do quanto estas pessoas possuíam uma margem de livre arbítrio restante, uma vez que, em muitos casos, estavam sob a influência de todo um conjunto de fatores significativos.

Desta maneira, a confluência de diferentes áreas do conhecimento humano na discussão sobre responsabilidade moral é de extrema importância para uma sociedade mais correta e ética no tratamento dos seus integrantes menos privilegiados e que, muitas vezes, são excluídos mais por preconceito do que pela responsabilidade por seus atos.


1Leviathan, 1651 apud Wikipedia. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Free_will Acesso em: 19 de agosto de 2007.

2Brower M.C. and Price B.H. Neuropsychiatry of frontal lobe dysfunction in violent and criminal behaviour: a critical review. Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry, 71: 720–726, 2001; Steinberg, L., Scott, E. S. Less guilty by reason of adolescence: developmental immaturity, diminished responsibility, and the juvenile death penalty. American Psychologist 58, 1009–1018, 2003; Teicher, M. H.et al. The neurobiological consequences of early stress and childhood maltreatment. Neuroscience and Behavioral Reviews, 27: 33–44, 2003 apudOpt. Cit. Wikipedia.

8 comentários:

Anderson de Moura Lima disse...

Caro amigo nenhum Bahaviorista Radical(Skinner, portanto)afirma que a "a subjetividade deve ser descartada". Sugiro que leia novamente o livro "Sobre o Behaviorismo" de Skinner que vai perceber que isso não é verdade, ok?Abraços!

Anderson de Moura Lima disse...

veja os links:
http://pepsic.bvs-psi.org.br/pdf/psie/v20/v20a07.pdf
http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-69752005000100007&lng=pt&nrm=iso

Anderson de Moura Lima disse...

Caro amigo o senhor disse que no Behaviorismo radical "não há conciliação entre a cadeia de eventos passados e presentes e a capacidade do ser humano decidir suas próprias ações". Como o senhor deve saber não há como provar se existe ou não liberdade. A Análise do Comportamento enquanto ciência natural se assenta num MODELO de comportamento determinado por fatores biológicos e sociais. Como toda ciência se assenta em modelos é impossível provar premissas básicas de TODAS elas.Mas o senhor foi muito feliz em tocar nos argumentos estéticos e morais ao falar da noção de liberdade para o Behaviorismo Radical.Infelismente não colocou os benefícios de se considerar o comportamento humano como determinado geneticamente e socialmente só colocou os argumentos contra e não os a favor. Sugiro que leia os 3 primeiros capítulos do livro abaixo que suas possíveis dúvidas irão ser sanadas a respeito da relação entre behaviorismo e liberdade, ok?
BAUM, Willian M. Compreender o behaviorismo: ciência, comportamento e cultura. Porto Alegre: Editora Artes médicas Sul, 1999.

Anderson de Moura Lima disse...

http://scielo.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-82712005000100011&lng=pt&nrm=is

Anderson de Moura Lima disse...

Abraços espero que realmente cumpra o que diz (Quer você concorde comigo, quer você discorde de mim, agradeço a atenção e os minutos compartilhados neste espaço. (:) e aceite meus comentários, ok?Espero os seus comentários no meu blog,ok?Abraços!

Mr. Cortex disse...

Vou republicar os links:
1. MOROZ, Melania e RUBANO, Denize. Subjetividade: a interpretação do behaviorismo radical
3. BRANDENBURG, Olivia e WEBER, Lidia. Autoconhecimento e liberdade no behaviorismo radical.

Mais uma vez, agradeço pelas sugestões e correções.

Garota Psykóze disse...

Olha só! Olivia Brandenburg foi minha professora de AEC ano passado! Que surpresa agradável. Vim pesquisar sobre liberdade para um trabalho de Psicologia do Trabalho e encontro essa coincidência ^^ A propósito, sou freudiana, porém não tenho preconceitos com a Comportamental devido a essa professora maravilhosa.

Cláudio disse...

Realmente, é ótimo ter um texto como o dela, na língua portuguesa e com acesso aberto. Este é um dos textos que deveriam ser trabalhados nos cursos de AEC e TC pelo Brasil.