terça-feira, 20 de julho de 2010

Existe racionalidade?

Uma das questões propostas pela Filosofia da Psicologia é: Serão os seres humanos entidades racionais?

Proponho duas respostas curtas, uma metafórica e outra direta:
  • O único ser realmente racional sou Eu; por esta afirmação provo que eu, também, sou irracional.

  • Humanos são seres emocionais capazes de produzir sistemas racionais e de fazer uso limitado destes sistemas.
A racionalidade não ocorre naturalmente nos seres humanos e não é, por si só, medida de inteligência em uma sociedade humana. Sendo humano e convivendo com outros humanos em diferentes contextos sociais, me parece evidente que o ser humano é uma entidade regida por emoções e que faz uso de sistemas racionais aprendidos para poder integrar-se ao meio e, pelo meio, suprir suas necessidades reais e percebidas.
Além de aprender o ser humano também é capaz de criticar os sistemas racionais que lhe são apresentados. Esta crítica não é homogênea entre os seres humanos, diferindo em qualidade e extensão. Alguns seres humanos desenvolvem críticas suficientemente boas para originar novos sistemas racionais que perduram e são estudados. Outros desenvolvem críticas válidas apenas para si e delas não conseguem se desfazer, podendo inclusive romper com a realidade social e qualquer senso de racionalidade.

8 comentários:

Daniel Gontijo disse...

Mas o que é a racionalidade?

Cláudio disse...

Justamente... Ontem quando estava escrevendo havia pensado em terminar o post assim: "Mas acho que a pergunta última é: Existe racionalidade no mundo natural?"
Ou seria a racionalidade um conceito como livre arbítrio? (Para quem não acredita no livre-arbítrio)...
Mas questionamentos como esse são como combustível de foguete pra impulsionar o estudo. :D

Daniel Gontijo disse...

Cara, hoje cedo li em algum blog por aí que a racionalidade é fundada pela lógica, ou simplesmente pelo pensamento estruturado em silogismos. Um exemplo clássico:

Todos os homens são mortais.
Se Sócrates é homem, então Sócrates é mortal.

Eu desconfio que o raciocínio lógico ocorre naturalmente nos seres humanos. Acredito que há todo um aparato genético que nos mune de ferramentas cognitivas que, juntas, configuram a racionalidade. Entretanto, o conteúdo sobre o qual trabalha a racionalidade seria aprendido.

Por outro lado, não quero dizer que a racionalidade exclui ou independe das emoções. De fato estudos recentes mostram que sem as emoções a razão não opera adequadamente. Um bom livro que trata do assunto é "O erro de Descartes", de Antônio Damásio.

Um abraço, Cláudio.

Cláudio disse...

Eu tenho o livro "O Erro de Descartes" do Damásio, é realmente ótimo!

Hoje resolvi dar uma olhada nos conceitos de racionalidade. De modo geral, o que encontrei afirma que a racionalidade é a capacidade de analisar os dados (input) e com base neles tomar uma decisão (output) otimizada.

Se considerarmos a racionalidade como sendo algo independente da consciência, podemos dizer que os animais são racionais, pois enquanto caçam respondem às informações relevantes do meio para chegar ao objetivo de alimentar-se, e fazem isso de forma altamente otimizada.

Ou então que um programa de computador como o SOAR é uma entidade racional ou mesmo que uma equação matemática...

Mas acho que não é o caso... Como tinhas dito, herdamos geneticamente as ferramentas necessárias para utilizar construtos lógicos, como a matemática ou alguma outra linguagem humana (e seus silogismos) ou ainda um programa de computador.

Quanto aos animais, temos eles como irracionais, mas é fácil imaginar um algoritmo lógico natural neles do tipo "se -> então". Que diga o behaviorismo...

Desta forma... No âmbito da filosofia da psicologia, a racionalidade pode ser tomada como independente da consciência ou devemos considerar a racionalidade como uma faculdade de entidades conscientes?

Pessoalmente acho que a racionalidade deve ser abordada como parte integrante da consciência, como a inteligência.

Sendo assim, a racionalidade independente das emoções se torna inviável, pelo menos enquanto a consciência depender de um substrato orgânico natural como os seres humanos. Talvez uma "inteligência artificial forte" pudesse ser consciente e dotada de racionalidade e inteligência, sem emoção alguma.

Num cenário onde a racionalidade sem emoção é inviável, esteriótipos de "frieza racional" como o Sr. Spock do Jornada nas Estrelas se tornam pouco plausíveis... E são. Percursores deste esteriótipo, como o Sherlock Holmes por exemplo, apresentam alguma forma de sofrimento psíquico que acaba sempre fazendo parte do enredo... O Spock teve de ser "meio-humano", mas mesmo os irmãos do Spock, vulcanos por inteiro, acabariam exigindo alguma forma de conflito emocional para justificar tamanha frieza.

Outras questões que surgem dessas explorações são: pode a emoção surgir num substrato não natural, como num computador? Essa é uma pergunta inevitável ao se pensar sobre máquinas inteligentes... E faz pensar sobre o reducionismo onde "emoções = neurotransmissores"...

Bom, acho que já me alonguei demais... hehehehe. :D

Realmente gosto destas divagações, muitas ideias surgem e certamente podemos encontrar pesquisas sérias em todas estas linhas.

Uma pesquisa rápida no Google Scholar já trouxe:
HANOCH, Y. "Neither an angel nor an ant": Emotion as an aid to bounded rationality
PUGNO, M. Rationality and Affective Motivation: new ideas from neurobiology and psychiatry for economic theory
VELÁSQUEZ, JD. Modeling emotions and other motivations in synthetic agents

Bom... Vou parando por aqui! :D

Cláudio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cláudio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Daniel Gontijo disse...

Sua comparação e analogia com animais e máquinas foram ótimas, Cláudio.

Se postularmos que a racionalidade está baseada na tomada de decisão me vem a ideia que decisões envolvem escolhas. Uma decisão racional envolve processamento mais complexo, muitas vezes indo contra nossos instintos primevos, inibindo portanto alguns impulsos e dando espaço para a elaboração de comportamentos adaptativos (p. ex., não transar, apesar do desejo ardente e premente, caso esteja sem camisinha). Talvez esse tipo de situação nos fez criar o termo razão e, uma vez que os demais animais parecem sempre reagir necessariamente conforme seus impulsos/instintos, classificamos o ser humano como a única entidade racional.

Se assim for, é uma classificação interessante mas ainda assim - no meu ponto de vista - fraca. Desconfio que alguns animais vivenciam situações conflitantes nas quais podem tomar decisões mais razoáveis. No entanto na nossa espécie isso acontece mais rotineira e visivelmente, visto nosso etilo de vida e cognição serem mais complexos.

No caso das máquinas, não sei se poderíamos chamá-las de racionais, já que suas decisões não envolvem "conflitos de interesse", isto é, não há algo como as emoções afetando totalmente suas escolhas ou comportamentos (a não ser que tratemos a razão de uma outra forma, sem necessariamente envolver decisão e emoção...).

Um abraço!

Bruno Coelho disse...

Penso que o conceito de racionalidade pode ser abordado de duas maneiras: tomada de decisões e/ou resolução de problemas específicos. Não creio que podemos generalizar para qualquer tipo de problema, pois nós somos biologicamente adaptados para resolver alguns com mais facilidade do que outros, portanto se formos definir racionalidade teremos de atribuir parâmetros que estejam de acordo com nossa constituição.

Caso queiramos aumentar o alcançe do conceito, para que possa abarcar outras espécies ou aliens, teremos que definir uma racionalidade mínima.
O seu post sobre vieses cognitivos é um ponto de apoio, pois quando afirmamos que um comportamento é irracional ou enviesado, estamos implicitamente afirmando que não deveríamos raciocinar assim. No caso dos vieses, os parâmetros de avaliação são a lógica e a probabilidade.