quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Mapeamento Cerebral Básico

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Os lobos frontais são considerados o nosso centro de controle emocional e lar da nossa personalidade. Não existe outra parte do cérebro na qual lesões possam causar sintomas tão variados (Kolb & Wishaw). Os lobos frontais estão envolvidos na função motora, solução de problemas, espontaneidade, memória, linguagem, iniciação, julgamento, controle de impulsos e comportamentos sociais e sexuais. Os lobos frontais são extremamente vulneráveis à ferimentos devido à sua localização na parte frontal do crânio, à sua proximidade com asa do osso esfenóide e ao seu grande tamanho. Estudos realizados com MRI (ressonância magnética) apontaram que a área frontal é a mais atingida por lesões traumáticas moderadas no cérebro (Levin et al., 1987).
Existem diferenças assimétricas importantes nos lobos frontais. O lobo frontal esquerdo está envolvido no controle de movimentos relacionados à linguagem, enquanto o lobo frontal direito desempenha um papel em habilidades não-verbais. Alguns pesquisadores enfatizam que esta regra não é absoluta e que em muitas pessoas ambos os lobos estão envolvidos em praticamente todos os comportamentos.
Perturbações na função motora são tipicamente caracterizadas pela perda dos movimentos finos e da força nos braços, mãos e dedos (Kuypers, 1981). Cadeias complexas de movimentos motores também parecem ser controlados pelos lobos frontais (Leonard et al., 1988). Pacientes com danos no lobo frontal exibem pouca expressão facial expontânea, o que aponta para o papel dos lobos frontais na expressão facial (Kolb & Milner, 1981). A afasia de Broca, ou dificuldade para falar, tem sido associada com danos no lobo frontal por Brown (1972).
Um fenômeno interessante causado por danos no lobo frontal é o seu efeito insignificante em testes de QI tradicionais. Pesquisadores acreditam que isto ocorre pois os testes de QI tipicamente testam o pensamento convergente, ao invés do pensamento divergente. Danos no lobo frontal parecem ter um impacto no pensamento divergente, ou na flexibilidade e na habilidade de resolver problemas. Existem evidências que apontam interferências persistentes na atenção e na memória mesmo depois de uma boa recuperação de um TBI (dano traumático ao cérebro - Stuss et al. 1985).
Outra área geralmente associada com danos frontais é aquela da “espontaneidade comportamental.” Kolb & Milner (1981) descobriram que indivíduos com danos frontais exibiam uma menor quantidade de movimentos faciais espontâneos, falavam menos palavras (lesões no lobo esquerdo) ou falavam excessivamente (lesões no lobo direito).
Uma das características mais comuns do dano no lobo frontal é a dificuldade para interpretar respostas ambientais. Perseveração em uma resposta (Milner, 1964), comportamentos de risco, insubordinação à regras (Miller, 1985), e perdas na aprendizagem associativa (pelo uso de pistas externas para ajudar a guiar o comportamento) (Drewe, 1975) são alguns poucos exemplos deste tipo de déficit.
Os lobos frontais também são creditados por desempenhar um papel em nossa orientação espacial, incluindo nossa orientação do espacial do corpo (Semmes et al., 1963).
Um dos efeitos mais comuns do dano frontal pode ser a mudança dramática no comportamento social. A personalidade de um indivíduo pode sofrer mudanças significantes depois e um dano nos lobos frontais, especialmente quando ambos os lobos estão envolvidos. Existem algumas diferenças no lobo esquerdo em relação ao lobo direito nestas áreas. Danos no lobo esquerdo geralmente se manifestam como pseudodepressão* e danos no lobo direito como pseudopsicopatia** (Blumer e Benson, 1975).
O comportamento sexual também pode ser afetado por lesões frontais. Danos órbito-frontais podem desencadear um comportamento sexual anormal, enquanto danos dorso-laterais podem reduzir o interesse sexual (Walker e Blummer, 1975).
Alguns testes comuns para o funcionamento do lobo frontal são: o Winsconsin Card Sorting (inibição de resposta); Finger Tapping (habilidades motoras); e Token Test (habilidades lingüísticas).
Os lobos parietais podem ser divididos em duas regiões funcionais. Uma envolvida na sensação e na percepção e outra responsável pela integração do input sensorial, primariamente com o sistema visual. A primeira função integra informações sensoriais para formar uma única percepção (cognição). A segunda função constrói um sistema de coordenadas espaciais para representar o mundo que nos cerca. Indivíduos com danos nos lobos parietais geralmente demonstram profundos déficits, tais como anormalidades na imagem corporal e nas relações espaciais (Kandel, Schwartz & Jessel, 1991).
Danos ao lobo parietal esquerdo podem resultar naquilo que é chamado de “Síndrome de Gerstmann.” Esta inclui confusão entre esquerda e direita, dificuldade de escrita (agrafia) e dificuldades com o pensamento matemático (acalculia). Também pode produzir desordens na linguagem (afasia) e a inabilidade de perceber objetos normalmente (agnosia).
Danos ao lobo parietal direito podem resultar na negligência a uma parte do corpo ou do espaço (negligência contralateral), a qual abala muitas das habilidades de cuidado próprio, tais como vestir-se e banhar-se. Danos no lado direito também podem causar dificuldades para a realização de muitas coisas (apraxia construcional), a negação de déficits (anosagnosia) e habilidades para desenhar.
Dos bilaterais (grandes lesões em ambos os lados) podem causar a “Síndrome de Balint”, uma síndrome motora e da atenção visual. Esta é caracterizada pela incapacidade de controlar voluntariamente o olhar (ocular apraxia), para integrar componentes da cena visual (simultanagnosia) e para alcançar de forma coordenada um objeto com o auxílio da visão (ataxia óptica) (Westmoreland et al., 1994).
Déficits especiais (primariamente à memória e personalidade) podem ocorrer se houverem danos à área entre os lobos parietal e temporal.
Lesões na área parieto-temporal esquerda podem afetar a memória verbal e a habilidade da recordar seqüências numéricas (Warrington & Weiskrantz, 1977). Lesões na área parieto-temporal direita estão relacionadas à problemas na memória não-verbal, podendo ocasionar mudanças significativas na personalidade.
Alguns testes comuns para o funcionamento dos lobos parietais são: o Kimura Box Test (apraxia) e o Two-Point Discrimination Test (somatosensorial).
Os lobos occipitais são o centro do nosso sistema de percepção visual. Eles não são muito vulneráveis à danos por conta de sua localização na parte posterior do cérebro, embora qualquer trauma significante ao cérebro pode causar súbitas mudanças no nosso sistema visual-perceptual, tais como defeitos no campo de visão e escotomas. A região peristriada do lobo occipital está envolvida no processamento viso-espacial, discriminação de movimentos e discriminação de cores (Westmoreland et al., 1994). Dano a um dos lados dos lobos occipitais podem causar perdas homônimas na visão com exatamente o mesmo corte no campo de ambos os olhos. Desordens no lobo occipital podem causar alucinações visuais e ilusões. Alucinações visuais (imagens visuais sem a presença de um estímulo externo) podem se causadas por lesões na região occipital ou por convulsões dos lobos temporais. Ilusões visuais (percepções distorcidas) podem tomar a forma de objetos aparentando uma dimensão maior ou menos do que realmente possuem, objetos que carecem de cor ou objetos exibindo uma coloração anormal. Lesões na área de associação parieto-temporo-occipital podem causar cegueira à palavras e impedimentos na escrita (alexia e agrafia) (Kandel, Schwartz & Jessell, 1991).
Kolb & Wishaw (1990) identificaram oito sintomas principais aos danos nos lobos temporais: 1. perturbações na sensação e percepção auditiva, 2. perturbações na atenção seletiva de inputs auditivos e visuais, 3. desordens na percepção visual, 4. perturbações na organização e categorização do material verbal, 5. perturbações na compreensão da linguagem, 6. perturbações na memória de longo prazo, 7. alterações na personalidade e no comportamento afetivo, 8. alterações no comportamento sexual.
Déficits na atenção seletiva visual ou auditiva são comuns em danos nos lobos temporais (Milner, 1968). Lesões no lado esquerdo resultam em perdas na lembrança de conteúdos verbais e visuais, incluindo percepção da fala. Lesões do lado direito resultam em perdas no reconhecimento de seqüências tonais e de muitas habilidades musicais. Lesões no lado direito podem afetar o reconhecimento do conteúdo visual (por exemplo, reconhecimento facial).
Os lobos temporais estão envolvidos na organização primária do input sensorial (Read, 1981). Indivíduos com lesões nos lobos temporais apresentam dificuldades na categorização de palavras e figuras.
A linguagem pode ser afetada por danos nos lobos temporais. Lesões no lobo temporal esquerdo perturbam o reconhecimento de palavras. Lesões no lobo temporal direito podem causar uma perda na inibição da fala.
Os lobos temporais estão altamente associados com as habilidades mnemônicas. Lesões no lobo temporal esquerdo resultam em perdas no material mnemônico e verbal. Lesões no lobo temporal direito resultam na lembrança de materiais não-verbais, tais como músicas e desenhos.
Convulsões dos lobos temporais podem causar efeitos dramáticos na personalidade do indivíduo. Epilepsia do lobo temporal pode causar discursos perseverantes, paranóia e episódios agressivos (Blumer & Benson, 1975). Danos severos aos lobos temporais também podem alterar o comportamento sexual (por exemplo, aumentando a atividade) (Blumer & Walker, 1975).
Testes comuns para o funcionamento do lobo temporal são: Rey-Complex Figure (memória visual) e Wechsler Memory Scale - Revised (memória verbal).
O tronco cerebral desempenha um papel vital na atenção, despertar e consciência. Toda informação vinda do nosso corpo passa pelo tronco cerebral no caminho para o cérebro. Como o lobo frontal e temporal, o tronco cerebral está localizado em uma área próxima a protusões ósseas, tornando-o vulnerável à danos durante traumatismos.
O cerebelo está envolvido na coordenação do movimento motor voluntário [a função cerebelar é inconsciente], equilíbrio e balanceamento e tônus muscular. Ele se localiza logo acima do tronco cerebral e na parte posterior do cérebro. Está relativamente bem protegido de traumatismos se comparado aos lobos temporais, frontais e ao tronco cerebral.
Danos ao cerebelo resultam em movimentos lentos e descoordenados. Indivíduos com lesões cerebelares tendem a apresentar dificuldades para se equilibrar e virar enquanto caminham.
Danos no cerebelo podem levar à: 1. perda de coordenação do movimento motor (assinergia), 2. incapacidade de julgar a distância e o momento de parar (dismetria), 3. incapacidade para realizar movimentos rápidos alternados (adiadochocinsesia), 4. tremores nos movimentos (tremor de intensão), 5. exitação e caminhar de base larga (mancar atáxico), 6. tendência a cair para frente, 7. músculos enfraquecidos (hipotonia), 8. fala embargada (disartria atáxica), e 9. movimentos oculares anormais (nystagmus).


* Pseudodepressão: uma condição da personalidade, que ocorre após uma lesão no lobo frontal, na qual apatia, indiferença e perda de iniciativa são os sintomas aparentes mas não são acompanhados por um senso de depressão no paciente.
** Pseudopsicopatia: uma condição da personalidade, que ocorre após uma lesão no lobo frontal, na qual comportamento imaturo, ausência de tato e refreamento e outros comportamentos sintomáticos de psicopatologia são aparentes mas não são acompanhados por outros componentes mentais ou emocionais equivalentes da psicopatologia.


Referências citadas:
Blumer, D., & Benson, D. Personality changes with frontal and temporal lobe lesions. In D. Benson and D. Blumer, eds. Psychiatric Aspects of Neurologic Disease. New York: Grune & Stratton, 1975.
Blumer, D., & Walker, E. The neural basis of sexual behavior. In D.F. Benson and F. Blumer, eds. Psychiatric Aspects of Neurologic Disease. New York: Grune & Stratton, 1975.
Brown, J. Aphasia, Apraxia and Agnosia. Springfield, IL: Charles C. Thomas, 1972.
Drewe, E. (1975). Go-no-go learning after frontal lobe lesion in humans. Cortex, 11:8-16.
Kandel, J., Schwartz, J., & Jessell, T. Principles of Neural Science. 3rd edition. Elsevier. New York: NY, 1991.
Kimura, D. (1977). Acquisition of motor skill after left hemisphere damage. Brain, 100:527-542.
Kolb, B., & Milner, B. (1981). Performance of complex arm and facial movements after focal brain lesions. Neuropsychologia, 19:505-514.
Kolb, B., & Whishaw, I. (1990). Fundamentals of Human Neuropsychology. W.H. Freeman and Co., New York.
Kuypers, H. Anatomy of the descending pathways. In V. Brooks, ed. The Nervous System, Handbook of Physiology, vol. 2. Baltimore: Williams and Wilkins, 1981.
Leonard, G., Jones, L., & Milner, B. (1988). Residual impairment in handgrip strength after unilateral frontal-lobe lesions. Neuropsychologia, 26:555-564.
Levin et al. (1987). Magnetic resonance imaging and computerized tomography in relation to the neurobehavioral sequelae of mild and moderate head injuries. Journal of Neurosurgery, 66, 706-713.
Miller, L. (1985). Cognitive risk taking after frontal or temporal lobectomy. I. The synthesis of fragmented visual information. Neuropsychologia, 23:359-369.
Milner, B. (1968). Visual recognition and recall after right temporal lobe excision in man. Neuropsychologia, 6:191-209.
Milner, B. (1975). Psychological aspects of focal epilepsy and its neurosurgical management. Advances in Neurology, 8:299-321.
Milner, B. Some effects of frontal lobectomy in man. In J. Warren and K. Akert, eds. The Frontal Granular Cortex and Behavior. New York: McGraw-Hill, 1964.
Semmes, J., Weinstein, S., Ghent, L., & Teuber, H. (1963). Impaired orientation in personal and extrapersonal space. Brain, 86:747-772.
Stuss, D. et al. (1985). Subtle neuropsychological deficits in patients with good recovery after closed head injury. Neurosurgery, 17, 41-47.
Walker, E., & Blumer, D. The localization of sex in the brain. In K.J. Zulch, O. Creutzfeldt, and G. Galbraith, eds. Cerebral Localization, Berlin and New York: Springer-Verlag, 1975.
Warrington, E., & Weiskrantz, L. An analysis of short-term and long-term memory defects in man. In J.A. Deutsch, ed. The Physiological Basis of Memory. New York: Academic Press, 1973.
Read, D. (1981). Solving deductive-reasoning problems after unilateral temporal lobectomy. Brain and Language, 12:116-127.
Taylor, L. (1969). Localization of cerebral lesions by psychological testing. Clinical Neurosurgery, 16:269-287.
Westmoreland et al. Medical Neurosciences: An Approach to Anatomy, Pathology, and Physiology by Systems and Levels. Little, Brown and Company. New York: NY, 1994.


Fonte:
Lehr Jr., Robert P., Ph.D. Brain Functions and Map. In: Centre for Neuro Skills. http://www.neuroskills.com/brain.shtml

Ver também:
Neuropsychological test - Wikipedia

4 comentários:

Rosa disse...

Tenho uma neta de 7 anos que aos dois apresntou um quadro de eplepsia e a partir dai fomos percebendo que havia um atraso acentuado na fala e na coordenacao motora. Nao sabemos ate hoje se este quadro de eplepsia te algo a ver com isso, mas o certo e que a eplepsia hoje encontra-se controlada com acompanhamento de um neurologista, mas ainda nao consguimos um tratamento adequado para o problema da fala, do cognitivo e da coordenacao motora.
Ela esta sendo acompanhada na escola por uma fono e uma psicopedagogo mas, achamos que isso nao esta sendo o suficiente visto que com sete anos ela ainda nao le nem escreve alem de outras dificuldades. E uma crianca extremamente alegre e interagi muito bem socialmente com todas as difilculdades que tem. Gostaria de saber aonde posso procurar um tratamento adequado e saber o que pode ser feito independente de onde seja. Moramos em Niteroi estado do Rio de Janeiro.
Desde ja agradeco pela atencao.
Meu email e:
rosacdarcie@gmail.com

Ekubo Medicina Oriental disse...

Olá, onde é área específica para a deglutição? Obrigada. Erika

Claudio Drews disse...

Olá!

Segundo o NCBI, as áreas do cérebro envolvidas em processar o ato voluntário de engolir e os movimentos da língua são "sobrepostas porém distintas".
As áreas sobrepostas são 1) área pericentral lateral esquerda, 2) córtex cingulado anterior e 3) área motora suplementar adjacente. A língua envolve também as áreas giro pós-central, córtex prémotor, putamen direito e tálamo. O ato de engolir envolve o córtex parietal anterior, a região rostral do cingulado anterior, o precuneus e a ínsula. Aproximadamente 60% dos 14 sujeitos estudados (acredite, não é muito) apresentaram lateralização para o hemisfério esquerdo para engolir, enquanto que 60% apresentaram lateralização para o hemisfério direito para a elevação da língua.

Pessoalmente, dadas a algumas questões recentemente levantadas sobre estes estudos com aparelhos de neuroimagem, prefiro me basear nos conhecimentos mais grosseiros, porém mais estabelecidos, de tempos atrás.

Veja esta imagem: http://thebrain.mcgill.ca/flash/i/i_06/i_06_cr/i_06_cr_mou/i_06_cr_mou_1b.jpg

Fontes:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15163677
http://thebrain.mcgill.ca/flash/i/i_06/i_06_cr/i_06_cr_mou/i_06_cr_mou.html

Ekubo Medicina Oriental disse...

Obrigada, Claudio!

Abraço,

Erika