quarta-feira, 7 de abril de 2010

Vieses Cognitivos (em andamento)

Os vieses cognitivos constituem padrões de desvio no julgamento que ocorrem em situações específicas nas quais as conclusões são baseadas em fatores cognitivos em detrimento às evidências. Acredita-se que estes vieses são formas de atalhos cognitivos, baseados em regras gerais ou rules of thumb: uma forma de heurística, a qual constitui princípios facilmente aprendidos e aplicados para aproximações estatísticas, cálculos, recordação ou tomada de decisão, que não visam ser precisos ou confiáveis para todas as situações.

Vieses de tomada de decisão e comportamentais

  • Base rate fallacy (Falácia da medida padrão): ignorar os dados estatísticos disponíveis em favor de indivíduos.

  • Choice-supportive bias (Viés pró-escolha): a tendência de lembrar das próprias escolhas como sendo melhores do que elas realmente foram.

  • Viés de confirmação: a tendência para procurar ou interpretar informações de forma a confirmar as próprias preconcepções.

  • Viés de congruência: a tendência de testar hipóteses exclusivamente por meio de testagem direta, em contraste a testes de possíveis hipóteses alternativas.

  • Efeito de contraste: aumento ou diminuição da altura (por exemplo) ou de alguma medida quando comparando com algum objeto contrastante recentemente observado.

  • Déformation professionnelle (Viés de profissão): a tendência de observar as coisas conforme as convenções da sua própria profissão, em detrimento a qualquer ponto de vista mais amplo.

  • Efeito da denominação: a tendência de gastar mais dinheiro quando este é denominado em unidades pequenas (i.e. moedas) ao invés de unidades grandes (i.e. cédulas).

  • Viés de distinção: a tendência para ver duas opções como mais díspares quando consideradas simultaneamente do que quando consideradas em separado.

  • Endowment effect (Efeito da doação): a tendência de exigir muito mais para se desfazer de um objeto do que estaria disposto a dar para adquirí-lo.

  • Viés de expectativa (Experimenter's bias): a tendência de cientistas experimentais para certificar, publicar e acreditar em dados que confirmam suas expectativas para o resultado de um experimento, e para desacreditar, descartar ou rebaixar a importância correspondente de dados que aparentem entrar em conflito com suas expectativas. Relacionado com o viés de confirmação e a dissonância cognitiva.

  • Viés de extraordinariedade: a tendência a valorizar mais um objeto do que outros da mesma categoria como resultado de sua singularidade que, por sua vez, não altera necessariamente o seu valor.

  • Viés de foco: viés de previsão que ocorre quando as pessoas dão importância demasiada a um único aspecto de um evento; causa erros na previsão precisa da utilidade de um resultado futuro.

  • Enquadramento (Framing): usar uma abordagem ou descrever uma situação ou questão de forma muito estreita, limitada.

  • Efeito de enquadramento: chegar a diferentes conclusões dependendo da forma como os dados são apresentados.

  • Desconto hiperbólico (Hyperbolic discounting): a tendência das pessoas para dar preferência para recompensas mais imediatas em relação a recompensas mais tardias, de modo que a tendência fica mais acentuada na medida que ambas as recompensas se aproximam do momento presente.

  • Ilusão de controle: a tendência de seres humanos em acreditar que podem controlar ou ao menos influenciar resultados que claramente não podem. Relacionado ao pensamento mágico (wishful thinking).

  • Viés de impacto: a tendência das pessoas para superestimar a duração ou a intensidade dos estados sentimentais futuros.

  • Viés de informação: a tendência a buscar informações mesmo quando estas não podem afetar a ação.

  • Interloper effect (Efeito do intruso): a tendência de valorizar a opinião de terceiros como objetiva e determinante sem motivos para tanto. Relacionado ao paradoxo da consultoria: a conclusão de que soluções propostas por indivíduos pertencentes a uma organização estão menos propensas a serem apoiadas do que aquelas de indivíduos recrutados para este propósito.

  • Escalada irracional: a tendência de tomar decisões irracionais baseadas em decisões racionais passadas ou para justificar ações passadas.

  • Fenômeno do mundo justo: ao presenciar uma injustiça inexplicável, as pessoas tendem a racionalizar procurando por coisas que a vítima tenha feito para merecer tal injustiça.

  • Aversão à perda: a inutilidade de desfazer-se de um objeto é maior do que a utilidade associada à sua aquisição. Relacionado ao endowment effect.

  • Efeito da mera exposição: a tendência das pessoas para expressar preferência injustificada por coisas meramente por lhes serem familiares.

  • Ilusão do dinheiro: a tendência das pessoas em concentrar-se no valor nominal do dinheiro ao invés de seu valor em termos de poder de compra.

  • Efeito da credencial moral: a tendência de um registro de aceitação para aumentar o preconceito subsequente.

  • Necessidade de finalização (Need for closure): a necessidade de chegar a um veredito para assuntos importantes, de ter uma resposta que supere o sentimento de dúvida e incerteza. O contexto pessoal (tempo ou pressão social) pode aumentar este viés.

  • Viés de negatividade: fenômeno pelo qual humanos dão maior importância e prestam mais atenção nas experiências negativas do que nas experiências positivas ou outros tipos de informação.

  • Negligência de provabilidade: a tendência para ignorar completamente a probabilidade quando tomando uma decisão sob incerteza.

  • Viés de normalidade: a recusa em planejar para o caso de um desastre, ou de reagir a um desastre, que nunca ocorreu anteriormente.

  • Not invented here”: a tendência de ignorar que uma solução já existe por sua origem ser tida como inimiga ou inferior.

  • Viés de omissão: a tendência de julgar como piores ou mais imorais as ações do que omissões igualmente (ou mais) danosas. Relacionado ao experimento mental do carro desgovernado.

  • Racionalização pós-compra: a tendência para persuadir a si mesmo por meio de argumento racional (racionalização) de que uma compra foi proveitosa.

  • Efeito de pseudocerteza: a tendência de tomar decisões aversivas aos riscos se o resultado esperado for positivo, mas de fazer escolhas arriscadas para evitar resultados negativos.

  • Reactância: a necessidade de se opor àquilo que alguém quer que você faça por uma necessidade de resistir àquilo que é percebido como uma tentativa de restringir sua opção de escolha.

  • Viés da resistência (Restraint bias): a tendência de superestimar a própria habilidade para resistir às tentações.

  • Reflexo de Semmelweis: a tendência de rejeitar novas evidências que contradizem paradigmas estabelecidos.

  • Efeito Von Restorff: a tendência para um item que se destaca em meio aos demais para ser mais lembrado do que os demais itens.

  • Pensamento mágico (Wishful thinking): a formação de crenças e a tomada de decisões de acordo com o que é confortável para a imaginação em detrimento da racionalidade ou das evidências.

  • Viés do risco-zero: a preferência pela redução de um risco pequeno para risco-zero ao invés de uma redução maior em um grande risco.

Vieses de probabilidade e de crença

  • Efeito da ambiguidade: a evitação de opções para as quais a informação faltante faz com que a probabilidade pareça “desconhecida”.

  • Efeito de ancoragem: a tendência de confiar demais, ou “ancorar”, em uma referência passada ou em um aspecto ou traço ou fragmento de informação quando tomando decisões (também conhecido como “ajustamento insuficiente”).

  • Viés de atenção: ignorar dados relevantes em julgamentos de uma correlação ou associação.

  • Viés de autoridade: a tendência de valorizar estímulos ambíguos (i.e. uma performance artística) de acordo com a opinião de alguém que é considerado uma autoridade no assunto.

  • Heurística de disponibilidade: estimar o que é mais provável pelo o que está mas prontamente acessível à memória, a qual é enviesada para exemplos mais vívidos, singulares ou carregados emocionalmente.

  • Cascata de disponibilidade: um processo de auto-reforço no qual uma crença coletiva ganha mais e mais plausibilidade por meio da crescente repetição no discurso público (ver Argumentum ad nauseam).

  • Viés de crença (Belief bias): um efeito no qual a avaliação de alguém quanto a consistência lógica de um argumento é enviesada pela credibilidade da conclusão.

  • Ilusão de agrupamento (Clustering illusion): a tendência de ver padrões onde eles não existem realmente (ver Apofenia e Pareidolia).

  • Viés da capacidade: a tendência de acreditar que um conjunto de dados é mais conciso na medida que a performance média estiver mais próxima de um objetivo.

  • Falácia da conjunção: a tendência para assumir que condições específicas são mais prováveis do que as condições gerais.

  • Efeito da disposição: a tendência de vender bens cujos valores têm aumentado e manter bens cujos valores têm diminuído.

  • Falácia do apostador: a tendência de pensar que as probabilidades futuras são alteradas pelos eventos passados, quando na verdade elas permanecem idênticas. É resultado da conceitualização errônea da Lei dos Grandes Números.

  • Efeito Hawthorne: a tendência das pessoas em se comportar de forma diferenciada quando sabem que estão sendo observadas.

  • Hindsight bias (Viés de retrospectiva): as vezes chamado de “efeito eu sempre soube”, a inclinação para ver eventos passados como sendo previsíveis.

  • Correlação ilusória: supor erroneamente uma relação entre um certo tipo de ação e um efeito.

  • Última ilusão: a crença de que alguém deve saber o que está acontecendo.

  • Efeito de ignorar as razões base anteriores: a tendência a ignorar as tendências conhecidas quando reavaliando as tendências sob a luz de evidências fracas.

  • Efeito da expectativa do observador: quando um pesquisador espera um dado resultado e manipula inconscientemente um experimento ou interpreta erroneamente os dados de modo a confirmar suas expectativas.

  • Viés do otimismo: a tendência sistemática para ser super-otimista em relação ao resultado das ações planejadas.

  • Efeito Ostrich: ignorar uma situação (negativa) que é óbvia.

  • Efeito do Excesso de Confiança: confiança excessiva nas próprias respostas às questões propostas.

  • Viés do resultado positivo: a tendência de superestimar a probabilidade de coisas boas acontecerem.

  • Pareidolia: um estímulo vago e aleatório é percebido como algo significante.

  • Efeito da primazia: a tendência de dar maior importância aos eventos iniciais do que aos eventos subsequentes.

  • Efeito da novidade: a tendência de dar maior importância aos eventos mais recentes do que aos eventos passados.

  • Negligência da regressão à média: a tendência de esperar que uma performance extrema se mantenha.

  • Viés de seleção: uma distorção dos dados que surge do modo como estes são coletados.

  • Estereotipagem: a expectativa de que o membro de um certo grupo tenha certas características sem que se considere as informações sobre o indivíduo (ver Generalização apressada).

  • Efeito da subaditividade: a tendência de julgar a probabilidade do topo como menor do que a probabilidade das partes.

  • Validação subjetiva: a percepção de que algo é verdadeiro se uma crença subjetiva dependa de sua veracidade. Também cria conexões ilusórias entre coincidências.

  • Viés da sobrevivência: concentrar-se nas pessoas ou nas coisas que sobreviveram a algum processo e ignorar aquelas que pereceram, ou argumentar que uma estratégia é eficaz dado aos vencedores que foram produzidos, ignorando um grande número de indivíduos que saíram prejudicados.

  • Efeito telescópio: quando eventos recentes parecem ter ocorrido mais remotamente e eventos remotos parecem ter ocorrido mais recentemente.

  • Falácia do franco-atirador texano: selecionar ou ajustar uma hipótese após os dados serem colhidos, fazendo com que seja impossível testar a hipótese de forma fiel. Refere-se ao conceito de disparar tiros a esmo e declarar os atingidos como sendo os alvos.

  • Efeito do caminho bem conhecido: subestimar o tempo de viagem de rotas bem conhecidas e superestimar o tempo de viagem de rotas desconhecidas.

Vieses sociais

  • Viés do ator-observador: a tendência para superestimar a influência da personalidade e subestimar a influência da situação quando explicando o comportamento dos outros e, em contra-partida, subestimar a influência da personalidade e superestimar a influência do meio quando explicando o próprio comportamento.

  • Viés egocêntrico: ocorre quando as pessoas reivindicam mais responsabilidade para si sobre os resultados de uma ação conjunta do que um observador externo o faria.

  • Efeito Forer (também conhecido como Efeito Barnum): a tendência de dar avaliações de alta precisão para descrições de sua personalidade que supostamente são concebidas especificamente mas que, na verdade, são vagas e gerais o suficiente para aplicar a um vasto leque de pessoas. Por exemplo, horóscopos.

  • Efeito de falso consenso: a tendência das pessoas para superestimarem o grau em que outros concordam com elas.

  • Erro fundamental de atribuição: a tendência das pessoas para superenfatizar explicações baseadas na personalidade para comportamentos observados nos outros, enquanto subestimam o papel e o poder das influências situacionais sobre os mesmos comportamentos (ver também o viés do observador-ator, erro de atribuição do grupo, e efeito da negatividade).

  • Efeito halo: tendência das características positivas ou negativas de uma pessoa transbordarem de uma área de sua personalidade para outra na percepção dos outros (ver estereótipo da atratividade física).

  • Instinto de rebanho: tendência a adotar opiniões e seguir o comportamento da maioria para sentir-se seguro e para evitar conflitos. Ver também Ash, 1951.

4 comentários:

André Rabelo disse...

E ai Cláudio, beleza? Não conhecia o seu blog, parabéns pela qualidade dos textos, gostei muito dos que li! Achei especialmente bacana esse texto dos vieses cognitivos, é um tema realmente fascinante de se estudar.

Em especial, acho interessante ver como esses viéses se relacionam, vários ao mesmo tempo. Um campo fértil para observar muitos dele em ação é o própio contexto científico, onde o viés de confirmação, de congruência e de foco se relacionam com o viés de confirmação, resultando muitas vezes em condutas nada científicas, em discussões totalmente deselegantes e em muito tempo perdido com bobagem. felizmente, esse tipo de conduta é mais a exceção do que a regra, na minha opnião.

A disponibilização desse tipo de conhecimento acerca dos nossos vieses cognitivos poderia contribuir e muito para que os cientistas, assim como a população de um modo geral, possa tomar decisões mais acertadas e que resultem em consequências mais desejáveis para os indivíduos.

um abraço,
André

Christiano Linzmeier Vepech disse...

Com tantas possibilidades de vieses é de se admirar que alguém consiga fazer uma avaliação correta... Quero dizer, quais são as chances? :)

Claudio Drews disse...

Se com correta queres dizer precisa em relação à realidade objetiva, a chance é zero. E nem é só por causa dos vieses, mas por que não somos equipados para ter contato absoluto com a realidade objetiva. Mas o que importa é como a forma que o sujeito percebe a realidade irá interferir na qualidade de vida dele. Nisso, identificar os vieses pode evitar muita frustração. :)

monica becker disse...

Claudio, parabens pelo seu blog, uma pergunta:

qual o nome do vies que faz uma pessoa comprar so por que o produto esta em liquidaçao?
grata
MOnica