quinta-feira, 17 de abril de 2008

Resumo crítico dos três primeiros capítulos do livro Psicologia Social Contemporânea

História (Psicologia Social)


O autor propõe uma abordagem da história da Psicologia Social com a utilização de uma lógica que transcenda a tradicional visão centrada no Positivismo, tomando a Psicologia Social como um fenômeno norte-americano, embora europeu em suas raízes, para então finalizar com um apanhado dos desdobramentos que tal fenômeno teve no contexto brasileiro.

Seu método de relato é histórico relativístico: são consideradas as limitações do historiador, ou daquele que conta a história, em razão dos vieses que carrega consigo e que lhe foram transmitidos por aquele que lhe contou a história que pretende agora relatar. Existe uma noção de “história ideal” e “história de fato”, diferenciada pela percepção incutida no povo por aqueles que estão no poder e por aquilo que os registros factuais são capazes de revelar.

Como ponto de partida o autor trata daquele que é considerado o pai da Psicologia no mundo Ocidental, Wilhelm Wundt (1832-1920). Wundt havia se proposto a dar nascimento à Psicologia experimental da mente, tornando a Psicologia independente da Filosofia, uma vez que esta era um campo de estudo filosófico em Leipzig, e iria fazer isso sendo extremamente metódico em suas investigações experimental-introspectivas da experiência imediata à consciência, seu objeto de estudo. Por meio do uso de uma Lógica, de uma Ética e de Sistemas Filosóficos, tudo na melhor tradição filosófica, Wundt criaria um corpo teórico metafísico para sua nova ciência.

Tais procedimentos trouxeram a crítica dos positivistas, que seguiam o pensamento de Auguste Comte, segundo o qual uma Ciência Metafísica não seria justificável pois seria um oximoro, na sua concepção, com o perdão da redundância. Para aqueles que seguiam o pensamento de Comte, um homem muito doente e atormentado, havia três estágios para o desenvolvimento do conhecimento humano: o teológico, baseado em crenças e superstições; o metafísico, baseado na lógica filosófica; e o científico, que seria um corpo de conhecimento experimental a posteriori, calcado no rigor científico. Wundt era rigoroso, porém falhou ao escolher a mente, ou a consciência, na forma de experiência imediata consciente, como objeto de estudo. Esta seria sua única falta ao método científico.

Contudo, a mesma crítica que é feita pelos positivistas àquilo que vieram a chamar amplamente de mentalismo, também revela uma falha muito simples no próprio pensamento positivista: o método científico depende do rigor lógico da Matemática, ciência amplamente aceita desde a Antiguidade Clássica, como modelo de lógica para qualquer corpo teórico científico. Mas a própria Matemática é uma abstração, uma representação mentalista estruturada e organizada da realidade e dos objetos reais – e também dos irreais – que o ser humano consegue perceber e conceber.

A questão que fica para a História, com a leitura destas críticas, é: só porque um conhecimento não pode ser comprovado empiricamente ele deve ser desprezado por aqueles que fazem ciência? Levaria quase 200 anos para que a tecnologia alcançasse um estágio em que pudéssemos ter as primeiras visões do funcionamento da mente humana, mas teria tal tecnologia se desenvolvido e, ainda que tivesse se desenvolvido, teria ela um corpo teórico coeso para ser confirmado ou refutado que lhe desse sentido, caso os estudos mentalistas tivesse sido simplesmente abandonados?

Pessoalmente acredito que a intensão dos positivistas era, em grande parte, boa, e o método científico na sua formulação original trouxe imensos benefícios para a aquisição do conhecimento cientifico em geral; contudo o radicalismo exacerbado sempre trás conseqüências funestas, tanto para aqueles que são radicais, que por mais contribuições que tenham feito ficarão com uma mancha de preconceitos em suas histórias, quanto para aqueles que buscam conhecimento em áreas nas quais a tecnologia não oferece os recursos necessários para a confirmação experimental.

Acredito que todo estudo é válido desde que respeite tanto quanto possível o método científico, a ética científica, os valores sociais vigentes e siga uma lógica extremamente rígida e baseada nos preceitos da Filosofia e das Ciências Naturais. Desta maneira eliminamos grande parte das verdadeiras pseudociências – estas dificilmente sobrevivem ao rigor lógico, sem abrir mão daqueles campos de estudo que são honestos e sérios, mas carecem de meios para sua comprovação.

Num apanhado geral, o positivismo teve mais aspectos positivos do que negativos para a ciência dos Séculos XIX e XX, suas críticas são um constante lembrete, a todos os cientistas, da necessidade de seriedade e metodologia em suas investigações.

Mais um exemplo de como isso ocorre, é na crítica à Psicologia Social de Wundt, a Volkerpsychologie, que por carecer de métodos de amostragem válidos para testar suas hipóteses, apresentava, neste caso, uma falha em sua lógica. Todos os seus achados eram sujeitos a estarem inferindo na população uma característica obtida por meio de uma amostra não representativa, criando uma falácia de composição.

É preciso distinguir os pontos onde o “repúdio positivista de Wundt” são justificados, como é o caso das críticas aos aspectos falhos na lógica de seus métodos de investigação, e os pontos onde tal repúdio é abusivo, quando critica um objeto de estudo válido, importante, porém carente de meios tecnológicos para um estudo apropriado.

O segundo ponto levantado pelo autor, é a questão da criação de um cenário de “nascimento” para a Psicologia, colocada de forma um tanto caricata mas fiel à maneira como é ensinada nos cursos de História da Psicologia. A crítica que o autor faz não é realmente a este cenário criado mais com fins didáticos e celebrativos do que propriamente políticos ou filosóficos, mas sim à atribuição da paternidade da Psicologia Social à Auguste Comte. Neste ponto concordo inteiramente com a crítica do autor, uma vez que não podemos dissociar a Psicologia, qualquer Psicologia, dos aspectos subjetivos humanos, sejam eles enquanto indivíduos ou enquanto grupo, sob o risco de tratar humanos como menos do que humanos, como coisas. A existência dos trabalhos anteriores à Comte em Psicologia Social, e as diferenças de abordagem e interesses no ser humano nos campos da Sociologia e da Psicologia, fazem com que a atribuição de “paternidade” à Comte possa levar a enganos e a precipitações nos procedimentos de estudo no campo da própria Psicologia Social.

No terceiro ponto, o autor trata do florescimento da Psicologia Social durante a Segunda Grande Guerra, onde suas aplicações militares foram exploradas, sem deixar de dar frutos que foram utilizados, posteriormente, para o bem e para o mal da população civil. Ao lembrar do julgamento de Nuremberg, não fica difícil entender o motivo pelo qual a Psicologia Social veio a ser um fenômenos tipicamente norte-americano: nas guerras os vencedores nunca são criminosos e muito menos culpados de coisa alguma, independente do que tenham feito; já os derrotados serão sempre maldosos, perversos e ricos objetos de estudos para a criação de teorias da parte dos cientistas do lado vencedor, os quais, muitas vezes, realizam tal estudo com uma forte intensão não explicitada de tripudiar sobre os derrotados e usar seus aspectos culturais contrastantes para fortalecer o sentimento cultural dos vencedores.

Os campos de concentração para judeus, na Alemanha, são amplamente conhecidos e se transformam em museus masoquistas para um povo que continua a amargurar os erros de uma ou duas gerações anteriores, ainda que seja um princípio jurídico universalmente aceito em todos os países ditos “livres” de que as conseqüências ações criminosas dos pais não devam ser carregadas pelos filhos, e muito menos pelos netos. Já os campos de concentração para imigrantes japoneses criados pelos Estados Unidos também durante a Segunda Grande Guerra, estes são pouco conhecidos, em especial no Brasil. O que dizer, então, dos modernos campos de concentração como Guantánamo Bay? Ah, estes são conhecidos como “Centros de Detenção para prisioneiros extrajudiciais dos Estados Unidos”...

A guerra favoreceu os norte-americanos não apenas com uma história para contar, mas também com a mão-de-obra especializada para realizar tal tarefa, com um grande número de cientistas judeus que imigraram para os Estados Unidos fugindo dos terrores nazistas e, ao final da guerra, um grande número de cientistas alemães que imigraram mais ou menos voluntariamente em uma corrida pela assimilação do maior número de cientistas que houve entre os Estados Unidos e a União Soviética.

O poderio econômico norte-americano, representado no texto pelas grandes universidades, também teve papel vital no surgimento da Psicologia Social como conhecemos hoje. Não fossem os vastos recursos financeiros para pesquisa, o avanço nas áreas da Psicologia Social teria sido bem mais lento. E foi em solo americano que se deu o encontro entre o pragmatismo daquilo que era feito nos Estados Unidos até então, com a abordagem fenomenológica, vinda da Gestalt alemã.

Os motivos que levaram, durante anos, aos escritores de livros-textos (ou handbooks) de Psicologia Social, na sua maioria norte-americanos, a ignorarem o pesamento Europeu e, em especial, o pensamento Histórico-Marxista, são um tanto óbvios: tais livros foram escritos a décadas atrás, alguns datando do período da Guerra Fria, e então são apenas revisados, ampliados e republicados, sob a supervisão dos mesmos autores originais. Seria, na verdade, surpreendente tais autores falando qualquer coisa positiva que fosse sobre o Marxismo ou mesmo valorizando o pensamento do “Velho Mundo”. Pelo menos é esta a interpretação que faço daquilo que o autor brasileiro descreve como sendo, praticamente, uma conspiração positivista. Tal conspiração, por parte dos positivistas, seria muito mais evidente na Europa Anglo-Saxônica, no obscurecimento das obras metafísicas e alquímicas do grande herói da Física, Isaac Newton, pela intelectualidade acadêmica.

O autor também trata das teorias de George Mead sobre o Behaviorismo Social, sobre o comportamento social na forma da linguagem. Tais teorias vem sendo resgatadas por psicólogos cognitivos, psicólogos sociais e até por filósofos e neurologistas que se preocupam com aspectos individuais e sociais da consciência e do comportamento humano.

Ao finalizar o terceiro ponto, o autor faz uma citação de Farr, na qual chega a criticar o viés da Filosofia da Ciência na narração da história da Psicologia. Acho que há uma superestimação por parte do autor quanto a importância de tal viés e uma subestimação quanto a importância do Positivismo. Não seria possível fazer ciência sem a Filosofia da Ciência, assim como a ciência moderna é inconcebível sem que as regras, trazidas com o Positivismo, existissem.

Ao final do texto o autor narra o surgimento da ALAPSO (Associação Latino-Americana de Psicologia Social) e da ABRAPSO (Associação Brasileira de Psicologia Social), para suprir a demanda por adequação, contextualização e regionalização dos estudos de Psicologia Social, além, é claro, de interesses políticos justificados, sendo o autor, ou nem tanto, da maneira que vejo.

Quando se fala em ruptura, se passa a idéia de cessação de trocas, afinal, aquilo que se rompeu não faz mais contato com o todo. Gostando ou não, os norte-americanos são e continuam sendo um pólo produtor de conhecimento, com investimentos em educação e pesquisa muito superiores aos dos países latino-americanos e a cessação de troca com tal pólo seria não apenas uma temeridade mas, também, um retrocesso. Sou a favor de copiar e adaptar, dando o devido crédito a todos os intermediários do processo, assim se faz a construção do conhecimento e, de fato, é assim que tem sido feito. Pelo menos em parte.

Não é raro ver em sites especializados algum autor brasileiro publicando um trabalho “inédito” que não e mais do que uma tradução e adaptação de algum trabalho norte-americano anterior. Infelizmente isso faz parte da realidade de um país onde os investimentos da educação e na pesquisa ainda são muito escassos e mal direcionados. Exemplo disso é a continuada desvalorização da educação de base: enquanto ninguém questiona a proficiência de instituições como a USP, a UNICAMP, o ITA e outras tantas instituições de ensino superior público, o ensino de base não conta com escolas que sejam referencias de mesmo peso. Escolas técnicas que gozavam de excelência e eram um referencial tem seus recursos destinados sendo diminuídos, e escolas de ensino primário, quanto a essas é até difícil falar, pois o ensino primário público no Brasil é extremamente carente de atenção das autoridades.

Contudo o autor discorda desse meu ponto de vista, afirmando que a produção de conhecimento no Brasil não deixa nada a desejar em relação ao restante do Ocidente. Afirmação esta que pode ser facilmente refutada por meios quantitativos ou qualitativos de pesquisa e indexação da produção acadêmica Ocidental. Para citar apenas um ponto que corrobora com isso, basta lembrar que algumas das pesquisas de ponta realizadas por pesquisadores brasileiros são patrocinadas e vinculadas a instituições estrangeiras, sendo publicadas inicialmente na língua inglesa, isso quando chegam a ser publicadas em português.

Outra frase do texto que me incomoda muito é a seguinte: “Contextualizada, histórica, preocupada com a cultura, valores, mitos e rituais brasileiros e latino-americanos em geral, já não vêem mais a necessidade de importação desenfreada de teorias e métodos cientificistas.” É difícil compreender tanta raiva por parte do autor contra o método científico, uma vez que é muito difícil pecar por usar demais tal método, mas é extremamente fácil pecar pela falta no uso do mesmo. Com tudo isso fica fácil compreender as críticas à abundância de artigos, teses e pesquisas que vêm sendo feitos e que abordam assuntos completamente irrelevantes, que não causaram nenhum acréscimo digno de nota ao conhecimento científico existente e que, muitas vezes, não passam de releituras de obras anteriores.

Em tempos de super-acesso à informação (graças aos norte-americanos também), nenhum tipo de pesquisa científica pode ser subestimada, seja uma pesquisa realizada no Brasil, na Argentina, no Chile, em Angola, em Mali, ou em qualquer país do mundo, seja um país em estado de calamidade ou em desenvolvimento. Mas mais do que isso, subestimar e “romper” com pesquisas de países que possuem recursos que não possuímos, é prepotência na melhor das hipóteses. O próprio Pedrinho Guareschi, outro grande defensor do social e do popular, deve muito de sua formação e de seu reconhecimento a estudos realizados no exterior.

Termino minhas críticas às observações históricas e científicas feitas pelo autor do texto, lembrando da dificuldade de encontrar material relevante e de qualidade sobre a própria história da Psicologia brasileira. No semestre passado tivemos de fazer um trabalho sobre isso, e as principais publicações sobre o assunto, incluindo livros e artigos, eram restritas a um punhado de autores muito repetitivos que focalizavam em uma série de fatos de pouca ou nenhuma relevância para o acréscimo do conhecimento teórico em Psicologia. Também no relato – moderno – da história da Psicologia brasileira, existe um passado longínquo subestimado, com algumas contribuições de grande importância, e uma breve contemporaneidade superestimada carente de grandes contribuições. Em algumas fontes sobre a história da Psicologia brasileira o passado nem ao menos é mencionado, à semelhança do que foi feito nos Estados Unidos.

O autor encerra com recomendações de leitura e mais uma crítica à Psicologia Social norte-americana que me parece completamente infundada, de que nos Estados Unidos se dá ênfase à uma Psicologia Social voltada para o indivíduo em detrimento ao social. Hum, sim. É verdade, nos Estados Unidos, os psicólogos que estudam e se especializam na Psicologia Social realmente possuem esta ênfase. Contudo lá existe a Psicologia Social enquanto campo de estudo da Sociologia, também conhecida como a Psicologia Social Sociológica. Neste outro campo de estudo, sociólogos dão ênfase ao social. No Brasil, apenas psicólogos estão permitidos a realizar tais estudos e já existe pelo menos um artigo que aponta para a possível falta de diálogo interdisciplinar entre psicólogos e sociólogos por conta da impossibilidade destes últimos de se especializarem nesta área.

Concluo este resumo e minhas reflexões a cerca do que li afirmando que o texto é interessante, bem escrito, traz algumas informações muito boas, mas peca pelo excesso de etnocentrismo, excesso de críticas ao cientificismo, críticas desprovidas de argumentos à Filosofia da Ciência e algumas afirmações que não condizem com a realidade factual brasileira.


BERNARDES, Jefferson de Souza. História. In: Psicologia Social Contemporânea. Marlene Neves Strey (org.). 10ª ed. Petrópolis : Vozes, 2007. pg. 19, 35.





Epistemologia (Psicologia Social)



Começarei este resumo traçando um mapa de argumento da introdução da autora:



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Partindo da premissa que aponta para a necessidade de uma análise dos caminhos do desenvolvimento científico que nos levaram até onde estamos para que possamos ter uma previsão de para onde tal desenvolvimento está nos levando, os argumentos da autora sustentam que o curso da ciência é determinado historicamente e que, portanto, é preciso um estudo que aponte para quais são os fatores que determinam este curso.



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Neste segundo mapa de argumento podemos ver que a autora parte da premissa do poder adquirido pela ciência como uma reação, presumivelmente, às agruras da Idade das Trevas e que, ao mesmo tempo que é reveladora de verdades objetivas, também revela as limitações e falhas do ser humano.

A importância de traçar estes dois mapas de argumento iniciais é a busca de silogismos que fortaleçam o posicionamento da autora, coisa que não foi encontrada, e, como diriam alguns filósofos, atomizar sua linguagem para descobrir do que são formadas suas idéias. Mesmo carecendo de argumentos fortes para sustentar suas premissas e conclusões introdutórias nestes dois parágrafos inicias, a autora não entra em contradições em sua linha de raciocínio.


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A autora conclui a introdução partindo de uma premissa que se utiliza da definição da epistemologia e argumentando que a virada do século e do milênio, juntamente às novas perspectivas para discussão das transformações sociais e humanas e, retomando, o poder e o método científico, devem ser guiados por um juízo ético, concluindo que este juízo se faz necessário para que a ciência traga bons frutos.

Podendo analisar argumento por argumento, ainda que sejam vagos como é característico das introduções de ensaios das áreas humanas, penso que o único que não se sustenta é aquele que usa a passagem cronológica do tempo, apontada na virada do século/milênio, para justificar o juízo crítico para com a ciência. Tal juízo, obviamente, deve ser constante, independente da contagem da passagem do tempo praticada no mundo ocidental, caracterizando, assim, o único argumento fraco na introdução da autora. A epistemologia está tão arraigada ao método científico, que se dá a conhecer neste por seus requisitos de falseabilidade e contra-prova.

Fora isto, a argumentação introdutória levantou pontos interessantes, como a determinística dos rumos científicos, influenciados pelo contexto histórico em que se dão, os limites morais da ciência pela ciência e a necessidade do juízo ético justamente para contrabalançar tais limites.

Seguindo com o texto, a autora aborda a crise pela qual passa a Psicologia Social, como um ponto de mudança, que pode ser positivo se forem considerados os aspectos corretos, tais como o aumento da complexidade e o parco corpo teórico que explique as questões constituintes desta complexidade. Um interessante comentário é feito quanto a adaptação ou acomodação de conceitos e interpretações, prática que se mostra inadequada, sendo necessário, muito bem colocado pela autora, repensar os fundamentos da própria reflexão psicológica – ou seja, repensar o modo de repensar tais conceitos e interpretações – para um mundo singular no que tange a globalização, virtualidade, diversidade, etc.

O paradoxo da contemporaneidade que estamos vivenciando se dá, parafraseando a autora, pela duração do passado e pela obcecada tendência pela instantaneidade. Nas ciências, em especial nas humanas e, mais especialmente ainda nas ciências humanas com grande penetração política, as mudanças ocorrem num ritmo muito mais lendo do que os paradigmas científicos e sociais são derrubados pelo trabalho de pesquisa e de inovação, e pelo impacto dos resultados destes trabalhos nas sociedades. O que temos, então, são regras ultrapassadas, de um passado relativamente distante, para uma realidade nova, que se acelera em distanciar-se das características do passado no qual foram fundamentadas tais regras que serão utilizadas para ajuizar o avanço científico e social; o que temos é um futuro que se torna presente cada vez mais rápido e cujos únicos observadores vivem no passado, com possuem uma visão que se torna cada vez mais turva dada a distância crescente imposta por seus passos lentos. Isso trás a perda da confiança na epistemologia, pois ela se torna incapaz de compreender o presente e, desta maneira, incapaz de estabelecer um juízo crítico adequado.

A autora levanta, então, a questão de como podemos intervir numa crise que já vez se arrastando a tempos e que se faz cada vez mais evidente. Tal questão começa a ser trabalhada ao apontar alguns fenômenos transformadores, como a derrubada da sua formulação verificacionista – conhecimento a posteriori, experimentação e observação –, também naturais, nas bases neopositivistas.

Pessoalmente não acredito nesta derrubada, coisa que se confirma na contradição em que a autora entrará mais adiante no texto ao apontar a permeabilidade da Psicologia Social ao Positivismo Lógico. O que houve foi uma tênue adaptação no hemisfério do norte no mundo ocidental, que se fez notar em todo o “mundo civilizado”, no que diz respeito ao pensamento pragmático e seu rompimento com o positivismo radical motivado pelas limitações óbvias neste, algumas que chegam a induzir ao erro.

Além das mudanças metodológicas, o aspecto construtivista do conhecimento, assim como suas considerações reflexivas e sócio-econômicas, se tornam importantes para que se possa pensar em modificações na epistemologia, coisa que já encontra-se em um clima propício segundo a autora. De fato, na academia, tais mudanças são notadas, mas até que ponto o mesmo é verdadeiro na realidade social e no quanto aquilo que é trabalhado academicamente se faz notar na sociedade?

Ao retomar as questões metodológicas, a autora transparece sua premissa de que a natureza não é um mecanismo determinístico o que, em parte, é verdadeiro, porém jamais teríamos ciência sem esta abordagem. O que ainda se faz necessário quanto ao método científico é a relativização das leis que são consideradas universais, em especial nas ciências sociais, e uma maior agilidade na adaptação dos conceitos derivados da epistemologia ao direcionar o avanço científico e aceitação teórica.

As pretensões funcionais e utilitárias, apontadas pela autora, nada mais são do que a prevalência do pragmatismo, reflexo cultural de uma potência econômica dominante. É preciso saber lidar e aceitar a incerteza, assimilando-a no corpo teórico quando necessário, ao invés de recorrer a sua negação. Isso vem sendo feito a décadas nas ciências naturais – desde a mudança de paradigma culminada por Einstein –, mas até o presente momento tem encontrado resistência nas ciências sociais, como apontado pela autora ao final de sua abordagem quanto a crise epistemológica.

A autora prossegue e se repete, ao falar de alguns efeitos trazidos pela crise, que podem se fazer sentir (academicamente talvez?) na Psicologia Social, como a margem para questionamento de acepções antigas e descentralizações na produção de conhecimento, maior espaço para debates interdisciplinares e a diversidade advinda destes, assim como a análise de seus resultados. O texto segue com muitos rodeios que se beneficiam do uso exacerbado de palavras-conceito sem adentrar no conceito em si, uso este que se reflete neste resumo e parece presente apenas para dar corpo ao ponto defendido pela autora. Os parágrafos seguintes podem ser “traduzidos” em pressupostos tais como:

  1. É preciso considerar a relativização do conhecimento científico-social, ver item 2;

  2. A ciência é contingente, e não auto-evidente – com relação ao que pode ser alcançado por meio da experimentação, já foi tratado no texto;

  3. A ciência é uma construção social e interdisciplinar – também já foi tratado no texto;

  4. O papel da percepção da realidade pela sociedade e a discrepância da descrição da realidade pelas ciências sociais, no caso a Psicologia;

  5. Ad infinitum (com termos variados para os mesmos conceitos)...

Em suma, a autora aponta para a imposição da realidade social e psicológica descrita pela Psicologia sobre aquele que a vivencia, ainda que divergente de tal vivência, como se dá por meio da definição de normalidade e anormalidade neste sentido, fazendo-se valer de seu status científico para tanto (ainda que este status não seja paradigmático, uma vez que suas escolas são concorrentes). Como solução para este impasse a autora aponta uma retomada histórico-filosófica da concepção de realidade social, identificando e valendo-se dos determinantes sociais para uma construção de um novo modelo mais aproximado para o uso na Psicologia Social.

Concluo que a autora apontou quais são as correntes que norteiam o rumo que a epistemologia deve tomar no âmbito da Psicologia, levantando questões importantes e observações relevantes; trazendo sugestões de resolução válidas, porém um tanto repetitivas e, por vezes, evidentes para tais questões. Ela poderia ter valido-se de uma linguagem mais coloquial e poderia ter explorado um pouco mais os conceitos abordados ao invés de repeti-los em uma argumentação circular (circulus in probando) de maneira exaustiva ao defender seus pontos.


FONSECA, Tânia M. G. Epistemologia. In: Psicologia Social Contemporânea. Marlene Neves Strey (org.). 10ª ed. Petrópolis : Vozes, 2007. pg. 36, 48.





Ética (Psicologia Social)



O autor inicia seu texto apontando para a predominância do pensamento liberal individualista na sociedade moderna, propondo uma reflexão crítica voltada para o âmbito da Psicologia, que permita uma visão de como este pensamento, esta atitude social, afeta a dinâmica das relações globais em sociedade.

Para que tal visão seja possível, propõe o autor, se faz necessária uma compreensão da ética seu papel na dinâmica social. Desta maneira são expostos dois paradigmas, ou duas visões, correntes, sobre a ética, uma tratada como lei natural e outra como lei positiva.

A abordagem da lei natural baseia-se na existência de uma regra geral quanto ao que é bom, baseada na “natureza”; sendo que tanto em sua vertente pré-moderna, quanto na sua vertente moderna, tal lei assume contornos divinos, ainda que sua vertente moderna defenda uma secularidade.

Já a abordagem da lei positiva baseia-se no estudo do corpo legal e sua evolução histórica, lembrando dos três estágios – teológico, metafísico ou abstrato e positivo – propostos por Auguste Comte, visando evitar os abusos cometidos por governantes que utilizam-se do apelo àquilo que não pode ser questionado para submeter seres humanos ao seu domínio arbitrário.

O autor faz, então, uma crítica aos dois paradigmas, afirmando que a lei natural e, também, a lei positiva apresentam claras limitações e riscos à liberdade humana. Assim sendo, ele propõe como solução que, abstendo-se de recorrer ao eterno e ao transcendente – explicações de origem divina – e balizando-se por aquilo que foi estabelecido pelas instituições humanas, sejamos capazes de elaborar uma instância crítica e propositiva quanto aos ideais das relações humanas objetivando a liberdade para realizar o potencial individual em sua totalidade.

O autor aponta para a necessidade de superar a visão da dimensão crítica da ética como algo pronto e finalizado, uma vez que – à semelhança da sociedade – a mesma está sempre em transformação, sem, contudo, impedir que a mesma seja propositiva, estabelecendo desafios ou limites para a conduta individual visando uma adequação benéfica e pacífica à vida em sociedade, permitindo que todos desfrutem das possibilidades que esta trás para a realização humana.

O ponto acima pode ser facilmente relacionado aos problemas da sociedade altamente globalizada e digital na discrepância que se nota quanto aquilo que é percebido pelos indivíduos como sendo inócuo e permitido e aquilo que é estabelecido legalmente em razão dos interesses do capital e de tabus que muitas vezes, embora vívidos no imaginário dos grupos, não correspondem às práticas dos mesmos.

Tendo em mente as relações de poder, o autor argumenta a ineficácia de uma postura de pseudoneutralidade, uma vez que a mesma não se sustenta em razão da intencionalidade determinada historicamente na práxis política. Esta postura, quando usada como justificativa, apenas serve para dissimular as reais intenções dos detentores do poder, substituindo as justificativas “naturais” em um contexto secular e positivo e impedindo a análise crítica da ideologia vigente, tanto por parte daqueles que são submetidos quanto àqueles que exercem a dominação institucionalizada.

Seguindo nesta linha de raciocínio, o autor parte para a dimensão da relação, ou o papel da ética nas relações humanas; e aqui é importante ressaltar que estas relações se dão não apenas entre indivíduos, mas cada vez mais entre indivíduo e grupos, ou entre grupos e instituições de poder.

Partindo da afirmação de que não é possível para alguém ser justo sem a interação com outrem, uma vez que justiça implica em uma relação ética em sociedade, o autor argumenta que a justiça ocorre quando o direito das pessoas são respeitados. Para ficar mais claro, explico que a justiça ocorre quando o direito de todas as partes envolvidas em uma relação é respeitado, uma vez que a sociedade – notavelmente a sociedade brasileira – parece esquecer-se disto, dada a contaminação pelo sensacionalismo da mídia na moral popular e no fazer jurídico. E assim procede com a ética, segundo o autor, não apenas no sentido de que a ética se realiza no contexto social, mas de que a ética individual deve levar em consideração o indivíduo em sociedade.

Aqui abro um parenteses para discordar de Guareschi, uma vez que suas proposições trazem consigo a afirmação de que o ser humano só pode ser ético inserido em sociedade e em relação à sociedade. Isto contraria a minha visão pessoal – que é compartilhada por muitos cientistas naturais e que é, lamentavelmente, desprezada pelas ciências sociais – de que é possível e é necessário ser ético em relação ao meio ambiente, à natureza e ao direito das demais formas de vida, e da própria natureza enquanto estrutura ou obra, de existir em harmonia ao ser humano, seus agrupamentos sociais e suas atividades.

O pensar ético que descarta a possibilidade do ser humano ser ético em relação a algo que não seja outro ser humano causa grandes distorções de valores que ecoam no pensamento de preservação ambiental que se faz nos dias de hoje, tão cheio de boas intenções e com tão poucos resultados reais. Por isso defendo que sim, devemos ser éticos em relação à natureza, mas não só porque a nossa vida e a vida dos nossos descendentes depende disso, mas por respeito à natureza em si.

Seguindo esta mesma visão, descordo que quem irá decidir se somos éticos ou não são os outros, mas sim o resultado das nossas ações em relação aos outros mas não restringindo-se apenas aos outros, e sim estendendo-se aos demais habitantes do planeta em que vivemos e ao próprio planeta em que vivemos, e além (já se discute, atualmente, os problemas do lixo espacial que o ser humano colocou em órbita).

O autor conclui sintetizando sua compreensão de que devemos ter consideração pelos outros indivíduos em sua singularidade, enxergando-os além de uma relação de competição ou usura; e eu concluo dizendo que é possível estender esta mesma visão para o mundo que nos sustenta a vida e para todas as formas de vida, que como nós, possuem este dom que se assenta no topo de qualquer escala de valores, o dom de estar vivo.


GUARESCHI, Pedrinho. Ética. In: Psicologia Social Contemporânea. Marlene Neves Strey (org.). 10ª ed. Petrópolis : Vozes, 2007. pg. 49, 57.



Ver também: Ética e isolamento

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