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sexta-feira, 2 de maio de 2008

Três contos de perdição

Ontem à noite, antes de dormir, estava pensando no vinho, no frio e na sensação de solidão inerente aos dias cinzentos e chuvosos de inverno, quando me lembrei de três contos que li nos últimos seis ou sete anos e que estão, de certa forma, relacionados por abordar a temática da desesperança em uma situação onde não há saída, embora ainda exista a vida.
O primeiro conto que li foi O Barril de Amontillado. Nele, Edgar Allan Poe trás um caso de vingança, por motivos não esclarecidos, da perspectiva do assassino, Montresor, que relata como persuadiu um desafeto, Fortunato, a seguí-lo até uma catacumba usada como adega. Chegando lá, Montresor empareda Fortunado, situação que é bem explorada psicologicamente por Poe.
O segundo conto que li foi A Nova Catacumba, de Sir Arthur Conan Doyle. Este se trata de outra história de vingança, inicialmente bastante semelhante ao conto de Poe, onde o assassino, Kennedy, é um estudante de História em busca de renome e convence um rival, Julius Burger, que o havia traído, a explorar uma "nova catacumba" com a desculpa que esta lhes traria fama e glória. Ao adentrarem nas profundezas da catacumba, o assassino deixa seu desafeto no escuro, vagando pelos corredores e tateando as paredes, incapaz de encontrar o caminho de volta ao exterior.
O terceiro conto que li foi Nas Paredes de Eryx, de H. P. Lovecraft, um conto futurista onde um explorador espacial, Stanfield, encontra-se preso em um labirinto de paredes transparentes e acaba padecendo próximo a saída que é incapaz de enxergar.
Foi bastante interessante ler estes três contos, tão próximos e ao mesmo tempo tão diversos, nesta ordem, uma vez que a temática de estar vivo e em uma situação mortal e sem saída é abordada de maneira cada vez mais sofisticada em cada um deles.
No primeiro conto, o sujeito é deixado para morrer acorrentado, atrás de uma parede, totalmente impossibilitado de salvar-se; no segundo, o sujeito encontra-se perdido na total escuridão, existe uma saída mas ele não é capaz de encontrá-la; e no terceiro, o sujeito é capaz de enxergar com perfeição, porém está preso por paredes que não pode ver.
É interessante como as situações descritas nestes três contos aproximam-se de situações de sofrimento psicológico; sobre como as pessoas lidam com situações em que encontram-se psicologicamente emparedadas, ou perdidas no escuro, ou impedidas de encontrar a saída por não exergarem os reais problemas que a cercam.

...

O Barril de Amontillado
Edgar Allan Poe

Suportei o melhor que pude as mil e uma injúrias de Fortunato; mas quando começou a entrar pelo insulto, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza da minha índole, não ireis supor que me limitei a ameaçar. Acabaria por vingar-me; isto era ponto definitivamente assente, e a própria determinação com que o decidi afastava toda e qualquer idéia de risco. Devia não só castigar, mas castigar ficando impune. Um agravo não é vingado quando a vingança surpreende o vingador. E fica igualmente por vingar quando o vingador não consegue fazer-se reconhecer como tal àquele que o ofendeu.
Deve compreender-se que nem por palavras, nem por atos, dei motivos a Fortunato para duvidar da minha afeição. Continuei, como era meu desejo, a rir-me para ele, que não compreendia que o meu sorriso resultava agora da idéia da sua imolação.
Tinha um ponto fraco, este Fortunato sendo embora, sob outros aspectos, homem digno de respeito e mesmo de receio. Orgulhava-se da sua qualidade de entendido em vinhos. Poucos italianos possuem o verdadeiro espírito de virtuosidade. Na sua maior parte, o seu entusiasmo é adaptado às circunstâncias de tempo e de oportunidade para ludibriar milionários britânicos e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunato, à semelhança dos seus concidadãos, era um charlatão, mas na questão de vinhos era entendido. Neste aspecto eu não diferia substancialmente dele: eu próprio era entendido em vinhos de reserva italianos, e comprava-os em grandes quantidades sempre que podia.
Foi ao escurecer, numa tarde de grande loucura da quadra carnavalesca, que encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessivo calor, pois bebera de mais. Trajava de bufão; um fato justo e parcialmente às tiras, levando na cabeça um barrete cônico com guizos. Fiquei tão contente de o ver que julguei que nunca mais parava de lhe apertar a mão.
- Meu caro Fortunato - disse eu -, ainda bem que o encontro. Você tem hoje uma aparência notável! Saiba que recebi um barril de um vinho que passa por ser amontillado; mas tenho cá as minhas dúvidas.
- O quê? - disse ele - Amontillado? Um barril? Impossível! E em pleno Carnaval!
- Tenho as minhas dúvidas - respondi -, e estupidamente paguei o verdadeiro preço do amontillado sem ter consultado o meu amigo. Não o consegui encontrar e tinha receio de perder o negócio!
- Amontillado!
- Tenho as minhas dúvidas - insisti.
- Amontillado!
- E tenho de as resolver.
- Amontillado!
- Como vejo que está ocupado, vou procurar Luchesi. Se existe alguém com espírito crítico, é ele. Ele me dirá.
- Luchesi não distingue amontillado de xerez.
- No entanto, há muito idiota que acha que o seu gosto desafia o do meu amigo.
- Venha, vamos lá.
- Aonde?
- À sua cave.
- Não, meu amigo, não exigiria tanto da sua bondade. Vejo que tem compromissos. Luchesi...
- Não tenho compromisso nenhum, vamos.
- Não, meu amigo. Não será o compromisso, mas aquele frio terrível que bem sei que o aflige. A cave é insuportavelmente úmida. Está coberta de salitre.
- Mesmo assim, vamos lá. O frio não é nada. Amontillado! Você foi ludibriado. E quanto a Luchesi, não distingue xerez de amontillado.
Assim falando, Fortunato pegou-me pelo braço. Depois de pôr uma máscara de seda preta e de envergar um roquelaire cingido ao corpo, tive que suportar-lhe a pressa que levava a caminho do meu palacete.
Não havia criados em casa; tinham desaparecido todos para festejar aquela quadra. Eu tinha-lhes dito que não voltaria senão de manhã e dera-lhes ordens explícitas para se não afastarem de casa. Ordens essas que foram o suficiente, disso estava eu certo, para assegurar o rápido desaparecimento de todos eles, mal voltara costas.
Retirei das arandelas dois archotes e, dando um a Fortunato, conduzi-o através de diversos compartimentos até à entrada das caves. Desci uma grande escada de caracol e pedi-lhe que se acautelasse enquanto me seguia. Quando chegamos ao fim da descida encontrávamo-nos ambos sobre o chão úmido das catacumbas dos Montresors.
O andar do meu amigo era irregular e os guizos da capa tilintavam quando se movia.
- O barril? - perguntou.
- Está lá mais para diante - disse eu -, mas veja a teia branca de aranha que cintila nas paredes da cave.
Voltou-se para mim e pousou nos meus olhos duas órbitas enevoadas pelos fumos da intoxicação.
- Salitre? - perguntou por fim.
- Sim - respondi. - Há quanto tempo tem essa tosse?
- Cof!, cof!, cof! cof!, cof!, cof!
O meu amigo ficou sem poder responder-me durante bastante tempo.
- Não é nada - acabou por dizer.
- Venha - disse-lhe com decisão. - Retrocedamos, a sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz como eu já o fui em tempos. Você é um homem cuja falta se sentiria. Quanto a mim, não importa. Retrocedamos. Ainda é capaz de adoecer e não quero assumir tal responsabilidade. Além disso, há Luchesi...
- Basta! - replicou. - A tosse não é nada, não me vai matar. Não vou morrer por causa da tosse.
- Pois decerto que não, pois decerto - respondi -; não é minha intenção alarmá-lo desnecessariamente, mas deve usar de cautela. Um gole deste médoc defender-nos-á da umidade.
Quebrei o gargalo de uma garrafa que retirei de uma longa fila de muitas outras iguais que jaziam no bolor.
- Beba - disse, apresentando-lhe o vinho.
Levou-o aos lábios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e abanou a cabeça significativamente, enquanto os guizos tilintavam.
- Bebo - disse - aos mortos que repousam à nossa volta.
- E eu para que você viva muito.
Novamente me tomou pelo braço e prosseguimos.
- Estas catacumbas são enormes - disse ele.
- Os Montresors - respondi - constituíam uma família grande e numerosa.
- Não me lembro do vosso brasão.
- Um enorme pé humano, de ouro, em campo azul; o pé esmaga uma serpente rastejante cujas presas estão ferradas no calcanhar.
- E a divisa?
- Nemo me impune lacessit.
- Ótimo! - disse ele.
O vinho brilhava no seu olhar e os guizos tilintavam. A minha própria disposição melhorara com o médoc. Tinha passado por entre paredes de ossos empilhados, à mistura com barris e barris, nos mais recônditos escaninhos das catacumbas. Parei novamente e desta vez fiz questão de segurar Fortunato por um braço, acima do cotovelo.
- Salitre! - disse eu -, veja como aumenta. Parece musgo nas abóbadas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de umidade escorrem por entre os ossos. Venha, vamo-nos embora que já é muito tarde. A sua tosse...
- Não faz mal - retorquiu -, continuaremos. Antes, porém, mais um trago de rnédoc.
Abri e passei-lhe uma garrafa de De Grâve. Despejou-a de um trago. Os olhos brilharam-lhe com um fulgor feroz. Riu e atirou a garrafa ao ar, com uns gestos que não entendi.
Olhei-o surpreso. Repetiu o movimento grotesco.
- Não compreende?
- Não, não compreendo - respondi.
- Então não pertence à irmandade.
- Como?
- Quero eu dizer que não pertence à Maçonaria.
- Sim, sim - disse -, sim, pertenço.
- Você? Impossível! Um maçon?
- Sim, um maçon - respondi.
- Um sinal - disse ele.
- Aqui o tem - retorqui, mostrando uma colher de pedreiro que retirei das dobras do meu roquelaire.
- Está a brincar - exclamou, recuando alguns passos. - Mas vamos lá ao amontillado.
- Assim seja - disse eu, tornando a colocar a ferramenta sob a capa e tornando a oferecer-lhe o meu braço. Apoiou-se nele pesadamente. Continuamos o nosso caminho em procura do amontillado. Passamos por uma série de arcos baixos, descemos, atravessamos outros, descemos novamente e chegamos a uma profunda cripta na qual a rarefação do ar fazia com que os archotes reluzissem em vez de arderem em chama.
No ponto mais afastado da cripta havia uma outra cripta menos espaçosa. As paredes tinham sido forradas com despojos humanos, empilhados até à abóbada, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três das paredes desta cripta interior estavam ainda ornamentadas desta maneira. Na quarta parede, os ossos tinham sido derrubados e jaziam promiscuamente no solo, formando num ponto um montículo de certo vulto. Nessa parede assim exposta pela remoção dos ossos, percebia-se um recesso ainda mais recôndito, com um metro e vinte centímetros de fundo, noventa centímetros de largo e um metro e oitenta a dois metros e dez de alto. Parecia não ter sido construído com qualquer fim específico, constituindo apenas o intervalo entre dois dos colossais suportes do teto das catacumbas, e era limitado, ao fundo, por uma das paredes circundantes em granito sólido.
Foi em vão que Fortunato, levantando o seu tíbio archote, tentou sondar a profundidade do recesso. A enfraquecida luz não nos permitia ver-lhe o fim.
- Continue - disse eu -, o amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi...
- É um ignorante - interrompeu o meu amigo, enquanto avançava, vacilante, seguido por mim. Num instante atingira o extremo do nicho, e vendo que não podia continuar por causa da rocha, ficou estupidamente desorientado. Um momento mais e tinha-o agrilhoado ao granito. Havia na parede dois grampos de ferro, distantes um do outro, na horizontal, cerca de sessenta centímetros. De um deles pendia uma pequena corrente e do outro um cadeado. Lançar-lhe a corrente em volta da cintura e fechá-la foi obra de poucos segundos. Ficara demasiado surpreendido para oferecer resistência. Retirei a chave e recuei.
- Passe a mão pela parede - disse eu. - Não deixará de sentir o salitre. Na realidade está muito úmido. Mais uma vez lhe suplico que nos retiremos. Não lhe convém? Nesse caso, tenho realmente de o deixar. Mas, primeiro, quero prestar-lhe todas as pequenas atenções ao meu alcance.
- O amontillado! - berrou o meu amigo, que se não recompusera ainda do espanto em que se encontrava.
- É verdade - respondi. - O amontillado.
Ao dizer isto, pus-me a procurar com todo o afã por entre as pilhas de ossos de que já falei. Atirando com eles para o lado, pus a descoberto uma quantidade de pedras e argamassa. Com estes materiais e com a ajuda da minha colher de pedreiro, comecei a entaipar com todo o vigor a entrada do nicho.
Mal tinha colocado a primeira fiada de pedras quando descobri que a embriaguez de Fortunato tinha em grande parte desaparecido. A este respeito, o primeiro indício foi-me dado por um longo gemido vindo da profundidade do recesso. Não era o gemido de um ébrio. Sucedeu-se um prolongado e obstinado silêncio. Pus a segunda fiada de pedras, a terceira e a quarta. Em seguida ouvi as vibrações furiosas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para me ser possível ouvi-lo com maior satisfação, suspendi a minha tarefa e sentei-me no montículo de ossos. Quando finalmente cessou o tilintar, retomei a colher de pedreiro e completei sem interrupção a quinta, a sexta e a sétima fiadas. A parede estava agora quase ao nível do meu peito. Parei novamente e, elevando o archote acima do parapeito, fiz incidir alguns raios de luz sobre a figura que lá estava dentro.
Uma sucessão de gritos altos e agudos, irrompendo de súbito da garganta da figura agrilhoada, quase me atirou violentamente para trás. Por um breve momento hesitei, tremi. Desembainhei o florete e com ele comecei a tatear o recesso, mas bastou pensar um momento para voltar a sentir-me seguro. Coloquei a mão sobre a sólida construção das catacumbas e fiquei satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede. Respondi aos gritos daquele que clamava. Repeti-os como um eco, juntei-me a eles, ultrapassei-os em volume e força. Depois disto, o outro sossegou.
Era agora meia-noite e a minha tarefa aproximava-se do fim. Completara já a oitava, a nona e a décima fiadas. Tinha acabado uma porção da décima primeira e última; faltava apenas colocar e fixar uma pequena pedra. Lutava com o seu peso; coloquei-a parcialmente na posição que lhe cabia. Soltou-se então do nicho um riso abafado que me arrepiou os cabelos. Seguiu-se uma voz triste que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. Dizia aquela voz:
- Ah!, ah!, ah!, he!, he!, boa piada, de fato, excelente gracejo. Havemos de rir bastante acerca disto, lá no palácio, he!, he!, he!, acerca do nosso vinho, he!, he!, he!
- O amontillado? - disse eu.
- He!, he!, he!, he!, he!, he!, sim, o amontillado. Mas não estará a fazer-se tarde? Não estarão à nossa espera no palácio lady Fortunato e os convidados? Vamo-nos embora.
- Sim - disse eu -, vamo-nos.
- Pelo amor de Deus, Montresor!
- Sim - disse eu -, pelo amor de Deus!
Em vão esperei uma resposta a estas palavras. Comecei a ficar impaciente. Chamei em voz alta:
- Fortunato!
Não obtive resposta. Chamei novamente:
- Fortunato!
Continuei sem resposta. Meti um archote pela pequena abertura e deixei-o cair lá dentro. Em resposta ouvi apenas um tilintar de guizos. Senti o coração oprimido, dada a forte umidade das catacumbas. Apressei-me a pôr fim à minha tarefa. Forcei a última pedra no buraco, e fixei-a com a argamassa. De encontro a esta nova parede tornei a colocar a velha muralha de ossos. Durante meio século nenhum mortal os perturbou. In pace requiescat!
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Texto do conto obtido em O Barril de Amontillado, PasseiWeb.

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Wikisource:
The Cask of Amontillado (1846) by Edgar Allan Poe
The New Catacomb (1898) by Sir Arthur Conan Doyle
In the Walls of Eryx (1939) by H. P. Lovecraft

Wikipedia:

The Cask of Amontillado
In the Walls of Eryx

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Seria dos amantes

Ainda é cedo...
Quando olho a hora no relógio, em um dia que nem ao menos começou, e vejo que são sete horas da noite, não consigo evitar de pensar que ainda é cedo. Mas é um pensamento bobo, pois quando estiver marcando dez horas, ainda vai ser cedo, e quando a meia-noite chegar, vai ter sido apenas mais um dia que terminou sem nem ao menos começar.
Hoje não fez sol, hoje não estive com meus amigos, e hoje foi mais um dia que passei longe de você. Hoje não estudei, hoje não pedalei, hoje nem ao menos me sujei. Não vi a chuva, pois não choveu; não vi as estrelas, pois estavam encobertas por um manto amorfo de nuvens; não vi o mar, pois me pareceu tão longe; e mesmo que tenha passado por alguma árvore na rua, não vi verde algum.
Hoje foi um dia a menos.

Bem que eu poderia estar chegando em algum lugar, depois de uma longa e escura noite onde o tempo passou sem ser contado nem por mim nem pelas estrelas, molhado da chuva e do vento. Cansado de caminhar na lama de uma estrada delimitada apenas pela onipresente floresta de velhos troncos retorcidos cobertos de musgo, com seus galhos espinhosos e desfolhados, sentindo o cheiro da madeira que se decompõe com a longa exposição à umidade; teria sido um grande acalento divisar luzes como aquelas que prometem a presença humana, com tudo o que estas prometem àqueles que viajam solitários pela vida: os vapores do fumo e do vinho, o calor do fogo, e as vozes que já poderiam ser escutadas com a aproximação.

E ao chegar neste lugar, ao passar pela porta, entraria comigo uma rajada gélida de vento do sul, que com um assobio sussurraria o nome de lugar algum para quem quisesse saber de onde vim.
Meus olhos, que a tanto tempo me guiaram no escuro, demorariam para ser adaptar, não sem um certo incômodo, assim como meu rosto, que agora dói levemente a medida que o sangue volta a circular. E assim, com cuidado, eu passaria por inúmeros rostos escondidos atrás de copos ou envoltos em fumaça, com suas feições exageradas pelas luzes e pelas sombras do lugar. Com um pouco de sorte iria achar uma cadeira atrás de uma mesa, próxima a uma janela em um canto afastado, e lá me sentaria ainda sozinho em meio a tanta gente, observando o vento conduzir a chuva que dança completamente entregue aos seus caprichos, hora deitando-se sobre os galhos, hora sobre as pedras, incessantemente, incansavelmente, eternamente sua.

Lá, sentado em silêncio, eu veria as formas delicadas de uma bela mulher se aproximando, que ao chegar do meu lado perguntaria, ainda em pé, se eu gostaria de algo para me aquecer. Minha resposta, naturalmente, não revelaria aquilo que poderia derreter o gelo do meu coração, e limitei-me a pedir uma garrafa de vinho. Observaria aquelas pernas elegantes afastando-se com movimentos graciosos, para logo depois voltarem, e afastarem-se novamente. Entre um copo e outro de vinho, eu ficaria a acompanhar aquela figura que parecia destacar-se no ambiente, repleta de movimento, graça e vida, dividindo minha atenção apenas momentaneamente com a noite, numa espécie de antecipação ansiosa pelos sinais do alvorecer.
A noite se arrastaria lentamente, enquanto as pessoas deixariam as mesas, recolhendo-se para os aposentos superiores ou para algum outro lugar, e a garrafa daria seus últimos suspiros enquanto meus olhos permaneceriam ainda fixos naquela mulher que cada vez mais permanece a distância, diminuindo suas travessias generosas em atributos que a muito não me viam a mente, tais como beleza, alegria, harmonia...

Finalmente viriam os primeiros raios de sol, despontando palidamente no horizonte, e finalmente estaríamos sozinhos. Eu, sentado atrás daquela mesa, atrás de uma garrafa desprovida de seu conteúdo rubro que agora projetaria um reflexo verde em minha direção, e você, atrás daquele balcão, me olhando de maneira inquisitiva, com um quê de sorriso nos lábios.
Visivelmente cansada, você viria caminhando, quase que flutuando, e apoiaria as mãos na rústica madeira da mesa. Perguntaria o meu nome, o qual você já sabe e reconheceria no momento em que eu erguesse meu rosto na tua direção. A pálida luz que invade o recinto dissiparia as ilusões e derrubaria as máscaras da iluminação artificial, de maneira que nos reconheceríamos: dois estranhos, tão bem conhecidos. Um mistério sob o qual temos muitas das respostas mas que desconhecemos todas as perguntas.
Com uma certa aflição no rosto, você sentaria na cadeira ao meu lado, apertando firmemente a minha mão contra o seu peito. Pela primeira vez eu sentiria a tua respiração, com a qual só pude sonhar durante tanto tempo.

Nossos rostos se aproximariam e nos beijariamos docemente, palavras não são necessárias uma vez que já utilizamos todas elas. Sentiria teus lábios, doces, úmidos e quentes, indo de encontro aos meus, que corresponderiam ao teu beijo com vigor, na mesma medida da força de nossa respiração, que agora aquece nossos rostos perdidos em meio a uma união que demorou tanto tempo para acontecer e que agora merece durar o tempo que melhor nos convir.
Te beijo e te amo, e te amo no meu beijo, você me segura com loucura, como se estivesse lutando contra alguma força invisível, como se tivesse medo que algo me afastasse de ti. Tuas mãos envolvem minha cabeça, teus dedos penetram nos meus cabelos, até que nossos lábios se desencontram, explorando nossos rostos: minha boca procurando cobrir cada centímetro precioso da tua face, tua boca mergulhando no meu pescoço, minha boca querendo beijar tua testa, e tua boca buscando minha orelha que arde como nunca...
Nossos olhos se cruzam por um momento nesta louca paixão, num olhar que cobre o espectro do mais sincero carinho ao mais profundo desejo, apenas um segundo até que nossos lábios voltem a se encontrar. Escuto a tua súplica de jamais partir, revelando, além de qualquer controle, minha vontade de ficar - tudo sem que uma palavra precise ser dita.

Abro os olhos mais uma vez, querendo olhar teu rosto e tua expressão, para poder ver o teu prazer; mas em vez de te ver fico cego pela luz do sol. Sinto o vento, trazendo o frio que invade minhas roupas, me fazendo tremer como um animal acuado. Grito injúrias a plenos pulmões, é fúria por acordar e perceber que mais uma noite foi passada na floresta, mais uma noite com as pernas enterradas no barro gelado deste caminho que parece não ter fim. Não houve luz alguma no fim do caminho, nem o consolo do abraço aconchegante da pessoa com quem eu sonhava. Seria, apenas seria...
E quando penso em me deixar cair por terra e aguardar serenamente que o ciclo acabe, lembro de que em algum momento em meu sonho deixei o seria de lado. Buscando a compreensão disso, me levantei e segui caminhando, mais cansado do que ontem, menos vivo do que hoje, mas acreditando que algo me espera na próxima curva... E pode ser você.

Escrito por mim.

Beijo Interrompido

Apenas uma vez atravessei aquela porta. Havia muitos anos que passava por lá, mas nunca me atrevera a entrar. Finalmente, após tanto tempo, resolvi que daria vazão a minha curiosidade e ignoraria meus escrúpulos. Não tinha a menor idéia sobre o que iria encontrar uma vez que atravessa-se o velho marco de madeira podre e tinta descascada que emoldurava aquela porta.
Segurei a maçaneta com firmeza, forcei um pouco e ela cedeu. Parecia que fazia décadas desde que ela fora utilizada pela última vez, e provavelmente fazia mesmo. Sinto o metal desgastado na palma de minha mão, igualmente desgastada. Estranha semelhança, pois ambos foram desgastados em atividades cheias de ânimo e alegria: as pessoas passavam por esta porta recebidas por um belo sorriso branco como marfim em lábios negros, para aventuras que as vezes levavam a desgraça; ao mesmo tempo que minhas mãos não receberam nenhum cumprimento nas aventuras que escolhi, mas sempre atravessava meus limites mirando para aventuras em que eu sabia que poderiam me custar mais caro do que eu estava disposto a pagar. Neste caso, eu sabia como proceder. Felizmente nunca foi necessário.
Então, com estas mãos, sem ninguém para abrir a porta para mim, girei a maçaneta, abri a porta e entrei no salão. Embora o tempo tivesse cobrado seu preço, estava tudo lá, pelo menos em minha mente. Nunca havia atravessado aquelas portas antes, mas eu sabia exatamente o que esperar. O candelabro, os castiçais, lembranças de uma época que jamais voltará, mas que se desloca em minha mente de maneira expressiva.
Caminho pelo salão, deixo a porta aberta para que a luz entre e indique o caminho e a poeira no ar dança criando padrões que distraem minha percepção. A cada passo que dou, me distancio mais do mundo que deixei para trás ao cruzar aquele marco e fico mais imerso num velho mundo novo que se desnuda perante meus olhos, antes de chegar no seu clímax.
Naquela velha poltrona de reclinar-se, que encontra-se exatamente ao norte do salão pelo qual caminho, diretamente no centro da visão das pessoas que por aqui caminhavam, passando por outras pessoas que bebiam e dançavam, uma linda mulher se estica, com seus braços jogados sobre o encosto, as pernas pendendo na outra extremidade e um lindo vestido de um tecido que raramente poderei ver agora. Seus cabelos são lindos, sua aparência, daqui, me transmite uma maciez tal, uma naturalidade, uma certa tristeza... Tristeza na languidez de seus gestos, embora eu tenha certeza que pelo menos estes são ensaiados, que comove minha alma, mesmo tendo perfeito conhecimento do ingênuo engodo.
Caminho com passos firmes em direção a ela, já não controlo mais meu corpo ou meus movimentos. De pé, a poucos centímetros dela, apresento-me, como se ela realmente estivesse lá. Reclino minha cabeça e sento com cuidado ao seu lado, envolvendo sua cintura em meus braços, descendo meu rosto até o seu e beijando seu rosto quente.
Quando estou próximo aos seus doces lábios cobertos de cor carmim, desperto sentado em uma velha e empoeirada poltrona. Sozinho em um velho e empoeirado salão.
A minha frente uma porta aberta, por onde entra a luz do crepúsculo. É o meu crepúsculo que observo.
Deixo que a porta se feche sozinha. Resigno-me a minha situação. Sentado aqui espero o momento de encontrar-me com tudo o que pude vislumbrar hoje.

Escrito por mim.

A Janela de Fermat

Lá estava ele, sentado no chão do velho quarto onde costumava passar suas noites em claro observando as luzes através da janela, respirando o ar quente da cidade e procurando em seus pensamentos um motivo para sair e ganhar as ruas.
Mas hoje ele não busca motivo algum, ele não está mais interessado em ganhar as ruas, ele não está mais interessado em ganhar nada. Ele apenas está interessado em fazer aquela pequena viagem que a muito tempo ele vem teorizando ser possível.
Lá está ele, sentado sobre velhos jornais amarelados e revistas amassadas que contam histórias que nunca fizeram parte de seu mundo anônimo e singular. Olhando fixamente para o canto da parede oposta até enxergar apenas dois painéis em sua forma básica, tornando enganosa a percepção de interioridade, ele procura uma brecha para deslocar-se de dentro para fora e para dentro novamente.
Relaxou sua mente até o ponto em que lhe foi plausível fazer seu corpo flutuar no lado externo da construção, a oito andares do solo... Apenas em sua agora vaga percepção de realidade.
Não podendo controlar o ímpeto de olhar para baixo no cenário onírico que representava fielmente o cruzamento de duas ruas que ele conhecia bem, a não ser pela quantidade alarmante de sombras alheias a uma fonte de luz que as justificasse, sentiu vertigem e pela primeira vez teve a sensação de estar sendo compelido a tomar ações além de seu controle por uma força estranhamente familiar que sua memória recusava-se a apontar a origem.
Sabendo do que se tratava e feliz por ter alcançado seu objetivo, ele tentou deixar-se levar por tal força, aparentemente exterior a sua experiência até então limitada por parâmetros mentais que ele mesmo estabelecera. Para evitar acordar com a queda, fixou-se em duas linhas de um púrpura apagado que podiam ser distinguidas. A medida que ele as encarava, essas linhas iam contorcendo-se em direções opostas; obviamente alguma espécie de aberração assimétrica no horizonte. Nada deveria estar ali além do Sol, porém este não era visível, apenas partículas de luz que formavam raios como em uma roda de bicicleta...
Bicicleta... Neste exato momento ele desperto novamente no interior do velho quarto. Sua frustração era incomensurável. Olhou no relógio e viu que eram 5:20 da manhã. Logo iria começar a clarear aqui. Mais uma vez ele não conseguira chegar lá.
Ficou em pé, jogou as costas nuas contra a parede, puxou os cabelos empurrando a cabeça para baixo. E sentou-se na mesma posição e lugar em que estava. Se houvessem lágrimas, ele as teria derramado, olhando para o chão sujo, que se descobre após muito tempo sem nenhuma atenção, aponta a lembrança daquele belo padrão xadrez escondido sob a fuligem que veio da rua.
Esfregando desesperadamente os pulsos no chão ele tenta mais uma vez descobrir tal padrão que a tanto estava perdido.
Após momentos de movimentos convulsos ele para e olha para o chão repleto de marcas vermelhas e sente seus pulsos arderem... A dor faz lembrar de sua fome e de sua sede. Se ao menos ele lembrasse a quantos dias ele está neste quarto. Mas ele não pode parar agora, não quando está tão perto de conseguir.
Pensando estar recomposto ele senta calmamente num canto e olha para o marco da janela, o vidro quebrado e mais uma vez inicia sua longa vigília até que o dia se acabe nas sombras da noite, quando então poderá recomeçar seus experimentos...

Escrito por mim.

Sonhando te espero

Foi num dia chuvoso. Uma semana havia se passado sem que ele a visse.
Horas e horas, milhas e milhas rodadas com seu corpo inerte no banco daquele ônibus. Todos os dias ele fazia a mesma coisa: descia, dirigia-se até a frente do velho prédio, apoiava o corpo contra a parede e, sob a inadequada luz do poste abria um livro e começava a ler.
De tempos em tempos ele erguia o olhar sobre as letras e mirava a escuridão da rua. Não importava quanto tempo ele esperasse, ela não mais aparecia.
Todos os dias, após algumas horas lendo em pé e esperando, ele guardava o livro na mochila e dirigia-se para a porta do bar. Lá ele não entrava, apenas permanecia parado do lado de fora observado o movimento e imaginando se aquele recado que ele havia deixado no mural ainda estava lá.
O recado dizia mais ou menos assim: te amo, por isso te espero. Te espero amando cada minuto e sorvendo esse cálice de angústia como se fosse conhaque que nada mais faz do que aquecer meu peito. Um dia estaremos juntos, mesmo que já não me reconheças. Um dia, naquela mesma mesa em que sentamos, você irá olhar nos meus olhos e irá, se pronunciar uma única palavra, mostrar-me tudo aquilo que eu preciso saber.
Não estava assinado. Seu amor por ela era anônimo e óbvio, ridiculamente escondendo-se como pessoas escondem-se no silêncio das palavras apenas para revelar seus sentimentos em olhares.
Mas já havia uma semana que ele não mesclava seu campo de visão ao dela. O que fazer? Durante toda sua vida ele segurou frouxamente a mão da sanidade. Não lhe custaria nada largá-la agora.
Ele preferiu um método novo. Saiu dali para não mais voltar, decidiu fazer como um pintor que muda suas tintas e com rápidas pinceladas recobre sua arte mudando as tonalidades de seus sentimentos. “Não mais irei amá-la” - pensou ele. Acreditando nesta prerrogativa, foi ao encontro de uma nova vida onde mais tarde nem ele mesmo se reconheceria. Amou intensamente, mas sempre sonhou com ela ao fechar os olhos. Acordava já vestido com a máscara que decidira usar e sem perceber essa mesma máscara iria deformando suas verdadeiras feições, transformando-o no cruel e triste personagem que ele havia criado. Suas mentiras iam caindo uma a uma, seu castelo de areia transformaria em lágrimas, tantas lágrimas que pensaria em morrer. E na verdade, parte do que ele era morreu, mas não matou seu amor por ela.
Todas as noites ele entrava num mundo onde o tempo havia parado e lá ele ainda era aquele jovem sonhador descobrindo novidades em livros que foram escritos muito antes dele nascer. Naquele mundo ele ainda tinha o frescor na pele e o brilho no olhar, que só uma paixão juvenil é capaz de trazer, e sentia todo seu corpo como se fosse coberto por zonas de sensíveis ao prazer do toque dela.
Acordar só não era insuportável pois a lembrança de seus sonhos logo se esvanecia ante a visão da vida que construiu.
Enlouquecido após tanto tempo flertando com a falsidade, procurou uma saída. Ergueu-se violentamente, sem notar que a maior violência aflingiria a si mesmo conforme suas ações. Mas nenhuma violência seria maior do que continuar ali como estava.
Para alcançar a liberdade foi capaz de rasgar sua obra, uma tela que lhe custara tão caro que tivera de pagar com a essência de sua juventude. E ele não deixou transparecer nenhuma dor enquanto desconstruía a si mesmo publicamente, embora estivesse em terrível agonia por dentro.

Escrito por mim.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

A bela praia

Um dia vou estar caminhando pela bela praia, aquela onde a areia é mais branca, os coqueiros são mais altos e vistosos, a natureza é mais verde e a água é de um azul turquesa capaz de ofuscar a beleza de qualquer jóia. Vou estar sentindo a areia úmida e gelada massageando meus pés descalços enquanto caminho lentamente em direção às ondas e ao pôr do sol carmim, respirando o ar puro, carregado de maresia, trazido por uma brisa agradável de final de tarde de um dia quente.
E nesse lugar, nesse momento ímpar, vou te encontrar sentada na areia, com a tua pele morena molhada, os cristais de sal brilhando por todo o teu corpo refletindo os últimos raios do sol que se põe...
Vou me agachar do teu lado, e com a ponta dos meus dedos vou afastar os teus cabelos castanhos, para que a minha boca possa se aproximar do teu ouvido. E ali, enquanto vemos o adeus de um dia abençoado, vou falar para ti de todo meu sentimento, lutando comigo mesmo para manter as mãos apenas sobre teus ombros, enquanto sinto o teu cheiro e o calor da tua pele.
Quando eu terminar, anos de tristeza vão ter ido embora, todo o sofrimento do mundo não vai passar de uma vaga lembrança, e o prenúncio da alegria vai se confirmar quando você virar o teu belo rosto para mim, me observando com olhinhos que só a paixão pode descrever, e sorrir, de maneira sincera e afetuosa.
Me sento para que você possa se encostar em mim, com teu rosto contra o meu peito, ouço tua voz como se ela ainda viesse direto do meu coração, como foi durante todos esses anos que só fiz esperar. Ouço e sinto aquela voz subindo, delicada, voz de menina, me falando de tudo que passou, e de todos os sonhos que sonhou, do sentimento que guardou para quando este dia chegasse.
Quando você terminar, sinto tua respiração mais leve, “tudo que já passou...”
Meu queixo se afasta da tua cabeça, que vira lentamente, trazendo tua boca de encontro a minha, num beijo que traduz toda a emoção da noite que se aproxima.
Permanecemos juntinhos, meus braços envolta dos teus, enquanto do sol só resta uma luminosidade distante e as estrelas já formam uma torrente de pequenos pontos, pontos que lembram a esperança que brilhava a cada noite em que deitávamos pensando um no outro.
Agora já não dependíamos mais da esperança... Em frente a nós, apenas o horizonte de duas vidas que finalmente se encontraram, para as quais o tempo é meramente uma convenção. Um momento eterno e ao mesmo tempo efêmero, como é toda a felicidade. Pelo tempo que nos foi destinado.

Escrito por mim.