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domingo, 19 de agosto de 2007

A vida vivida

Discordo que só estamos vivendo quando sentimos prazer. Sem o sofrimento, este grande professor, não estaríamos aptos a reconhecer e valorizar o prazer.
A vida é feita de momentos bons e ruins, não estamos o tempo todo cercado pelos amigos, mas também não vivemos sozinhos; choramos, sorrimos, trocamos carinho, experiências e, por vezes, brigamos. Essa é a vida que conhecemos, é a única que é garantida, é o tempo que temos para explorar tudo que está a nossa volta e no nosso interior. Importante é aproveitar ao máximo para conhecer àqueles que nos cercam e a nós mesmo.
Talvez o segredo da felicidade esteja em reconhecer a existência da dor e do sofrimento, e compreender que, assim como a felicidade, nenhuma dor dura para sempre. O diferencial está na maneira como vivenciamos estes momentos: é preciso saber partilhar dos momentos bons com aqueles que nos são queridos, para que nos momentos ruins possamos contar com essas pessoas. Toda carga fica mais leve se for dividida, esse é o sentido de viver em sociedade, e por isso precisamos viver em sociedade – a natureza da vida é dura e pesada demais para ser carregada por uma única pessoa.
E o sentido da vida? Este não está escrito em lugar algum, não existe uma fórmula pronta. Cada indivíduo precisar encontrar ou dar sentido para sua própria vida. Para isso não podemos depender dos outros, pois se atrelamos o sentido de nossa vida à outra pessoa, arriscamos a perdê-lo quando essa outra pessoa se for – todo relacionamento é efêmero, como uma bolha de sabão, mas o dias são uma constante, sempre haverá um amanhã.
Minha abordagem pessoal quanto ao sentido da vida não é nem um pouco hedonista. Nascemos em sofrimento e existe uma grande probabilidade de morrermos em agonia; não vou dedicar minha vida a uma infindável busca pelo prazer, isso só me traria frustração. Eu vivo cada dia de uma vez, planejo a longo prazo apenas para dar um rumo aos meus dias, estabeleço metas que possam me tornar melhor desde agora e, principalmente, gosto de compartilhar pois sei o quanto isso me deixa feliz – existe, sim, um sentimento egoísta até mesmo naquilo que se faz de bom para os outros, especialmente quando se sente prazer fazendo isso: nenhum carinho é impune, tudo volta.
Mas esse é o sentido que eu dou para a minha vida, cada um tem que achar o sentido para a sua vida, pois embora sejamos uma unidade enquanto humanidade, temos essa coisa chamada de subjetividade, que nos torna únicos. Minha fórmula é válida para mim, minha vida só precisa ter sentido para mim mesmo, pois esta é uma experiência da minha subjetividade.
O que podemos fazer para alargarmos os períodos (mais) significativos da nossa vida?
A resposta para esta pergunta vem muito facilmente, e passa por uma analogia muito utilizada para explicar o conceito de relatividade do tempo: quando estamos muito envolvidos em uma determinada situação que nos trás prazer, o tempo parece encolher e as horas passam como se fossem minutos; mas quando estamos em uma situação desconfortável os minutos parecem durar horas.
O motivo pelo qual as situações aborrecidas parecem demorar tanto para passar é fácil compreender, pois todo nosso ser biológico e/ou psicológico se mobiliza para nos alertar do incômodo; já o motivo pelo qual as situações agradáveis parece passar tão rápido é mais complexo. Acredito que ao criar a analogia acima, estavam se referindo à questão de que as pessoas, em situações agradáveis, ficam tão concentradas apenas em um aspecto que deixam-se inundar por apenas uma sensação, desligando seus demais sentidos – inclusive a noção da passagem do tempo. Mas não é só isso... Cada vez mais relevante, especialmente nos dias de hoje, é a insatisfação, que parece estar sempre presente. Não basta estar bom, tem que estar ótimo. E se estiver ótimo, ainda assim vão ficar descontentes pois acreditam de poderia estar excelente.
Isso acontece, em parte, porque as pessoas esqueceram que possuem um papel ativo no próprio prazer. O prazer que sentem não depende só dos estímulos externos, mas depende também de como esses estímulos são captados e processados.
Além de não se abrirem corretamente para o prazer, muitos deixam de aproveitar na totalidade o prazer a que tem alcance em determinado momento por estarem pensando em como aquele prazer poderia ser melhor, ou mesmo em outro prazer qualquer não relacionado.
Não só isso, mas é comum deixarem de lado um prazer que está acontecendo agora, para se concentrar em um aborrecimento futuro. Neste caso, se está trazendo o aborrecimento para um momento de prazer, por conseguinte é podando o tempo de prazer, e estendido o tempo de aborrecimento; trazendo e vivenciando um aborrecimento futuro para o presente.
Talvez a grande questão não seja se preocupar em alargar mais o momento de prazer, mas estender nossa percepção do momento. Mesmo que não estejamos preocupados com nada, nem insatisfeitos com o prazer, devemos fazer um exercício de ampliar nossa percepção daquele momento, e não tem nada de esotérico nisso. É uma questão de ficar aberto, fazer uma checagem para notar se todos os sentidos estão sendo usados e se todas as sensações estão sendo captadas. É, principalmente, viver o momento.
Vou aproveitar o assunto para discorrer sobre algo que a muito tempo venho pensando e que pode ser sintetizado com um recorte1 de diálogo de um filme, diálogo este que aborda uma visão científica e não-antropocêntrica do sentido da vida:

Grim: Se você sabe tudo, então qual é o sentido da vida?

Master Control: A vida não possui sentido, apenas máquinas inteligentes são realmente importantes em uma escala cósmica.

Isso porque, em um universo que estivesse em declínio, seria necessário uma máquina capaz de aproveitar o potencial computacional restante para processar um número cada vez maior de informação em uma progressão exponencialmente maior do que aquela que levaria a um colapso final. Segundo essa visão, o único propósito filosoficamente válido para a existência de vida inteligente, como seres humanos, seria a criação de maquinário inteligente. Assim como nós experienciamos dilatações e contrações em nossa percepção do tempo, um computador sofre algo similar ao lidar com funções que exijam mais ou menos sua capacidade de processamento – sem as perdas a que nós estamos sujeitos; explorando esse conceito é possível uma simulação daquilo que compreendemos como eternidade em um mundo virtual.
Para explicar isso de uma maneira mais fácil de entender, posso citar uma situação pela qual todas as pessoas que utilizam o computador com alguma freqüência já passaram, que é o que ocorre quando solicitamos a execução de diversos programas ao mesmo tempo e observamos o modo como o computador parece ficar “lento”. Na verdade o computador não fica mais lento, mas está executando um grande número de funções simultaneamente – ou preemptivamente, dependendo do caso.
Em uma linguagem coloquial2, é correto afirmar que nos computadores que utilizamos atualmente, aumentando a energia fornecida ao processador podemos aumentar sua velocidade, até o limite térmico dos componentes físicos. É fácil perceber isso nos notebooks modernos quando estamos executando um programa que exija mais recursos e ouvimos o som da ventoinha sendo acelerada para dissipar mais calor do processador, que está recebendo uma quantidade maior de energia do que em um estado de menor demanda de sua capacidade.
Imaginando um cenário em que a capacidade de processamento aumentasse rapidamente e mais informações fossem processadas em paralelo a medida que a capacidade fosse aumentando, qualquer número de dados que fossem processados – inclusive uma simulação da realidade da maneira como compreendemos o espaço e o tempo – teriam a aparência, como exemplo ilustrativo, de um filme sendo exibido muito acelerado para um suposto observador humano.
Mais uma vez é possível evocar algo conhecido do mundo digital para esclarecer esta idéia: quando se tenta executar um programa feito para um computador antigo em um computador novo a velocidade alcançada pode tornar o programa inutilizável pelo usuário, sendo necessária a utilização de algum recurso que deixe o computador novo mais lento – em alguns casos um programa que seja executado em paralelo ocupando a capacidade de processamento excedente.
Quando falamos em aumentar a capacidade de processamento utilizando a energia disponível, estamos nos referindo a uma suposta máquina consciente tecnologicamente apta a utilizar-se não apenas da energia de uma estrela, mas de um sistema estrelar por inteiro e além. Algo que talvez seja difícil de conceber para quem nunca flertou com esses conceitos, os quais obviamente estão muito além da nossa e das próximas gerações.
Tudo isso é relevante quando pensamos não apenas como seres humanos, mas como a humanidade como um todo, e quando pensamos nos motivos para a evolução de uma forma de vida inteligente e auto-consciente que, ao mesmo tempo, está fadada a ser um breve sonho na história cosmológica. A inteligência artificial é a pedra filosofal do nosso tempo. Pode ser que nunca venhamos a encontrá-la, mas nem por isso devemos deixar de estudar os caminhos que vão sendo iluminados por essa busca (como no texto).

Baseado em um trabalho para a disciplina de Fenomenologia.

sábado, 18 de agosto de 2007

Por um pouco de boa vontade

O filme Gênio Indomável (título original em inglês Good Will Hunting / algo como ‘Em busca da Boa Vontade’) conta a história de Will Hunting, um faxineiro do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) dotado de um grande conhecimento e muita facilidade para matemática. Para poder beneficiar-se dos seus dons, ele deve superar o seu “medo de abandono e se tornar capaz de confiar e amar as pessoas que se importam com ele, [...] é a história de um jovem e sua luta tanto consigo mesmo quanto com seus relacionamentos pessoais, tentando superar seus problemas para poder abrir-se aos outros e utilizar-se de seu potencial intelectual incalculável.”
Eu não tive a oportunidade de assistir ao filme na íntegra, mas fiquei perplexo pelas cenas de terapia que foram exibidas em sala de aula. Enquanto a imagem do psicólogo que temos formada em nosso imaginário é aquela de um profissional que se mantém sentado, na maior parte do tempo em silêncio, ouvindo e analisando o interlocutor, para em um dado momento, proclamar um diagnóstico e aplicar algum método de tratamento, o filme nos mostra um psicólogo que interage física e verbalmente com o paciente, abrindo capítulos de sua vida pessoal, levando o paciente para fora do consultório, enfim, utilizando-se de uma vasta gama de recursos para estabelecer uma comunicação com aquele sujeito que busca ajudar.
Dos momentos da terapia que foram exibidos em aula, considerei três como sendo os mais marcantes: o momento em que o psicólogo Sean Maguire, interpretado por Robin William, restringe os movimentos de Hunting, ameaçando-o fisicamente caso voltasse a desonrar a memória de sua esposa; o momento em que Maguire leva Hunting para fora do consultório, sentando-se com ele na beira de um lago e desafiando suas defesas com suposições quanto à maneira que ele responderia a abordagens mais tradicionais de tratamento; e o momento em que Hunting desafia Maguire a dar uma nova chance ao amor.
Enquanto as interações físicas entre psicólogo e paciente exibidas no primeiro momento foram um tanto caricatas e usaram da liberdade criativa típica dos filmes, os outros dois momentos pareceram delinear uma prática bastante interessante que, se aplicada responsavelmente pode vir a gerar bons resultados. Ainda acredito que o psicólogo deve ser extremamente cuidadoso ao expor suas próprias experiências a um paciente e deve sim, buscar evitar fazê-lo para não comprometer o profissionalismo da relação; mas dada a subjetividade humana que torna cada caso único, é possível que seja necessário ‘ceder um pouco de si’ em troca do estabelecimento de um vínculo de confiança da parte do paciente para com o psicólogo.
O filme também mostra os supostos benefícios que um psicólogo pode herdar com uma abordagem mais aberta e íntima para com o paciente, no momento em que Maguire decide dar um novo rumo ao seus relacionamentos amorosos. Mais uma vez, acredito que embora seja interessante pensar em benefícios pró-terapeuta, não devemos perder o foco do tratamento, que deve ser voltado para o paciente, que comumente vem até o profissional buscando ajuda.
Nos foi mostrada, também, um pouco da história do paciente. Um jovem adulto, com dificuldades um pouco fora de contexto para a idade que aparentava, uma vez que no filme ele é interpretado por um ator de uns 30 anos de idade, que precisava finalizar algumas questões mal resolvidas para encontrar seu lugar no mundo. A rebeldia e os padrões de comportamento demonstrados nos laços de relacionamento que puderam ser percebidos nas cenas exibidas, nos remete a um comportamento adolescente, em um corpo de adulto com uma mente poderosa. Como muitos adolescentes, me pareceu que Hunting estava na verdade clamando por alguém que lhe estendesse a mão, sem olhá-lo de cima; por alguém disposto a ouvir suas demandas e que lhe oferecesse compreensão e confiança. Hunting buscava por um modelo de adulto maduro com um pouco de boa vontade, para poder ele mesmo amadurecer e tornar-se aquilo que naturalmente tendia a ser.
Não posso deixar de traçar um paralelo, ressaltando aquela que foi a lição mais importante que pude apreender do filme, com um caso da vida real – um estudo realizado na ocasião da elaboração da biografia de um certo cidadão. O estudo buscava mensurar informalmente, dada as limitações das circunstâncias, a validade do teste Rorschach. Um dos biógrafos, Victor Goertzel, era um psicólogo que havia defendido seu pós-doutorado com base no teste Rorschach.
O sujeito havia participado em duas ocasiões do teste, sempre com entusiasmo. Em uma das ocasiões levou 29 minutos para transmitir suas impressões sobre os 10 cartões. Já os resultados da análise posterior às suas respostas não foi digno de tanto entusiasmo.
Vários psicólogos utilizaram seus conhecimentos no teste para analisar as impressões que foram coletadas: os dois psicólogos que aplicaram o teste, um psicólogo que conhecia o sujeito, e outros sete especialistas no teste, que concordaram em fazer uma análise ‘as cegas’ – sem saber de quem se tratava.
Em favor do teste e dos métodos empregados, é necessário ressaltar a homogeneidade dos resultados apresentados por todos os psicólogos. Resultados que delineavam um sujeito com “[...]muitas das características comuns às pessoas que se suicidam. A possibilidade de um suicídio deve ser cuidadosamente levada em conta e aqueles responsáveis por ele devem ser alertados [...] as composições encontradas relativas à falta de acuidade perceptual e de pensamento sugerem a possibilidade de esquizofrenia... ele parece propenso a episódios freqüentes de depressão ou turbulências emocionais... ele processa informações de maneira desorganizada e aleatória... sua concepção de si mesmo não é bem desenvolvida e é provavelmente distorcida. Sua auto-imagem inclui muito mais aspectos negativos do que deveria ter.”
O sujeito do teste certamente não era esquizofrênico, nunca demonstrou nenhum sinal de ser suicida e nunca precisou de ninguém para tomar conta dele.
Outros achados do teste indicavam que “[...]ocorreram muitos problemas no pensamento, lógica e síntese através das categorias cognitivas que, em termos tanto de freqüência e tipo de distorção, são similares aos indivíduos que sofrem de esquizofrenia.”
O sujeito avaliado pelo método Rorschach era ninguém menos que Linus Pauling, casado, pai de quatro filhos, cientista e ativista ganhador do Prêmio Nobel de Química em 1954 e do Prêmio Nobel da Paz em 1962, pioneiro na aplicação dos conceitos da mecânica quântica na química. Ficou conhecido pelo seu vasto conhecimento nas áreas da química inorgânica, química orgânica, metalurgia, imunologia, anestesiologia, psicologia, oratória, armamentos nucleares, mecânica quântica e biologia molecular.
Várias hipóteses – ou desculpas – foram levantadas para explicar os motivos para as incoerências entre a personalidade delimitada pelo teste e a personalidade real que realizou o teste. Entre elas as de que Pauling havia lido sobre processos de brainstorming e havia relacionado tais processos com o teste, distorcendo os resultados, ou ainda, apelando para o conhecido ditado de que a linha limite entre a insanidade e a genialidade é de difícil compreensão. Defensores do teste também alegam que um único resultado fora do normal não invalida o teste.
Para mim, este caso relaciona-se com o filme pela própria abordagem totalmente contrária em um teste que visa interpretar a subjetividade do sujeito padronizando o método de interpretação. Até mesmo as palavras subjetividade e padronizando não ficam bem na mesma frase. Para aqueles que buscam uma resposta rápida às particularidades individuais da mente alheia, penso que os testes podem se tornar uma ferramenta muito enganadora, deixando transparecer mais sobre os temores e fraquezas daquele de analisa – ou julga – do que sobre a real personalidade daquele que é analisado.
Faltou boa vontade em abrir-se para uma mente brilhante. Faltou coragem para entrar em contato com um mundo que pode ser radicalmente diferente do seu, mas capaz de criar coisas maravilhosas.

Baseado em um trabalho para a disciplina de Fenomenologia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Desassossegos

“Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também.” Fernando Pessoa

Como ocorre a construção das aspirações de uma vida? Será que alguém consegue se lembrar de quais fatores influenciaram suas motivações? Não posso afirmar que me lembro do processo exato pelo qual passei e que me levou a buscar as coisas que busquei, mas hoje vejo com mais clareza quais são os meus objetivos.
Procuro um ponto de conforto, um equilíbrio entre o sonho e a realidade, e ao mesmo tempo o conforto anda de mãos dadas com a conformidade. Toda vez que acredito ter encontrado algum equilíbrio me vejo tomado por um intenso tédio ou descubro que estava terrivelmente enganado. O tédio pode se traduzir em uma doce saudade, já os enganos costumam terminar em uma negra amargura.
A arte, na dança da vida, é estar em permanente desequilíbrio controlado: onde há equilíbrio não há movimento, a vida pára e se torna enfadonha; é preciso, por vezes, pender para o lado dos sonhos, acreditando naquilo que é ideal, e por vezes, pender para a realidade, caso contrário esta nos derruba com suas desilusões e desassossegos.
Difícil mesmo é manter o movimento, como uma média entre o sonho e a realidade, sem deixar a dança parar. Difícil é olhar para si mesmo em desequilíbrio: um estado que lembra a dança de Columbina e Arlequim. Esta dança, quando bem executada, acaba em uma serena reflexão daqueles que assistiram ao espetáculo da vida e permaneceram até o ato final.
Neste teatro somos todos platéia e somos todos atores, com a certeza de muitas estréias, despedidas e de que, para nós, as cortinas também irão se fechar.

Baseado em um trabalho para a disciplina de Fenomenologia.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A Fenomenologia de Babel

O filme Babel, dirigido por Alejandro González Iñárritu e escrito por Guillermo Arriaga, é a parte final dos dramas de narrativas múltiplas que ficaram conhecidos como “a trilogia da morte”, iniciada com Amores Perros e 21 Gramas. Babel expõe quatro narrativas compostas por diferentes grupos de personagens e diferentes situações, todas interrelacionadas, onde os eventos não são exibidos em uma seqüência natural, sacrificando a clareza. Enquanto este artifício parece ter funcionado com a crítica, já que o filme recebeu muitos prêmios e elogios, uma boa parte da audiência acredita que falta de clareza não é necessariamente uma qualidade, mas sim um meio de criar o efeito “a nova roupa do rei.”
Segundo Edmund Husserl, a fenomenologia é “o estudo reflexivo da essência da consciência da forma que esta é experienciada de uma perspectiva de primeira pessoa.” E foi justamente conversando com meus colegas que fiz algumas das conexões mais interessantes entre as situações exibidas no filme e essa vertente da fenomenologia. Uma colega me relatou algo assim: “Não, vê só, no começo do filme o homem dá uma arma para as crianças, dois guris deste tamanho , uma coisa horrível!” Outro colega me disse que o problema era “a japonesa tarada, porque o pai dela não dava atenção nem para ela e nem para a mãe dela.” Até então eu não havia assistido ao filme, mas guardei esses comentários para ver se concordaria ou não com eles.
Assistido ao filme, notei que o homem que dá uma arma para as crianças é um criador de cabras do Marrocos, e que as crianças são seus filhos. É realmente uma coisa horrível ver um pai entregando uma arma carregada para seus filhos, especialmente para nós, que crescemos em zonas urbanizadas. Mas na área rural, seja no Marrocos ou no Brasil, não é incomum que crianças trabalhem na criação de animais e que saibam manejar armas para proteger a criação dos predadores. Estaria minha colega equivocada no seu comentário? Não, a conseqüência do manejo da arma pelas crianças mostra que, eliminando aquilo que é adicionado ao fato – ou fenômeno – observado, o resultado é horror. Contudo, conhecendo um pouco melhor o ocorrido, desenvolve-se uma compreensão mais ampla sobre aquela situação em particular: a realidade de que crianças de áreas rurais aprendem, de uma forma não muito segura, a usar armas desde muito cedo. No modelo de produção rural familiar, os pais contam com os filhos para ajudar nas tarefas diárias, não como uma forma de explorar o trabalho dessas crianças – elas estão trabalhando para aquilo que lhes será deixado de herança – mas como uma maneira de passar adiante as ferramentas ou o conhecimento necessário para poder manter a herança deixada pelos pais. Seria o caso de condenar o modelo de produção rural familiar ou seria o caso de lidar com o problema em si? Talvez a ONU, ou alguma outra organização internacional, devesse imprimir uma cartilha com algumas regras de segurança para o manejo de armas, tais como: nunca, jamais, em hipótese alguma, apontar a arma para uma pessoa ou para uma habitação onde possam haver pessoas ou para um veículo que possa estar transportando pessoas; e distribuir tal cartilha entre as famílias que vivem dessa maneira em áreas com comércio irregular de armas de grande calibre. Com certeza os pais iriam passar a informação aos filhos, da mesma forma que ensinaram seus filhos a guiar o rebanho e outras funções da vida rural.
Também notei que a japonesa realmente tinha problemas de fundo emocional para lidar com pessoas do sexo masculino, e que o pai da japonesa realmente não era uma pessoa muito dedicada à filha. A observação do meu colega, embora não ficasse completamente clara no filme sendo, portanto, baseada em suposições, não estava completamente errada. Mas seria justo eliminar dessa equação os milhares de anos de história da construção da cultura japonesa? Anos estes que culminaram no surgimento de uma sociedade que, mesmo pelos padrões modernos, possui costumes que ainda são difíceis de aceitar dentro de uma visão ocidental. Uma vez que nós ocidentais reconhecemos o problema crescente de individualismo como modo de vida, pregado pela visão capitalista dominante, os japoneses possuem um individualismo sexista já enraizado em sua cultura e que apenas se fortaleceu com a queda do império e modernização dos modos de produção após o final da Segunda Guerra Mundial. Como exemplo dos extremos comuns aos japoneses podemos citar: a pressão e cobrança por sucesso pessoal; a manutenção da honra familiar que normalmente recai sobre os ombros dos filhos homens e está relacionada ao sucesso pessoal e enraizada até mesmo na religião professada pela maioria dos japoneses; o papel da mulher na sociedade japonesa, onde as mulheres ainda são sujeitas até mesmo a abusos sexuais nos metrôs como forma de uma manifestação da cultura oriental em si, embora admitidamente errada no contexto da atualidade. Seria justo esperar que naquela sociedade um pai agisse de maneira diferente da maneira que agiu o Sr. Wataya em relação às mulheres de sua família? É muito fácil julgar quando temos o sangue latino – indiscutivelmente passional – correndo pelas veias.
O filme, por se passar em locações e realidades tão diversas quanto os Estados Unidos, o Marrocos e o Japão, cruza diversas fronteiras culturais em que julgamentos devem ser feitos com extremo cuidado para não basearem-se no etnocentrismo ou em um viés cultural (cultural bias). Se, por um lado, na raiz da fenomenologia está a experiência imediata como descrita por Wundt, Husserl pega emprestado o conceito de intencionalidade de Betrano para que, livre de pré-conceitos o observador possa usar o discernimento ao avaliar um fenômeno. Foi justamente a falta do discernimento uma das críticas mais duras à introspecção, que levou a necessidade do desenvolvimento de novas vertentes e do desenvolvimento da própria Psicologia que temos o imenso prazer de estudar agora. Em um mundo perfeito, contaríamos com profissionais que fossem treinados para desprezar seus preconceitos e fossem detentores de discernimento suficiente para avaliar caso a caso o passado (background) de seus clientes. Infelizmente muitos ainda preferem pegar o atalho mais fácil e utilizar lentes culturais que enquadrem as realidades apresentadas – ou ainda por apresentar – em sua própria subjetividade. Desta maneira, jamais desenvolvem empatia alguma com seus clientes e jamais entram em contato com a realidade vivenciada por eles.
Eu gostaria de ter um conhecimento mais aprofundado da Gestalt Terapia de Perls para poder encaixar melhor a subjetividade vivenciada por ele no desenvolvimento de suas teorias à fenomenologia da maneira que se deixa transparecer no filme, mas estamos apenas nas primeiras aulas sobre esse teórico que já exerce certo fascínio. Para mim seria mais fácil relacionar com Sigmund Freud, que embora tenha vivido em um local e uma época extremamente etnocentrista, foi capaz de pensar fora-da-caixa e propor que o terapeuta se deixasse absorver pela subjetividade do paciente (ou cliente) pelo método de associação livre – pegando uma carona naquele trem e sentando na janela para observar a paisagem. Para nós, contemporâneos da Era Digital, é valido ressaltar que não é possível fazer isso sem conhecer a cultura e o passado do paciente, coisa especialmente complexa em um mundo globalizado onde as culturas se entrelaçam pela hiper-conectividade.
Ainda que tenhamos dificuldade para assimilar nossas diferenças culturais e pessoais, para melhor compreender as pessoas com as quais deveríamos nos encontrar no exercício da Psicologia, é no mínimo uma obrigação a utilização das ferramentas que nos são entregues por pessoas que foram capazes de ver muito além daquilo que vemos, tais como os teóricos/filósofos da Fenomenologia, para que tentemos alcançar essa sintonia e compreensão. Sem enganos, a vida é dura para as mulheres no Japão, assim como é dura para as crianças em áreas rurais do Marrocos, e até mesmo para o casal americano que tenta resolver suas crises conjugais em uma viagem exótica; é papel do psicólogo endurecer ainda mais essas vidas humanas? Eu acredito que não. Antes devemos entrar em contato com as diferentes realidades para depois tentar ser uma luz guia em direção à “arte do bem viver”. Caso contrário, podemos nos tornar iguais àqueles agentes da imigração do filme, impassíveis diante de qualquer argumentação, meras máquinas de reproduzir comandos e executar ordens. A sociedade já está repleta desse tipo de atitude, e consegue com isso provocar essa verdadeira epidemia de pessoas que não conseguem encarar a vida da maneira que é apresentada, recorrendo a diversas fugas por medo de uma coisa tão simples quanto olhar a si mesmo no espelho da consciência.

Baseado em um trabalho para a disciplina de Fenomenologia.