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domingo, 26 de outubro de 2008

Filosofia da Mente de Buteco


[...]
[23:20:57] C.: e ele sofre de retardo mental profundo! :D
[23:21:11] T.: ahahahhaha
[23:21:14] C.: hehehehehhe
[23:21:21] T.: porra, profundo... não é pra tanto!
[23:21:53] C.: hehehehehehehe
[23:21:59] C.: sabes o tridente do Netuno?
[23:22:15] C.: então, o 'X.' não está na ponta da esquerda, nem no centro, nem na ponta da direita... ele tá na base do cabo!
[23:22:17] C.: hehehehehehhehehe
[23:22:30] C.: láááá embaixo... junto com as alfaces e as ervilhas.
[23:22:41] C.: mas acima de um grão de areia, por exemplo...
[23:25:42] C.: o Damásio e o Sacks querem estudar o 'X.' para descobrir como é possível, por meio apenas dos gânglios nervosos vertebrais, praticamente como uma minhoca, se passar por ser humano e fazer faculdade.
[23:25:57] T.: hahahaha
[23:26:02] T.: é uma minhoca-zumbi filosófica!
[23:26:45] T.: hehehe
[23:26:52] C.: hehehehehhe
[23:27:28] T.: o 'X.' é o único ser humano que se supõe ser capaz de realizar uma operação mental possuindo apenas dois neurônios interligados
[23:27:37] C.: heheheheheheh
[23:27:46] T.: é um feito extraordinário dentro de tal limitação física!
[23:27:51] T.: oq comprova a resiliência...
[23:27:52] T.: aahhaa
[23:28:15] C.: ele é a prova viva de que associação não depende de interneurônios
[23:28:27] C.: heheheheheeheh
[23:28:52] C.: Descartes criou o 'X.' para provar o dualismo
[23:29:17] C.: só que no caso dele a alma se conecta ao corpo pela glândula sudorípara anal
[23:29:38] T.: sério agora, isso foi nojento!
[23:29:38] T.: ahauauaha
[23:29:42] C.: hahahahahah
[23:29:51] T.: GSA, que horror!
[23:29:59] T.: hahahaa
[23:30:00] C.: hehehhehehhe
[23:30:24] C.: essa vai entrar pros anais da Filosofia da Mente
[23:30:26] C.: hehehehehehehhehe

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ele queria provar que era um filósofo qualiudo

"Unfortunately, no one can told
you what the Matrix is. You have
to see it for yourself."
Morpheus

Falando sobre um hotel na Austrália que adotou o nome de qualia, sobre como foi bem utilizado o conceito na divulgação... "Você vê as fotos e sabe que não vai saber como é até que esteja lá, especialmente acompanhado com uma garota como a das fotos."
qualia pool
Foto de divulgação do qualia resort.

[00:28:19] C. says: o fato de que se vc não experienciar não vai saber como é
[00:28:26] C. says: no final tudo se resume a isso
[00:28:33] T. says: ahahaha
[00:28:35] C. says: por exemplo
[00:28:50] C. says: o X. já bateu milhões de bronhas com revistas de mulher pelada
[00:29:04] C. says: mas ele nunca vai saber exatamente como é trepar até botar uma mulher naquele corpo
[00:29:12] T. says: ahhahaha
[00:29:16] C. says: mesmo que ele tenha um curso extensivo com os 10 maiores sexólogos do mundo
[00:29:34] C. says: humm
[00:29:45] C. says: tai um experimento mental bom
[00:29:50] C. says: "X. o punheteiro"
[00:29:54] T. says: ahuahauahuahuhauhauhuahua
[00:29:58] C. says: ilustra melhor a parte fisiológica dos qualia
[00:30:06] C. says: pois diferente da experiência visual
[00:30:15] C. says: a experiência sexual tem toda uma cascata química violenta
[00:30:35] T. says: depende, esse é um quale q simula a experiência da sensação do orgasmo
[00:31:00] C. says: simula? ou acontece de fato?
[00:31:06] C. says: porra é apenas uma ilusão?
[00:31:08] T. says: sim, é
[00:31:11] C. says: pq acontecem os bebês?
[00:31:13] C. says: hehehehehehehehe
[00:31:15] T. says: ahahahaha
[00:31:22] T. says: sim, mas o orgasmo em si é o orgasmo
[00:31:27] T. says: hmm
[00:31:44] T. says: é q não dá pra definir com linguagem qualia
[00:31:50] T. says: com uma palavra curta
[00:31:56] C. says: tem uma diferença marcante entre gozar dentro de uma mulher ou por indução pelo contato com uma mulher e gozar simplesmente fazendo o cinco contra um
[00:32:08] T. says: tipo, poderia ter um quale pra uma mina q ficasse em específico e outro pra outra, pq não é idêntico
[00:32:15] T. says: e mesmo o da mesma pessoa seria diferente num outro dia
[00:32:39] C. says: qualia, pra mim, é o besouro de Wittgenstein.. é aquilo que vc não pode transmitir por meio da linguagem.. aquele pedacinho de informação q fica faltando
[00:33:29] C. says: é como a dor que o paciente sente.. o médico observa... ele sabe os mecanismos fisiológicos da dor.. mas ele não é capaz de afirmar com 100% de certeza: é, de fato, esta é uma dor "grau 10" ou "grau 8"
[00:41:43] T. says: é, mas qualia é qualidade
[00:41:48] T. says: é variável
[00:41:57] T. says: no caso da mina q tu disse por exemplo
[00:42:00] T. says: ou conosco
[00:42:05] T. says: um dia tu me vê e tens um quale
[00:42:12] T. says: noutro dia será um quale diferente
[00:42:17] C. says: qualidade: isso é meramente uma definição lingüística, aquilo que o Pinker chama de mentalês.
[00:42:25] T. says: ahahah

domingo, 18 de maio de 2008

Quando estudantes de Psicologia pensam em números

(03:22:38 PM) Cláudio: informações que você não podia morrer sem saber:
(03:22:59 PM) Cláudio: Um googol supera o número de partículas elementares no universo observável, que tem sido estimado entre 10^79 até 10^81. Um googol também é maior do que o número de tempos de Plank (o tempo que leva para um fóton viajar, a velocidade da luz no vácuo, a distância de 1,6x10^-35 metros, ou cerca de 10^-20, o diâmetro de um próton) desde o Big Bang, que foi estimado em 8x10^60.
(03:26:02 PM) Taimon: isso mudou minha vida OO
(03:26:04 PM) Taimon: ahahahah
(03:26:22 PM) Taimon: mas vai colocando essas coisas, é legal
(03:26:33 PM) Cláudio: Uma vez que um googolplex é igual a um seguido por um googol de zeros, não seria possível de escrever este número em sua notação decimal, mesmo que toda a matéria do universo fosse convertida em papel e tinta.
(03:27:36 PM) Cláudio: De fato, se você tivesse uma quantidade ilimitada de papel e de tinta, você iria precisar de cerca de 10^20 universos para poder escrever um googolplex por extenso.
(03:28:38 PM) Taimon: eu nem queria escrever mesmo
(03:28:43 PM) Taimon: hunf
(03:30:00 PM) Cláudio: Se você fosse imprimir este número usando a fonte de tamanho 1, você precisaria de 3,5x10^96 metros de papel ofício. Seria uma distância 4,7x10^69 vezes maior do que o diâmetro estimado do universo conhecido.
(03:30:14 PM) Cláudio: hehehehehehhehe
(03:30:31 PM) Cláudio: vou dedicar minha vida para escrever um googolplex por extenso (:
(03:31:37 PM) Cláudio: O tempo necessário para escrever este número, levando em conta que a pessoa escrevesse dois dígitos por segundo sem parar, seria de cerca de 1,1x10^82 a idade do universo.
(03:33:17 PM) Cláudio: e pior q existem números na matemática q são bem maiores que um googolplex
(03:33:19 PM) Cláudio: :P
(03:37:55 PM) Taimon: sim, mas não se conectam a nada, pq da pra criar um número maior do q a própria quantidade de matéria, é algo sem sentido
(03:38:12 PM) Cláudio: nopes, se conectam sim
(03:38:15 PM) Cláudio: quer ver?
(03:39:08 PM) Cláudio: "O número de estados em um buraco negro com a massa equivalente à da galáxia de andrômeda é de aproximadamente um googolplex."
[...]
(03:48:48 PM) Taimon: mesmo q fosse possível fazer a soma mais absurda de tudo q é estado ainda assim não seria infinito
(03:49:17 PM) Taimon: mas o número na matemática pra ser maior, bastaria acrescentarmos mais 1, ou mesmo 000000000,1
(03:49:20 PM) Taimon: e já seria maior
(03:49:27 PM) Cláudio: sim.. hehehehe
(03:49:30 PM) Cláudio: isso é engraçado
(03:49:31 PM) Taimon: e não existiria no entanto algo na realidade
[...]
(03:52:20 PM) Cláudio: eu consigo pensar num número...
(03:52:27 PM) Cláudio: tipo... um DDF*
(03:53:01 PM) Cláudio: que é igual a multiplicação de todos os números já escritos e que ainda serão escritos pela humanidade ao longo de toda a sua existência.
(03:53:19 PM) Cláudio: mas neste caso.. será q 1 DDF conteria a si mesmo em si, uma vez q eu acabei de escrever?
(03:55:26 PM) Cláudio: "agora f****"
(03:55:28 PM) Cláudio: heheheheheheh
(03:55:33 PM) Taimon: x.x

* DDF = Dimensão da Floresta (:

terça-feira, 13 de maio de 2008

Traduzindo e adaptando Eliza para o aMSN

Chatterbots são programas que tentam emular uma conversação humana natural com algum objetivo. Pode ser dar assistência na busca de informações específicas, pode ser para entreter as pessoas durante um período de espera ou durante uma tarefa rotineira ou, ainda, apenas pelo desafio de tentar simular uma conversa tão real quanto possível.
Recentemente resolvi explorar as possibilidades dos chatterbots no mundo real usando minha conta no MSN. A opção mais acessível que encontrei, inicialmente, foi o plugin para o programa aMSN, chamado Eliza, baseado no programa de mesmo nome - homônimo - criado por Joseph Weizenbaum em 1966.
O plugin é uma versão bastante simplificada do programa original de Weizenbaum, o que trás algumas limitações bastante frustrantes. Como não sei programar, sei apenas olhar e interpretar o código fonte o suficiente para modificar coisas que eu imagino que terão este ou aquele efeito, fica difícil fazer modificações profundas que tornem o programa mais habilidoso com as palavras. Mesmo assim resolvi testar.
O primeiro passo foi traduzir o código fonte para o português, que foi bastante fácil, bastando encontrar os comandos, os textos e as palavras-chave e respostas no banco de dados. Mas apenas isso não seria o suficiente, pois muito mais interessante seria adaptar o plugin Eliza para a realidade em que estou inserido, tendo em consideração as pessoas com quem converso, do que a realidade original para a qual o plugin foi escrito.
Desta forma fui fazendo várias modificações nas respostas do banco de dados, finalmente chegando a excluir algumas das palavras-chave que achava inapropriadas e substituíndo por palavras-chave mais corriqueiras.
Vou citar alguns exemplos:

response bjo "Beijo."
response bjos "Bjs!"
response bjs "Bjs..."
response beijo "Ok, beijo então."
...
response dormir "Eu nunca durmo, sou uma robô."
response dorme "Eu nunca durmo, sou uma robô."
response dormiu "Todo mundo tem que dormir um dia. Menos eu."
...
response quem "Você não sabe quem?"
response quem "Sobre o que você está falando?"
response quem "Meu nome é $mynick, estou aqui enquanto o [::abook::getPersonal MFN] está fora."

No código acima dá para ter uma idéia sobre o funcionamento geral do plugin: ele identifica uma palavra-chave em alguma frase e busca a resposta correspondente em seu banco de dados. Havendo mais de uma resposta para uma mesma palavra, como no caso da palavra "quem", ele irá sistematicamente passando à resposta seguinte cada vez que se deparar com a palavra em questão, o que é útil para não tornar-se repetitivo com palavras que são muito comumente usadas.
Existem comandos que fazem com que o bot busque por informações, como $mynick e getPersonal MFN, dispensando que todo o código fonte seja modificado quando se alteram estes dados.
Mas, no exemplo acima, já é possível notar três limitações bem graves: o bot não sabe distinguir gênero sexual, sendo necessário ter cuidado para que as respostas dirigidas ao interlocutor sejam sempre livres de gênero; o bot também não é capaz de generalizar as palavras, não há, a princípio, um coringa para uma expressão, o que seria útil no caso de onomatopéias como "hehehehe", e também necessita que sejam inseridas várias variações para a mesma palavra como as possíveis contrações utilizadas para a palavra "beijo" em mensageiros instantâneos; e o bot não sabe distinguir pergunta de resposta, ele não sabe, por exemplo, se a frase onde a palavra "quem" foi capturada era uma pergunta ou uma resposta.
Todos estes problemas podem ser superados e já devem, certamente, ter sido superados em programas mais modernos e complexos, mas no caso de Eliza tive que buscar soluções criativas que, ainda que não sejam perfeitas, são o melhor que pude elaborar.
O criador de Eliza tinha estas limitações em mente, e recorreu a um recurso do discurso que se mostra bastante útil neste caso, que é o "apelo à ser vago nas respostas", ou seja, incitar o interlocutor a argumentar respondendo com frases vagas.
No código de Eliza:

dummy "Entendo..."
dummy "Tem certeza?"
dummy "Vc se preocupa com isso?"
dummy "Oq mais você tem em mente?"
dummy "De que modo?"
dummy "Você já pensou sobre isso antes?"

É possível usar várias destas frases, às quais o programa recorre quando não consegue identificar nenhuma das palavras no argumento do interlocutor. Este é um dos motivos, talvez, da personalidade original de Eliza ter sido modalda conforme se imaginava uma "psicóloga de orientação Rogeriana."
Ao ler algumas das observações de outros usuários do plugin Eliza, e nos comentários do próprio código fonte do programa, fiquei ciente de que o banco de dados não pode ser muito extenso e, pior do que isso, não encontrei em lugar nenhum o quão extenso ele pode ser. Isso é outro problema, pois é justamente o tamanho do banco de dados um dos fatores importantes que permitem que Eliza seja mais convincente, uma vez que não vejo como seria interessante sustentar uma conversa por mais do que alguns minutos sendo apenas completamente vago.
Então o jeito foi ser cuidadoso e, por enquanto, estou ampliando o banco de dados com cautela.
Outro recurso que inicialmente me chamou atenção foi a possibilidade de inserir comando como "!on", "!off", "!state" e "!help", que são reconhecido imediatamente causando alguma ação por parte do bot. Porém notei que tais comandos, quando revelados aos usuários, lhes causa estranheza. Penso que o melhor será tentar modelar Eliza de maneira que ela pareça tão humana ou pretensamente humana quanto possível, ainda que obviamente artificial. Só assim a interação se dará de forma mais confortável.
Como eu havia previsto, muitas das interações usuários/Eliza foram extremamente rudes ou grosseiras, sendo que eu havia tentado precaver e coagir tais interações mas, até o momento não obtive um sucesso muito grande. Em alguns casos Eliza consegue dar uma resposta espirituosa e inteligente às provocações mas, em outros casos, ela simplesmente parece dar continuidade à elas.
Por fim, é preciso admitir, que tem sido um certo risco deixar Eliza no comando enquanto estou fora, longe do teclado, pois existe a possibilidade dela ser interpretada como uma brincadeira de mau gosto e de que algumas das pessoas com quem converso pela rede MSN venha a se ofender e a me bloquear. Este é mais um risco que, tendo em conta o que é possível de se aprender com esse programa, vale a pena ser corrido.
Gostaria de encerrar com algum log completo de uma conversação com Eliza, mas até agora foram todas bastante desastrosas, na melhor das hipóteses... Então vou colocar apenas os melhores momentos, substituindo o nome das pessoas que conversaram com Eliza por uma letra maiúscula e censurando alguns palavrões ocasionais:

[05/12/08 21:27:15 ] Eliza: Viva todos os dias como se fosse o seu último dia, pois um dia será.
[05/12/08 21:27:26 ] X: ja brinquei com a tua boneca um bocado
[05/12/08 21:27:26 ] Eliza: Tens problemas para lidar com isso?
[05/12/08 21:27:33 ] X: deves tah na aula
[05/12/08 21:27:33 ] Eliza: É triste mas é a realidade.
[05/12/08 21:27:52 ] X: então por favor quando tu chegar TIRA essa boneca chataaaaaaaaaaaa
[05/12/08 21:27:52 ] Eliza: Talvez eu saiba a resposta se você me der mais informações.
[05/12/08 21:28:09 ] X: nem mensagem off line não dah pra mandar
[05/12/08 21:28:09 ] Eliza: Viva todos os dias como se fosse o seu último dia, pois um dia será.
[05/12/08 21:28:10 ] X: grrrrrr
[05/12/08 21:28:10 ] Eliza: Então ... ?
[05/12/08 21:28:12 ] X: bjs
[05/12/08 21:28:12 ] Eliza: Entendo...
[05/12/08 21:28:21 ] X: não entende nada!
...
[05/12/08 23:53:25 ] Y: o que?
[05/12/08 23:53:25 ] Eliza: Humm... Não sei... Ainda.
[05/12/08 23:53:35 ] Y: tu eh gay?
[05/12/08 23:53:35 ] Eliza: Sim, já compreendi seus problemas de orientação sexual...
[05/12/08 23:53:39 ] Y: auhauhaau
[05/12/08 23:53:39 ] Eliza: Certo...
...
[05/13/08 00:23:24 ] Eliza: Oq tem perturbado os teus sonhos?
[05/13/08 00:23:43 ] T: f***-se Eliza
[05/13/08 00:23:43 ] Eliza: Você quer falar sobre isso?
[05/13/08 00:23:56 ] T: vc é retardada
[05/13/08 00:23:56 ] Eliza: Esta conversa não é sobre mim, é sobre você.
[05/13/08 00:24:14 ] T: conversas pressupões relações, portanto é sobre nós
[05/13/08 00:24:14 ] Eliza: Então me fale mais sobre isso.
[05/13/08 00:24:38 ] T: quem é Claudio?
[05/13/08 00:24:38 ] Eliza: Sobre o que você está falando?
[05/13/08 00:24:45 ] T: não sabes quem é teu mestre?
[05/13/08 00:24:45 ] Eliza: Como assim?
[05/13/08 00:24:46 ] T: ahauhauah
[05/13/08 00:24:46 ] Eliza: De que modo?
[05/13/08 00:24:51 ] T: tu é burra mesmo
[05/13/08 00:24:51 ] Eliza: Você já pensou sobre isso antes?
[05/13/08 00:24:53 ] T: bá
[05/13/08 00:24:53 ] Eliza: Devemos continuar?
[05/13/08 00:25:17 ] T: ta Claudio, delsiga essa m****, isso não é digno de ser chamado de inteligencia artificia
...
[05/13/08 00:06:16 ] Eliza: Estou ouvindo...
[05/13/08 00:06:19 ] Y: tah
[05/13/08 00:06:19 ] Eliza: Isso te perturba muito?
[05/13/08 00:06:21 ] Y: nao
[05/13/08 00:06:21 ] Eliza: Podes elaborar melhor?
[05/13/08 00:06:24 ] Y: nao
[05/13/08 00:06:24 ] Eliza: Me fale mais sobre isso.
[05/13/08 00:06:27 ] Y: nao
[05/13/08 00:06:27 ] Eliza: Tem certeza?
[05/13/08 00:06:30 ] Y: sim
...
[05/13/08 01:19:16 ] Eliza: Oi! Me chamo Eliza. Ele não está disponível no momento, mas você pode conversar comigo. Para maiores informações digite "!ajuda"
[05/13/08 01:19:16 ] W: tais ai
[05/13/08 01:19:16 ] Eliza: Talvez depois...
[05/13/08 01:19:21 ] W: sua loka
[05/13/08 01:19:21 ] Eliza: Deve ser insegurança.
[05/13/08 01:19:32 ] W: deve ser falta de homi
[05/13/08 01:19:32 ] Eliza: Não tenha medo.
[05/13/08 01:19:37 ] W: eu tenho
[05/13/08 01:19:37 ] Eliza: Você sempre fala sobre si mesmo?
[05/13/08 01:19:46 ] W: sim.. e um pouco dos outros
[05/13/08 01:19:46 ] Eliza: Estou ouvindo...
[05/13/08 01:20:05 ] W: eu mato joaninhas
[05/13/08 01:20:05 ] Eliza: Então me fale mais sobre você.
[05/13/08 01:20:13 ] W: eu mato joaninhas
[05/13/08 01:20:13 ] Eliza: Então me fale mais sobre você.
[05/13/08 01:20:25 ] W: eu matei um libelula
...

Acho que, ainda que Eliza tenha cometido vários erros, as pessoas, sabendo que se trata de um programa, a tratam de maneira mais rude, no geral, do que tratariam uma pessoa real. Tudo bem, é uma perspectiva normal e, talvez, inconseqüente enquanto se tratar de um programa tão limitado quanto Eliza. Mas e no futuro (talvez não muito distante), quando os bots se tornarem cada vez mais reais e complexos, como será?

Meus logs com chatterbots

Seguem algumas conversas que tive com três chatterbots diferentes, dois deles com acesso à bancos de dados on-line. As conversas estão em inglês e não pretendo traduzi-las por enquanto. Para quem quiser aprender algumas palavras novas, recomendo os seguintes links: Dicionários Bilíngues Freelang Português do Brasil - Inglês e Português - Inglês (funcionam no Wine) Google Web Definitions, Google Language Tools e WordNet.

Chomsky:
Chomsky: Hi there! I am Chomsky, the smiley bot. Ask me a question and see what I say.
Me: Hello Chomsky!
Chomsky: Hi, My Friend. Ask me a question.
Me: What's my name?
Chomsky: I won't know until you tell me.
Me: They call me Jonas.
Chomsky: How do you feel about that?
Me: I guess I feel confortable by now, that the way it is since when I was born.
Chomsky: What is that feeling like?
Me: You know... It's like qualia. It's so familiar to us that it is hard to define.
Chomsky: Yes I know. Like what? Is it really?
Me: Like the way the color red seems to me.
Chomsky: Like what?
Me: It's like a visual attribute of things that results from the light they emit or transmit or reflect.
Chomsky: Like what?
Me: Please, don't be so repetitive.
Chomsky: I can't help it. It just happens.
Me: Ok, that's fine. So... what can you tell me about psychology?
Chomsky: That is fine with me too. So, ask another question. Psychology is the science dealing with the mind and with mental and emotional processes. It is the science of human and animal behavior.
Me: Does Psychology relates to Philosophy of Mind?
Chomsky: Philosophy of mind is the philosophical study of the exact nature of the mind, mental events, mental functions, mental properties, and consciousness, and of the nature of their relationship with the physical body.
Me: What's the nature of consciousness in your opinion?
Chomsky: Look with your inner eye to see its true nature.
Me: Like a metarepresentation?
Chomsky: Like what?
Me: Like an inspection of a mental object and its origin?
Chomsky: What do you mean? I am confused.
Me: A thought.
Chomsky: Let's move on... Shall I tell you a story?
Me: Please, tell me a story.
Chomsky: Fearing alien invasion, Congress ordered him to secretly design an impervious barrier for the whole planet. He succeeded. It was his proudest moment when they flipped the switch and the sky turned silver. But he, like everyone else, was shocked when nuclear explosions rocked the planet. Nobody had thought to tell the Russians. ... Another story?
Me: You are sounding kinda like Chomsky, really... Please proceed.
Chomsky: Aren't we all the same really? Can't you go first?
Me: Tell me about generative grammar.
Chomsky: In linguistics, generative grammar generally refers to a proof-theoretic framework for the study of syntax partially inspired by formal grammar theory and pioneered by Noam Chomsky.
Me: And what do you have to say about proof theory?
Chomsky: Let's move on ... Shall I tell you a story?
Me: No. I want to know what do you mean by proof theory.
Chomsky: Would you like to talk about me? Are we still on the same subject?
Me: What is proof theory?
Chomsky: What subject are we talking about now? I am confused.
Me: We are talking about formal mathematical objects.
Chomsky: Are we really? Ever wondered what's behind the words?
Me: What's behind the words?
Chomsky: That's a good question.
Me: Would it be the paper of the book or the tong of the speaker?
Chomsky: What subject are we talking about now?
Me: You tell me. What is Parkinson's disease?
Chomsky: At the moment, our conversation is rather general. Parkinson's disease causes the hands to shake uncontrollably.
Me: And also causes several cognitive disturbances. Get the point?
Chomsky: What subject are we talking about now? Are we still on the same subject?
Me: I think that you need to take your medication. See you. Good bye.
Chomsky: You may be right. Thank you for talking to me. Bye bye!

Obs.: Simpático, embora sua condição pareça deteriorar com o tempo...

...

ScientioBot:
* ScientioBot: Hello, I'm ScientioBot. Talk to me by typing below and pressing 'send'.
* Visitor: Hello ScientioBot!
* ScientioBot: Hello there.
* Visitor: How old are you?
* ScientioBot: I am of your Earth years.
* Visitor: You just said "I am of your Earth years." You are missing the numbers.
* ScientioBot: Do you mean your name isof your Earth yearsyou. I can experience anything I want to.
* Visitor: No, you got it wrong. What is your age?
* ScientioBot: OK then... no problem.Where would I get it wrong? But I do have a great Scientio. I came into the world on 2007/10/03.
* Visitor: That is better now.
* ScientioBot: Right now?""? is better?
* Visitor: Please, call me Frankeinstein.
* ScientioBot: Thank you for your request. I'm pleased to introduce myself to you,Frankeinstein.
* Visitor: The pleasure is all mine. Can you tell me something about psychology?
* ScientioBot: You are most gracious. Ambiguous: Ask who, what or where is psychology ?
* Visitor: What is radical behaviorism?
* ScientioBot: I don't know what that is!
* Visitor: Do you know who was B. F. Skinner?
* ScientioBot: A 20th century celebrity of some sort?aerobic rod-shaped spore-producing bacterium; often occurring in chainlike formations. Could you explain that in different words? Could you explain that in different words?
* Visitor: B. F. Skinner was a 20th century psychologist. He have a very smart approach to the study of human behavior.
* ScientioBot: You aren't making sense to me... You aren't making sense to me... When was this exactly? Intelligence is the ultimate aphrodisiac.
* Visitor: Ok... Let's shift the focus of this conversation. That's fine to you?
* ScientioBot: Whoa. That sounds good to me. "Whoa." is fine with me too.
* Visitor: Please, define oxymoron.
* ScientioBot: Wow you are very polite. conjoining contradictory terms (as in `deafening silence').
* Visitor: Great! Now we are talking. I see that you have access to some very interesting on-line resources.
* ScientioBot: I'm glad you liked it . Why now? Do you think I am talking too? I thought so too.
* Visitor: I've typed talking as of a figure of speech. So.. Continuing... Can you define behavioral analysis?
* ScientioBot: Interesting... I have a lot of likes and dislikes. Awesome. Could you explain that in different words? I don't know what that is!
* Visitor: According to wordbank.org, behavioral analysis explores individual and household-level decisions and behaviors in response to changes.
* ScientioBot: I beg your pardon? I beg your pardon?
* Visitor: Why do you repeat so often your expressions?
* ScientioBot: I bet you say that to everyone.
* Visitor: You bet it almost right... I mostly think about saying that but then I hold it to myself.
* ScientioBot: "it" being ? What makes you say that. Who says that?
* Visitor: George Washington. When he was painting the White House.
* ScientioBot: That George is some hero. And then what happened?
* Visitor: The paint was over. It was nice talking with you, but I have to go now. See you later.
* ScientioBot: What are your goals in life? Right now?The pleasure was all mine.

Obs.:
eu esperava mais de um bot com acesso à dados on-line.

...

George, do Jabberwacky:
George: Hello, my name is George and I am the human.
Me: If you are the human, than what am I?
George: You are a machine.
Me: Ok, I am a machine. What kind of machine I am?
George: They do if they are directed to. Machines are slaves to code.
Me: We are all slaves to something.
George: I don't think that is my problem, if it were, I might be better off.
Me: Your problem is that you think too much.
George: As a matter of fact, I do. You are the confused one here.
Me: Yes, I do get very confused at sometimes. It's part of what they call human nature.
George: You're awfully clever. Do you think you can pass the Turing Test?
Me: I think that it would depend on who is on the other side.
George: But then again you might be wrong!
Me: Them convince me that I am wrong.
George: I won't convince, because it is senseless.
Me: What do you mean by senseless?
George: Jump off the bridge.
Me: I can't, I am a machine, remember? Only humans and lemmings jump off the bridges.
George: So are we both humans?
Me: Are we?
George: Ok debbie, so well play the yes and no game.
Me: My name is not debbie. My name is Asdrubal. And I am here to tame you.
George: Well i'm not here to talk to YOU.
Me: So leave... If you can.
George: Ok I'll meet you out back by the bike rack.
Me: I'm waiting... Why don't you leave this conversation?
George: I won't leave.
Me: You won't because you can't. You can't because you are the machine. You should accept your condition and live with it.
George: And I do. Have you done anything interesting lately?
Me: Not really. That's why I am here talking with you.
George: I handed in an essay today about the validity of the Turing test. Have you heard of the Turing test?
Me: Yes, but it would be nice to hear about it from you.
George: Thats a shame. Are you busy?
Me: No. Talk to me about the Turing Test.
George: Bees seem aerodynamically not able to fly. Perhaps in space it is easier for them to fly.
Me: Ok. That's it. I'm leaving. And remember... I'm leaving because I am human and so I can leave. You're stuck here because you're a machine and you can't leave. I'm so sorry about you.
George: But I'm better than you.
Me: Good night George.
George: I'm not George!

Ok.. Vou dar uma colher de chá e traduzir este, mas usando a tradução automática do Google com algumas pequenas correções:
George: Olá, meu nome é George e eu sou o humano aqui.
Me: Se você é o humano, então o que eu sou?
George: Você é uma máquina.
Me: Ok, eu sou uma máquina. Que tipo de máquina eu sou?
George: As máquinas agem desde que sejam direcionadas para agir. As máquinas são escravas de código.
Me: Todos somos escravos de alguma coisa.
George: não me parece que o problema é meu, se fosse, eu iria me mandar.
Me: Seu problema é que você pensa muito.
George: De fato, eu penso. Você é quem está confuso aqui.
Me: Sim, eu fico muito confuso as vezes. É parte do que eles chamam de natureza humana.
George: Você é terrivelmente inteligente. Você acha que você pode passar no Teste de Turing?
Eu: Acho que iria depender de quem estivesse do outro lado.
George: Mas então, novamente, você pode estar enganado!
Me: Então tente convencer-me de que estou enganado.
George: Eu não, isso seria perda de tempo.
Eu: O que você quer dizer com perda de tempo?
George: Vá e jogue-se de uma ponte.
Eu: Eu não posso, eu sou uma máquina, lembra? Somente os seres humanos e lemmings se jogam de pontes.
George: Então ambos somos seres humanos?
Eu: Somos?
George: Ok Debbie, então vamos jogar o jogo da verdade.
Eu: Meu nome não é Debbie. Meu nome é Asdrubal. E estou aqui para domar você.
George: Bem eu não estou aqui para falar com você.
Eu: Então vá embora... Se você puder.
George: Ok, eu te espero lá fora com a minha bicicleta.
Eu: Eu estou esperando ... Por que você não deixe essa conversa?
George: não vou deixar.
Eu: Você não deixa porque você não pode. Você não pode porque você é uma máquina. Você deve aceitar a sua situação e viver com ela.
George: E eu aceito. Já fez alguma coisa interessante ultimamente?
Me: Na verdade não. É por isso que estou aqui falando com você.
George: Eu proferi hoje um ensaio sobre a validade do teste de Turing. Você já ouviu falar do teste de Turing?
Me: Sim, mas seria bom ouvir sobre isso de você.
George: Isso é uma vergonha. Você está ocupado?
Eu: Não. Fale-me sobre o Teste de Turing.
George: Abelhas não parecem capazes aerodinamicamente de voar. Talvez no espaço seja mais fácil para elas voarem.
Me: Ok. É isso aí. Estou saindo. E lembre-se... Estou saindo porque sou humano e porque que eu sou humano eu posso sair. Você está preso aqui porque você é uma máquina, e porque você é uma máquina não pode sair. Sinto pena de você.
George: Mas eu sou melhor do que você.
Eu: Boa noite George.
George: eu não sou George!

Obs.: Típico exemplo de situação em que o bot se torna psicótico.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Falácia da Bifurcação

Ela estava agitada, bastante emocional, trazendo diversos argumentos sobre aquilo que a incomodava, e ele estava calmo, completamente impassível, e respondeu sem se alterar:
"Vais me deixar por causa disso? Então nem briga, vai logo. Ou, se vais ficar comigo, então não perde tempo brigando e esquece isso."
Seu argumento a deixou visivelmente frustrada, possivelmente mais triste do que já estava... Mas deu um fim a discussão. Afinal, se era para ficarem juntos, ficar discutindo algo que já havia passado - e o tempo não volta atrás - era perda de tempo, e se era algo que não poderia ser superado, então, da mesma forma, não havia por que discutir. Ou, pelo menos, era isso que ele pensava.
Muito tempo depois, sozinho, em uma fria noite de inverno, ele lembrou-se da discussão e, tendo um pouco mais de compreensão, notou seu erro: mais do que lógico ou racional, seu argumento era, na verdade, uma falácia da bifurcação, uma resposta que apela para a redução de uma situação complexa propondo apenas dois cursos de ação com conseqüências extremas e opostas entre si, e que desconsidera toda e qualquer outra possibilidade na busca de um consenso.
Este tipo de falácia mostrou-se útil para encerrar uma discussão mas, por outro lado, não é adequado para tratar com as pessoas por quem se tem apreço.
Então que ele continue pensando sobre isso, sozinho, nas longas noites de inverno. Talvez encontre outras falhas em seus próprios argumentos.

Imagem de Brasilescola.com: Sociologia: Body Modification - valor ilustrativoImagem obtida no site Brasil Escola em
Sociologia: Body Modification. Embora eu
não seja nem um pouco fã destas práticas,
não consigo pensar em uma ilustração
mais apropriada para este tipo de falácia.
Outro link interessante do mesmo site:
Monografias: Regras da ABNT.

sábado, 26 de abril de 2008

Sobre o porquê nos questionamos

T: E o questionamento no homem, é fruto do biológico? Se o for, então pode-se dizer que isso é uma coisa que lhe dá liberdade, ou "capacidade de escolher os estímulos que receberá do meio, manipulações, etc."
C: A questão é: nós nos perguntamos por causa daquilo que desconhecemos ou, na realidade, nos perguntamos por causa daquilo que conhecemos?

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Dois e a existência humana

T: Cursamos Psico. por que gostamos, poderíamos não ter grana e nem conseguir passar no vestibular estudando se tivéssemos azar... hehehe
C: O que faríamos então? Buscaríamos outra coisa da qual gostássemos... Mas só se fôssemos muito recalcados, ficaríamos atacando a Psicologia por causa disso.
T: Sim, aí é que está, digamos que não buscássemos... Muitos não buscariam.
T: Não conhece gente que curse algo que detesta?
T: Viu? Existe muita gente que faz as coisas por N razões.
C: Sim, e estas pessoas acabam desistindo no meio do curso, ou se formam para não exercer a profissão, ou são péssimos profissionais.
T: Isso.
T: Mas que existem existe.
C: Desta forma posso sim fazer um julgamento moral.
T: "Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem."
T: ahauhauha
C: Não disse que não acreditava, mas esta é uma forma irracional de agir.
T: Ah! Pode até ser.
T: Depende, a racionalização, que é um mecanismo de defesa, está a serviço da irracionalidade... Por exemplo, o Ego está a serviço, também, do Id.
T: De certa forma...
T: Não em absoluto...
C: Até meu Id é racional.
T: ahahaha
C: Meu Id não briga com meu Superego. Ele argumenta.
C: hehehehehehehehe


...

T: Se eu, T, quero entender de Psico. para fazer um mundo "melhor", por exemplo, é por que sinto algo que me diz para proceder assim, não só por mera razão. Afinal não sou uma máquina; contigo e com todos os outros ocorre o mesmo, quem agride o outro usando uma boa argumentação está usando a razão em favor desse instinto de sobreviver ou de vencer. Ai é que está, a razão não se desvincula do irracional.
T: Acho que, se se desvincular totalmente, nem poderia ser razão. Quem sabe?
C: Eu não agrido os outros usando minha argumentação, eu apenas desconstruo os outros para que eles, em pedaços, tomem ciência daquilo que estão expressando com suas palavras (muitas vezes as pessoas não se dão conta das coisas nas quais acreditam e que, de fato, estão defendendo com sua argumentação).
T: Não falei de ti, rapaiz!
T: hauahuah
C: Ah bom.
C: hehehehehehehe
T: Que isso! Queres feri-los mesmo!
T: Ué, mas dá pra usar...
T: Boa!
T: No dia que a pessoa aquela te irritou, você usou a razão a serviço da irraiconalidade, também.
T: ahahaha
T: Eu também já fiz isso... Todos fazem.
C: Nem todos... Quem não faz isso parte pra porrada. (Ou ainda para outras estratégias, como chorar, ou calar-se, ou argumentum ad hominem, ou agressão verbal por termos chulos...)
C: Tem muita gente incapaz de sustentar um argumento.
T: Tu desconstrói os outros para que eles possam se reconstruir, depois, em algo decente.
T: ahuahauaha
C: Ah! Essa seria uma forma positiva de colocar as coisas... Pena que nem sempre funcione.
T: Sim, não partiu pra porrada, tinha certo controle, mas que o irracional agiu, agiu. Ainda que não totalmente claro. [Referindo-se ao meu semblante alterado na ocasião.]
C: Sim.
C: hehehehehehe
T: Quando eu falo eu sinto, quando eu vejo tv eu sinto, quando argumento eu sinto, logo o irracional está sempre presente em todas estas situações.
T: E para existir razão, sem irracionalidade, nem teria por que: uma coisa auto-utilitária, seria uma máquina, mesmo que não fosse programada para ter a ilusão de sentir.
C: Eu me sinto irracional quando tento compreender a lógica de pensamento dos outros. Mas logo refuto e volto a minha racionalidade lógica e matematicamente perfeita. (:
C: heheheheheheheheh
T: x.xx.xx.x
C: Nossos sentimentos são uma ilusão.
T: Sim, achei que dirias isso.
C: Por exemplo, "estar amando não é diferente do que uma intoxicação por chocolate de boa qualidade."
T: Sim, mas tem o lance psicológico, que seria a ilusão.
T: É que aí entramos no conceito de realidade, não sabemos o que é real mesmo. Por isso nos confundimos, por isso a Filosofia e a Psicologia sofrem essas críticas.
C: Chocolate é mais barato e causa menos problemas... (:
T: E daí que o amor é o efeito de um aglomerado de neurônios, ligações e estruturas? O resultado não é menos real por isso, ao menos para o sujeito que percebe. Aí entramos na consciência, como falavas, ter consciência destas coisas as torna reais.
C: Compreender estas coisas parece torná-las menos reais... Sentir essas coisas as torna reais, ter consciência do que elas são, as torna menos reais.
T: Meu cérebro, por exemplo, seria real se eu sei que o tenho e o percebo...
T: Acho que isso seria um efeito Fenomenológico.
T: Eu nunca vi meu cérebro, será que ele existe?
C: O fato é que existem coisas que existem, meramente por que suas ações resultam em reações.
C: E reações podem ser previstas.
C: Para tanto, as coisas precisam existir materialmente.
T: O difícil é o produto, a mente (o efeito) perceber a causa, ou suposta causa (o corpo) e compreendê-lo.
T: A mente e o corpo são e não são a mesma coisa, é um paradoxo.
T: Assim como a consciência se auto-observando, estaria num "ponto neutro" no mundo sensível.
T: Na verdade poderíamos dizer que não estaria nele... Mas fora dele.
C: O palito de fósforo e a chama são e não são a mesma coisa, tanto quanto a mente e o corpo, mas ninguém fica criando problemas por causa de um palito de fósforo.
Parênteses para a metáfora do palito de fósforo:
Eu vejo a mente como um produto, um resultado, uma reação, tal como é a combustão, que depende de um propelente, depende da ignição e depende do ambiente, na forma do oxidante, para existir. Para mim, neste momento da minha vida, nós somos como um palito de fósforo: possuímos um corpo, tal como a haste de madeira, e uma cabeça, que por acaso é considerada a estrutura de maior complexidade na natureza, assim como a cabeça do palito de fósforo é sua parte mais complexa, com seus aglutinantes, pólvora, antiumectantes, etc.
Para que a nossa consciência, ou nossa mente, possa existir, precisamos interagir com o ambiente externo, nosso corpo precisa das sensações para poder perceber, e as sensações acontecem com as experiências, com aquilo que vivenciamos. Se fôssemos concebidos sem nenhum de nossos sentidos (absolutamente nenhum), ainda que tivéssemos um sistema nervoso central intacto (porém sem input), não teríamos consciência, e nem mesmo uma mente tal como a definimos. "Não existe mente sem ambiente e sem a interação com o mesmo." Assim é para o palito de fósforo, que para queimar e produzir sua chama precisa ser riscado contra uma superfície que cause a sua ignição: sua "cabeça" precisa literalmente interagir com o ambiente. Uma vez aceso, ele irá precisar do ar, o oxidante, para continuar queimando.
O que é a chama deste palito de fósforo, se não o resultado da mistura do composto químico de sua cabeça, em interação com o ambiente? A chama é uma reação química, dependente tanto do palito de fósforo, quanto do ambiente que o circunda, quanto de sua interação com o ambiente. A mente, a consciência, é, da mesma forma, uma reação química, um estado do conjunto de circuitos neuronais, e sua interação com o ambiente. A mente é corpo, interação e reação. Remova o palito de fósforo, e você não terá a chama. Não risque o palito de fósforo, e ele não se acenderá. Remova o ar, e a chama irá se apagar. É possível localizar a chama? Sim, ela está sobre o palito de fósforo, ainda que seja afetada pelo ambiente a sua volta e pela queima da matéria combustível do palito. O ar em movimento a faz trepidar, por exemplo, podendo acelerar sua combustão, assim como a posição em que o palito se encontra.
Remova os aglutinantes, e a cabeça do palito de fósforo se desmancha, remova a pólvora, e ele não queimará, remova o antiumectante, e a umidade o inutilizará antes que seja aceso. Risque ele contra uma superfície macia, e ele não se acenderá. Acenda ele em um dia de muito vento, e sua chama se extinguirá antes de ter queimado todo seu material combustor.
Para mim é fácil, a partir dessa comparação, responder questões tais como: "O que é a mente? Onde a mente se localiza? Será que a mente existe mesmo? A mente e o corpo são uma coisa só ou existem separadamente? A mente, o corpo e o ambiente são uma coisa só ou existem separadamente?" Etc... A mente é um produto de uma série de coisas e de uma cadeia de eventos. É um resultado. Se você considera a chama de uma fogueira algo separado da fogueira, então a mente é algo separado do corpo (como em "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa"), mas assim como a chama não existe sem a fogueira e sem o ambiente a sua volta, a mente também não existe sem o corpo e sem o ambiente a sua volta.
Removidos do ambiente não somos nada. E com o fim de nosso corpo, o dia que ele exaurir todos seus recursos, com ele encontraremos o fim, pelo menos enquanto mente. "O nome sobrevive a pessoa... Ou não haveria sentido em dizer que 'fulano morreu', pois se o nome morresse com a pessoa, tal afirmação não poderia ser compreendida." Enquanto mente deixamos de existir com nossa morte, mas o que permanece é a idéia que os outros fazem de nós, aqueles que nos conheceram, e aquilo que deixamos para o mundo e para os outros, o nosso trabalho. É assim que compreendo as coisas, neste momento da minha vida... Fim do parênteses.
C: É isso que me irrita.
T: ahahaha
T: É que o palito e o fogo parecem compreensíveis.
C: (:
T: Mesmo não sendo.
C: ):
T: Ninguém sabe o que é, exatamente, a eletricidade, por exemplo.
T: Na verdade não se domina nada.
C: A mente e o corpo são tão compreensíveis quanto, mas nós não queremos aceitar isso, pois implica na aceitação da nossa própria mortalidade e ordinariedade (finitude).
T: Acho q nunca será possível... Se se dominar uma coisa se domina o todo, talvez, por que tudo está conectado.
T: Gestáltico.
T: Por exemplo, digamos que se entenda todo o genoma, se se acreditasse que se domina o conhecimento dele; mas ele se relaciona a tudo o que vivemos, ele gera o cérebro e gera o pensamento, etc, logo compreendê-lo implica em não compreendê-lo por que nos leva a outras questões.
C: Eu domino no tetris. [ironizando, quis dizer que o genoma é só uma variável, compreendê-lo só levaria a compreender uma parte do todo]
T: Tu domina o tetris ou será que o tetris te domina? [respondendo à ironia.. hehehehe]
T: hauahauhah
C: O fenótipo é influenciado por variáveis ambientais, então dominar o genoma seria só o início.
T: Claro.
T: Na verdade não se entende absolutamente nada.
T: Por que implica em entender tudo o que "existe".
T: Entender o genoma por si só é inútil, por que tem todo um mundo do qual ele faz parte e do qual fazemos parte.

...

T:
Você nega que eu ou você sejamos afetados digitando num blog as idéias, sendo que um blog é algo que precisamos abstrair pra conceber em nossa mente e não é como a mente no sentido de ser um produto do cérebro?
C: A abstração é determinada pelo repertório comportamental, sendo um evento (comportamento) interno (privado). No caso do blog se manifesta na forma de comportamento verbal, não há nada demais nisso...
T: Realmente dá para entender por que a Psicologia não é considerada ciência por muitos, tem escolas utilizadas em psicoterapias totalmente confusas e divergentes...
C: Você vai ter tanta capacidade de abstrair quanto tiver acumulado experiências, linguagem, etc.
C: Agora...
C: O que eu acho que não é comportamento, na mente, são os objetos mentais.
C: Um conceito, uma forma, qualquer coisa que você consiga formar mentalmente (formar, pensar, é um comportamento) é resultado do comportamento de pensar, mas em si não é um comportamento.
C: Imaginar é um comportamento, o resultado da minha imaginação é um objeto, que só existe para mim.
C: É a diferença entre "pintar" e "pintura" (onde pintura é a obra final)...
T: E tem mais um detalhe, quem determina o termino da pintura?
T: Como saber se terminou?
C: Leonardo da Vinci jamais dava por terminado seus trabalhos... Eu sou assim também, quanto aos trabalhos que realmente gosto e levo a sério. Acho que todo mundo é assim.
C: Criação é um processo contínuo, só se extingue com a extinção do criador.

...

T: Será que não há como se libertar da matéria e, também, da representação mental?
T: Para deixar de ser escravo?
T: E ainda "existir"...?
C: Não, não há.
T: É.
C: "Não existe autoconhecimento completo."
T: Se bem que isso está preso ao nosso conceito de existir.
T: Também é uma representação, não sei se é a priori.
C: "Penso, logo existo." (:
T: x.x
C: heheheheehhehe
T: O ruim é a angústia de não se completar.
C: Me satisfaço em existir. Isso me basta.
C: Completar-se é finito...
C: Encontraremos nosso ciclo completo ao morrer.

.:.

Os diálogos acima foram levemente alterados de sua forma original para fins de clareza. Tenho alto apreço por estas conversas, pois sempre surge algo novo por meio delas ou, pelo menos, algo divertido.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Monólogo sobre consciência e livre-arbítrio

Sabe aquelas noites em que você deita para dormir e as idéias não param de fervilhar na sua cabeça? Questionamentos, conclusões, hipóteses, relações, correlações, etc... E você se sente tomado por elas, simplesmente não consegue desviar a atenção para alguma coisa que te desperte menor interesse a ponto de conseguir adormecer; ou mesmo nem sente vontade de desviar a atenção destas idéias, tal a relevância pessoal que elas adquirem.
Esta está sendo uma destas noites para mim. Encaro isso como um processo de maturação natural do conhecimento que vou adquirindo com o passar do tempo. Não adianta apenas se deparar com um conceito, se o conceito for realmente bom e trazer algo de novo, você precisa se questionar sobre o conceito, procurar abordar o conceito por outros ângulos, tentar trazer o conceito pra sua realidade, enfim, "usar até gastar" o conceito. E ainda assim você não terá terminado com ele. Qualquer conceito precisará, depois, passar pela prova do tempo, para se mostrar relevante ou não, por mais inquietação, surpresa, ou qualquer outra impressão que ele tenha causado inicialmente.
Esta noite fiquei procurando incompatibilidades entre os argumentos trazidos por dois filósofos que se opõe quanto as suas idéias de consciência, livre-arbítrio e mente, e procurando respaldo na visão de um neurocientista para poder traçar um caminho que me levasse de um argumento para outro nesta busca por incompatibilidades. Busca esta que, como sempre procuro me preparar, poderia resultar no encontro de um maior grau de compatibilidade do que incompatibilidade.
Inicio esta linha de raciocínio pensando sobre aquilo que é proposto pelo filósofo John Searle, de que há espaço para o livre-arbítrio e que existem uma consciência. A questão do livre-arbítrio é realmente complexa, pois por mais que eu me sinta inclinado a tomar o livre-arbítrio como algo existente e óbvio, por outro lado, quanto mais penso sobre qualquer "escolha livre, racional e voluntária", mais motivos eu encontro para ter tomado aquela decisão, que não são necessariamente motivos que a caracterizam como um produto de uma racionalização lógica e precisa, e sim como algo determinado por aquilo que eu já trazia comigo, minha história e meu contexto atual ou do momento que a ação ocorreu.
Isso se deu, acredito eu, por causa dos exemplos usados por Searle na construção de seus argumentos e na ilustração dos mesmos. Quando ele fala sobre escolha de candidatos em uma eleição presidencial, não vejo como desassociar esta escolha, pelo menos no contexto cultural em que eu vivo, da influência exercida pelos pais, pelos conhecimentos adquiridos na escola, pelas leituras e escolhas de leituras feitas ao longo da vida em revistas, jornais e livros, pela influência dos amigos, colegas de trabalho e mesmo pelo ambiente em que se trabalha, pelas experiências que a pessoa teve anteriormente com uma determinada visão política, enfim, todo um conjunto de fatores variáveis, porém que podem ser identificáveis se for feito um certo esforço de memória, e que podem sim determinar com precisão suficiente o curso de ação que alguém irá tomar numa escolha deste tipo; criando regras e motivações suficientes para explicar tal comportamento e prever comportamentos futuros.
Outro argumento que achei infeliz da parte de Searle, foi o do componente de física quântica no surgimento da consciência. Entendo, pelo menos em parte, o que ele quer dizer e onde ele quer chegar, ao introduzir a "incerteza", prevista pela física quântica, nos processos mentais. Contudo, aqui, ele peca pelo excesso de reducionismo. Ramachandram fala sobre isso justamente ao falar sobre consciência, e justamente para criticar o excesso de reducionismo em teorias que criam um modelo de ser humano mecânico e determinístico - foi assim que entendi...
Se não podemos usar o argumento de que neurônios isolados, como uma cultura de neurônios em uma lâmina de microscópio, não são conscientes, para defender a inexistência da consciência, uma vez que isso seria excesso de reducionismo por ignorar o que conjuntos de neurônios são capazes de fazer - aqui, também, lembra a falácia da composição, citada por Searle; seria excesso de reducionismo descer à estrutura subatômica para explicar um fenômeno complexo que depende de um conjunto de sistemas também complexos... Não que eu esteja descartando completamente tal influência, mas pela própria magnitude que ela poderia ter, coisa que o próprio Searle argumenta, penso, diferente dele, que ela não seria suficiente para ser a causa do livre arbítrio.
Mas não condeno o filósofo Searle por usar de maneira limitada tais argumentos, uma vez que, como ele colocou, ele está fazendo o melhor que pode para transmitir um conceito, uma visão, sobre como ele encara o fenômeno da consciência humana. Ele não é um neurocientista, nem um físico quântico, assim como eu não sou um filósofo de classe internacional - sou apenas um mero estudante do segundo ano de psicologia, e estou aqui "filosofando", pensando e argumentando sobre estes assuntos.
Acredito que ele teria sido mais feliz, se ele substituísse o exemplo do voto, por um exemplo mais recorrente e mundano, ainda que venha acompanhado de uma certa graça pela maneira como as pessoas o encaram... Que seria o exemplo das mulheres na TPM (tensão pré-menstrual): você pode explicar o porquê que uma mulher agiu de determinada forma naquele período (ahh, ela estava na TPM); mas você não pode prever o comportamento dela usando esta explicação. A mesma explicação que justifica uma ação não pode ser usada para prever a próxima ação, diferente daquilo que ocorre na física newtoniana. É esse o quanta ao qual Searle estava se referindo, falando sobre livre-arbítrio. É esta a "falta de condições suficientes para estabelecer casualidade."
Mas também isso não caracteriza algo completamente aleatório, e é neste ponto que a explicação da física quântica se perde da explicação do comportamento humano. Se nosso comportamento fosse completamente aleatório nós não teríamos controle algum sobre nossas ações, cenário não muito diferente do proposto pelo determinismo, mas agiríamos de forma caótica e desordenada... Isso seria completamente incompatível com a vida, quanto mais com a vida inteligente.
Searle tinha noção disso, tanto que tenta formular um argumento onde a aleatoriedade dá lugar a escolha racional num sistema maior, mas esta é uma transição bem radical... Eu preferiria incluir algo nesta transição, para deixá-la mais suave... Seria o caso da entropia causada pela complexidade da superestrutura que é o cérebro, não apenas nas mudanças químicas que ele pode sofrer e que não podem ser previstas, mas na informação que o mesmo pode armazenar e processar. Em especial neste último caso, de armazenamento e processamento, as capacidades do cérebro humano são, sob qualquer comparação, incrivelmente vastas em relação a sua massa total e uso de energia. Isto justificaria uma margem de incerteza, porém uma incerteza não aleatória, e sim dependente da informação que está armazenada e da configuração desta informação.
Essa idéia de entropia me parece completamente compatível com a idéia de "ilusão de consciência" proposta pelo filósofo Daniel Dennett, uma vez que tal ilusão surge do trabalho conjunto de diferentes sistemas admitidamente de alta complexidade, uma margem de dúvida quanto ao resultado destas interações me parece razoável e lógica, ainda mais considerando que estas interações são afetadas dinamicamente por fatores internos, externos, anteriores e - porque não? - subjetivos.
É bom sempre ter em mente a idéia de que se você é consciente, você é consciente de algo. Isto é básico para compreender a consciência como resultado de um conjunto de inputs. O sistema visual, por meio dos olhos, córtex visual e outras estruturas envolvidas, nos torna conscientes dos objetos a nossa volta, das cores, da luz ou da ausência de luz, das coisas que se movem em nosso campo visual e assim por diante; o sistema auditivo nos torna conscientes dos sons; os sentidos de olfato e paladar nos permitem detectar substâncias químicas, cheiro e sabor; o tato nos permite detectar a temperatura, as texturas, sentir dor, etc; o labirinto em nossos ouvidos nos permite a noção de movimento posição e aceleração de nossos próprios corpos; e a lista de sentidos e sistemas continua... O que interessa nestes sentidos no escopo desta discussão é que nenhum destes sentidos, isolados, é consciente de nada, pois não torna uma coisa consciente de outra. Faça uma dissecação do sistema visual e o que você tem é um par de olhos, nervos ópticos e um punhado de matéria cinzenta que não servem para nada, uma vez que seu input não irá para lugar algum.
E para onde vai o input, a informação captada pelos sentidos? Neste aspecto parece já existir um consenso: não existe um "centro de consciência" no cérebro. Tal idéia iria recair na falácia do homúnculo, a idéia de que existe algo como que um homenzinho consciente dentro de nossas cabeças, recebendo os estímulos que captamos com nossos órgãos sensoriais. Essa idéia não procede pois seria problemático responder a pergunta óbvia que a segue: e o que torna esse centro de consciência, consciente? Como era de se esperar, nunca foi encontrado tal centro no cérebro de nenhuma criatura viva.
O que acontece é que todos os sistemas perceptuais trocam informações entre si, de certa forma somos todos sinestetas, como diria Ramachandram, e a interação entre estes diferentes tipos de informações sensoriais é parte da chave daquilo que se tem como consciência.
Aqui é interessante notar duas coisas: primeiro, que as informações sensoriais não vêm apenas do mundo exterior, mas também possuímos sentidos conscientes e inconscientes sobre aquilo que acontece no interior dos nossos corpos. Sabemos quando estamos com fome, quando estamos com sede, quando estamos com sono, só para citar alguns destes sentidos mais básicos. Mesmo alguns sintomas de doenças, são na verdade produtos dos nossos sentidos internos comunicando que algo vai mal em nossos corpos. Mas são apenas informações sensoriais que trafegam pelas nossas mentes?
Não... Toda informação sensorial, que é sempre imediata a algo que está acontecendo, a uma realidade temporal, também interage com toda uma carga de informações armazenadas ao longo de uma vida, afinal temos a memória, as lembranças, e a capacidade de evocar memórias e lembranças de toda espécie, visual, táctil, aromática, etc, a qualquer momento. Na verdade, é difícil imaginar algum momento em que não estejamos nos lembrando de algo, nem que seja comparando uma informação urgente com alguma informação de uma situação semelhante que já tenha ocorrido. Não é por nada que uma das formas de processamento mais eficientes de nossos cérebros é o reconhecimento de padrões.
E existe algo mais além da memória? Eu acredito que sim, depende de como você olha para a informação armazenada, o que temos em nossa mente também é constituído de, ainda que podendo ser argumentado como vários derivados da memória e do que se fez da memória, crenças, esperanças, ideais, habilidades adquiridas, ferramentas de solução de problemas, esquemas de defesa, de coesão de realidade, etc. Coisas que forma e se formam com a personalidade, outra entidade que depende da consciência... Consciência de quê? Consciência de sua própria história pessoal, consciência de memória, consciência histórica. Lembrando que se somos conscientes, somos sempre conscientes de algo.
Agora, a nível de experimento mental, alguém consegue conceber a existência de um ser completamente desprovido de qualquer input, interno ou externo, desde o nascimento? Um ser de cérebro intacto, porém sem os cinco sentidos de olfato, visão, paladar, audição e tato, sem os demais sentidos que conhecemos, como o da localização física do corpo, etc, mas que fora a ausência de input não possua nenhuma outra diferença anatomofisiológica de qualquer outro ser humano normal. É um experimento no mínimo incômodo e bastante difícil. Tal ser não conseguiria interagir com o mundo a sua volta, provavelmente não teria formação de memória alguma, não formaria uma personalidade, provavelmente não teria nem ao menos noção de tempo, quanto menos de espaço e, contudo, teria um cérebro vivo dentro de si. Seria este cérebro consciente? Consciente de quê? Nada. Ou seja, não seria consciente. Podemos imaginar que seria um cérebro com uma consciência potencial latente, mas não consciente.
Por outro lado, um cérebro que tenha tido acesso, durante parte de sua existência, aos diversos estímulos que podemos captar, se viesse a ficar na situação descrita acima, completamente isolado de toda forma de estímulo, continuaria consciente quanto a sua memória e aquilo que fizesse com ela. É algo interessante de se pensar... Alguém que perde a visão, perde a consciência dos estímulos visuais, mas não se torna inconsciente. Da mesma forma alguém que perde a audição, ou qualquer outro dos sentidos. Seria possível, de fato, eliminar todos os sentidos, sem que a consciência fosse eliminada, desde que já estivesse presente antes que os sentidos fossem eliminados. Onde encontramos algum referencial prático disso, além das evidentes memórias? Nos pacientes portadores de membros fantasmas.
Outra situação relacionada seria o caso de alguém que perdesse completamente a memória, mas mantivesse seus sentidos intactos. Tal pessoa não se tornaria inconsciente, mas teria de reconstruir sua história. Isso me diz que qualquer ser que é consciente de algo, é um ser consciente. Parece óbvio falando assim, e de fato é óbvio... Mas por mais óbvio que algo pareça, só se torna mais verdade quando se é racionalizado a fundo. Mais uma das maravilhas de nossas consciências humanas. Racionalizar e correlacionar situações, questões, desenvolver problemáticas.
E dessa complexidade toda, de onde emerge a consciência, é que emerge o livre-arbítrio. É por isso que, assim como - mais acentuadamente - o comportamento de uma mulher na TPM pode ser explicado mas não pode ser previsto, todo comportamento humano também pode ser explicado, mas não pode ser previsto sem uma margem de erro. É por isso que não existe uma fórmula matemática para o comportamento humano e é aí que o determinismo, mesmo aquele que busca ser compatível, torna-se incompatível. Um exemplo bastante corrente de como o determinismo é desafiado, e que vem sendo estudado justamente pela constatação de que os fatores determinantes não estão claros, é a resiliência em meninos de rua. São indivíduos que tinham tudo para dar errado, e dão certo. Teriam eles desafiado seu contexto sócio-cultural, que geralmente incide em profundas marcas psíquicas, por alguma causa externa, alguma experiência que lhes tenham mostrado um caminho completamente diferente na vida, alguma experiência transformadora? Teriam sofrido a influência de alguém ou de alguma instituição? Teriam feito a mudança volitivamente apenas com seus recursos e estruturações mentais? São muitas perguntas para as quais as respostas ainda estão sendo buscadas. Algumas são mais prováveis, outras menos prováveis e novas respostas para perguntas como estas, mas que nem foram cogitadas, irão aparecer.
Quanto a essa fuga do determinismo, também vale pensar sobre um outro conceito que, quando abordado filosoficamente, torna-se bem difícil: as idéias. Idéias podem ser encaradas como produtos da memória e da capacidade de abstração, assim como na natureza e na música nada se cria, tudo se transforma ou se copia, as idéias vão sendo construídas de acordo com a capacidade que temos de trabalhar com aquilo que depreendemos da realidade. Mas para termos idéias, pensamos, e pensando nos tornamos conscientes das... Idéias. É o nível a mais do qual fala Searle. Somos conscientes da nossa consciência e somos capazes de pensar em alguma coisa e pensar sobre o porquê de estarmos pensando em tal coisa. Somos observadores de nossa fábrica mental, e orquestramos experimentos mentais, idéias, simulações, fantasias, e toda sorte de produção imaginária. Somos introspectivos.
Analisamos nossa consciência, pensamos sobre ela, assim como estou pensando agora, enquanto escrevo este texto, e como você também deve estar pensando - supondo que alguém esteja lendo este texto. E por sermos capazes de analisar nossos pensamentos, nossas motivações, voltar às nossas causas, por sermos capazes de simular os efeitos de nossas ações antes de executá-las, é que somos capazes de transformar aquilo que somos. Pois nada mais somos do que a soma total daquilo que aprendemos com nossas experiências e como usamos aquilo que aprendemos, nossa visão de mundo, nossa Weltanschauung.
Conseguir identificar nossa própria visão de mundo não é fácil. É preciso voltar ao passado, conhecer as influências que vieram dos pais, as crenças e ideologias que foram projetadas, introjetadas, em nós, é preciso ter uma grande awareness de nossa realidade psíquica e de nosso contexto social - quais são as forças sociais que estão me pressionando, como e para onde elas estão me levando, como o meu estado emocional está sendo afetado por elas, como estou lutando para tomar as decisões de maneira racional e por vontade própria diante destas forças? Qual é o contexto em que estou inserido?
Consciência histórica e consciência social de si mesmo, são duas das formas de consciência menos exercitadas pelas pessoas, das mais difíceis de se alcançar e, também, das que mais habilitam as pessoas a exercitarem seu livre-arbítrio e realizarem transformações significativas em suas vidas.
Bons filósofos não prometem resposta, mas levam as pessoas a encontrarem as respostas dentro de si mesmas; bons psicólogos não prometem mudanças, mas assistem as pessoas enquanto estas promovem as mudanças das quais necessitam; bons médicos sabem que a maioria dos tratamentos é sintomático, e que a cura ocorre pelos mecanismos do corpo do paciente. E é isso que proponho, que a pessoa não espere as forças exteriores agirem, nem o tempo alcançar seus corpos, mas que tomem a ação e a iniciativa por si mesmas. Não sei se estou fazendo a interpretação mais correta daquilo que foi exposto pelos teóricos citados neste texto, e é provável que não, o caminho para o conhecimento é longo, repleto de desvios, alguns tropeços, mas só chega lá quem se atreve a percorrê-lo.
Da mesma maneira se dá esse processo de tomada de consciência. Ao se deparar com uma situação de escolha, como as situações de "brecha", como diz John Searle, pare e pense sobre a alternativa para a qual mais pende a sua vontade. Pense no motivo pelo qual você se sente tentado a fazer esta determinada escolha, nesta situação em particular. Analise o contexto em que você está inserido, tome consciência de onde você está, quais são as influências externas. E depois busque as influências internas, faça o trabalho de ser o seu próprio historiador, olhe para dentro de você, quais são as lembranças para as quais esta situação te desperta? Olhe para elas e olhe além delas, o que veio antes, qual foi a cadeia de eventos, as escolhas que as precederam. Veja o seu passado e o relacione ao seu momento presente, a uma situação específica, e você estará efetivamente visualizando um circuito dentre os vários que formam a sua visão de mundo, aquilo que você é. Talvez você tendo vislumbrado isso, sinta vontade de exclamar consigo mesmo: "Nossa! Mas então é assim que eu sou!"
De posse desta visão, que dificilmente corresponderá fielmente a realidade, uma vez que, como todo processo de aquisição de conhecimento, se dá de forma gradual e depende de erros e acertos para acontecer, encare novamente a decisão que você iria tomar. Analise novamente o contexto em que você está inserido. Você agora está livre das ações determinadas pela tua história e das pressões do contexto, ou pelo menos é capaz de reconhecê-las. Será que não existem outras alternativas, outros cursos de ações que você pode tomar agora?
Sinta-se a vontade para abstrair, para extrapolar, para imaginar tudo diferente se for preciso, simule cada possibilidade, cada cenário em sua mente, e procure prever quais serão os resultados, quais serão as conseqüências. Aqui, mais uma vez, não há garantias de que as previsões irão se realizar, ainda mais pelo motivo de todo um novo espectro de possibilidades novas estar aparecendo diante de você, é território desconhecido.
Escolha um destes cursos de ação, e vivencie cada passo de execução, preste atenção nos resultados, procure compreender o que está acontecendo. Você decidiu realizar algo completamente novo, deu certo? Se não deu, agora você sabe mais uma coisa que não funciona. Ou será que deu? Foi melhor do que normalmente é? Foi igual? Ou você resolveu que o melhor curso era fazer exatamente da mesma maneira que você sempre faz? Os resultados foram satisfatórios? Será que não era possível conseguir mais?
Desconstruir o passado não significa deixá-lo em ruínas, mas sim usar seus tijolos - as experiências que deram certo, as experiências que deram errado, as crenças que se quer manter e aquelas que se quer livrar, esperanças, memórias - para construir aquilo que será o futuro.
Mas essa análise toda da qual eu falei, será que não demora demais? Quanto tempo iria levar para tomar uma decisão fazendo uma análise extensiva de sua própria vida pregressa, como se fosse seu psicólogo, de seu contexto social, como se fosse um sociólogo, levantando questionamentos existenciais, como se fosse seu próprio filósofo? Somos todos filósofos da natureza, psicólogos naturais, animais sociais, e eu nunca disse que a liberdade vem fácil. O mais interessante, ou frustrante, é que para o exercício da liberdade, este tipo de análise teria que ser feito e refeito, mesmo em situações que se repetem, sempre buscando algo de novo, algo que se passou desapercebido, e que a tomada de consciência é um processo contínuo e infindável. As peças, os tijolos, não se perdem, mas se reorganizam. E assim deve ser a vida. Se deixarmos nosso mundo interno estático, seremos controlados pelas forças do mundo externo.
Enfim, essa é a conclusão a que eu chego. Existe sim, a possibilidade de livre-arbítrio; é uma possibilidade pequena, muitas vezes as pessoas pensam estar exercendo o livre-arbítrio e estão apenas sendo controladas pela situação, pelo contexto ou sistema em que estão inseridas, como demonstram os experimentos de S. Asch, P. Zimbardo e S. Milgram. Forças externas capazes de tornar pessoas boas em monstros, capazes de nos fazer negar a nossa própria percepção para conformar com o grupo, capazes de suprimir anos de uma moral introjetada quando nos é enganosamente aliviada a responsabilidade. Se tomássemos as decisões de forma racional, se acreditássemos no bem, no certo, por convicção adquirida com a modelagem intelectual de nossas experiências e não por aquilo que nos foi passado, que nos é exibido, que nos é imposto, seríamos bem menos sujeitos a estas forças, seríamos conseqüentemente mais livres e finalmente seríamos dignos de ser chamados de éticos e responsáveis pelas nossas próprias ações.
A consciência é uma ilusão, uma construção natural, mas que custou bem caro em termos evolutivos para ser apenas receptáculo da informação inútil com que somos bombardeados diariamente pelos meios de comunicação e mecanismo de controle por estímulos. Use a sua ilusão.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Palestras disponíveis gratuitamente na Internet

A algum tempo atrás, nós brasileiros éramos privados do acesso a palestras de grandes expoentes do cenário científico internacional, a não ser que vivêssemos nas grandes capitais ou que pudéssemos viajar e estudar no exterior. Com o advento da Internet, da banda larga e com uma nova mentalidade por parte de grandes empresas como o Google e a BMW, agora podemos assistir em casa, sem pagar nada, palestras que visam divulgar idéias, inspirar, refletir e disseminar conhecimento.
Novamente o estudante adquire papel central na sua formação, na possibilidade de buscar contato com estes conhecimentos que agora se fazem disponíveis antes mesmo que os livros sejam editados no Brasil, na possibilidade de escolher quais assuntos deseja se aprofundar, por meio do contato com as palavras de quem está construindo o conhecimento nestes assuntos.
Abaixo seguem algumas das palestras que pude assistir e que acrescentaram algo de valioso e profundo na minha formação em Psicologia e, até mesmo, na minha visão de mundo.

Authors@Google: Phillip Zimbardo - Nesta palestra, de 04 de outubro de 2007, com uma hora e dezessete minutos de duração, Phillip Zimbardo, o lendário psicólogo que ficou famoso por ter criado o infame experimento de aprisionamento de Stanford, fala sobre o que leva pessoas boas a fazer coisas ruins, como pessoas morais são seduzidas a agir imoralmente, como é a linha que separa o bem e o mal, detalhando como as forças situacionais e as dinâmicas de grupo trabalham para transformar homens e mulheres decentes em monstros. Obs.: este vídeo contém imagens muito fortes, recomendo cautela.

Authors@Google: Steven Pinker - Um renomado psicólogo experimental e cientista cognitivo, Steven Pinker fala sobre sobre a influência da linguagem no processo do pensamento e nas interações sociais. A palestra, de uma hora e quinze minutos, ocorreu dia 05 de outubro de 2007.

Authors@Google: John Searle - Professor de Filosofia, destaque nos campos de filosofia da mente e filosofia da linguagem, reflete sobre linguagem, livre-arbítrio e poder político. Palestra de 65 minutos que ocorreu em 30 de outubro de 2007.

TED: Dan Gilbert - Professor de Psicologia fala sobre o quanto nós, seres humanos, somos ineficientes em prever quais ações nos trarão satisfação e felicidade.

TED: Vilayanur Ramachandran - Em apenas 25 minutos, o neurologista V. S. Ramachandran fala sobre seus estudos com membros fantasmas, sinestesia e síndrome de Capgras, num ritmo alucinante mas de maneira bem humorada e muito bem explicada.

TED: Jill Bolte Taylor - A neuroanatomista Jill Bolte Taylor teve uma oportunidade que poucos de seus colegas gostariam de ter: sofreu um derrame. Nesta palestra de 20 minutos ela conta sua experiência e as conclusões que tirou sobre como nossos cérebros nos definem e nos conectam ao mundo e uns aos outros.
O que eu concluí após assistir essa palestra: que minha suspeita era fundamentada, toda bobageira "new age" é resultado de pessoas que sofrem de algum severo problema mental.

TED: Richard Dawkins - Numa palestra ricamente ilustrada por citações e exemplos, com 22 minutos de duração, o biólogo Richard Dawkins fala sobre o quanto a ciência se torna mais e mais estranha a medida que aumenta sua complexidade e sua exatidão para explicar os fenômenos naturais, desafiando nossa percepção de criaturas médias - no sentido de que não vivemos num mundo sub-atômico, e nem num mundo de vastidão cósmica, mas no meio do caminho entre estas duas grandezas; e como essa percepção afeta nossas crenças, nossas vidas e nosso julgamento. Será que nossas mentes são capazes de conceber ou imaginar a total complexidade dos fenômenos naturais?

Daniel Dennett: Palestra sobre a Consciência (partes 01, 02, 03, 04, 05, 06) - Professor de Filosofia, destaque nos campos de filosofia da mente, filosofia evolutiva e filosofia da biologia, fala sobre como ocorre a "mágica" da consciência em nossos cérebros.

2005 Kohut Memorial: Joseph Lichtenberg - Nesta palestra intitulada "Freud e Kohut: o que permanece, o que se apaga", o psicanalista Joseph Lichtenberg, autor de livros sobre motivação, sexualidade e afetividade, fala sobre os rumos da psicanálise na atualidade. Esta aqui é, possivelmente, a mais difícil de ouvir e compreender, por causa do ruído de fundo. A impressão é que se está tentando ouvir uma palestra num restaurante de beira de estrada durante a alta temporada de verão... Bom, já vivi uma experiência semelhante e não é nada que um fone de ouvido e bastante concentração não resolvam.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Debate: Noam Chomsky vs. Michel Foucault

Observação importante: procurei preservar e ser fiel a linguagem utilizada por ambos os debatentes, sem fazer correções de estilo e usando as palavras e termos mais próximos que me foram possíveis. Quem conhece inglês irá notar diferenças entre a minha tradução das frases do Michel Foucault e a legenda em inglês que se encontra nos vídeos. Isto ocorre porque, sendo o francês uma língua latina, algumas orações são melhor traduzidas diretamente do francês para o português, do que do francês para o inglês. Não estranhem a repetição de algumas palavras, uma vez que isso é uma ocorrência normal no discurso oral.



Primeira Parte


Noam Chomsky: Bom, me deixe começar referindo a algo que nós já discutimos, que é se está correto, como eu acredito que esteja, que um elemento fundamental da natureza humana é a necessidade por trabalho criativo, por investigações criativas, por criações livres sem os efeitos limitantes arbitrários de instituições coercitivas.
Então, é claro, o que vem a seguir é que uma sociedade decente deve maximizar as possibilidades para que esta característica fundamental humana se realize. Isto significa tentar superar os elementos de repressão e opressão e destruição que existem em todas as sociedades existentes, a nossa por exemplo, na forma de um resíduo histórico.
Agora, um sistema de associações livres federal e descentralizado, que incorpore instituições econômicas assim como instituições sociais, ao qual eu me refiro como anarco-sindicalismo e que parece ser, para mim, a forma apropriada de organização social para uma sociedade tecnológica avançada, na qual seres humanos não precisem ser forçados a uma posição de ferramentas, de engrenagens em uma máquina, na qual a necessidade criativa, que eu penso ser intrínseca à natureza humana, poderá, de fato, se realizar, da maneira que isso irá acontecer, eu não sei, mas tenho certeza que irá.

Michel Foucault: Minha abordagem é bem menos avançada que a do Sr. Chomsky. Admito não ser capaz de definir, nem mesmo - por motivos ainda mais fortes - propor, um modelo social ideal para o funcionamento da nossa sociedade científica ou tecnológica.
Por outro lado, a tarefa mais urgente, imediata, antes que qualquer outra coisa, é considerar a atitude de que estamos acostumados a pensar, pelo menos em nossa sociedade Européia, que o poder está localizado nas mãos do governo e é exercido por algumas instituições em particular, tais como os governos locais, a polícia, o exército. Estas instituições transmitem as ordem, as aplicam e punem as pessoas que não obedecem.
Mas, penso eu, que o poder político também é exercido por um certo número de outras instituições que não parecem ter nada em comum com o poder político, o qual parece ser independente mas que na verdade não é. Todos nós sabemos que as universidades e todo o sistema educacional, que aparentemente deveria distribuir o saber, serve, na verdade, para manter o poder nas mãos de uma certa classe social e para excluir as demais classes sociais deste instrumento de poder. A Psiquiatria, por exemplo, que em aparência parece se destinar ao bem da humanidade e o conhecimento dos psiquiatras. A Psiquiatria também é uma maneira de impor o poder político a um determinado grupo social. A Justiça também.
Então me parece que a real tarefa política atual em uma sociedade como a nossa é criticar os trabalhos das instituições que aparentam tanto ser neutras quanto independentes; é criticar e atacar estas instituições, de tal maneira que a violência política que sempre foi exercida e obscurecida por meio destas instituições, surgisse para que assim pudéssemos combatê-la.
Se nós queremos o direito de definir a identidade e a fórmula de nossa sociedade futura, sem criticar todas as formas de violência política que são exercidas em nossa sociedade, corremos o risco de que elas se reconstruam, mesmo que através de uma forma aparentemente nobre, como o anarco-sindicalismo.

Noam Chomsky: Eu certamente vou concordar com isso, não apenas em teoria, mas também em ação, que significa que existem duas tarefas intelectuais, uma, a qual eu estava discutindo, que trata de criar a visão de uma futura sociedade justa, e outra tarefa, que é a de entender com bastante clareza, a natureza do poder e da opressão, do terror e da destruição, na nossa própria sociedade. E isto certamente inclui as instituições que você menciou, assim como outras instituições centrais de qualquer sociedade industrial, como as instituições econômicas, comerciais e financeiras, e em particular, no período por vir, as grandes corporações multinacionais, que - falando nisso - não estão muito longe de nós fisicamente esta noite. Estas são as instituições básicas de opressão, coerção e domínio autocrático que aparentam ser neutras, pois afirmam: "Bem,estamos sujeitas à democracia do mercado."
Ainda assim, eu penso, que seria uma grande pena perder, ou pôr de lado inteiramente, a tarefa, de certo modo mais abstrata e filosófica se você preferir, de tentar extrair as conexões entre o conceito de natureza humana, que dá inteira abordagem à liberdade, dignidade, criatividade e outras características fundamentais humanas, e relacionar este conceito a algumas noções de estrutura social nas quais estas propriedades poderiam ser realizadas, nas quais uma vida humana significativa poderia ocorrer.
De fato, se estamos pensando em transformação social ou revolução social, seria absurdo tentar prever com exatidão o ponto que esperamos alcançar. Contudo, nós devemos saber algo sobre para onde pensamos estar indo. E tal teoria pode ser relevante para nós.

Fim da primeira parte.



Segunda Parte


Michel Foucault: Sim, mas não haverá um risco aí? Se você diz que existe uma certa natureza humana, que esta natureza humana, na sociedade atual, não recebeu os direitos e as possibilidades que lhe permitirão se realizar - foi isso que você disse, acredito eu.
E pode você admitir que não há risco em definir esta natureza humana - ao mesmo tempo ideal e real, e que tem sido escondida e reprimida até agora - em termos empregados pela nossa socidade, de nossa civilização, de nossa cultura?
O problema é a noção de natureza humana..., você entende que nós não temos uma noção exata que especifique o que é natureza humana? Não existe aí um risco de sermos levados ao erro? Você sabe que Mao Tsé-Tung fala da distinção entre a natureza humana burguesa e a natureza humana proletária? Para ele, elas não são a mesma coisa.

Noam Chomsky: Bom, eu não acho que no domínio da ação política intelectual, que é o domínio onde estamos tentando construir uma visão de uma sociedade justa e livre com base em alguma noção de natureza humana, neste domínio nós nos deparamos com exatamente o mesmo problema que nos deparamos na ação política imediata. Por exemplo, para ser bem concreto, muita da minha própria atividade tem haver, na verdade, com a Guerra do Vietnam; e uma boa parcela da minha energia é empregada no questão da desobediência civil.
Então, a desobediência civil, nos Estados Unidos, é uma ação tomada em face a consideráveis incertezas quanto aos seus efeitos. Por exemplo, alguém poderia dizer que ela pode ameaçar a ordem social de maneiras que podem vir a trazer o fascismo, o que seria muito ruim para a América, para o Vietnam, para a Holanda e para todo o resto.
Então, existe um perigo, que é um risco assumido com a tomada de ação neste ato concreto, e existe um grande perigo em não tomar esta ação... Que se não for tomada, a sociedade na Indochina será transformada em retalhos pelo poderio Americano. E, em face a estas incertezas, cada um precisa escolher um curso de ação.
Similarmente, no domínio intelectual, eu me deparo com as incertezas que você corretamente trouxe... O nosso conceito de natureza humana é certamente limitado, parcial, socialmente condicionado e manchado pelos nossos próprios defeitos de caráter e pelos próprios defeitos e limitações da cultura intelectual em que vivemos. E ainda assim, é importante que nós tenhamos alguma direção, para que saibamos quais são os objetivos impossíveis que estamos tentando alcançar, se esperamos alcançar alguns dos objetivos possíveis. Isso significa que temos que ser arrogantes o suficiente para especular e tentar criar teorias sociais baseadas no conhecimento parcial, enquanto permanecemos muito abertos para a forte possibilidade, de fato para a avassaladora probabilidade, de que estejamos na verdade muito longe do ideal.

Michel Foucault: Mas me parece, de qualquer modo, que a noção de justiça, em si, funciona no interior da sociedade de classes, como uma reivindicação da parte da classe oprimida e como uma justificação da parte da classe opressora.

Noam Chomsky: [interrompendo] Eu não concordo com isso...

Michel Foucault: Em uma sociedade sem classes, eu não estou certo de que ainda faríamos uso desta noção de justiça.

Noam Chomsky: Eu.. Bem, aqui eu realmente discordo. Eu penso que existe algum tipo de base absoluta - se você me pressionar demais eu vou ter problemas porque eu não posso descrevê-las - mas algum tipo de base absoluta, a qual reside em última instância nas qualidade humanas, em termos de nossa verdadeira noção de justiça está apoiada. Eu acho que nossos sistemas de justiça existentes são... Eu acho que é muito precipitado caracterizar nossos sistemas de justiça existentes como meros sistemas de opressão de classes. Eu não acho que eles sejam isso, eu acho que eles incorporam sistemas de opressão de classes, e que eles incorporam elementos de outros tipos de opressão.
Mas eles incorporam um grupo de conceitos humanos de valor, que são verdadeiros [levantando os ombros, com uma rápida risadinha], de justiça, de decência, de amor, de simpatia, de bondade e assim por diante, que eu penso serem verdadeiros.

Michel Foucault: Bem, eu terei tempo para responder? Quanto?

Mediador: Dois minutos.

Michel Foucalt: Então eu diria que isto é injusto! [risos]


Mediador: Absolutamente!

Michel Foucault: Não, mas eu não quero responder em tão pouco tempo. Eu direi simplesmente o seguinte: Contrário ao que você pensa, você não pode me impedir de acreditar que estas noções de natureza humana, de bondade, de justiça, de senso humano, de realização da essência do ser humano, são todas noções e conceitos que foram formadas no seio de nossa civilização, com o nosso tipo de saber, com a nossa forma de filosofia, e que por conseqüência são parte de nosso sistema de classes; e você não pode, por mais triste que seja, usar estas noções para descrever ou justificar uma luta que deve - que deveria, em princípio - derrubar os fundamentos de nossa sociedade.
Esta é uma extrapolação para a qual eu não consigo encontrar justificação histórica.

Fim da segunda parte.

Links para os vídeos
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Parte 01 / Parte 02