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quarta-feira, 9 de março de 2011

sábado, 16 de maio de 2009

Paradoxo de Abilene

Em uma tarde quente em João Pessoa, PB, uma família está jogando dominó confortavelmente em uma varanda, até que o sogro sugere um passeio e uma janta em Recife, PE, à 125 km de distância. Sua filha, a esposa, diz pensar ser uma boa idéia. O marido, apesar de ter objeções por ter de guiar o carro por tal distância no calor, pensa que suas preferências não devem se opor ao que o grupo deseja e diz: “Concordo, espero que a tua mãe [a sogra] concorde também.” A sogra então responde: “É claro que eu quero ir. Faz algum tempo que quero ir à Recife.”
A viagem é quente, empoeirada e longa. Quando eles chegam ao restaurante a comida que encontram é tão ruim quanto foi a viagem. Eles voltam pra João Pessoa quatro horas depois, chateados e cansados.
O sogro fala, de forma desonesta: “Que bela tarde nós tivemos né?” Ao que a sogra responde, com sinceridade, que preferia ter ficado em casa mas que aceitara ir pois os outros três pareciam muito entusiasmados. O marido então fala: “Não foi nada bom ter feito essa viagem, eu só fui para satisfazer vocês.” A esposa responde: “Eu só foi para deixar vocês felizes, eu precisaria estar louca para querer sair naquele calor.” Então o sogro responde que só sugeriu a viagem pois pensou que os demais estavam entediados.
O grupo senta-se, perplexo por terem decidido fazer uma viagem que nenhum deles queria ter feito. Cada um deles preferiria ter ficado confortavelmente em casa, mas nenhum deles havia admitido isso.

Esta é uma adaptação do Paradoxo de Abilene, na qual a cidade de Coleman, TX foi substituída por João Pessoa, PB, e a cidade de Abilene, TX, foi substituída por Recife, PE. A psicologia social explica este fenômeno de pensamento grupal pelas teorias de conformidade e cognição social.
As representações cognitivas de objetos sociais são chamadas de esquemas, estruturas mentais que representam algum aspecto do mundo. Tais esquemas são organizados na memória na forma de uma rede de associações que, por sua vez, organizam-se com outras redes de associações. Quando um esquema particular é ativado, os esquemas relacionados também são ativados e determinam o comportamento do indivíduo.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Influência Social - Psicologia Social


Nós não tiramos vantagem daquelas pessoas por quem temos verdadeira consideração. Não, para estas pessoas nós providenciamos o melhor arranjo possível, o melhor planejamento.”


Robert Cialdini, PhD.



INTRODUÇÃO




Segundo Allport (1996), a Psicologia Social se ocupa do estudo científico - por meio da investigação metódica e empírica - do modo pelo qual as variáveis humanas quantificáveis de interesse à Psicologia, em um dado indivíduo ou em um grupo de indivíduos, são afetadas pela presença real, implícita ou imaginária de outros indivíduos.

Como esclarece Bock, o estudo científico é a construção de um conjunto de conhecimentos sobre um objeto de estudo definido: um aspecto ou um conjunto de aspectos da realidade. Esta construção deverá ser realizada de maneira programada, sistemática e controlada, para que possa ser verificada e validada por estudos posteriores.(2002. p.19)

Esta forma de construção de saberes possibilita a continuidade de tal forma que todo novo conhecimento produzido é baseado em algo que havia sido desenvolvido anteriormente. (Ibid. p. 20) Daí a importância do estabelecimento de um embasamento teórico para a elaboração de investigações para Psicologia Social e demais áreas da Psicologia.

Neste sentido, Solomon Ash lembra que dentre os princípios do método científico, “o primeiro a chamar nossa atenção é, com certeza, aquele pelo qual se devem descrever os fenômenos fielmente, permitindo-lhes guiar a escolha dos problemas e dos processos” (Vol. I, 1960. p. 6-7) - ou seja, é preciso ter alguma idéia sobre o fenômeno a que se propõe estudar.

Não obstante, Michener e colaboradores ressaltam a importância de se ter uma teoria para poder orientar, sistematizar e organizar as observações empíricas. (2005. p. 24)

Mais informações a respeito do assunto podem ser encontradas no livro-texto Introdução à Psicologia de Linda L. Davidoff, nas páginas 18 à 40.

Sabendo que todo projeto em Psicologia, em especial na disciplina de Psicologia Social, deve possuir um objeto de estudo definido, um planejamento cuidadoso, uma base teórica, uma metodologia de investigação e um objetivo, esta resenha se propõe a sintetizar o que a Psicologia Social nos diz sobre a Influência Social.

Aqui o objeto de estudo é uma teoria da Psicologia Social, que obviamente servirá de base teórica, e o método utilizado será o levantamento bibliográfico e o uso da Internet.

O autor deste trabalho já possuía algum contato com o objeto de estudo por leituras e pesquisas autônomas realizadas anteriormente ao início da disciplina de Psicologia Social II no segundo semestre do ano de 2008.





INFLUÊNCIA SOCIAL



Michener e colaboradores definem a influência social como sendo o que ocorre quando “o comportamento de uma pessoa faz com que outra [pessoa] mude de opinião ou execute uma ação que, de outro modo, não executaria”. (2005. p. 238) Na influência social deve haver uma fonte, de onde parte a influência, e um alvo, que será submetido a influência proveniente da fonte. Tanto a fonte quanto o alvo podem ser um indivíduo ou um grupo de indivíduos.

Para que a fonte seja bem sucedida ela deve ser digna de crédito. Para tanto ela deve possuir experiência ou se semelhança com o alvo; sendo que estar acima de qualquer suspeita, ser agradável e atraente também são fatores importantes. Uma fonte com altas credenciais é a maneira mais eficaz de se alcançar o crédito do alvo. (Davidoff, 2006. p. 650-2)

Enquanto que inicialmente a credibilidade é vital, com o passar do tempo a atenção das pessoas volta-se para a mensagem, a medida que esta aumenta sua força persuasiva. A este fenômeno os psicólogos dão o nome de efeito adormecido. Os alvos mais sujeitos à influência são aqueles que possuem baixa auto-estima e dificuldade de entendimento. (Ibid. Idem)

É interessante notar que a importância das credenciais já era apontada por Aristóteles a mais de 2.300 anos atrás. Em sua obra Retórica, de 350 A.C., Aristóteles diz que:

[...] a persuasão é alcançada pelo caráter pessoal do orador quando o discurso é emitido de forma a fazer com que tenhamos ele como digno de crédito. [...] a persuasão pode vir por meio da audiência, quando o discurso toca suas emoções. [...] a persuasão é um efeito do discurso per se quando fica sua veracidade ou razoabilidade é comprovada por meio de argumentos persuasivos adequados ao caso em questão.”

Estas observações deram origem às três categorias conhecidas como Ethos, Pathos e Logos, da retórica aristotélica.

Por Ethos temos o apelo à autoridade ou honestidade do orador, é o quanto este é capaz de convencer a audiência de sua qualificação e credibilidade para falar de um assunto em particular. O Ethos pode ser obtido se o orador for uma figura notável no campo em questão, se estiver diretamente envolvido com o assunto, se demonstrar uma capacidade considerável de articulação de idéias, se estiver vestido de maneira adequada ou por meio do apelo à ética ou caráter do opositor - sendo que tal apelo é o modo mais fútil e de eficácia menos duradoura para se atingir a audiência, e é considerado uma medida desesperada por figuras desesperadas ou opostas à razão.

Pathos visa atingir as emoções da audiência, por meio de metáforas, sorrisos, uma entonação emotiva, ou mesmo argumentos apelativos. É eficaz quando o orador está particularmente identificado com a audiência, ou faz parte daquele grupo.

Já o Logos é possivelmente o modo mais importante de persuasão, é o uso da lógica, do conhecimento, para alcançar o objetivo. O orador que faz uso do Logos descreve os fatos e os conceitos que apóiam sua opinião. Estar dotado do Logos, também incrementa o Ethos do orador, pois a informação lhe dá credibilidade perante a audiência.

Da mesma forma que o orador e a audiência de Aristóteles, a fonte e o alvo da Psicologia Social precisam interagir de forma harmônica para que os objetivos comuns sejam alcançados. Uma fonte desqualificada ou um alvo incapaz de processar a complexidade da informação transmitida são fatores limitantes.

Em relação à investigação da influência social, Solomon Ash afirma que esta deve partir da crença de que “pessoas, no mesmo campo, alteram as idéias, os sentimentos, as intenções e as ações umas das outras. Não se pode entrar num campo social e estar livre de seus efeitos.” (Vol. II, 1960. p. 129) As ações do observador exercem claras influências sobre o grupo observado, apresentando idéias certas e erradas. As condições sociais nas quais esta interação irá ocorrer também são importantes, pois determinam se os interesses e propósitos serão bem sucedidos. Ash comenta que “os efeitos são, muitas vezes, surpreendentemente fortes”. (Idib. Idem.)

Para que a investigação seja bem sucedida, é preciso ter em mente que cada grupo possui um alto grau de regularidade e uniformidade em relação aos costumes e crenças, sendo que seus membros compartilham da mesma situação social quando inseridos no contexto do grupo. Estes costumes e crenças são anteriores ao ingresso do observador e, ainda que não sejam compreendidas como verídicas por este, são fortemente inculcadas nos indivíduos que pertencem ao grupo. Tais processos de uniformidade são de grande importância e têm origem por meio da imitação – enquanto processo cognitivo – e da influência social, na forma de sugestão.

O problema em se estudar a influência social e outros processos formativos em um grupo é justamente como não tomar parte do fenômeno a ser estudado, contaminando assim os resultados. Daí a importância de se manter a neutralidade e a discrição evitando contato com o grupo. (Ibid. p. 132-3; 135-8) Exemplos disso são o viés do experimentador, que pode ocorrer até por meio de expressões faciais e pelo tom de voz, sendo que a saída encontrada para os estudos em Psicologia é reduzir e minimizar as interações examinador-participante; e o efeito Hawthorne, que são as modificações comportamentais causadas no grupo pela simples ciência por parte de seus integrantes de que estão sendo observados, efeito este que é combatido com medidas de procedimento simples-cego. (Davidoff, 2006. p. 29,30) Sem estas medidas, os dados de qualquer investigação em Psicologia Social ficarão comprometidos, não podendo tomar parte do corpo de conhecimento científico acumulado ao longo do tempo, perdendo assim sua utilidade na construção do saber em Psicologia.

O corpo de conhecimento que a Psicologia Social detém a cerca da influência social nos diz que as mudanças decorrentes da interação entre a fonte e o alvo – notando que o observador deve manter-se excluído desta equação – visam uma mudança de atitude ou a adesão por parte do alvo.

Para que a mudança de atitude seja caracterizada, o alvo deverá apresentar uma mudança nas suas crenças e nas suas atitudes em relação a algum assunto, pessoa ou situação. Embora seja um efeito comum da influência social, existem situações onde a fonte busca apenas a adesão do alvo para um determinado objetivo.

A adesão ocorre quando o alvo entra em conformidade com os pedidos ou exigências da fonte. (Michener, 2005. p. 238)

A mudança de atitude é um efeito mais profundo, que pode ser encontrado quando o grupo, fazendo o papel de fonte, incorpora um novo membro, que desempenha o papel de alvo. A adesão pode ser vista em momentos de decisão intragrupal, quando membros do mesmo grupo precisam tomar uma decisão em uníssono: os indivíduos não deixam de ser únicos enquanto parte do grupo, mas precisam agir numa mesma direção. Nestes momentos, quando há pouca coesão, vários indivíduos desempenham tanto o papel de fonte quanto de alvo.

Normalmente os grupos possuem lideranças, ou figuras de autoridade. Ash cita o sociólogo francês Jean-Gabriel de Tarde para ilustrar a força da influência proveniente das lideranças: “O homem social é um sonâmbulo”. (1960. p. 141) Numa alusão que remete à figura dos somnambules do século XIX, como vista em filmes como Das Cabinet des Dr. Caligari (1920) ou, mais contemporaneamente, Edward Mãos-de-Tesoura (1990).

Assim como no transe hipnótico estudado por Charcot, a sugestionabilidade na vigília é explorada pelas lideranças consciente ou inconscientemente. Tal feito se dá pela obtenção de informações pela leitura do gestual corporal, ou mesmo da inibição do mesmo, e pela exploração de modificações da percepção e julgamento dos integrantes do grupo em relação às condições apresentadas.

Aquilo que Michener chama de influência aberta e Ash chama de manipulação pessoal é a base da influência social. Dentre as formas pelas quais este fenômeno pode ocorrer, encontram-se o uso da comunicação persuasiva para mudar as atitudes ou as crenças do alvo; o uso de ameaças ou promessas para obter adesão; e o uso de ordens com base na autoridade legítima para obter adesão.

Aqui podemos notar a importância dos estudos experimentais de condicionamento e extinção por punição realizados por B. F. Skinner: por meio da ameaça ou punição, ou mesmo por meio do emprego da autoridade, não é possível extinguir um comportamento, apenas fazer com que o indivíduo em questão evite a punição imaginária ou real. Já os estudos de dissonância cognitiva de Festinger indicam o motivo pelo qual as promessas não são capazes de realizar mudanças duradouras. As promessas realizadas em negociações de influência social geralmente propõe uma troca que não permite ao indivíduo tomar parte na ação enquanto sujeito colaborativo voluntário, pois estas atingem ou superam as espectativas dos indivíduos quanto ao esforço que terão de realizar. Desta forma o que se obtém é a adesão temporária para um fim e não uma mudança de atitude.

Voltando ao Logos e ao Ethos de Aristóteles, Michener afirma ser mais provável conseguir uma mudança de atitude quando as informações apresentadas pela fonte são desconhecidas pelo alvo e quando a influência pelo uso de ordens por parte de uma figura de autoridade baseia-se na legitimação. Michener acrescenta que o uso de ordens eficaz se baseia no papel que o alvo desempenha dentro do grupo. (2005. p. 239) O desrespeito ao papel do indivíduo em um dado grupo pode abalar a credibilidade e, por conseqüência, a legitimidade de uma figura de autoridade, por atentar contra o Logos e o Pathos do restante do grupo. Este tipo de evento é comum em ações que carecem de planejamento ou possuem planejamento deficiente.

Na Psicologia Social, a utilização de informações ou argumentos no intento de obter uma mudança de atitude é chamada de persuasão. A persuasão falha quando o alvo rejeita a mensagem por depreciar a fonte; ou suspende o julgamento a respeito da questão levantada para buscar fatos adicionais; ou distorce a mensagem, alinhando-a aos seus próprios esquemas cognitivos; ou ainda quando o alvo parte para a contrapersuasão, apresentando seus próprios argumentos e transformando a fonte em alvo. A persuasão falha quando a fonte é ineficaz em atingir um nível aceitável de credibilidade, tornando-se evidentemente errônea, irrelevante, incompreensível ou inaceitável.

Quando a fonte é bem sucedida na persuasão por conta de argumentos que apelem para os fatos conhecidos pelo alvo, estará usando uma rota central para a promoção da mudança desejada. A rota central se vale mais do Logos, o uso da razão.

Quando o alvo muda de atitude não por causa dos argumentos apresentados, mas pelos sinais extrínsecos, tais como as características da fonte, características superficiais da mensagem ou características da situação, a fonte estará atingindo seu objetivo por meio de uma rota periférica. Neste modelo de persuasão valem mais o Ethos e o Pathos.

O modelo de probabilidade de elaboração aponta para o fato de que dependendo de como uma mensagem será processada pelo alvo, importa mais o processamento realizado pelo alvo do que as propriedades da mensagem. Contudo, para que uma mensagem provoque efeitos mais duradouros, a rota central deve ser preferencial. (Ibid. p. 241) Isso se dá, a exemplo da dissonância cognitiva, quando todo um processo de convencimento interno é perpetrado pelo alvo. (Ibid. p. 181-5; Davidoff, 2006. p. 360-1)

Pesquisando mais a fundo sobre o modelo de probabilidade, os fatores que mais influenciam a escolha da rota pelo alvo em uma situação de persuasão são a motivação e a habilidade de processamento. A motivação diz respeito ao desejo que o alvo tem em processar a mensagem, se ele está disposto a elaborar a fundo o que a fonte está transmitindo; e a habilidade diz respeito à capacidade do alvo em realizar um julgamento crítico em relação a mensagem. Alvos com menor capacidade de julgamento crítico possuem crenças firmadas em rotas periféricas e, por tanto, são mais sugestionáveis. Alvos com grande motivação e habilidade de processamento são mais difíceis de convencer, mas capazes de uma mudança de atitude e adesão mais duradouras e confiáveis.

Contudo, uma variável que é tomada pelo extremo da rota central sob alta elaboração (pensamento de alto nível) pode servir tanto quanto um argumento (por exemplo, se alguém citar Sigmund Freud: “Se Freud propõe um determinismo psíquico, então há um forte motivo para eu considerar esta possibilidade”) com quanto um viés (“Se Freud concorda com um determinismo psíquico, então este é um argumento válido, vamos ver o que mais pode estar em concordância com o determinismo psíquico” - deixando de lado aquilo que estiver em discordância). A mesma variável, quando tomada pelo extremo da rota periférica, sob baixa elaboração – heurística – é chamada de pista periférica (“Um expert está sempre certo; Freud é um expert, logo está certo... Então devo concordar com restante que for dito”). Quando há uma elaboração moderada, pela rota central, a variável pode servir de extensão ao processamento de informação, podendo ser positiva para a fonte, por prender a atenção do alvo; ou negativa, justamente pelo mesmo motivo, caso os demais argumentos apresentados sejam fracos ou falhos. (Encyclopædia Britannica On-Line. 2008)

Como é possível conferir em Michener, o envolvimento na questão, a necessidade de cognição dos alvos e eventuais distrações, são aspectos importantes para a escolha dos métodos de persuasão a serem escolhidos. Um alvo com grande envolvimento em uma questão ou com grande necessidade de cognição, tende a ser melhor persuadido por uma rota central bem construída, enquanto que um alvo com baixo envolvimento na questão pode ser mais sugestionável pela rota periférica. Alvos ou mesmo fontes sujeitos a distrações provenientes do meio, do contexto em que se trava a negociação social, terão maior dificuldade em alcançar a conformidade. (2005. p. 251-4)

Mais recentemente, pesquisadores têm apontando para o papel metacognitivo que uma mensagem pode ter, quando sob alta elaboração. Neste caso a mensagem assume um papel de auto-validação com base na percepção que o alvo tem quanto as suas emoções em relação a mensagem. É uma forma sofisticada de lidar com o Pathos. O alvo faz uma análise de suas reações emocionais em relação à mensagem e a maneira como ela lhe é transmitida, podendo abrir margem para uma modificação em larga escala na sua visão de mundo. (Ibid. Idem.)

Ainda em relação ao processamento de informação, podemos citar a discrepância da mensagem, o medo, ameaças e promessas, e mensagens unilaterais vs. mensagens bilaterais. A discrepância ocorre quando a mensagem que a fonte tenta transmitir é de natureza altamente improvável. O grande risco de mensagens discrepantes é o de abalar a credibilidade da fonte. As mensagens que fazem apelo ao medo podem provocar mudanças duradouras quando possuem baixa discrepância ao sofrerem alta elaboração. Não é o caso de estratégias conhecidas pelo acrômico FUD (Fear, Uncertainty and Doubt). Estas fazem uso de informações negativas porém vagas, que só acatadas pela rota de processamento periférico por alvos de baixa capacidade de elaboração. Mensagens que fazem uso do medo extremo podem ativar o processo de negação das pessoas. São exemplos de mensagens que ativam tal processo aquelas mensagens de conscientização social que exigem mudanças de grande escala no comportamento baseado em crenças fortemente inculcadas, tais como mensagens de preservação do meio ambiente, justiça social e direitos humanos.

Para que uma mensagem de apelo ao medo seja eficiente, ela deve atentar para sérias conseqüências a curto prazo e sugerir soluções aplicáveis para o problema que proposto.

As mensagens baseadas em ameaças e promessas são semelhantes quanto a eficácia e magnitude às mensagens de apelo ao medo. Elas diferem do apelo ao medo no sentido de que sua eficácia está atrelada ao poder atribuído à fonte, e não a discrepância de seu conteúdo, e ao invés de proporem uma solução, devem propor uma alternativa à sua materialização, no caso de uma ameaça, ou uma garantia de realização, no caso de uma promessa.

No tocante as ameaças, o modelo SEV afirma que a adesão pode ser obtida quando a credibilidade e a magnitude da ameaça superam o custo da adesão por parte do alvo. Ainda segundo este modelo, mesmo sob um alto custo de adesão, o objetivo será alcançado se o valor SEV (subjective expected value) for adequado. É um modelo facilmente encontrado no ambiente militar, onde a deserção ou o desacato são passíveis de punições severas advindas de uma hierarquia superior bem definida. Quanto as promessas, o modelo SEV, deve levar em conta o valor do ganho obtido com a promessa e a credibilidade da fonte em relação ao custo da adesão, de forma semelhante às ameaças; porém também devem levar em conta os ganhos com a não adesão. (Ibid. p. 257-9)

A ameaça bilateral surge na negociação quando a fonte dá margem à contrapersuasão por ter falhado no convencimento inicial do alvo. Quando isso ocorre, o alvo irá tentar resolver a situação buscando o princípio de dividir a diferença, propondo um meio-termo de conciliação, uma concessão. Robert Cialdini, psicologo social cuja pesquisa tem como foco a influencia social, explica que há modos de reverter a concessão e retomar o controle da negociação. Para tanto, é preciso ser o primeiro a oferecer uma concessão, antes que o alvo o faça. Desta forma é possível colocar o mesmo argumento inicial de forma diferente, reelaborado, e apelar para o princípio universal de reciprocidade: uma vez que a suposta concessão é oferecida, o alvo deve ser surpreendido pela indagação do que irá lhe oferecer em troca. (1999)

Mensagens unilaterais são aquelas cujos argumentos consideram apenas os elementos que apóiam o ponto de vista defendido pela fonte, e as mensagens bilaterais são aquelas cujos argumentos ponderam elementos a favor e contra o ponto de vista defendido pela fonte. Conforme Cialdini (Idem), as mensagens bilaterais são mais eficientes para provocar mudanças de atitude e adesão nos alvos. Cialdini explica que uma das formas mais eficiente de se obter credibilidade é seguindo a regra de “antes de expor o seu argumento mais forte, você menciona algum ponto fraco seu”. O ponto fraco deve ser preferencialmente algo que o alvo já tenha conhecimento mas não espera que você venha a admitir prontamente. Uma vez que ocorra este choque de percepção, deve-se lançar mão dos argumentos favoráveis, pois o alvo estará aberto a aceitá-los.

Caso a negociação falhe, pode instaurar-se uma situação de espiral de conflito, onde os participantes fazem ameaças cada vez mais graves, até que evolua para a intimidação mútua caracterizando um impasse de difícil resolução. Na história contemporânea, o Coronel da Força Aérea Americana, Alan J. Parrington, lembra o exemplo máximo de intimidação mútua com o emprego da doutrina militar sob o acrônimo MAD (Mutual Assured Destruction), que resultou da corrida armamentista nuclear durante a Guerra Fria. O ataque franco iniciado por qualquer uma das partes iria resultar na destruição completa de ambas as partes envolvidas, e possivelmente do restante da civilização. (1997)

A intimidação mútua necessita de equilíbrio entre as partes envolvidas, e quanto mais sérias forem as ameaças, mais importante se torna este equilíbrio. (Michener, 2005. p. 260-1) Fora do contexto militar, na sociedade civil, existem instituições e entidades destinadas a equilibrar a representação de indivíduos ou pequenos grupos frente a grandes grupos ou indivíduos poderosos quando em situação de conflito. Exemplos disso são o PROCON, órgão de defesa do consumidor, e o CRP-RS, Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul. O PROCON intervém na má prática comercial e o CRP-RS, na má prática da Psicologia, provendo orientação legal para aqueles que são lesados nestas áreas.

Todo esse corpo de conhecimentos apresentados até aqui, formam a base do paradigma comunicação-persuasão, central à teoria da influência social na Psicologia Social. Existe uma fonte, que transmite uma mensagem, direcionada a um alvo, visando um efeito, tudo isso dentro de um dado contexto social.

Por fim temos a questão da obediência à autoridade, onde autoridade refere-se a capacidade de um integrante dirigir e regular o comportamento dos demais integrantes, invocando os direitos adquiridos pelo seu papel. (Michener, 2005. p. 262)

Começando em julho de 1961, uma série de experimentos de Psicologia Social conduzidos pelo psicólogo Stanley Milgram da Universidade de Yale, mediu a motivação dos participantes para obedecer uma figura de autoridade que os instruia a realizar atos que estavam em desacordo com sua consciência interna.

No artigo intitulado de “Os Perigos da Obediência”, de 1974, Milgram sumarizou o experimento da seguinte forma:

Os aspectos legais e filosóficos da obediência são de enorme importância, mas eles nos dizem muito pouco sobre como a maioria das pessoas se comportam em situações concretas. Eu elaborei um experimento simples na Universidade de Yale para mensurar quanta dor um cidadão normal iria infligir em uma outra pessoa pelo simples motivo de ter sido ordenado por um cientista experimental. Pura autoridade foi utilizada contra os mais fortes imperativos morais dos participantes de não causar dor aos seus semelhantes, e, com os ouvidos dos participantes sendo inundados pelos gritos das vítimas, a autoridade venceu mais vezes do que foi vencida. A motivação extrema dos adultos em ir a quase qualquer extremo sob o comando de uma autoridade constitui um achado importante para o estudo, e o fato que mais urge por uma explicação imediata.

Pessoas comuns, que simplesmente estão realizando suas tarefas, sem qualquer hostilidade em particular contra as outras pessoas, podem se tornar agentes de um terrível processo destrutivo. Mais do que isso, mesmo quando os efeitos destrutivos de suas tarefas tornam-se claros e evidentes, e quando eles são ordenados a continuar com suas ações em discordância com as bases fundamentais da moralidade, são poucos aqueles que possuem o que é necessário para resistir à autoridade.” (apud Wikipedia, 2008.)

Os resultados dos diversos experimentos realizados por Milgram e pelos experimentos de confirmação que se seguiram foram de que as pessoas têm a tendência de obedecer à autoridade quando esta é tida como legítima, mesmo podendo ser um engodo, como no caso do experimento, ou quando são apoiadas por uma força potencial. Enquanto que a obediência é o resultado mais comum, a rebeldia não é inexistente, porém é mais rara.

Philip Zimbardo (2007), em um artigo em homenagem ao 45º aniversário do experimento Milgram, escreve que “a psicologia situacional é o estudo das respostas humanas aos aspectos do ambiente social, o contexto comportamental externo, acima de tudo para as demais pessoas a nossa volta”. E lembra que Milgram certa vez descreveu seu experimento para um grupo de 40 psiquiatras e pediu para que eles estimassem a percentagem de cidadãos que iriam ir até o final do experimento, os 450 volts. Na média, eles predisseram que menos de 1 porcento iria ir até o final, apenas os sádicos seriam capazes de tal comportamento sádico, e que a maioria das pessoas iriam abandonar o experimento por volta dos 150 volts. No experimento Milgram, dois de cada três participantes, 65 porcento, foram até o final, descarregando 450 volts na vítima.

Milgram soube descrever bem os elementos que aumentam a adesão às ordens da autoridade, tais como símbolos de autoridade e ordens claras e diretas, além da dissolução da responsabilidade, em geral em concordância com a teoria da conformidade proposta por Solomon Ash na década de 1950. Outro achado importante foi o do distanciamento em relação à vítima: quanto mais distante o participante estava da vítima, mais disposto ele estaria a lhe infligir dor.

Outros estudos de comportamento social já haviam levantado esta hipótese, no sentido de que muitos soldados da Primeira Guerra Mundial erravam intencionalmente seus alvos pois eram obrigados a atirar a curta distância. Um estudo estatístico demonstrou que a medida que a tecnologia avançava permitindo que os tiros fossem disparados a uma maior distância, mais dispostos os soldados ficavam em atirar para matar. (Statistical Modeling, 2006)

Novamente, o exemplo máximo vem com a guerra nuclear, quando um único soldado, de nome Paul Tibbets, foi capaz de varrer da face da terra cerca de 220.000 pessoas instantaneamente, incluindo mulheres, idosos, crianças e civis em geral, e mais milhares de pessoas com o passar dos anos em decorrência da exposição à radiação. Tibbets realizou tal feito dentro de um avião, a quase 10 km de distância do alvo, evidentemente sem ter que olhar nos olhos de suas vítimas, e afirmou até o dia de sua morte, em 1º de novembro de 2007, que não sentia remorso pelo que fez. (BBC News, 2007)

Os estudos de Milgram deram origem também a teorias que visam estabelecer o que leva as pessoas a resistir à influência e a persuasão. Entre estas teorias está a inoculação de atitude, que visa capacitar as pessoas para defenderem suas crenças por meio da defesa de refutação – um argumento contrário às crenças é apresentado ao alvo, seguido de um argumento favorável, num caminho inverso à persuasão de negociação proposta por Cialdini. Esta estratégia é notavelmente utilizada em igrejas de orientação cristã para inocular seus fiéis contra o paradigma da evolução, prestando um grande desserviço à ciência e a compreensão humana.

A advertência de que a persuasão irá ocorrer também permite a prevenção, mas para que a advertência funcione é preciso que o alvo esteja psicologicamente envolvido com o assunto de forma elaborar uma defesa antecipadamente.

E existe o fenômeno da reactância, que ocorre quando as tentativas exaustivas de persuasão acabam conseguindo o efeito contrário àquele que se deseja. Tais tentativas são dissecadas pela análise de discurso nas formas de argumentum ad nauseam, argumentum bene placito, argumentum ad infinitum e circulus in demonstrando. (2001)


CONCLUSÃO



Este trabalho foi válido não apenas para aprofundar o conhecimento na teoria da influência social, mas para lembrar a importância do método científico na construção do saber. Para se fazer ciência é preciso seguir algumas regras, que existem para o bem comum. Estas regras não necessitam de uma figura de autoridade para serem impostas, mas apenas de bom senso na investigação em Psicologia.

É necessário um planejamento, o estabelecimento de um objetivo, a obtenção de referenciais bibliográficos, o reconhecimento do objeto a ser estudado; em suma, uma metodologia, uma base teórica e um objetivo. Assim se estabelece credibilidade, e se legitima todo o processo que é proposto. Sem isso, não há razão em laborar intelectualmente.

A palavra Ethos é a raiz lingüística de ethikos, que significa demonstrar caráter moral. Que bela lição nos trás o estudo da influência social dentro da Psicologia Social, ao confirmar aquilo que Aristóteles já dizia a dois mil anos atrás: estabelecer um vínculo de confiança com as pessoas é uma arte que exige dedicação e consideração pelos envolvidos.

Em 2007, Philip Zimbardo, que agora está com 75 anos – a maioria deles dedicados ao estudo da Psicologia Social, nos trás a teoria do herói, onde ele constrói uma hipótese sobre quais aspectos levam uma pessoa a fazer a coisa certa, resistindo à pressão do grupo, à pressão social, e às diversas formas de influência e autoridade, mantendo-se fiel aos seus valores morais. Seu caso de estudo de maior destaque foi o soldado que denunciou a tortura e os abusos cometidos na prisão de Abu Ghraib.

Ainda há muito o que ser desvendado pela Psicologia Social, mas devemos ter sempre em mente as lições de valor inestimável que podem ser encontradas nos livros.





OBRAS CONSULTADAS



ALLPORT, G. W. The historical background of social psychology. In Tony Manstead & Miles Hewstone (eds.) The Blackwell Enclyclopedia of Social Psychology. Wiley-Blackwell, 1996. Disponível em http://books.google.com.br/books?id=m1o9phdwfxac&printsec=copyright. Acesso em 16 de novembro de 2008.

ARISTÓTELES. On Rethoric. Tradução de W. Rhys Roberts. In Internet Classics Archive. Disponível em http://classics.mit.edu/aristotle/rhetoric.1.i.html. Acesso em 17 de novembro de 2008.

ASH, Solomon. Psicologia Social. Vols. I & II. São Paulo : CEN, 1960.

BOCK, A. M. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. 13 ed. São Paulo : Saraiva, 2002.

DAVIDOFF, L. L. Introdução à Psicologia. São Paulo : Pearson, 2006.

Dr. Robert Cialdini Interview on influence, September 1999. Disponível em http://wakalix.com/booknotes/cialdini_interview.html. Acesso em 17 de novembro de 2008.

Elaboration-likelihood model. In Encyclopædia Britannica On-Line. 2008. Disponível em http://www.britannica.com/ebchecked/topic/1072125/elaboration-likelihood-model. Acesso em 17 de novembro de 2008.

Hiroshima bomb pilot dies aged 92. In BBC News Online, 2007. Disponível em http://news.bbc.co.uk/2/hi/americas/7073441.stm. Acesso em 17 de novembro de 2008.

Logical Fallacies and the Art of Debate, 2001. Disponível em http://www.csun.edu/~dgw61315/fallacies.html. Acesso em 17 de novembro de 2008.

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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O orgulho de fazer Psicologia

Boletim do CFP (Conselho Federal de Psicologia) recebido hoje por e-mail:

Resposta do CFP à notícia intitulada "PF apela à psicologia para algemar"

Falando Sério: Nenhuma forma de Violência vale a pena

Em matéria intitulada “PF apela à psicologia para algemar” publicada no jornal O Estado de São Paulo de 14 de setembro último, lemos o depoimento de duas psicólogas, pertencentes aos quadros da Polícia Federal, onde afirmam ser justificado o ato de algemar, indiscriminadamente, cidadãos que recebem voz de prisão por agentes da PF. Em que pese o lugar de onde opinam as profissionais- elas próprias parte da corporação policial em pauta- suas idéias e concepções não coincidem com os princípios que orientam hoje o debate da psicologia brasileira em torno do tema da justiça, segurança pública e defesa dos direitos humanos. O Sistema Conselhos de Psicologia (Conselho Federal e Conselhos Regionais) estão próximos de realizar o II seminário sobre o sistema prisional brasileiro e o papel dos psicólogos. Na pauta desse seminário apontamos claramente para a tarefa urgente de tratarmos as políticas criminal, penitenciária e de segurança pública brasileiras como caso de calamidade pública merecendo a preocupação de toda a sociedade. Em nossos cárceres imundos mantemos cerca de meio milhão de seres humanos, preponderantemente jovens e miseráveis, muitos deles sem sentença condenatória e passando por todo tipo de violação de direitos. A violência do Estado, muitas vezes legitimada pela mídia, torna-se recurso natural nas ações de repressão aos atos infracionais.

Ora, algemar sob o argumento de que o estresse torna os sujeitos humanos imprevisíveis é generalizar os fenômenos psicológicos, banalizando sua complexidade. Isso pode acabar por justificar a transformação de uma ação de prevenção em ato de ostentação de força e violência onde o sujeito abordado pode tornar-se vítima de humilhação social. Esse efetivamente não deve ser o papel da PF que tem demonstrado seriedade e cautela nas operações que todos acompanhamos nos últimos tempos. O uso da violência desqualifica sua conduta profissional, perdendo credibilidade social e o respeito dos cidadãos que acreditam nos princípios democráticos.
O Conselho Federal de Psicologia, em sintonia com a campanha das Comissões de Direitos Humanos do Sistema Conselhos de Psicologia, acredita que NENHUMA FORMA DE VIOLÊNCIA VALE A PENA.

Humberto Verona
Presidente do CFP

Fonte: Boletim CFP via e-mail / notícias 17.09.2008

"Vous tenez à l’exemple [de la peine de mort].
Pourquoi? Pour ce qu’il enseigne. Que voulez-vous
enseigner avec votre exemple? Qu’il ne faut pas tuer.
Et comment enseignez-vous qu’il ne
faut pas tuer? En tuant.
"

"Você insiste no exemplo [da pena de morte].
Por quê? Porque queres ensinar. O que queres ensinar
com teu exemplo? Que não deves matar.
E como você ensina que não
se deve matar? Matando."

Victor Hugo


No Brasil é comum ligar a televisão e ouvir algum comentarista de telejornal incitando a população a exigir penas mais duras, punições mais severas e, não raro, evocando aberrações jurídicas como a prisão perpétua e a pena de morte. A voz do comentarista se transforma na voz do povo que, tomado de raiva - em geral um sentimento alimentado pelas injustiças sociais que sofre dia após dia -, dá novos tons, ainda mais macabros, às idéias irresponsavelmente disseminadas pela mídia.
A vida em um mundo no qual a desigualdade social ainda é a realidade da maioria dos seus habitantes, especialmente em um país que se intitula emergente mas que ainda possui inúmeras feridas - características do terceiro mundo - expostas, já é brutal o suficiente.
A mídia brasileira, ao invés de cumprir com seu papel social de disseminar idéias já estabelecidas de paz, justiça, equilíbrio e harmonia, regozija-se em incitar a violência onde a violência já é lugar comum: o Brasil é o país dos linchamentos (Martins, 1995; 2008).
Não é sem espanto que o brasileiro médio houve falar do caráter ressocializador que a pena deveria possuir, uma vez que a idéia vigente para a maioria da população é de que a pena serve apenas para punir. Sob esta ótica, vemos comentários dissonantes: caso um indivíduo torne-se notícia por ter sido preso injustamente, são comentados, pelos populares, os aspectos mais negativos e violentos do sistema pena brasileiro, incluindo as provações físicas e psicológicas subumanas às quais o indivíduo fora submetido; caso um indivíduo torne-se notícia por ser suspeito de um crime que desperte sentimentos fortes na sociedade, os comentários dos populares ressaltam a brandura do sistema penal, muita vezes com argumentos que não correspondem à realidade da grande maioria das instituições penais. E tais sentimentos são inflamados pela mídia, que depois ganha audiência com vídeos de populares, em geral das classes de menor instrução, exibindo comportamento violento nas portas dos fóruns e das delegacias. Comportamento violento e criminoso que fora incitado pela própria mídia - ao meu ver um exemplo bastante claro de apologia ao crime ou, mais além, uma das rachaduras na máscara social, em sua própria inconsistência institucional.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Neurônios Espelho

Um neurônio espelho é um neurônio que dispara tanto quando um animal executa uma ação quanto quando um animal observa a mesma ação ser executada por outro animal (especialmente da mesma espécie). Assim, o neurônio espelha o comportamento de outro animal, como se o observador estivesse agindo. Estes neurônios têm sido diretamente observados nos primatas e acredita-se que existem nos seres humanos e em alguns pássaros. Nos seres humanos, atividade cerebral consistente com neurônios espelho tem sido encontrada no córtex pré-motor e no córtex parietal inferior.
Alguns cientistas consideram os neurônios espelho uma das descobertas mais importantes da neurociência na última década. Entre eles consta V. S. Ramachandran, que acredita que eles possam ser muito importantes na imitação e na aquisição da linguagem. Contudo, apesar da popularidade deste campo, até o momento nenhum modelo neural ou computacional plausível foi apresentado para descrever como a atividade dos neurônios espelho dá suporte à funções cognitivas tais como a imitação.
Além disso, é geralmente aceito que não há um conjunto de neurônios que seja isoladamente responsável por este fenômeno. Mais provável é que toda uma rede de neurônios é ativada quando uma ação é observada.
A função do sistema de espelho é objeto de muita especulação. Estes neurônios podem ser importantes para o entendimento das ações de outras pessoas e para a aprendizagem de novas habilidades por meio da imitação. Alguns pesquisadores também especulam que o sistema espelho podem simular ações observadas e, desta forma, contribuir para a teoria das habilidades mentais, enquanto outros relacionam os neurônios espelho à habilidades lingüísticas. Também foi proposto que problemas no sistema espelho podem estar relacionados à desordens cognitivas, em particular ao autismo. A conexão entre uma disfunção nos neurônios espelho e o autismo permanece especulativa e é pouco provável que os neurônios espelho estejam relacionados a muitas das características importantes desta síndrome.
A descoberta dos neurônios espelho se deu nas décadas de 80 e 90, quando Giacomo Rizzolatti estava trabalhando com Luciano Fadiga, Leonardo Fogassi e Vittorio Gallese na Universidade de Parma, na Itália. Estes cientistas haviam posto eletrodos no córtex frontal inferior de macacos para estudar os neurônios especializados no controle do movimento das mãos; por exemplo, segurando e manuseando um objeto. Durante cada experimento, eles gravavam a atividade de um único neurônio no cérebro do macaco enquanto ele manuseava pedaços de comida, de maneira que os pesquisadores pudessem medir a resposta daquele neurônio para certos movimentos. Eles descobriram que alguns neurônios, cuja a atividade havia sido gravada, respondiam tanto quando o macaco observava uma pessoa pegar um pedaço de comida, quanto quando o macaco pegava a comida. Experimentos posteriores confirmaram que aproximadamente 10% dos neurônios do córtex frontal inferior e do córtex parietal inferior do macaco possuíam propriedades "espelho" e davam respostas similares às ações realizadas pela mão e às ações observadas. Mais recentemente, Christian Keysers e seus colegas demonstraram que tanto nos humanos quanto nos macacos, o sistema espelho também responde aos sons de ações.

Este trabalho foi então publicado e tem sido confirmado com neurônios espelho encontrados tanto nas regiões frontal-inferior e parietal-inferior do cérebro. Recentemente, evidências coletadas por meio de ressonância magnética funcional, TMS, EEG e comportamentais sugerem a presença de sistemas similares em seres humanos, nas quais regiões do cérebro que respondem tanto a ações quanto a observações foram identificadas. Não surpreendentemente, estas regiões do cérebro correspondem às mesmas regiões que foram encontradas no cérebro dos macacos.
O único animal no qual os neurônios espelho foram estudados individualmente é o macaco. Neles, os neurônios espelho são encontrados no giro frontal inferior (região F5) e no lóbo parietal inferior.
Acredita-se que os neurônios espelho mediam a compreensão do comportamento de outros animais. Por exemplo, um neurônio espelho que dispara quando o macaco rasga um pedaço de papel irá também disparar quando o macaco observa uma pessoa rasgando um pedaço de papel, ou quando um macaco ouve um pedaço de papel ser rasgado (sem estímulos visuais). Estas propriedades levaram os pesquisadores a acreditar que os neurônios espelho codificam conceitos abstratos de ações como "rasgar papel", enquanto a ação é realizada pelo macaco ou por outro animal.
A função dos neurônios espelho nos macacos ainda é desconhecida. Macacos adultos não parecem aprender por imitação. Experimentos recentes sugerem que macacos jovens podem imitar os movimentos faciais humanos, embora apenas os neonatos tenham demonstrado tal habilidade e apenas durante uma limitada janela temporal. Contudo, não é conhecido se os neurônios espelho são responsáveis por este comportamento.
Em macacos adultos, neurônios espelho podem habilitar o macado a entender o que outro macaco está fazendo, ou para reconhecer a ação de um outro macaco.
Nos seres humanos, geralmente, não é possível estudar a atividade de um único neurônio no cérebro, então os cientistas não podem ter certeza se os seres humanos possuem neurônios espelho. Contudo, os resultados de experimentos usando ressonância magnética funcional têm mostrado que o córtex frontal inferior e o lobo parietal superior humanos são ativados quando a pessoa realiza uma ação e, também, quando a pessoa observa outro indivíduo realizando uma ação. Assim, estas regiões do cérebro provavelmente contém neurônios espelho e foram definidas como sistemas espelho neuronais humanos. Diversas medidas indiretas tem sido usadas para estudar o sistema espelho nos humanos. Por exemplo, quando uma pessoa observa a ação de outra pessoa, seu córtex motor torna-se mais excitável. Esta excitabilidade pode ser medida pelo registro do tamanho do potencial motor evocado (MEP) induzido pela estimulação magnética transcranial. As mudanças no tamanho do MEP são tomadas como medida da atividade do sistema espelho, pois os MEPs provém do córtex motor primário que está intimamente relacionado às regiões nas quais se acredita que existam neurônios espelho no cérebro. Dados recentes sugerem que estas mudanças no tamanho do MEP podem ser fortemente influenciadas por treinamento em diferentes mapeamentos de estímulo-resposta, com grandes aumentos para mapeamentos já bem aprendidos.
A óculometria dá outra medida indireta que pode refletir o processamento dos neurônios espelho. Quando alguém move as mãos, os olhos movem-se adiante da mão para focalizar o objeto a ser manuseado. Similarmente, quando observando as ações de alguma outra pessoa, os olhos do observador também devem antecipar o que a outra pessoa irá fazer.
A óculometria infantil sugere que o sistema espelho se desenvolve antes dos 12 meses de idade e que este sistema pode ajudar bebês a entender as ações de outras pessoas. Uma questão crítica é sobre como os neurônios espelho adquirem suas propriedades. Dois modelos relacionados postulam que os neurônios espelho são treinados por meio da aprendizagem Hebbian ou Associativa. Contido, se os neurônios pré-motores recisam ser treinados pela ativação para que possam adquirir propriedades espelho, não fica claro, então, como bebês recém nascidos são capazes de mimetizar os gestos faciais de outras pessoas (imitação de ações não vistas), como sugerido pelo trabalho de Meltzoff & Moore (a não ser que seja um tipo especial de imitação não suportada pelos neurônios espelho).
Muitos estudos relacionam os neurônios espelho ao entendimento de objetivos e intenções. Fogassi e outros registraram a atividade de 41 neurônios no lobo parietal inferior de dois macacos rhesus. O lobo parietal inferior tem sido a muito tempo reconhecido como um córtex de associação que integra a informação sensorial. Os macacos observaram um experimentador pegando uma maçã e levando a maçã até a boca ou pegando um objeto e colocando o objeto dentro de um copo. No total, 15 neurônios espelho disparam vigorosamente enquanto os macacos observavam o movimento de "pegar e comer", porém não foi registrada qualquer atividade quando foram expostos à condição de "pegar e colocar". Para quatro outros neurônios espelho, o contrário era verdade: eles eram ativados em resposta ao experimentador eventualmente colocando a maçã no copo, mas não quando ele levava a maçã a boca. Apenas o tipo de ação, e não a força cinética com a qual os modelos manipulavam os objetos, determinava a atividade neural. Também é significante que os neurônios disparavam antes do macaco observar o modelo humano começar o segundo ato motor (levar o objeto à boca ou por o objeto no copo). Assim, neurônios do lobo parietal inferior codificaram o mesmo ato (agarrar) de diferentes formas de acordo com o objetivo final da ação na qual o ato estava envolvido***. Eles podem ser a base neural para previsão das ações subseqüêntes de outros indivíduos e para a inferência de intenções.
Neurônios espelho também foram relacionados à empatia, pois certas regiões do cérebro (em particular a ínsula anterior e o córtex frontal inferior são ativados quando uma pessoa experiencia uma emoção (nojo, alegria, dor, etc...) e quando observa outra pessoa experienciar uma emoção. Contudo, estas regiões do cérebro não são exatamente as mesmas que espelham ações manuais, e neurônios espelho para estados emocionais ou empatia não foram ainda descritos em macacos. Mais recentemente, Christian Keysers, do Laboratório Cerebral Social (Social Brain Lab), e seus colegas, demonstrou que pessoas que são mais empáticas conforme as respostas de questionários que foram aplicados, possuem ativações mais fortes em ambos os sistemas para ações manuais quanto para emoções, provendo mais suporte direto à idéia de que o sistema espelho esteja relacionado à empatia.
Foram encontrados neurônios espelho próximos à área de Broca, região de processamento da lingüagem e produção da lingüagem. Isso levou à sugestões de que a linguagem humana evoluiu de um sistema de realização e compreensão gestual implementado em neurônios espelho. Neurônios espelho têm sido relacionados ao potencial de prover um mecanismo para a compreensão de ações, imitação por aprendizgem e para a simulação do comportamento de outras pessoas. Contudo, como muitas teorias de evolução da linguagem, ainda existem poucas evidências diretas neste sentido.
Na filosofia da mente, os neurônios espelho têm sido agitado os teoristas da teoria da mente, que se refere à habilidade humana para inferir o estado mental de outra pessoa (tais como desejos e crenças) a partir das experiências e comportamentos da pessoa em questão. Segundo a teoria da simulação, a teoria da mente está disponível pois nós nos colocamos subconscientemente "nos sapatos" de outra pessoa a quem estejamos observando e, tendo em conta as diferenças relevantes, imaginamos o que iríamos desejar e acreditar em tal cenário. Neurônios espelho têm sido interpretados como o mecanismo pelo qual nós podemos simular os outros de modo a melhor entendê-los e, desta maneira, a descoberta destes neurônios tem sido tomada, por alguns, como a validação da teoria da simulação (que apareceu uma década antes da descoberta dos neurônios espelho). Mais recentemente, as teorias da mente e simulação têm sido vistas como sistemas complementares.

Fonte: Mirror Neuron. In: Wikipedia, the free encyclopedia.
Para saber mais: NOVA | scienceNOW | Mirror Neurons: Monkey Do, Monkey See | PBS
Ver também: Recortes: A História Humana - Uma nova história da evolução da humanidade

*** Obs.: A codificação de diferentes informações motoras observadas em diferentes áreas relacionadas a áreas motoras cerebrais parece condizente com um modelo de memória distribuída na qual uma única ação, ou evento, ou melhor dizendo, uma única memória, envolvendo diferentes aspectos tais como movimento, visão, cheiros e sons, é codificada em locais diferentes do cérebro que se associam intimamente tanto quanto na codificação neuronal desta memória quanto na sua evocação meramente mental ou resultante em ação verbal ou física posterior. Por exemplo, alguém que recebe um buquê de flores pode ter a memória deste evento codificada em locais de associação tanto nos quanto relacionados aos córtex visual (que reteria a informação visual do evento), quanto no córtex motor e sensitivo (que reteria as informações motoras de segurar e de tato e olfato ao buquê), quanto em áreas associativas da linguagem (receber, buquê, etc e tal...). Essa suposição pode ser confirmada ou refutada com base em pessoas que sofreram algum dano em alguma destas áreas do cérebro e que tenham que lembrar-se e descrever um evento deste tipo que envolva a ativação de várias áreas do cérebro. Caso algum aspecto do evento não seja acessível a memória, e seja correspondente a área afetada, fica estabelecido um indicador favorável a esta hipótese. E mesmo que a memória seja descrita inicialmente na íntegra, esta hipótese não fica totalmente descartada, uma vez que isso possa ser resultado da integridade das áreas de linguagem do cérebro. Contudo, imagino que seria difícil realizar um contra-teste... Caso a pessoa houvesse perdido o sentido do olfato em razão de um dano cerebral e ainda assim fosse capaz de descrever verbalmente o cheiro do buquê, o contra-teste que consigo imaginar seria a apresentação de diferentes cheiros para a pessoa para que ela reconhecesse qual corresponde ao cheiro do buquê, o que obviamente não seria possível pois ela haveria perdido o sentido do olfato. Assim, não imagino, neste momento, como isto poderia ser testado, mas também vejo que levanta uma outra hipótese interessante, de que a linguagem possa ser um repositório de memórias... Mas isso parece não proceder, uma vez que uma pessoa com um dano nos corpos mamilares pode ter total compreensão e domínio da linguagem e ser incapaz de reter a memória de eventos ocorridos após o dano. A idéia de uma memória distribuída em diferentes sistemas, onde cada aspecto de cada memória fica armazenado no sistema correspondente ao aspecto em questão, é interessante para a compreensão da experiência subjetiva.
** Update: "Por exemplo, em um paciente sob meus cuidados, uma trombose repentina na circulação posterior do cérebro causou a morte imediata das várias partes visuais do cérebro. Dali por diante, este paciente tornou-se totalmente cego, porém sem o saber. Ele parecia cego, mas não se queixava [levando em consideração os relatos de danos no SNC e de danos no SNP que já li, me parece que para danos no SNP que levam a perda parcial ou total de alguma função, e para danos no SNC que levam a perda parcial de uma função, os pacientes tendem a reclamar mais de suas condições, talvez por ter maior consciência da perda. Porém para danos no SNC que levam a perda completa de alguma função, os pacientes parecem permanecer alheios a tal perda, como se, de alguma forma, jamais houvessem possuído tal função. Inicialmente eu imaginava isso como um mecanismo psicológico de negação, uma defesa para tal estado; mas agora sou levado a considerar a possibilidade de que uma parte da consciência destes indivíduos foi eliminada... ]. Perguntas e exames mostraram, sem sombra de dúvida, que ele estava central ou "corticalmente" cego, mas que também perdera todas as suas imagens ou memórias visuais, que as perdera totalmente, embora não tivesse idéia de perda alguma. De fato, ele perdera a própria idéia [conceito] de visão e não só era incapaz de descrever algo visualmente, como, também, ficava confuso quando eu usava as palavras "enxergar" e "luz". Em essência, ele se tornara um ser não visual. Todo seu tempo de vida como pessoa que exergava, seu tempo de visualidade, fora efetivamente [parcialmente, uma vez que foram só as imagens e não os demais aspectos das lembranças!] roubado. De fato, toda sua vida visual fora apagada - e apagada permanentemente - no momento do ataque. Essa amnésia visual e (por assim dizer) cegueira para a cegueira, amnésia para amnésia [isso é redundante, uma vez que é comum, como visto no caso relatado neste capítulo deste livro que cito], constitui efetivamente uma síndrome de Korsakov "total" restrita à visualidade." SACKS, Oliver. O homem que confundiu sua mulher com um chapéu. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. pg. 56-7
Bom, com esse relato incrível do Oliver Sacks - e todos os relatos do Oliver Sacks tornam-se incríveis mais do que pela situação que descrevem, mas pela habilidade dele com as palavras, é sem dúvida um neurologista e um escritor genial - parece ser uma nova força para a hipótese de que cada memória é armazenada em diversos locais do cérebro, sendo que cada aspecto de cada memória é armazenado separadamente na área responsável pela aquisição daquela memória. Se assim procede, e levando em conta algo que li num outro livro, não me lembro se do LeDoux ou do Damásio - olha minha memória aí... -, de que as áreas que desempenha suas funções adquiridas hereditariamente, formadas por especialização celular conforme os planos genéticos de cada espécie, tendem a adaptar a sua performance aos estímulos que recebem - o que faz sentido, lembrando dos casos de pessoas que são privadas da visão e a recobram anos depois ou que são privadas de contato com a linguagem, no primeiro caso se diz que elas precisam reaprender a usar a visão, no segundo caso já foi constatado um déficit no desenvolvimento das áreas da linguagem, mesmo déficit que possivelmente poderia ou pode ser constatado no caso da visão, do primeiro caso. Isso tem grandes implicações para a questão dos qualia, da experiência subjetiva. A maneira como usamos os sistemas responsáveis pela experiência consciênte dos nossos sentidos e faculdades, os estímulos que estes sistemas recebem do meio, irão moldar tais sistemas e, conseqüêntemente, a própria experiência subjetiva, ou o quale de cada um deles... Eu me dei conta disso depois de ler esse negócio sobre como os estimulos modificam os diferentes sistemas, e depois de ler uma citação de um livro do Francis Crick no blog do Ken Mogi. Agora com mais esse relato do Oliver Sacks, isso tudo parece fazer muito sentido... Preciso explorar mais essa idéia. :D
* Na verdade só fiz essa tradução por que eu queria colocar a foto do macaquinho fazendo careta no blog, por que achei muito legal a foto. (:

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Resumo crítico dos três primeiros capítulos do livro Psicologia Social Contemporânea

História (Psicologia Social)


O autor propõe uma abordagem da história da Psicologia Social com a utilização de uma lógica que transcenda a tradicional visão centrada no Positivismo, tomando a Psicologia Social como um fenômeno norte-americano, embora europeu em suas raízes, para então finalizar com um apanhado dos desdobramentos que tal fenômeno teve no contexto brasileiro.

Seu método de relato é histórico relativístico: são consideradas as limitações do historiador, ou daquele que conta a história, em razão dos vieses que carrega consigo e que lhe foram transmitidos por aquele que lhe contou a história que pretende agora relatar. Existe uma noção de “história ideal” e “história de fato”, diferenciada pela percepção incutida no povo por aqueles que estão no poder e por aquilo que os registros factuais são capazes de revelar.

Como ponto de partida o autor trata daquele que é considerado o pai da Psicologia no mundo Ocidental, Wilhelm Wundt (1832-1920). Wundt havia se proposto a dar nascimento à Psicologia experimental da mente, tornando a Psicologia independente da Filosofia, uma vez que esta era um campo de estudo filosófico em Leipzig, e iria fazer isso sendo extremamente metódico em suas investigações experimental-introspectivas da experiência imediata à consciência, seu objeto de estudo. Por meio do uso de uma Lógica, de uma Ética e de Sistemas Filosóficos, tudo na melhor tradição filosófica, Wundt criaria um corpo teórico metafísico para sua nova ciência.

Tais procedimentos trouxeram a crítica dos positivistas, que seguiam o pensamento de Auguste Comte, segundo o qual uma Ciência Metafísica não seria justificável pois seria um oximoro, na sua concepção, com o perdão da redundância. Para aqueles que seguiam o pensamento de Comte, um homem muito doente e atormentado, havia três estágios para o desenvolvimento do conhecimento humano: o teológico, baseado em crenças e superstições; o metafísico, baseado na lógica filosófica; e o científico, que seria um corpo de conhecimento experimental a posteriori, calcado no rigor científico. Wundt era rigoroso, porém falhou ao escolher a mente, ou a consciência, na forma de experiência imediata consciente, como objeto de estudo. Esta seria sua única falta ao método científico.

Contudo, a mesma crítica que é feita pelos positivistas àquilo que vieram a chamar amplamente de mentalismo, também revela uma falha muito simples no próprio pensamento positivista: o método científico depende do rigor lógico da Matemática, ciência amplamente aceita desde a Antiguidade Clássica, como modelo de lógica para qualquer corpo teórico científico. Mas a própria Matemática é uma abstração, uma representação mentalista estruturada e organizada da realidade e dos objetos reais – e também dos irreais – que o ser humano consegue perceber e conceber.

A questão que fica para a História, com a leitura destas críticas, é: só porque um conhecimento não pode ser comprovado empiricamente ele deve ser desprezado por aqueles que fazem ciência? Levaria quase 200 anos para que a tecnologia alcançasse um estágio em que pudéssemos ter as primeiras visões do funcionamento da mente humana, mas teria tal tecnologia se desenvolvido e, ainda que tivesse se desenvolvido, teria ela um corpo teórico coeso para ser confirmado ou refutado que lhe desse sentido, caso os estudos mentalistas tivesse sido simplesmente abandonados?

Pessoalmente acredito que a intensão dos positivistas era, em grande parte, boa, e o método científico na sua formulação original trouxe imensos benefícios para a aquisição do conhecimento cientifico em geral; contudo o radicalismo exacerbado sempre trás conseqüências funestas, tanto para aqueles que são radicais, que por mais contribuições que tenham feito ficarão com uma mancha de preconceitos em suas histórias, quanto para aqueles que buscam conhecimento em áreas nas quais a tecnologia não oferece os recursos necessários para a confirmação experimental.

Acredito que todo estudo é válido desde que respeite tanto quanto possível o método científico, a ética científica, os valores sociais vigentes e siga uma lógica extremamente rígida e baseada nos preceitos da Filosofia e das Ciências Naturais. Desta maneira eliminamos grande parte das verdadeiras pseudociências – estas dificilmente sobrevivem ao rigor lógico, sem abrir mão daqueles campos de estudo que são honestos e sérios, mas carecem de meios para sua comprovação.

Num apanhado geral, o positivismo teve mais aspectos positivos do que negativos para a ciência dos Séculos XIX e XX, suas críticas são um constante lembrete, a todos os cientistas, da necessidade de seriedade e metodologia em suas investigações.

Mais um exemplo de como isso ocorre, é na crítica à Psicologia Social de Wundt, a Volkerpsychologie, que por carecer de métodos de amostragem válidos para testar suas hipóteses, apresentava, neste caso, uma falha em sua lógica. Todos os seus achados eram sujeitos a estarem inferindo na população uma característica obtida por meio de uma amostra não representativa, criando uma falácia de composição.

É preciso distinguir os pontos onde o “repúdio positivista de Wundt” são justificados, como é o caso das críticas aos aspectos falhos na lógica de seus métodos de investigação, e os pontos onde tal repúdio é abusivo, quando critica um objeto de estudo válido, importante, porém carente de meios tecnológicos para um estudo apropriado.

O segundo ponto levantado pelo autor, é a questão da criação de um cenário de “nascimento” para a Psicologia, colocada de forma um tanto caricata mas fiel à maneira como é ensinada nos cursos de História da Psicologia. A crítica que o autor faz não é realmente a este cenário criado mais com fins didáticos e celebrativos do que propriamente políticos ou filosóficos, mas sim à atribuição da paternidade da Psicologia Social à Auguste Comte. Neste ponto concordo inteiramente com a crítica do autor, uma vez que não podemos dissociar a Psicologia, qualquer Psicologia, dos aspectos subjetivos humanos, sejam eles enquanto indivíduos ou enquanto grupo, sob o risco de tratar humanos como menos do que humanos, como coisas. A existência dos trabalhos anteriores à Comte em Psicologia Social, e as diferenças de abordagem e interesses no ser humano nos campos da Sociologia e da Psicologia, fazem com que a atribuição de “paternidade” à Comte possa levar a enganos e a precipitações nos procedimentos de estudo no campo da própria Psicologia Social.

No terceiro ponto, o autor trata do florescimento da Psicologia Social durante a Segunda Grande Guerra, onde suas aplicações militares foram exploradas, sem deixar de dar frutos que foram utilizados, posteriormente, para o bem e para o mal da população civil. Ao lembrar do julgamento de Nuremberg, não fica difícil entender o motivo pelo qual a Psicologia Social veio a ser um fenômenos tipicamente norte-americano: nas guerras os vencedores nunca são criminosos e muito menos culpados de coisa alguma, independente do que tenham feito; já os derrotados serão sempre maldosos, perversos e ricos objetos de estudos para a criação de teorias da parte dos cientistas do lado vencedor, os quais, muitas vezes, realizam tal estudo com uma forte intensão não explicitada de tripudiar sobre os derrotados e usar seus aspectos culturais contrastantes para fortalecer o sentimento cultural dos vencedores.

Os campos de concentração para judeus, na Alemanha, são amplamente conhecidos e se transformam em museus masoquistas para um povo que continua a amargurar os erros de uma ou duas gerações anteriores, ainda que seja um princípio jurídico universalmente aceito em todos os países ditos “livres” de que as conseqüências ações criminosas dos pais não devam ser carregadas pelos filhos, e muito menos pelos netos. Já os campos de concentração para imigrantes japoneses criados pelos Estados Unidos também durante a Segunda Grande Guerra, estes são pouco conhecidos, em especial no Brasil. O que dizer, então, dos modernos campos de concentração como Guantánamo Bay? Ah, estes são conhecidos como “Centros de Detenção para prisioneiros extrajudiciais dos Estados Unidos”...

A guerra favoreceu os norte-americanos não apenas com uma história para contar, mas também com a mão-de-obra especializada para realizar tal tarefa, com um grande número de cientistas judeus que imigraram para os Estados Unidos fugindo dos terrores nazistas e, ao final da guerra, um grande número de cientistas alemães que imigraram mais ou menos voluntariamente em uma corrida pela assimilação do maior número de cientistas que houve entre os Estados Unidos e a União Soviética.

O poderio econômico norte-americano, representado no texto pelas grandes universidades, também teve papel vital no surgimento da Psicologia Social como conhecemos hoje. Não fossem os vastos recursos financeiros para pesquisa, o avanço nas áreas da Psicologia Social teria sido bem mais lento. E foi em solo americano que se deu o encontro entre o pragmatismo daquilo que era feito nos Estados Unidos até então, com a abordagem fenomenológica, vinda da Gestalt alemã.

Os motivos que levaram, durante anos, aos escritores de livros-textos (ou handbooks) de Psicologia Social, na sua maioria norte-americanos, a ignorarem o pesamento Europeu e, em especial, o pensamento Histórico-Marxista, são um tanto óbvios: tais livros foram escritos a décadas atrás, alguns datando do período da Guerra Fria, e então são apenas revisados, ampliados e republicados, sob a supervisão dos mesmos autores originais. Seria, na verdade, surpreendente tais autores falando qualquer coisa positiva que fosse sobre o Marxismo ou mesmo valorizando o pensamento do “Velho Mundo”. Pelo menos é esta a interpretação que faço daquilo que o autor brasileiro descreve como sendo, praticamente, uma conspiração positivista. Tal conspiração, por parte dos positivistas, seria muito mais evidente na Europa Anglo-Saxônica, no obscurecimento das obras metafísicas e alquímicas do grande herói da Física, Isaac Newton, pela intelectualidade acadêmica.

O autor também trata das teorias de George Mead sobre o Behaviorismo Social, sobre o comportamento social na forma da linguagem. Tais teorias vem sendo resgatadas por psicólogos cognitivos, psicólogos sociais e até por filósofos e neurologistas que se preocupam com aspectos individuais e sociais da consciência e do comportamento humano.

Ao finalizar o terceiro ponto, o autor faz uma citação de Farr, na qual chega a criticar o viés da Filosofia da Ciência na narração da história da Psicologia. Acho que há uma superestimação por parte do autor quanto a importância de tal viés e uma subestimação quanto a importância do Positivismo. Não seria possível fazer ciência sem a Filosofia da Ciência, assim como a ciência moderna é inconcebível sem que as regras, trazidas com o Positivismo, existissem.

Ao final do texto o autor narra o surgimento da ALAPSO (Associação Latino-Americana de Psicologia Social) e da ABRAPSO (Associação Brasileira de Psicologia Social), para suprir a demanda por adequação, contextualização e regionalização dos estudos de Psicologia Social, além, é claro, de interesses políticos justificados, sendo o autor, ou nem tanto, da maneira que vejo.

Quando se fala em ruptura, se passa a idéia de cessação de trocas, afinal, aquilo que se rompeu não faz mais contato com o todo. Gostando ou não, os norte-americanos são e continuam sendo um pólo produtor de conhecimento, com investimentos em educação e pesquisa muito superiores aos dos países latino-americanos e a cessação de troca com tal pólo seria não apenas uma temeridade mas, também, um retrocesso. Sou a favor de copiar e adaptar, dando o devido crédito a todos os intermediários do processo, assim se faz a construção do conhecimento e, de fato, é assim que tem sido feito. Pelo menos em parte.

Não é raro ver em sites especializados algum autor brasileiro publicando um trabalho “inédito” que não e mais do que uma tradução e adaptação de algum trabalho norte-americano anterior. Infelizmente isso faz parte da realidade de um país onde os investimentos da educação e na pesquisa ainda são muito escassos e mal direcionados. Exemplo disso é a continuada desvalorização da educação de base: enquanto ninguém questiona a proficiência de instituições como a USP, a UNICAMP, o ITA e outras tantas instituições de ensino superior público, o ensino de base não conta com escolas que sejam referencias de mesmo peso. Escolas técnicas que gozavam de excelência e eram um referencial tem seus recursos destinados sendo diminuídos, e escolas de ensino primário, quanto a essas é até difícil falar, pois o ensino primário público no Brasil é extremamente carente de atenção das autoridades.

Contudo o autor discorda desse meu ponto de vista, afirmando que a produção de conhecimento no Brasil não deixa nada a desejar em relação ao restante do Ocidente. Afirmação esta que pode ser facilmente refutada por meios quantitativos ou qualitativos de pesquisa e indexação da produção acadêmica Ocidental. Para citar apenas um ponto que corrobora com isso, basta lembrar que algumas das pesquisas de ponta realizadas por pesquisadores brasileiros são patrocinadas e vinculadas a instituições estrangeiras, sendo publicadas inicialmente na língua inglesa, isso quando chegam a ser publicadas em português.

Outra frase do texto que me incomoda muito é a seguinte: “Contextualizada, histórica, preocupada com a cultura, valores, mitos e rituais brasileiros e latino-americanos em geral, já não vêem mais a necessidade de importação desenfreada de teorias e métodos cientificistas.” É difícil compreender tanta raiva por parte do autor contra o método científico, uma vez que é muito difícil pecar por usar demais tal método, mas é extremamente fácil pecar pela falta no uso do mesmo. Com tudo isso fica fácil compreender as críticas à abundância de artigos, teses e pesquisas que vêm sendo feitos e que abordam assuntos completamente irrelevantes, que não causaram nenhum acréscimo digno de nota ao conhecimento científico existente e que, muitas vezes, não passam de releituras de obras anteriores.

Em tempos de super-acesso à informação (graças aos norte-americanos também), nenhum tipo de pesquisa científica pode ser subestimada, seja uma pesquisa realizada no Brasil, na Argentina, no Chile, em Angola, em Mali, ou em qualquer país do mundo, seja um país em estado de calamidade ou em desenvolvimento. Mas mais do que isso, subestimar e “romper” com pesquisas de países que possuem recursos que não possuímos, é prepotência na melhor das hipóteses. O próprio Pedrinho Guareschi, outro grande defensor do social e do popular, deve muito de sua formação e de seu reconhecimento a estudos realizados no exterior.

Termino minhas críticas às observações históricas e científicas feitas pelo autor do texto, lembrando da dificuldade de encontrar material relevante e de qualidade sobre a própria história da Psicologia brasileira. No semestre passado tivemos de fazer um trabalho sobre isso, e as principais publicações sobre o assunto, incluindo livros e artigos, eram restritas a um punhado de autores muito repetitivos que focalizavam em uma série de fatos de pouca ou nenhuma relevância para o acréscimo do conhecimento teórico em Psicologia. Também no relato – moderno – da história da Psicologia brasileira, existe um passado longínquo subestimado, com algumas contribuições de grande importância, e uma breve contemporaneidade superestimada carente de grandes contribuições. Em algumas fontes sobre a história da Psicologia brasileira o passado nem ao menos é mencionado, à semelhança do que foi feito nos Estados Unidos.

O autor encerra com recomendações de leitura e mais uma crítica à Psicologia Social norte-americana que me parece completamente infundada, de que nos Estados Unidos se dá ênfase à uma Psicologia Social voltada para o indivíduo em detrimento ao social. Hum, sim. É verdade, nos Estados Unidos, os psicólogos que estudam e se especializam na Psicologia Social realmente possuem esta ênfase. Contudo lá existe a Psicologia Social enquanto campo de estudo da Sociologia, também conhecida como a Psicologia Social Sociológica. Neste outro campo de estudo, sociólogos dão ênfase ao social. No Brasil, apenas psicólogos estão permitidos a realizar tais estudos e já existe pelo menos um artigo que aponta para a possível falta de diálogo interdisciplinar entre psicólogos e sociólogos por conta da impossibilidade destes últimos de se especializarem nesta área.

Concluo este resumo e minhas reflexões a cerca do que li afirmando que o texto é interessante, bem escrito, traz algumas informações muito boas, mas peca pelo excesso de etnocentrismo, excesso de críticas ao cientificismo, críticas desprovidas de argumentos à Filosofia da Ciência e algumas afirmações que não condizem com a realidade factual brasileira.


BERNARDES, Jefferson de Souza. História. In: Psicologia Social Contemporânea. Marlene Neves Strey (org.). 10ª ed. Petrópolis : Vozes, 2007. pg. 19, 35.





Epistemologia (Psicologia Social)



Começarei este resumo traçando um mapa de argumento da introdução da autora:



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Partindo da premissa que aponta para a necessidade de uma análise dos caminhos do desenvolvimento científico que nos levaram até onde estamos para que possamos ter uma previsão de para onde tal desenvolvimento está nos levando, os argumentos da autora sustentam que o curso da ciência é determinado historicamente e que, portanto, é preciso um estudo que aponte para quais são os fatores que determinam este curso.



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Neste segundo mapa de argumento podemos ver que a autora parte da premissa do poder adquirido pela ciência como uma reação, presumivelmente, às agruras da Idade das Trevas e que, ao mesmo tempo que é reveladora de verdades objetivas, também revela as limitações e falhas do ser humano.

A importância de traçar estes dois mapas de argumento iniciais é a busca de silogismos que fortaleçam o posicionamento da autora, coisa que não foi encontrada, e, como diriam alguns filósofos, atomizar sua linguagem para descobrir do que são formadas suas idéias. Mesmo carecendo de argumentos fortes para sustentar suas premissas e conclusões introdutórias nestes dois parágrafos inicias, a autora não entra em contradições em sua linha de raciocínio.


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A autora conclui a introdução partindo de uma premissa que se utiliza da definição da epistemologia e argumentando que a virada do século e do milênio, juntamente às novas perspectivas para discussão das transformações sociais e humanas e, retomando, o poder e o método científico, devem ser guiados por um juízo ético, concluindo que este juízo se faz necessário para que a ciência traga bons frutos.

Podendo analisar argumento por argumento, ainda que sejam vagos como é característico das introduções de ensaios das áreas humanas, penso que o único que não se sustenta é aquele que usa a passagem cronológica do tempo, apontada na virada do século/milênio, para justificar o juízo crítico para com a ciência. Tal juízo, obviamente, deve ser constante, independente da contagem da passagem do tempo praticada no mundo ocidental, caracterizando, assim, o único argumento fraco na introdução da autora. A epistemologia está tão arraigada ao método científico, que se dá a conhecer neste por seus requisitos de falseabilidade e contra-prova.

Fora isto, a argumentação introdutória levantou pontos interessantes, como a determinística dos rumos científicos, influenciados pelo contexto histórico em que se dão, os limites morais da ciência pela ciência e a necessidade do juízo ético justamente para contrabalançar tais limites.

Seguindo com o texto, a autora aborda a crise pela qual passa a Psicologia Social, como um ponto de mudança, que pode ser positivo se forem considerados os aspectos corretos, tais como o aumento da complexidade e o parco corpo teórico que explique as questões constituintes desta complexidade. Um interessante comentário é feito quanto a adaptação ou acomodação de conceitos e interpretações, prática que se mostra inadequada, sendo necessário, muito bem colocado pela autora, repensar os fundamentos da própria reflexão psicológica – ou seja, repensar o modo de repensar tais conceitos e interpretações – para um mundo singular no que tange a globalização, virtualidade, diversidade, etc.

O paradoxo da contemporaneidade que estamos vivenciando se dá, parafraseando a autora, pela duração do passado e pela obcecada tendência pela instantaneidade. Nas ciências, em especial nas humanas e, mais especialmente ainda nas ciências humanas com grande penetração política, as mudanças ocorrem num ritmo muito mais lendo do que os paradigmas científicos e sociais são derrubados pelo trabalho de pesquisa e de inovação, e pelo impacto dos resultados destes trabalhos nas sociedades. O que temos, então, são regras ultrapassadas, de um passado relativamente distante, para uma realidade nova, que se acelera em distanciar-se das características do passado no qual foram fundamentadas tais regras que serão utilizadas para ajuizar o avanço científico e social; o que temos é um futuro que se torna presente cada vez mais rápido e cujos únicos observadores vivem no passado, com possuem uma visão que se torna cada vez mais turva dada a distância crescente imposta por seus passos lentos. Isso trás a perda da confiança na epistemologia, pois ela se torna incapaz de compreender o presente e, desta maneira, incapaz de estabelecer um juízo crítico adequado.

A autora levanta, então, a questão de como podemos intervir numa crise que já vez se arrastando a tempos e que se faz cada vez mais evidente. Tal questão começa a ser trabalhada ao apontar alguns fenômenos transformadores, como a derrubada da sua formulação verificacionista – conhecimento a posteriori, experimentação e observação –, também naturais, nas bases neopositivistas.

Pessoalmente não acredito nesta derrubada, coisa que se confirma na contradição em que a autora entrará mais adiante no texto ao apontar a permeabilidade da Psicologia Social ao Positivismo Lógico. O que houve foi uma tênue adaptação no hemisfério do norte no mundo ocidental, que se fez notar em todo o “mundo civilizado”, no que diz respeito ao pensamento pragmático e seu rompimento com o positivismo radical motivado pelas limitações óbvias neste, algumas que chegam a induzir ao erro.

Além das mudanças metodológicas, o aspecto construtivista do conhecimento, assim como suas considerações reflexivas e sócio-econômicas, se tornam importantes para que se possa pensar em modificações na epistemologia, coisa que já encontra-se em um clima propício segundo a autora. De fato, na academia, tais mudanças são notadas, mas até que ponto o mesmo é verdadeiro na realidade social e no quanto aquilo que é trabalhado academicamente se faz notar na sociedade?

Ao retomar as questões metodológicas, a autora transparece sua premissa de que a natureza não é um mecanismo determinístico o que, em parte, é verdadeiro, porém jamais teríamos ciência sem esta abordagem. O que ainda se faz necessário quanto ao método científico é a relativização das leis que são consideradas universais, em especial nas ciências sociais, e uma maior agilidade na adaptação dos conceitos derivados da epistemologia ao direcionar o avanço científico e aceitação teórica.

As pretensões funcionais e utilitárias, apontadas pela autora, nada mais são do que a prevalência do pragmatismo, reflexo cultural de uma potência econômica dominante. É preciso saber lidar e aceitar a incerteza, assimilando-a no corpo teórico quando necessário, ao invés de recorrer a sua negação. Isso vem sendo feito a décadas nas ciências naturais – desde a mudança de paradigma culminada por Einstein –, mas até o presente momento tem encontrado resistência nas ciências sociais, como apontado pela autora ao final de sua abordagem quanto a crise epistemológica.

A autora prossegue e se repete, ao falar de alguns efeitos trazidos pela crise, que podem se fazer sentir (academicamente talvez?) na Psicologia Social, como a margem para questionamento de acepções antigas e descentralizações na produção de conhecimento, maior espaço para debates interdisciplinares e a diversidade advinda destes, assim como a análise de seus resultados. O texto segue com muitos rodeios que se beneficiam do uso exacerbado de palavras-conceito sem adentrar no conceito em si, uso este que se reflete neste resumo e parece presente apenas para dar corpo ao ponto defendido pela autora. Os parágrafos seguintes podem ser “traduzidos” em pressupostos tais como:

  1. É preciso considerar a relativização do conhecimento científico-social, ver item 2;

  2. A ciência é contingente, e não auto-evidente – com relação ao que pode ser alcançado por meio da experimentação, já foi tratado no texto;

  3. A ciência é uma construção social e interdisciplinar – também já foi tratado no texto;

  4. O papel da percepção da realidade pela sociedade e a discrepância da descrição da realidade pelas ciências sociais, no caso a Psicologia;

  5. Ad infinitum (com termos variados para os mesmos conceitos)...

Em suma, a autora aponta para a imposição da realidade social e psicológica descrita pela Psicologia sobre aquele que a vivencia, ainda que divergente de tal vivência, como se dá por meio da definição de normalidade e anormalidade neste sentido, fazendo-se valer de seu status científico para tanto (ainda que este status não seja paradigmático, uma vez que suas escolas são concorrentes). Como solução para este impasse a autora aponta uma retomada histórico-filosófica da concepção de realidade social, identificando e valendo-se dos determinantes sociais para uma construção de um novo modelo mais aproximado para o uso na Psicologia Social.

Concluo que a autora apontou quais são as correntes que norteiam o rumo que a epistemologia deve tomar no âmbito da Psicologia, levantando questões importantes e observações relevantes; trazendo sugestões de resolução válidas, porém um tanto repetitivas e, por vezes, evidentes para tais questões. Ela poderia ter valido-se de uma linguagem mais coloquial e poderia ter explorado um pouco mais os conceitos abordados ao invés de repeti-los em uma argumentação circular (circulus in probando) de maneira exaustiva ao defender seus pontos.


FONSECA, Tânia M. G. Epistemologia. In: Psicologia Social Contemporânea. Marlene Neves Strey (org.). 10ª ed. Petrópolis : Vozes, 2007. pg. 36, 48.





Ética (Psicologia Social)



O autor inicia seu texto apontando para a predominância do pensamento liberal individualista na sociedade moderna, propondo uma reflexão crítica voltada para o âmbito da Psicologia, que permita uma visão de como este pensamento, esta atitude social, afeta a dinâmica das relações globais em sociedade.

Para que tal visão seja possível, propõe o autor, se faz necessária uma compreensão da ética seu papel na dinâmica social. Desta maneira são expostos dois paradigmas, ou duas visões, correntes, sobre a ética, uma tratada como lei natural e outra como lei positiva.

A abordagem da lei natural baseia-se na existência de uma regra geral quanto ao que é bom, baseada na “natureza”; sendo que tanto em sua vertente pré-moderna, quanto na sua vertente moderna, tal lei assume contornos divinos, ainda que sua vertente moderna defenda uma secularidade.

Já a abordagem da lei positiva baseia-se no estudo do corpo legal e sua evolução histórica, lembrando dos três estágios – teológico, metafísico ou abstrato e positivo – propostos por Auguste Comte, visando evitar os abusos cometidos por governantes que utilizam-se do apelo àquilo que não pode ser questionado para submeter seres humanos ao seu domínio arbitrário.

O autor faz, então, uma crítica aos dois paradigmas, afirmando que a lei natural e, também, a lei positiva apresentam claras limitações e riscos à liberdade humana. Assim sendo, ele propõe como solução que, abstendo-se de recorrer ao eterno e ao transcendente – explicações de origem divina – e balizando-se por aquilo que foi estabelecido pelas instituições humanas, sejamos capazes de elaborar uma instância crítica e propositiva quanto aos ideais das relações humanas objetivando a liberdade para realizar o potencial individual em sua totalidade.

O autor aponta para a necessidade de superar a visão da dimensão crítica da ética como algo pronto e finalizado, uma vez que – à semelhança da sociedade – a mesma está sempre em transformação, sem, contudo, impedir que a mesma seja propositiva, estabelecendo desafios ou limites para a conduta individual visando uma adequação benéfica e pacífica à vida em sociedade, permitindo que todos desfrutem das possibilidades que esta trás para a realização humana.

O ponto acima pode ser facilmente relacionado aos problemas da sociedade altamente globalizada e digital na discrepância que se nota quanto aquilo que é percebido pelos indivíduos como sendo inócuo e permitido e aquilo que é estabelecido legalmente em razão dos interesses do capital e de tabus que muitas vezes, embora vívidos no imaginário dos grupos, não correspondem às práticas dos mesmos.

Tendo em mente as relações de poder, o autor argumenta a ineficácia de uma postura de pseudoneutralidade, uma vez que a mesma não se sustenta em razão da intencionalidade determinada historicamente na práxis política. Esta postura, quando usada como justificativa, apenas serve para dissimular as reais intenções dos detentores do poder, substituindo as justificativas “naturais” em um contexto secular e positivo e impedindo a análise crítica da ideologia vigente, tanto por parte daqueles que são submetidos quanto àqueles que exercem a dominação institucionalizada.

Seguindo nesta linha de raciocínio, o autor parte para a dimensão da relação, ou o papel da ética nas relações humanas; e aqui é importante ressaltar que estas relações se dão não apenas entre indivíduos, mas cada vez mais entre indivíduo e grupos, ou entre grupos e instituições de poder.

Partindo da afirmação de que não é possível para alguém ser justo sem a interação com outrem, uma vez que justiça implica em uma relação ética em sociedade, o autor argumenta que a justiça ocorre quando o direito das pessoas são respeitados. Para ficar mais claro, explico que a justiça ocorre quando o direito de todas as partes envolvidas em uma relação é respeitado, uma vez que a sociedade – notavelmente a sociedade brasileira – parece esquecer-se disto, dada a contaminação pelo sensacionalismo da mídia na moral popular e no fazer jurídico. E assim procede com a ética, segundo o autor, não apenas no sentido de que a ética se realiza no contexto social, mas de que a ética individual deve levar em consideração o indivíduo em sociedade.

Aqui abro um parenteses para discordar de Guareschi, uma vez que suas proposições trazem consigo a afirmação de que o ser humano só pode ser ético inserido em sociedade e em relação à sociedade. Isto contraria a minha visão pessoal – que é compartilhada por muitos cientistas naturais e que é, lamentavelmente, desprezada pelas ciências sociais – de que é possível e é necessário ser ético em relação ao meio ambiente, à natureza e ao direito das demais formas de vida, e da própria natureza enquanto estrutura ou obra, de existir em harmonia ao ser humano, seus agrupamentos sociais e suas atividades.

O pensar ético que descarta a possibilidade do ser humano ser ético em relação a algo que não seja outro ser humano causa grandes distorções de valores que ecoam no pensamento de preservação ambiental que se faz nos dias de hoje, tão cheio de boas intenções e com tão poucos resultados reais. Por isso defendo que sim, devemos ser éticos em relação à natureza, mas não só porque a nossa vida e a vida dos nossos descendentes depende disso, mas por respeito à natureza em si.

Seguindo esta mesma visão, descordo que quem irá decidir se somos éticos ou não são os outros, mas sim o resultado das nossas ações em relação aos outros mas não restringindo-se apenas aos outros, e sim estendendo-se aos demais habitantes do planeta em que vivemos e ao próprio planeta em que vivemos, e além (já se discute, atualmente, os problemas do lixo espacial que o ser humano colocou em órbita).

O autor conclui sintetizando sua compreensão de que devemos ter consideração pelos outros indivíduos em sua singularidade, enxergando-os além de uma relação de competição ou usura; e eu concluo dizendo que é possível estender esta mesma visão para o mundo que nos sustenta a vida e para todas as formas de vida, que como nós, possuem este dom que se assenta no topo de qualquer escala de valores, o dom de estar vivo.


GUARESCHI, Pedrinho. Ética. In: Psicologia Social Contemporânea. Marlene Neves Strey (org.). 10ª ed. Petrópolis : Vozes, 2007. pg. 49, 57.



Ver também: Ética e isolamento