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quinta-feira, 2 de julho de 2009

O Estudo Monstro de Wendell Johnson

Resolvi traduzir o relato mais detalhado que encontrei sobre este estudo idealizado por Wendell Johnson e perpetrado por Mary Tudor pois, estando atualmente no final do 5° semestre do curso de Psicologia, notei que os livros com os quais estamos estudando não possuem referências a este estudo, que ficou conhecido como o "Estudo Monstro". O nome se justifica, a leitura do artigo abaixo parece a leitura de um conto de horror.

A ÉTICA E OS ÓRFÃOS: O 'Estudo Monstro'
Publicado em 10 de junho de 2001
Fonte: http://www-psych.stanford.edu/~bigopp/stutter2.html

Norma Jean Pugh, o mais jovem dos sujeitos experimentais, era tida como rebelde depois que desenvolveu gagueira. Agora, conhecida como Kathryn Meacham, ela vive reclusa.

Hazel Potter, que tinha 15 anos em 1939, diz que sabia que os órfãos eram usados para pesquisas. Sua fala piorou depois que o experimento de gagueira foi finalizado.

Por Jim Dyer
Mercury News


O pacote chegou no final da vida de Mary Tudor Jacob. Ela ficou sobre o umbral de sua casa em Moraga, uma cidade da baía leste, onde ela se aposentar, e lutava para decifrar as pequenas letras rabiscadas no envelope. No destinatário lia-se: "Mary Tudor Jacobs, O Monstro".

A mulher de 84 anos começou a respirar mais rápido. Ela olhou o nome do remetente: "Mary Korlaske Nixon, caso no. 15 do Grupo Experimental".

"Oh Deus", ela disse. Balançou a cabeça, suas mãos começaram a tremer.

O pacote vinha de Iowa. O tempo de uma vida havia se passado, quando ela - enquanto uma estudante de graduação [em psicologia] - havia conduzido um experimento nas crianças de um orfanato daquela cidade.

O experimento utilizada pressão psicológica para fazer as crianças gaguejarem. Foi elaborado pelo seu professor, o Dr. Wendell Johnson, para testar a hipótese dele, sobre a causa da gagueira. Várias crianças sofreram danos duradouros, mas a pesquisa ajudou a comprovar a teoria e Johnson se tornou um dos mais proeminentes patologistas da fala nos EUA.

Mas ele jamais deixou a pesquisa ir a público. O estudo teve fim pouco antes da Segunda Guerra Mundial e, na medida que o mundo aprendeu com os experimentos médicos nazistas em seres humanos, os colegas do professor Wendell avisaram que seu trabalho deveria ser mantido em sigilo para evitar comparações que poderiam arruinar sua carreira.

Os órfãos não iriam contar o que haviam lhes feito.

E Mary Tudor passou meio século tentando esquecer.

Vez e outra ela recebia algum telefonema, de algum pesquisador, fazendo perguntas sobre o experimento. Então, no ano passado [2000], um repórter chamou Tudor e começou a examinar seriamente aquela parte da vida dela.

Agora lá estava aquele pacote, endereçado à ela - O Monstro. Na Universidade de Iowa, onde ela era uma estudante de graduação, o experimento havia ficado conhecido como "O Estudo Monstro".

Ela olhou o nome da remetente novamente. Mary Korlaske? Ela não conseguia lembrar-se. Foram tantos órfãos: 22 meninos e meninas, e a maioria dos nomes daquelas crianças -- Norma, Clarence, Hazel, Elizabeth -- já desapareciam de suas lembranças, assim como as centenas de páginas dos dados do experimento, que ela havia mantido em sua casa durante todos estes anos.

O que ficara foi uma grande ambivalência sobre o experimento.

"Era um pequeno preço a pagar pela ciência", diria ela em diversas ocasiões, falando com o repórter. "Olhe para as inúmeras crianças que ele ajudou". E ainda assim, ela não conseguia esquecer a maneira como os órfãos saudavam ela a cada visita, correndo para o carro dela e ajudando ela a carregar os materiais que ela usaria nos experimento.

"Era a parte sofrida -- eu ter feito eles confiarem em mim e depois fazer aquelas coisas horríveis com eles", disse ela.

Ela carregou o pacote para a sala de jantar e sentou-se na antiga mesa de carvalho.

"Espero que não seja uma bomba", ela disse.

Apenas um número: Mantendo a objetividade

Mary Tudor diz não se lembrar da primeira vez que viu Mary Korlaske. De acordo com os registros cuidadosos que ela manteve do experimento foi em 17 de janeiro de 1939.

Naquele dia, Tudor e cinco especialistas em patologias da fala da Universidade de Iowa haviam ido ao Orfanato de Filhos de Soldados de Iowa, em Davenport, uma pequena cidade no rio Mississippi, para selecionar as crianças que seriam sujeitos de um experimento nas causas da gagueira. Um complexo de 22 casinhas, uma escola e um prédio administrativo, o orfanato abrigava entre 500 e 600 crianças que o Estado tinha como negligenciadas ou dependentes.

Tudor, uma estudante de 23 anos, havia sido instruída a se manter objetiva e indiferente, para designar números para cada criança e para referir-se a elas, em seus registros, apenas pelos números.

"Era uma pesquisa científica, então eu não deveria me envolver emocionalmente", lembra-se Tudor.

Mary Korlaske, uma estudante de 12 anos da quarta série, era uma das 256 crianças que participaram da seleção para o experimento. As anotações daquele dia descrevem a série de avaliações iniciais. Primeiro ela teve de ler em voz alta enquanto os patologistas da fala graduavam sua fluência. Depois ela passou por uma bateria de testes de coordenação motora e visual.

"Ela chamou atenção", nota Tudor.

Depois, demonstram os registros, Tudor nomeou Mary Korlaske como o "caso no. 15 do grupo experimental IIA, fluência normal".

Um tormento problemático: o que causa a gagueira?

A gagueira, para aqueles 1% da população que gagueja, é mais do que um incômodo ou uma inconveniência. É uma condição que rapidamente define uma pessoa, tanto pra si quanto para os outros. É o tormento para as crianças e a insegurança para os adultos. É debilitante. E, até a atualidade, desafia os especialistas que tentam tratá-la.

Johnson dedicou sua vida à encontrar a causa e a cura para a gagueira. Quando chegou na Universidade de Iowa em 1926, ele compreendeu intimamente esta aflição. Johnson sofria de gagueira severa. Ele trouxe consigo seu apelido "Jack", em referência ao campeão do boxe Jack Johnson, devido a maneira como respondia aos seus colegas que riam de sua gagueira: com socos.

Um bom atleta e estudante, Johnson chegou no campus com dois objetivos: tornar-se um escritor e receber terapia para a fala. A universidade era líder no campo da patologia da fala. As principais teorias sobre a gagueira, naquela época, apontavam para causas genéticas ou orgânicas.

Johnson passara horas na clínica da fala, geralmente oferecendo a si mesmo como sujeito experimental. Eventualmente ele focou seus estudos de graduação nas patologias da fala, em especial na gagueira.

Na clínica, Johnson fora hipnotizado, psicoanalisado, examinado com eletrodos e sentou em água fria para ter seus tremores gravados. Como Demóstenes, um antigo gago grego, Johnson pôs pedrinhas na própria boca. Johnson teve seu braço dominante, o direito, engessado para ajudar a provar a controversa teoria sobre "dominância cerebral" de um professor: a ideia de que se fosse forçado a usar o braço esquerdo, o desequilíbrio dos seus hemisférios cerebrais seria equalizado.

Nada parecia funcionar. Em 1936 Johnson escreveu em seu diário: "Eu sou um ratinho branco profissional".

Ainda assim, Johnson persistia. Ele conhecia intimamente os efeitos danosos que a gagueira tinha sobre o crescimento emocional e social, fazia palestras sobre tais efeitos para auditórios lotados, em todo o Meio-oeste. Crianças que gaguejavam geralmente tiravam baixas notas, apresentavam déficits morais e de auto-respeito e buscavam isolar-se, dizia ele. O medo, a humilhação e o receio poderiam levar a tentativas de suicídio.

"A criança gaga é uma criança aleijada", escreveu ele.

Nos diários, ele fazia registros metódicos sobre seus próprios progressos, destacando o prazer nos dias nos quais ele falou bem e melancolia nos dias de relapso. Em sua vida pública ele odiava formalidades e apreciava contar piadas e recitar pequenas rimas. Ele sabia que o humor aliviava o estresse e reduzia sua gagueira.

Em 1936 Johnson começou a duvidar das principais teorias de que a gagueira era uma condição inata e propôs experimentos para testar a validade destas teorias, como ficou registrado em seus diários. Dois anos mais tarde ele alcançou um ponto de virada com uma série de estudos de casos, nos quais ele conduzira entrevistas com pais e suas crianças gagas. Cada criança, descobrira ele, havia sido rotulada de gaga desde tenra idade.

"A gagueira começa no ouvido do ouvinte, não na boca da criança", teorizou ele.

Todas as crianças apresentam problemas de linguagem quando são muito novas, geralmente repetindo palavras e sílabas. Tendo sua atenção chamada para a sua fala, pensou ele, parentes super-zelosos fariam com que suas crianças se tornassem tão autoconscientes destes problemas e ansiosas, que as crianças viriam a repetir com maior frequência ainda. Com o tempo, as crianças se tornariam tão sensíveis à própria fala que não mais poderia falar sem gaguejar.

Johnson veio a atribuir as origens de sua própria gagueira a uma professora da primeira série que diagnosticou suas repetições normais como um estágio inicial de gagueira. Esta professora informara seu 'diagnóstico' aos pais de Johnson, que passaram a corrigi-lo. Infelizmente, quanto mais o menino tentava falar normalmente, pior ficava sua gagueira.

"A aflição é causada pelo diagnóstico", dizia Johnson.

Testando uma teoria: o estudo tem início

Este era um pensamento revolucionário na época, uma volta de 180 graus em relação às teorias estabelecidas. Ainda assim, já em 1938, Johnson já se convencera. Aplicando os princípios de como as pessoas reagem à linguagem, ele começou a formular o que era para ser sua "teoria diagnóstica": diagnosticar e rotular pequenas crianças como gagas quando elas gaguejam irá piorar o problema e transformá-las em adultos gagos.

Mas ele precisava de evidências diretas, preferencialmente uma pesquisa conduzida em um ambiente controlado.

Ele voltou-se para 50 milhas ao leste, para o orfanato estadual que servia de lar para os órfãos dos soldados. A universidade já havia conduzido numerosos projetos de pesquisa usando os órfãos daquele local, entre tais projetos alguns com mais de uma década de duração sobre se o retardo do desenvolvimento seria mais comum entre crianças que permanecessem em orfanatos lotados nos quais seriam pouco estimuladas em relação à crianças que fossem incluídas em pré-escolas especiais.

"Eles usavam o orfanato como uma colônia de ratos de laboratório", dizia Franklin Silverman, um professor de patologia da fala da Universidade Marquette, que estudou sob a orientação de Johnson na Universidade de Iowa na década de 60.

No outono de 1938, Johnson recebeu permissão dos responsáveis do orfanato para começar seu experimento. Foi então que ele chamou Mary Tudor em sua sala.

"Você já escolheu o assunto da sua tese final?" Lembra Tudor de ter sido inquirida por Johnson.

Tudor lembra de Johnson descrevendo o experimento e dizendo a ela que ela fora escolhida porque ele havia notado nela um grande rapport com as crianças. Ela escutou atentamente a medida que ele explicava os detalhes do experimento.

Tudor iria trabalhar com dois grupos de crianças: os gagos e os normais. Metade das crianças de cada grupo iriam ser designadas para um grupo experimental, e a outra metade seria o grupo de controle. As crianças nos grupos de controle seriam rotuladas de falantes normais e receberiam terapia positiva. As crianças no grupo experimental seriam rotuladas de gagas e iriam receber terapia negativa.

Primeiro ela iria se certificar de que as crianças do grupo experimental soubesse o que é gagueira. Depois ela iria avisá-las de que elas apresentavam os sinais iniciais de gagueira. Ela iria, então, sistematicamente sensibilizá-las em relação a própria fala, interrompendo-as e apontando cada vez que elas repetissem alguma palavra.

Tudor fora avisada que teria de mentir para os responsáveis pelo orfanato e para os professores, dizendo para eles que se tratava de terapia para a fala, para que eles viessem a participar do experimento sem saber do que realmente se tratava. Se Tudor rotulasse uma criança como gaga, os professores e e responsáveis deveriam reforçar aquele rótulo negativo, explicava Johnson.

Tudor ficara excitada ao ser escolhida por Johnson. Ela sabia o peso que teria uma tese dirigida por Wendell Johnson em sua carreira. Mais ainda, sua teoria fazia sentido para ela. Ela lembrava de casos de estudo de crianças da clínica naquele verão e estava intrigada pela perspectiva de ajudar seu orientador a encontrar uma causa e - possivelmente - uma cura para a gagueira.

Mas ela não esperava pelas condições deprimentes que ela iria encontrar ao chegar no orfanato, nem o quão difícil seria para ela fazer mal àquelas crianças.

Depois de avaliar a fala de 256 órfãos, ela e outros patologistas da fala escolheram 22 sujeitos: 10 gagos e 12 falantes normais. Eles parearam as crianças com base em similaridades de idade, sexo, QI e fluência. Então eles designaram aleatoriamente uma de cada par para o grupo de controle e outra para o grupo experimental.

Com um movimento de sua caneta, Tudor iria separar amigos e irmãos. Ela colocou Jane Anne Pugh no grupo de controle e sua irmã mais nova, Norma Jean Pugh no grupo experimental. Ela separou os irmãos Albertson, Lester e Noah, da mesma forma. Mary Korlaske e sua amiga Marion Higdon foram pareadas: Mary foi parar no grupo experimental e Marion tornou-se seu controle.

"Mas, pela graça de Deus, eu poderia ter sido posta em um grupo experimental", diria Donna Lee Hughes Collings, outra órfã, 62 anos mais tarde. "Poderia ter sido a minha vida a ser destruída".

Ansiosa por agradar: a esperança de uma nova mãe

Mary Tudor não conseguia mais lembrar-se do seu encontro com Mary Korlaske naquele frio dia de Janeiro.

Mary Korlaske, contudo, jamais esqueceu. Aquele fora um de seus melhores dias no orfanato. Ela pensou que Mary Tudor poderia ser sua nova mãe.

Korlaske, agora com 74 anos, lembrou-se daqueles dias em conversas que teve com um repórter durante os últimos seis meses. Quando ela foi localizada por eles, ela sabia ainda do que se tratava o experimento e nem o que havia acontecido durante aquele inverno e primavera de 1939. Nem sabia Collings ou os outros sujeitos do experimento que foram encontrados pelos repórteres.

Mas muitos deles lembravam-se com clareza seus anos de orfanato -- nenhum deles mais do que Mary Korlaske.

Ela ainda se lembrava o quão bela Tudor parecia pra ela -- alta e elegante, com cabelos negros ondulados e agradáveis olhos castanhos. A estudante lembrava a Korlaske de sua própria mãe.

Mary vinha vivendo no orfanato já faziam cinco anos. Sua mãe a havia mandado para lá junto com seus dois irmãos mais velhos quando ela tinha 7 anos de idade. A Grande Depressão havia devastado a jovem família, varrendo Iowa e levando a falência fazendas e negócios em sua cidade natal, Emmettsburg.

Mary disse que enquanto órfã, ela ficava recordado do último dia em que ficara em seu lar e tentava compreender o motivo pelo qual havia sido mandada embora. Aquele dia havia começado de maneira gloriosa: sua mãe a levara para a cidade e comprara pra ela uma bela bolsa de oleado e um lenço branco novinho. Mas quando elas chegaram em casa, sua mãe a introduziu em um carro preto que a aguardava.

"Você ficará a salvo", disse ela a sua garotinha. Ela lhe deu um dedal prateado. "Você irá se sair bem".

A medida que o carro se afastava, Mary apertava com força o dedal e observava a sua mãe da janela traseira.

Cinco anos mais tarde Mary Korlaske conhece Tudor. Ao longo do experimento ela ficava imaginando se Tudor era casada e se tinha algum filho. Ela esperava que Tudor viesse a adotá-la. Ela se lembra de esperar impacientemente durante a escola para ser chamada para as sessões de 'terapia de fala', e seguir orgulhosa Tudor até a sala de testes. Para dar uma boa impressão, Mary falava bastante.

Terapia Negativa: criando a ansiedade

Os experimentos ocorreram a tanto tempo atrás que as pessoas envolvidas precisavam se esforçar para lembrar dos detalhes.

As memórias de Tudor eram impressionistas. Ela lembra-se de virar as noites e sentir-se deprimida quando ela encontrou as crianças esfregando e varrendo o chão e trabalhando no orfanato. Ela se lembra de instalar a sala experimental no prédio que servia de escola e de chamar as crianças uma a uma.

Mas ela manteve centenas de páginas de registros do experimento, incluindo transcrições de gravações de um dictafone. Os documentos proviam uma clara visão clínica de como as crianças foram usadas.

A primeira sessão experimental aconteceu em 19 de janeiro de 1939. Tudor perguntou para Mary Korlaske se ela conhecia alguém que gaguejava e Mary disse que conhecia uma menina chamada Dorothy Ossman. Então Mary começou a contar uma história para Tudor. No meio da história, Tudor a interrompeu quando ela fizera uma simples repetição, avisando a menina de 12 anos que ela não apenas estava começando a gaguejar, como também que, se ela não se esforçasse muito para parar com isso, ela iria se tornar uma gaga tão má quanto a Dorothy.

"Ela reagiu imediatamente à sugestão", notou Tudor no registro da sessão, "e as repetições em sua fala começaram a ficar cada vez mais frequentes".

Então Tudor deu a Mary um conselho que ela disse que ajudaria. De fato, era terapia negativa, planejada para fazer a menina mais consciente de sua fala:

"Respire antes de falar a palavra se você acha que irá gaguejar. Pare e comece novamente se você gaguejar. Ponha sua língua no céu da boca. Não fale a menos que você consiga falar corretamente. Observe a sua fala durante todo o tempo. Faça o que for preciso para não gaguejar."

Tudor notou que Mary era "facilmente influenciável". Suas sugestões envolveram Mary imediatamente e ela se tornou tão consciente de sua fala que na sessão seguinte ela já estava repetindo as palavras.

Em intervalos variados de uma ou duas semanas, Tudor retornava para novas sessões. Em março, as gravações do dictafone de Tudor mostravam que a fala de Mary havia deteriorado bastante. A garota demonstrava problemas marcantes com palavras começadas com "w", ou "s", ou "r".

Em uma transcrição subsequente, mary Korlaske havia regredido para sentenças incompletas. Tudor perguntou à menina: "Como está a sua gagueira, Mary?"

"Gagueira está parando."

"Como você sabe disso?"

"Porque eu escuto a mim mesma falar."

"E o que você escuta?"

"Eu escuto a mim mesma falando ah ah -- dizendo as palavras duas vezes."

"Você já havia escutado a si mesma antes?"

"Não, a professora tem me interrompido e me obrigado a repetir."

Tudor estava satisfeita com o reforço dos professores ao rótulo de gagos e à terapia negativa.

Mary dizia que estava tendo problemas nas aulas de leitura. Tudor notou que as interrupções na fala aumentavam de forma consistente no decorrer do experimento. Durante o período de quatro meses haviam mais que dobrado.

As outras crianças no grupo experimental de Mary apresentavam efeitos semelhantes. Norma Jean Pugh, de seis anos de idade, na primeira série, com seus cabelos castanhos-claro cacheados e grandes olhos azuis falava de forma fluente e correta no início do experimento. Ao final ela mal conseguia falar.

Sua fala havia começado a se tornar hesitante e trêmula e ela cobria seu rosto e se curvava em sua cadeira durante as sessões, conforme as anotações de Tudor. Ela sabia exatamente quando iria gaguejar. Durante uma sessão, ela começara a dizer a palavra "vermelho" [red em inglês] e mudara subitamente para "rosa" [pink em inglês] pois ela "estava com medo de gaguejar no 'vermelho'", anotou Tudor. Na sessão de 24 de abril a fala havia se tornado completamente desjuntada. Tudor pediu para que ela lhe contasse uma história e, depois de muito estímulo, Norma finalmente respondeu:

"Há uma jara. Há uma raposa. Está de casaco. Há uma árvore. Menininha. E há algumas flores. E há uma cerca. Xícara de chá. Vaso de flores." ["There's a jar. There's a fox. Got a coat on. There's a tree. Little girl. An' here's some flowers. An' there's a fence. Teapot. Flower bowl." -- no original.]

Ela havia gaguejado em palavas como "mão" e "pegar", e quando ela tentou ler "Os Três Ursos", ela gaguegou na palavra "mingau" ["porridge" em inglês], embora meses antes ela não havia apresentado problema algum para ler a história.

Elizabeth Ostert de nove anos e Phillip Spieker de 12 viram suas notas despencarem pois sentiam medo de falar durante as aulas. "É quase impossível fazer o menino falar em uma situação que não seja a hora da brincadeira", escreveu Tudor.

Outros meninos do orfanato começaram a atormentar Clarence Fifer, um menino gordinho de 11 anos, por causa da gagueira. Durante o experimento Clarence se transformara de normal em "trêmulo e atrapalhado", reportou Tudor. E os meninos do recreio também perceberam a mudança.

"Eles meio que riram", relatou ele para Tudor em uma sessão gravada.

"E o que você fez?"

"Eu me afastei."

"Isso te incomodou muito?"

"Sim, me senti muito mal."

Hazel Potter, uma menina magrinha de 15 anos de idade, estava apresentando efeitos ainda mais severos. "Durante o período experimental ela começou a desenvolver maneirismos característicos de pessoas gagas, como estalar os dedos para conseguir pronunciar uma palavra... e ocasionalmente ela apresentava o fenômeno de escrever a mesma palavra duas ou três vezes em suas redações", relatou Tudor.

Na primavera o experimento havia se tornado emocionalmente e fisicamente desgastante para Tudor. Ela estava tendo dificuldades de manter a imparcialidade científica que seu orientador havia muito lhe recomendado. Em muitas de suas anotações ela começara a se referir às crianças pelos nomes, subsequentemente riscando os nomes e substituindo pelos números.

Depois de cada sessão, ela deixava o orfanato mais desiludida pelo efeito que o experimento estava tendo sobre as crianças. Ela lembra de entregar os resultados para Johnson torcendo para que ele interrompesse a pesquisa. Mas ele parecia cada vez mais excitado depois de cada sessão.

"Eu não gostava do que eu estava fazendo para aquelas crianças", lembra-se Tudor. "Era difícil, uma coisa horrível. Hoje eu provavelmente teria desistido. Naquele tempo eu fazia o que me mandavam fazer. Era uma missão. E eu a cumpri."

Em 24 de maio de 1939 Johnson dirigiu até o orfanato com Tudor e uma equipe de patologistas da fala para ver em primeira mão os testes finais dos 22 órfãos. Nos grupos experimentais, sujeitos à terapia negativa, a fala havia deteriorado em cinco das seis crianças que falavam normalmente e em três das cinco crianças que gaguejavam. Nos grupos de controle apenas uma das crianças apresentava mais interrupções na fala ao final do experimento.

Tudor não se lembra de falar com Johnson sobre o experimento após a sessão final. Ela se lembra apenas das longas horas que se passaram, ao final do experimento, transcrevendo as gravações do dictafone e contando e arquivando cada irregularidade na fala das crianças.

Ao final do verão sua tese de 256 páginas estava pronta. O experimento havia acabado. Ela ingressou no trabalho de terapeuta da linguagem no nordeste de Wisconsin, a um dia de distância do orfanato de Iowa.

Mas os órfãos lá ficaram, e as professoras e responsáveis continuaram com a terapia negativa que haviam aprendido.

"Quando deixei o orfanato, o experimento havia acabado para mim", disse Tudor. "Aparentemente não havia acabado para aquelas crianças."

No Pacote: uma acusação

Seis décadas mais tarde, Mary Tudor ainda é assombrada por ter transformado crianças em adultos gagos e ter deixado elas sozinhas para lidarem com o problema.

"Não posso ver o rosto dos órfãos, mas eu me lembro do orfanato e de onde eu passava as noites. Se você realiza um estudo como aquele, você jamais esquece", disse Tudor.

Um pacote inesperado de Mary Korlaske que havia chegado em março trouxe a Tudor amargas memórias em um doloroso foco.

Tudor lentamente rasgou o envelope. Dentro havia uma carta e outro pacote -- pequeno e de formato curioso, fortemente amarrado em papel de curativo com fita médica branca.

Ela segurou a grossa fita, mas não conseguia abri-la. Então ela resolveu ler a carta de três páginas primeiro. Após ler ela dobrou a carta na forma de um pequeno quadrado.

A escrita era confusa e as vezes incoerente. Haviam muitos erros de ortografia. Mas a mensagem era clara.

"Você destruiu a minha vida", dizia a carta. "Eu poderia ter sido uma cientista, uma arqueóloga ou mesmo presidente. Em vez disso eu me tornei uma pobre gaga. As crianças me atormentavam, minhas notas despencaram, eu me sentia burra. Durante toda a minha vida adulta, até o dia de hoje, eu tenho evitado o contato com as pessoas".

Os olhos castanhos de Tudor estavam embaçados. Suas mãos tremiam. E ela observava o pacote, que permanecia fechado sobre a mesa de jantar.
* Atualização: ler os comentários.

* Atualização 2: Os primeiros genes para a gagueira: este problema comum da fala, em alguns casos, pode ser uma desordem metabólica herdada - ScienceDaily (11/02/2010) - A gagueira pode ser o resultado de uma falha em um processo diário pelo qual os componentes celulares em regiões-chave do cérebro são metabolizados, diz um estudo do dia 10 deste mês do New England Journal of Medicine. Fonte: ScienceDaily
Link para o artigo no NEJM: Mutations in the Lysosomal Enzyme-Targeting Pathway and Persistent Stuttering (10.1056/NEJMoa0902630)
Outros artigos disponíveis on-line sobre a gagueira (citados pelo artigo acima):
Genetic factors in stuttering confirmed. 1991. [Free Full Text]
Genetic etiology in cases of recovered and persistent stuttering in an unselected, longitudinal sample of young twins. 2007. [Free Full Text]
Epidemiological and offspring analyses of developmental speech disorders using data from the Colorado Adoption Project. 1997. [Free Full Text]
Stuttering in families of adopted stutterers. 1961. [Free Full Text]
Early childhood stuttering. I. Persistence and recovery rates. 1999. [Free Full Text]

quarta-feira, 4 de março de 2009

A Hipótese TES

É uma mente que está ilesa pela religião, filosofia e condicionamento cultural. É ir nu para as estrelas.

A hipótese TES é óbvia, fundamental e em harmonia com o estado mental que valoriza tanto a ciência quanto a consciência cósmica. Esta hipótese declara que o universo e todas as suas manifestações é uma criação do tempo-energia-espaço, TES (Time Energy Space). Até mesmo os fenômenos etéreos de compaixão são um produto desta entidade universal singular. Existem formas de energia e dimensões do espaço que ainda não foram quantificadas pela ciência. Estas realidades misteriosas também estão dentro do escopo da TES. Nada no universo é verdadeiramente sobrenatural e além das leis da natureza. Tudo o que existe é criado por meio de ciclos do tempo-espaço-energia, tanto em grandes escalas físicas envolvendo a formação das estrelas, galáxias e planetas, e nas intangíveis dimensões envolvendo a evolução do cérebro humano e da consciência.

Obs.: Hum? Consciência cósmica? Fenômenos etéreos de compaixão? Realidades misteriosas e formas de energia e dimensões que ainda não foram quantificadas pela ciência??? Ah para... Por quê isto está sendo traduzido e postado neste blog? Calma... Explicações virão... (:

A palavra hindu "Atman" significa alma da vida e essência do ser. O Atman não é a mente humana individual, mas é definida como a alma universal que existe em todos os lugares. Para os propósitos desta discussão, iremos usar a palavra Atman de forma mais estrita, para designar aquela parte da TES que se torna consciente de si como um todo, em escala cósmica. Definimos, aqui, Atman como sendo a consciência cósmica universal.

A maior parte da TES existe inconscientemente, sem sentimentos ou vida. Esta porção é feita por espaço vazio, estrelas e planetas sem vida. Formas primitivas de vida que existem em uma minoria dos planetas possuem uma consciência utilitária que lhes permite sobreviver interagindo com seu ambiente. O inconsciente TES, matéria bruta e energia, origina TES parcialmente consciente, os planetas e animais. Com a evolução de animais superiores, a TES intensamente consciente - o Atman - surge. Esta consciência de proporções oceânicas é o resultado normal da TES e inerentemente imortal. Quando seres humanos atingem a iluminação, suas consciências se tornam um com o Atman, mas eles nunca atingem habilidades mágicas fora das leis naturais ou das propriedades da TES. Seres iluminados permanecem fisicamente mortais, mas suas consciências se unem com a consciência primordial da própria natureza. Este Atman sempre existiu, e sempre irá existir no futuro.

Nenhum ser humano jamais conheceu a parte inconsciente da TES diretamente, pois tudo o que conhecemos pertence a este mundo de consciência. Nós nos tornamos cientes do reino inconsciente da TES apenas pela inferência. Quando observamos uma árvore, não estamos vendo uma árvore diretamente, mas uma representação da árvore criada em nossos cérebros. Nossas experiências de cores, cheiros, sabores e sons, são todas criações subjetivas de nossa evolução neurológica enquanto mamíferos. Estão a questão: "Se uma árvore cair em uma floresta não houver ninguém lá para ouvir,existirá som?"

Obs.: É evidente que tudo o que vemos e tudo o que sentimos são representações criadas pelo sentidos e processadas no cérebro. É como uma linguagem neurológica. Quando dizemos "árvore", não criamos uma árvore com as ondas sonoras que propagamos no ar, da mesma forma que os impulsos nervosos que transmitem a estimulação da visão da árvore, e os impulsos nervosos que nos fazem "perceber" uma árvore, não estão criando uma árvore de verdade, com madeira, folhas, clorofila, etc, em nossos cérebros. Se haverá som na floresta na ausência de um observador? Depende da definição de som. Se som é apenas a propagação de vibrações no ar, então é evidente que haverá. Se a definição de som depende de um observador - ou ouvinte, no caso - para que seja "som", e não apenas vibrações propagadas no ar, então não haverá som algum. Acho que a questão que realmente importa, neste caso, é a seguinte: Se tudo que adquirimos do meio são representações em nossa mente, como seria se adquiríssemos de outra forma? Como seria realmente "apreender" uma árvore? Aliás, do que esta pergunta está falando? Das moléculas materiais da árvore? De sua essência? Pensa sobre isso.. Se forem as moléculas materiais, a resposta seria o quê? Para apreender precisaríamos deglutir a árvore? Isso não faria sentido algum. Precisaríamos absorver as moléculas da árvore em nosso cérebro como um buraco negro? Isso também não faz sentido... De qualquer forma que eu pense na questão, parece ser a natureza da consciência e da apreensão do mundo a nossa volta, algo simbólico, uma linguagem, manifesta e codificada na forma de impulsos nervosos e sinapses. Mas isso não leva a uma consciência de natureza material e individual? Pois uma consciência universal e imaterial teria de ser, segundo a pergunta supõe, nada menos que um buraco negro.
Outra observação relevante deve ser feita em relação ao que parece ser uma negação à evolução na afirmação de que nenhum ser humano - e logo, presumivelmente nenhuma forma de vida - conheceu a parte inconsciente desta coisa que este texto chama de "entidade universal"... Claro, isso tomando ser humano enquanto humanidade como um todo, criatura biológica resultado da evolução. A evolução pressupõe um início onde não havia vida e de onde a vida surgiu, por meio de alguma reação química... Abiogênese. Se, enquanto humanidade, ou mais abrangente, enquanto entidades dotadas de vida - o que inclui tudo, árvores, bactérias, humanos, etc - evoluímos de matéria sem vida, então conhecemos "a parte inconsciente" desta "entidade universal"... Seguindo com a tradução...

Enquanto nos sentirmos, nós existimos enquanto indivíduos, e sofremos pois esta percepção é baseada em ilusões neurológicas temporárias. Esta ilusão de um "Eu" individual é tão vulnerável que até mesmo o sono a destrói. Toda vez que entramos em sono profundo nossa consciência é temporariamente absente e nossa identidade individual desaparece com ela. Livre-se do sentimento do "Eu existo" e você se livrará daquilo que cria tensão, sofrimento e sentimentos de perigo. Quando você foca a sua consciência naquilo que é limitado, você se torna pequeno e vulnerável. Quando você abre sua consciência para experienciar a totalidade do universo, você se torna vasto, sem limites, sem angústias mentais. Daí a arte da meditação ser a arte da astronomia interna.

Obs.: A vida é feita de coisas pequenas e limitadas: acordar, escovar os dentes, estudar, namorar, trabalhar. Os relacionamentos são finitos, amizades se conquistam e se perdem, amores vêm e vão, pessoas nascem, vivem e morrem. Ficam as lembranças, até que nem mais as pessoas lembrem-se de você. E sendo uma pessoa comum - 99,9% das pessoas que passaram pela terra - você provavelmente será esquecido em uma questão de anos, décadas ou não mais que um ou dois séculos depois da sua morte. Talvez algum registro sobreviva em algum lugar, mas mesmo as pinturas feitas nas cavernas, um dia irão sofrer erosão, ou irão desaparecer por causa de um terremoto ou qualquer outra causa natural. Ainda assim, é bom acordar todos os dias, é bom estudar, namorar, ter amigos. É bom e importante manter a consciência nestas coisas, pois é por meio delas que estamos realmente vivos. Vida é movimento e interação. Por outro lado, é interessante ter a noção de nossa própria finitude e da continuidade do universo, da natureza. A vida segue, pelo menos enquanto o sol a sustentar. O dia que a vida no planeta Terra se extinguir, o universo ainda vai existir, com seus fenômenos cósmicos, assim como as leis físicas que o regem. Devemos dar valor a nossa vida e a toda vida, com certeza, e não devemos subestimar este valor. Mas precisamos ter em mente que somos apenas um piscar de olhos em relação ao plano maior. Você tem vivido? Tem aproveitado seus dias? Tem experimentado com a vida, utilizando a vida como um grande laboratório onde novas possibilidades são testadas dia a dia? Então você está vivendo. Não se preocupe com o que virá depois, pois a verdade é que ninguém poderá lhe dar nenhuma garantia real de um depois. Viva de forma que, se você descobrir que irá morrer amanhã, pelo menos seja capaz de olhar para trás e dizer: "É, valeu a pena, foi bom, foi divertido, foi interessante!" Vim, vivi e morri. O que levei foram as lições, os sorrisos, as alegrias, os abraços, os apertos de mão, os beijos. E as tristezas? Estas foram pedras com as quais calcei meu caminho, não sem tropeços, não sem lágrimas, mas que pelo menos trabalhei para que fossem úteis e me levassem a algum lugar.
Quanto a meditação? Pessoalmente prefiro leituras, contemplação, dialética, etc... Mas cada um precisa achar as ferramentas mais adequadas para as suas necessidades.

A experiência máxima da TES é tão vasta que não há nada com que se possa comparar. Sem comparação possível, a experiência de "tudo" é sentida como a experiência do "nada". Como pode o infinito ter um tamanho ou uma forma quando, por definição, não possui limites? A TES é tão repleta de espaço que se parece com o completo esquecimento, a total obliteração, por isso muitos professores iluminados a chamaram de o Vazio. Este sentimento de extinção total de todas as coisas é cósmicamente erótico e, numa estranha contradição de termos, é rico e positivamente carregado de experiência. Cientificamente falando, até esta última experiência é, também, uma ilusão subjetiva, pois matéria e energia e espaço e tempo existem, mesmo que seres humanos iluminados não os percebam em sua forma física bruta.

Se alguém estudar a fundo as religiões orientais, os conceitos hinduístas e budistas de libertação pessoal máxima, o nirvana ou moksha, verá que é impossível apreender a idéia de forma literal. Pergunte-se as duas questões fundamentais: Quem irá ser libertado? e Do que ele irá ser libertado onde? Na verdade o quem e o o quê são a mesma coisa. Pergunte-se qual ser estava por trás dos olhos do Buda? A resposta é tempo-energia-espaço, a TES. Então pergunte-se qual ser estava por trás dos olhos de Adolf Hitler? A resposta ainda é tempo-energia-espaço, a TES. Indivíduos existe e possuem realidade, mas eles são apenas produtos temporários da TES, que é nossa identidade imortal fundamental.

Obs.: Hum... Podia ser também carbono e água, ou átomos... Energia e matéria existem, ok, o tempo parece mais ser uma convenção - principalmente - humana. Enquanto energia e matéria se pressupõe finitos, o tempo é infinito. O tempo é impalpável, mas seu passar causa seus efeitos... Será que causa? A matéria se transforma, alguns dizem que se degrada ou mesmo decai, com o "passar do tempo". Porém manipulando variáveis ambientais, podemos apressar ou diminuir a velocidade dessa transformação. Não passa da energia ou da matéria agindo sobre a matéria ou da matéria e energia interagindo. Onde entra o tempo? Apenas como uma convenção de medida. O tempo se torna mais palpável na teoria da relatividade de Einstein, que pressupõe algumas coisas bem estranhas, como dois tempos diferentes em uma mesma realidade para observadores diferentes. Ainda assim, depende de forças que estão relacionadas à matéria. Talvez o tempo seja um resultado, um produto, da observação. De qualquer forma, qualquer que seja o ser - ou o não ser - por trás dos olhos de Buda ou por trás dos olhos de Hitler, embora constituído da mesma matéria e embora temporal, não é o mesmo ser. Precisamos concordar que são configurações completamente diferentes, ainda que sejam dos mesmos blocos.

A TES está sempre criando novas vidas e novas personalidades a partir de si. O indivíduo está sempre em perigo de ser destruído, mas a presença cósmica que nos anima é eterna. A não ser que toda a TES seja destruída, a liberação dos ciclos de vida e de morte é impossível. A TES cria um ser humano e as experiências individuais de prazer e sofrimento deste ser, mas é a TES que está tendo estas experiências no enredo de um sonho que a própria TES cria. A TES está dentro de cada célula do nosso corpo e é nossa verdadeira identidade pessoal, não nossa personalidade mortal e temporária que carrega uma carteira de identidade no bolso da calça. Desta forma, o objetivo da religião não deveria ser uma libertação impossível dos ciclos inevitáveis da vida, mas sim como fazer o fato da continuidade da vida, que não pode ser parada, mais estático.

Obs.: No original estava escrito assim: "Therefore, the goal of religion should not be an impossible liberation from the inevitable cycles of life, but rather how to make the unstoppable fact of life more ecstatic." - Pessoalmente não compreendi muito bem o ponto... Seria algo como permitir uma maior apreciação da continuidade, da sequência, vivencial?

A palavra "TES" é uma criação temporária, como são todas as palavras santas de escrituras antigas. Estas palavras são nomes utilizados para designar aquilo que está além da linguagem. É um esforço para expressar aquilo que não pode ser expressado por uma montanha de escrituras escolásticas. Nenhum nome pode captar, e nenhuma filosofia pode definir de forma perfeitamente verdadeira, pois você não pode "colar um adesivo de parachoques numa onda das marés"[??]. Você não pode condensar uma supernova em uma biblioteca.

Em tempo, toda a evidência de animais humanos existiram neste planeta será apagada e novas civilizações irão nascer em outros mundos para tomar nosso lugar. Estes novos seres conscientes irão descobrir a unidade da TES, a qual eles chamarão por outro nome em uma linguagem jamais falada por nenhum ser humano. O significado, contudo, será exatamente o mesmo.


Uma não-religião do século 21?
Aqui estão dez preceitos básicos para uma não-religião da TES.

1) A TES basicamente concorda com a hipótese TES, que é uma suave, amavelmente estética e respeitadora da ciência, forma de panteísmo, um caminho minimalista para uma mente aberta e tolerante.

2) Os seguidores da TES acreditam no máximo de meditação com o mínimo de filosofia. Quando se tratar de filosofia, quanto menos, melhor. Quando se trata de meditação, geralmente quanto mais, melhor.

3) A não-religião TES não possui papas, hierarquia, teocracia, instituições ou gurus gordos andando em Rolls-Royces. Para os seguidores da TES, mesmo aqueles que se tornarem iluminados, continuarão sendo seres humanos ordinários em todos os demais aspectos.

4) Seguidores da TES não usam drogas, álcool, mantras, encantamentos ou as - assim chamadas - "meditações de visualização". Um seguidor da TES não deve nublar sua consciência.

5) Seguidores da TES acreditam que devemos ajudar os outros fisicamente, no mundo real, e não apenas falar sobre compaixão. O seguidores da TES compreendem que apenas é possível ajudar os outros quando se tem força e saúde para tanto. Ascetismo não ajuda a ninguém.

6) Uma vida sexual normal e saudável é encorajada. A criação de famílias nos moldes tradicionais, com uma mãe e um pai, é apreciada como sendo essencial para a sobrevivência da humanidade. O seguidores da TES não se deixam ludibriar por idéias socialmente destrutivas e modismos politicamente corretos.

7) O pecado capital de um seguidor da TES está em transformar a meditação em um negócio. Nenhuma prosti**** espiritual é permitida nesta não-religião, pois o ganho motiva a morte do suave e sensível coração da meditação.

8) Um seguidor da TES não rouba, trapaceia, mente ou usa da violência, exceto em defesa própria. Todos os princípios tradicionais óbvios de bom comportamento são respeitados pelos seguidores da TES e nenhuma desculpa pseudo-intelectual será utilizada para encobrir o mau comportamento. Uma mentira não é um "Tantra", é apenas uma mentira. Um ladrão não é um "dispositivo espiritual", é apenas um ladrão. Um seguidor da TES não deve fazer aos outros o que ele não gostaria que os outros fizessem com ele.

9) Um seguidor da TES não julga a vida rotulando-a de sofrimento ou de bênção. Julgamento vem do pensamento e da memória, e ambos são limitados e não podem conter o universo inteiro. E você diz que a vida é sofrimento, então você apenas irá se lembrar dos momentos sofridos. Se você diz que a vida é uma bênção, você irá apenas lembrar dos momentos felizes. O objetivo do seguidor da TES é tornar-se uma testemunha da vastidão da vida, sem as limitações causadas pelas distorções do pensamento, memória e julgamento.

10) A não-religião da TES é descartável. Estes 10 princípios são elaborados para serem lidos uma vez e esquecidos. Palavras não substituem a meditação.

O oração concisa da TES

Todas as estrelas estão dentro de mim, pois eu sou o espaço.
Não há história. Não há biografia.
Eu apenas existo aqui e agora.

Christofer Calder.
calderhouse at yahoo.com
http://home.att.net/~meditation/

O original encontra-se em: The TES Hypothesis

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Bom, achei muito interessante o exercício realizado pelo Christofer Calder, de imaginar uma religião baseada na meditação e que tenta respeitar a ciência moderna; assim como achei muito interessante ficar criticando e questionando o que ele elaborou.
Na minha opinião, que não precisa ser a verdade nem nada, achei as idéias muito confusas, uma mistura de conceitos da filosofia ocidental, religiões orientais e ocidentais, há muitos traços do cristianismo ali, também, idéias psicanalíticas, idéias científicas da biologia e outras áreas, tomadas de uma forma um tanto superficial... Mas acho que valeu a intenção.
Não concordo que "quanto menos filosofia melhor". Pelo contrário, acho que quanto mais filosofia, melhor. Consciência sem filosofia é algo difícil de conceber, é praticamente um automatismo... E automatismo é uma antítese de consciência.
Creio que tem muitos trechos que são dignos de destaque e de uma profunda reflexão, por exemplo: "A TES cria um ser humano e as experiências individuais de prazer e sofrimento deste ser, mas é a TES que está tendo estas experiências no enredo de um sonho que a própria TES cria."
Se chamarmos de TES a natureza e tudo que temos por natureza, descobrir constantes de física, como funciona a biologia, a matemática presente nas coisas, como as proporções comuns na natureza - (a+b)/a = a/b = Φ - ou as fractais, a discussão sobre o que é consciência, o que é "ser", o que é mente... E tendo em mente que isto tudo faz parte de um conjunto tão vasto e complexo que vai da matéria subatômica, à complexidade neurológica dos neurônios e suas sinapses, daquilo que conseguimos criar com o que nos foi dado, como microtransistores, até a imensidão do espaço, as perguntas que as estrelas nos propõe... É tudo parte de um Universo de carbono. "Somos poeira das estrelas." E a poeira das estrelas é capaz de olhar para as estrelas e nomear e estudar estas estrelas.
É uma visão incrível da realidade... (:
Por isso achei válido traduzir e postar aqui.

Ps.: Ah, só para deixar claro! Onde tem "Obs.:" e espaçamento diferencial da margem, são as minhas observações. As opiniões expressas pelo autor do texto original não representam necessariamente as minhas opiniões e vice-versa.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Wandrers Nachtlied II

Wandrers Nachtlied II

Über allen Gipfeln
Ist Ruh,
In allen Wipfeln
Spürest du
Kaum einen Hauch;
Die Vögelein schweigen in Walde.
Warte nur, balde
Ruhest du auch.
Johann Wolfgang von Göethe

Canção Noturna do Andarilho II

Acima de todos os cumes
reina a quietude.
Sobre todas as árvores
Sentes tu
Quedo murmúrio d'aragem;
Os passarinhos calam nas florestas.
Aguardes pois, logo
Repousarás também.
Tradução minha.

domingo, 26 de outubro de 2008

Doze segundos de escuridão

"No es la luz lo que importa en verdad, son los 12 segundos de oscuridad." -- vi esta frase algumas vezes na mensagem pessoal de uma amiga, e me interessei por saber sobre o que se tratava e de onde vinha. Imaginei ser algo relacionado à fotografia, mas ficava pensando: "12 segundo é tempo demais para ficar cego pelo flash... Será que tem algo haver com a revelação?" Claro que não, não era nada disso. Trata-se na verdade da luz de um farol... Ou, na verdade, dos 12 segundos de ausência dela. Trata-se da letra de uma música. Então resolvi traduzir, espero que gostem tanto quanto eu gostei.


12 segundos de oscuridad

Gira el haz de luz
para que se vea desde alta mar.
Yo buscaba el rumbo de regreso
sin quererlo encontrar.

Pie detrás de pie
iba tras el pulso de claridad
la noche cerrada, apenas se abría,
se volvía a cerrar.

Un faro quieto nada sería
guía, mientras no deje de girar
no es la luz lo que importa en verdad
son los 12 segundos de oscuridad.

Para que se vea desde alta mar…
De poco le sirve al navegante
que no sepa esperar.

Pie detrás de pie
no hay otra manera de caminar
la noche del Cabo
revelada en un inmenso radar.

Un faro para, sólo de día,
guía, mientras no deje de girar
no es la luz lo que importa en verdad
son los 12 segundos de oscuridad.

Para que se vea desde altamar.



12 segundos de escuridão

Gira o facho de luz
para que se veja em alto-mar.
Eu buscava o rumo de regresso
sem querer encontrar.

Pé por pé
ia atrás do pulso de claridade
a noite cerrada apenas se abria
e tornava a cerrar.

Um farol parado nada seria
guia, enquanto não deixa de girar
não é a luz o que importa, na verdade
são os 12 segundos de escuridão.

Para que se veja em alto-mar...
De pouca utilidade ao navegante
que não saiba esperar.

Pé por pé
não há outra maneira de caminhar
a noite do Cabo
revela um imenso radar.

Um farol para, somente de dia,
guia, enquanto não deixa de girar
não é a luz o que importa na verdade
são os 12 segundos de escuridão.

Para que se veja em alto-mar.

Tradução minha.

E do blog Alquimia de Letras:
“…Un faro quieto nada sería, guía mientras no deje de girar. No es la luz, lo que importa en verdad son los doce segundos de oscuridad. En esos segundos de oscuridad debe contenerse la historia verdadera.” (Miguel Ángel Muñóz)

“...Um farol parado nada seria, guia enquanto não deixa de girar. Não é a luz, o que importa na verdade são os doze segundos de escuridão. Nestes segundos de escuridão deve conter-se a verdadeira história.” -- Ahhh... Agora eu entendi. (;

sábado, 25 de outubro de 2008

Terra do Entardecer - Pär Lagerkvist

Pär Lagerkvist é um escritor sueco capaz em criar peças com grande capacidade de evocação de sentimentos enraizados por meio dos cenários que suas letras pintam com muita vivacidade. Foi agraciado com o prêmio Nobel de Literatura em 1951.


O ENTARDECER*

É no entardecer que ele se rende,
ao pôr-do-sol.

Então é quando ele abandona a tudo.

O pensamento recolhe sua tenda de teias de aranha
e o coração se esquece o porquê de sua angústia.
O andarilho errante do deserto abandona seu acampamento,
que logo desaparecerá sob a areia,
e continua sua jornada no silêncio da noite,
guiado por estrelas misteriosas.

Tradução minha, baseada na
tradução para o espanhol.

EL ATARDECER

Es el atardecer cuando uno se aleja,
a la caída del sol.

Es entonces cuando se abandona todo.

El pensamiento recoge su tolda de tela de araña
y el corazón olvida el porqué de su angustia.
El caminante del desierto abandona su campamento,
que pronto desaparecerá bajo la arena,
y continúa su viaje en la quietud de la noche,
guiado por enigmáticas estrellas.

Tradução de Axel Von Greiff no site A Media Voz.

EVENING LAND

It is in the evening that one breaks up,
at sunset.

Then it is that one abandons everything.

Mind takes down its tents of spider web,
and heart forgets why it felt anxious.
The desert wanderer abandons his campsite,
which will soon be obliterated by sand,
and continues on his journey in the stillness of night,
guided by mysterious stars.

Tradução de W. H. Auden(?) no blog All Channels.

* No original, em Sueco, é Aftonland (afton = entardecer, land = terra [do]). Contudo preferi as liberdades da tradução para o espanhol. O quadro que ilustra este post é "Passeio ao Crepúsculo", de Van Gogh. (;

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Mapeamento Cerebral Básico

cérebro funcional brain functional lobes areas regions
Os lobos frontais são considerados o nosso centro de controle emocional e lar da nossa personalidade. Não existe outra parte do cérebro na qual lesões possam causar sintomas tão variados (Kolb & Wishaw). Os lobos frontais estão envolvidos na função motora, solução de problemas, espontaneidade, memória, linguagem, iniciação, julgamento, controle de impulsos e comportamentos sociais e sexuais. Os lobos frontais são extremamente vulneráveis à ferimentos devido à sua localização na parte frontal do crânio, à sua proximidade com asa do osso esfenóide e ao seu grande tamanho. Estudos realizados com MRI (ressonância magnética) apontaram que a área frontal é a mais atingida por lesões traumáticas moderadas no cérebro (Levin et al., 1987).
Existem diferenças assimétricas importantes nos lobos frontais. O lobo frontal esquerdo está envolvido no controle de movimentos relacionados à linguagem, enquanto o lobo frontal direito desempenha um papel em habilidades não-verbais. Alguns pesquisadores enfatizam que esta regra não é absoluta e que em muitas pessoas ambos os lobos estão envolvidos em praticamente todos os comportamentos.
Perturbações na função motora são tipicamente caracterizadas pela perda dos movimentos finos e da força nos braços, mãos e dedos (Kuypers, 1981). Cadeias complexas de movimentos motores também parecem ser controlados pelos lobos frontais (Leonard et al., 1988). Pacientes com danos no lobo frontal exibem pouca expressão facial expontânea, o que aponta para o papel dos lobos frontais na expressão facial (Kolb & Milner, 1981). A afasia de Broca, ou dificuldade para falar, tem sido associada com danos no lobo frontal por Brown (1972).
Um fenômeno interessante causado por danos no lobo frontal é o seu efeito insignificante em testes de QI tradicionais. Pesquisadores acreditam que isto ocorre pois os testes de QI tipicamente testam o pensamento convergente, ao invés do pensamento divergente. Danos no lobo frontal parecem ter um impacto no pensamento divergente, ou na flexibilidade e na habilidade de resolver problemas. Existem evidências que apontam interferências persistentes na atenção e na memória mesmo depois de uma boa recuperação de um TBI (dano traumático ao cérebro - Stuss et al. 1985).
Outra área geralmente associada com danos frontais é aquela da “espontaneidade comportamental.” Kolb & Milner (1981) descobriram que indivíduos com danos frontais exibiam uma menor quantidade de movimentos faciais espontâneos, falavam menos palavras (lesões no lobo esquerdo) ou falavam excessivamente (lesões no lobo direito).
Uma das características mais comuns do dano no lobo frontal é a dificuldade para interpretar respostas ambientais. Perseveração em uma resposta (Milner, 1964), comportamentos de risco, insubordinação à regras (Miller, 1985), e perdas na aprendizagem associativa (pelo uso de pistas externas para ajudar a guiar o comportamento) (Drewe, 1975) são alguns poucos exemplos deste tipo de déficit.
Os lobos frontais também são creditados por desempenhar um papel em nossa orientação espacial, incluindo nossa orientação do espacial do corpo (Semmes et al., 1963).
Um dos efeitos mais comuns do dano frontal pode ser a mudança dramática no comportamento social. A personalidade de um indivíduo pode sofrer mudanças significantes depois e um dano nos lobos frontais, especialmente quando ambos os lobos estão envolvidos. Existem algumas diferenças no lobo esquerdo em relação ao lobo direito nestas áreas. Danos no lobo esquerdo geralmente se manifestam como pseudodepressão* e danos no lobo direito como pseudopsicopatia** (Blumer e Benson, 1975).
O comportamento sexual também pode ser afetado por lesões frontais. Danos órbito-frontais podem desencadear um comportamento sexual anormal, enquanto danos dorso-laterais podem reduzir o interesse sexual (Walker e Blummer, 1975).
Alguns testes comuns para o funcionamento do lobo frontal são: o Winsconsin Card Sorting (inibição de resposta); Finger Tapping (habilidades motoras); e Token Test (habilidades lingüísticas).
Os lobos parietais podem ser divididos em duas regiões funcionais. Uma envolvida na sensação e na percepção e outra responsável pela integração do input sensorial, primariamente com o sistema visual. A primeira função integra informações sensoriais para formar uma única percepção (cognição). A segunda função constrói um sistema de coordenadas espaciais para representar o mundo que nos cerca. Indivíduos com danos nos lobos parietais geralmente demonstram profundos déficits, tais como anormalidades na imagem corporal e nas relações espaciais (Kandel, Schwartz & Jessel, 1991).
Danos ao lobo parietal esquerdo podem resultar naquilo que é chamado de “Síndrome de Gerstmann.” Esta inclui confusão entre esquerda e direita, dificuldade de escrita (agrafia) e dificuldades com o pensamento matemático (acalculia). Também pode produzir desordens na linguagem (afasia) e a inabilidade de perceber objetos normalmente (agnosia).
Danos ao lobo parietal direito podem resultar na negligência a uma parte do corpo ou do espaço (negligência contralateral), a qual abala muitas das habilidades de cuidado próprio, tais como vestir-se e banhar-se. Danos no lado direito também podem causar dificuldades para a realização de muitas coisas (apraxia construcional), a negação de déficits (anosagnosia) e habilidades para desenhar.
Dos bilaterais (grandes lesões em ambos os lados) podem causar a “Síndrome de Balint”, uma síndrome motora e da atenção visual. Esta é caracterizada pela incapacidade de controlar voluntariamente o olhar (ocular apraxia), para integrar componentes da cena visual (simultanagnosia) e para alcançar de forma coordenada um objeto com o auxílio da visão (ataxia óptica) (Westmoreland et al., 1994).
Déficits especiais (primariamente à memória e personalidade) podem ocorrer se houverem danos à área entre os lobos parietal e temporal.
Lesões na área parieto-temporal esquerda podem afetar a memória verbal e a habilidade da recordar seqüências numéricas (Warrington & Weiskrantz, 1977). Lesões na área parieto-temporal direita estão relacionadas à problemas na memória não-verbal, podendo ocasionar mudanças significativas na personalidade.
Alguns testes comuns para o funcionamento dos lobos parietais são: o Kimura Box Test (apraxia) e o Two-Point Discrimination Test (somatosensorial).
Os lobos occipitais são o centro do nosso sistema de percepção visual. Eles não são muito vulneráveis à danos por conta de sua localização na parte posterior do cérebro, embora qualquer trauma significante ao cérebro pode causar súbitas mudanças no nosso sistema visual-perceptual, tais como defeitos no campo de visão e escotomas. A região peristriada do lobo occipital está envolvida no processamento viso-espacial, discriminação de movimentos e discriminação de cores (Westmoreland et al., 1994). Dano a um dos lados dos lobos occipitais podem causar perdas homônimas na visão com exatamente o mesmo corte no campo de ambos os olhos. Desordens no lobo occipital podem causar alucinações visuais e ilusões. Alucinações visuais (imagens visuais sem a presença de um estímulo externo) podem se causadas por lesões na região occipital ou por convulsões dos lobos temporais. Ilusões visuais (percepções distorcidas) podem tomar a forma de objetos aparentando uma dimensão maior ou menos do que realmente possuem, objetos que carecem de cor ou objetos exibindo uma coloração anormal. Lesões na área de associação parieto-temporo-occipital podem causar cegueira à palavras e impedimentos na escrita (alexia e agrafia) (Kandel, Schwartz & Jessell, 1991).
Kolb & Wishaw (1990) identificaram oito sintomas principais aos danos nos lobos temporais: 1. perturbações na sensação e percepção auditiva, 2. perturbações na atenção seletiva de inputs auditivos e visuais, 3. desordens na percepção visual, 4. perturbações na organização e categorização do material verbal, 5. perturbações na compreensão da linguagem, 6. perturbações na memória de longo prazo, 7. alterações na personalidade e no comportamento afetivo, 8. alterações no comportamento sexual.
Déficits na atenção seletiva visual ou auditiva são comuns em danos nos lobos temporais (Milner, 1968). Lesões no lado esquerdo resultam em perdas na lembrança de conteúdos verbais e visuais, incluindo percepção da fala. Lesões do lado direito resultam em perdas no reconhecimento de seqüências tonais e de muitas habilidades musicais. Lesões no lado direito podem afetar o reconhecimento do conteúdo visual (por exemplo, reconhecimento facial).
Os lobos temporais estão envolvidos na organização primária do input sensorial (Read, 1981). Indivíduos com lesões nos lobos temporais apresentam dificuldades na categorização de palavras e figuras.
A linguagem pode ser afetada por danos nos lobos temporais. Lesões no lobo temporal esquerdo perturbam o reconhecimento de palavras. Lesões no lobo temporal direito podem causar uma perda na inibição da fala.
Os lobos temporais estão altamente associados com as habilidades mnemônicas. Lesões no lobo temporal esquerdo resultam em perdas no material mnemônico e verbal. Lesões no lobo temporal direito resultam na lembrança de materiais não-verbais, tais como músicas e desenhos.
Convulsões dos lobos temporais podem causar efeitos dramáticos na personalidade do indivíduo. Epilepsia do lobo temporal pode causar discursos perseverantes, paranóia e episódios agressivos (Blumer & Benson, 1975). Danos severos aos lobos temporais também podem alterar o comportamento sexual (por exemplo, aumentando a atividade) (Blumer & Walker, 1975).
Testes comuns para o funcionamento do lobo temporal são: Rey-Complex Figure (memória visual) e Wechsler Memory Scale - Revised (memória verbal).
O tronco cerebral desempenha um papel vital na atenção, despertar e consciência. Toda informação vinda do nosso corpo passa pelo tronco cerebral no caminho para o cérebro. Como o lobo frontal e temporal, o tronco cerebral está localizado em uma área próxima a protusões ósseas, tornando-o vulnerável à danos durante traumatismos.
O cerebelo está envolvido na coordenação do movimento motor voluntário [a função cerebelar é inconsciente], equilíbrio e balanceamento e tônus muscular. Ele se localiza logo acima do tronco cerebral e na parte posterior do cérebro. Está relativamente bem protegido de traumatismos se comparado aos lobos temporais, frontais e ao tronco cerebral.
Danos ao cerebelo resultam em movimentos lentos e descoordenados. Indivíduos com lesões cerebelares tendem a apresentar dificuldades para se equilibrar e virar enquanto caminham.
Danos no cerebelo podem levar à: 1. perda de coordenação do movimento motor (assinergia), 2. incapacidade de julgar a distância e o momento de parar (dismetria), 3. incapacidade para realizar movimentos rápidos alternados (adiadochocinsesia), 4. tremores nos movimentos (tremor de intensão), 5. exitação e caminhar de base larga (mancar atáxico), 6. tendência a cair para frente, 7. músculos enfraquecidos (hipotonia), 8. fala embargada (disartria atáxica), e 9. movimentos oculares anormais (nystagmus).


* Pseudodepressão: uma condição da personalidade, que ocorre após uma lesão no lobo frontal, na qual apatia, indiferença e perda de iniciativa são os sintomas aparentes mas não são acompanhados por um senso de depressão no paciente.
** Pseudopsicopatia: uma condição da personalidade, que ocorre após uma lesão no lobo frontal, na qual comportamento imaturo, ausência de tato e refreamento e outros comportamentos sintomáticos de psicopatologia são aparentes mas não são acompanhados por outros componentes mentais ou emocionais equivalentes da psicopatologia.


Referências citadas:
Blumer, D., & Benson, D. Personality changes with frontal and temporal lobe lesions. In D. Benson and D. Blumer, eds. Psychiatric Aspects of Neurologic Disease. New York: Grune & Stratton, 1975.
Blumer, D., & Walker, E. The neural basis of sexual behavior. In D.F. Benson and F. Blumer, eds. Psychiatric Aspects of Neurologic Disease. New York: Grune & Stratton, 1975.
Brown, J. Aphasia, Apraxia and Agnosia. Springfield, IL: Charles C. Thomas, 1972.
Drewe, E. (1975). Go-no-go learning after frontal lobe lesion in humans. Cortex, 11:8-16.
Kandel, J., Schwartz, J., & Jessell, T. Principles of Neural Science. 3rd edition. Elsevier. New York: NY, 1991.
Kimura, D. (1977). Acquisition of motor skill after left hemisphere damage. Brain, 100:527-542.
Kolb, B., & Milner, B. (1981). Performance of complex arm and facial movements after focal brain lesions. Neuropsychologia, 19:505-514.
Kolb, B., & Whishaw, I. (1990). Fundamentals of Human Neuropsychology. W.H. Freeman and Co., New York.
Kuypers, H. Anatomy of the descending pathways. In V. Brooks, ed. The Nervous System, Handbook of Physiology, vol. 2. Baltimore: Williams and Wilkins, 1981.
Leonard, G., Jones, L., & Milner, B. (1988). Residual impairment in handgrip strength after unilateral frontal-lobe lesions. Neuropsychologia, 26:555-564.
Levin et al. (1987). Magnetic resonance imaging and computerized tomography in relation to the neurobehavioral sequelae of mild and moderate head injuries. Journal of Neurosurgery, 66, 706-713.
Miller, L. (1985). Cognitive risk taking after frontal or temporal lobectomy. I. The synthesis of fragmented visual information. Neuropsychologia, 23:359-369.
Milner, B. (1968). Visual recognition and recall after right temporal lobe excision in man. Neuropsychologia, 6:191-209.
Milner, B. (1975). Psychological aspects of focal epilepsy and its neurosurgical management. Advances in Neurology, 8:299-321.
Milner, B. Some effects of frontal lobectomy in man. In J. Warren and K. Akert, eds. The Frontal Granular Cortex and Behavior. New York: McGraw-Hill, 1964.
Semmes, J., Weinstein, S., Ghent, L., & Teuber, H. (1963). Impaired orientation in personal and extrapersonal space. Brain, 86:747-772.
Stuss, D. et al. (1985). Subtle neuropsychological deficits in patients with good recovery after closed head injury. Neurosurgery, 17, 41-47.
Walker, E., & Blumer, D. The localization of sex in the brain. In K.J. Zulch, O. Creutzfeldt, and G. Galbraith, eds. Cerebral Localization, Berlin and New York: Springer-Verlag, 1975.
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Read, D. (1981). Solving deductive-reasoning problems after unilateral temporal lobectomy. Brain and Language, 12:116-127.
Taylor, L. (1969). Localization of cerebral lesions by psychological testing. Clinical Neurosurgery, 16:269-287.
Westmoreland et al. Medical Neurosciences: An Approach to Anatomy, Pathology, and Physiology by Systems and Levels. Little, Brown and Company. New York: NY, 1994.


Fonte:
Lehr Jr., Robert P., Ph.D. Brain Functions and Map. In: Centre for Neuro Skills. http://www.neuroskills.com/brain.shtml

Ver também:
Neuropsychological test - Wikipedia

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tradução: TEDTalks - Daniel Goleman - Por que não somos todos Bons Samaritanos?


Filmado em: março de 2007; Postado em: dezembro de 2007

"Sabe, eu estou surpreso em saber que um dos temas implícitos do TED é a compaixão, estas demonstrações bastante tocantes... Nós acabamos de ver o HIV na África, Presidente Clinton na noite passada... E eu gostaria de fazer um pouco de pensamento colateral, se assim quiserem, sobre a compaixão; e trazer isso do nível global para o nível pessoal com a psicologia, mas podem ficar tranqüilos que eu não irei trazer para o nível escrotal. [risos]
Houve um estudo muito interessante, realizado a pouco tempo atrás, com o Seminário Teológico de Princeton, para descobrir o que porquê, que quando todos nós temos tantas oportunidades para ajudar, nós ajudamos algumas vezes, e outras vezes nós não ajudamos. Foi dito a um grupo de estudantes do curso de Estudos de Divindades do Seminário Teológico de Princeton que eles iriam ministrar um sermão prático, e lhes foi dado um tópico para o sermão. Metade dos estudantes receberam o tópico do bom samaritano, o homem que encontrou e ajudou um estranho que estava caído na beira da estrada; para a outra metade dos estudantes foram dados tópicos bíblicos aleatórios. Então para cada um deles foi dito que precisavam ir para um outro prédio para dar o sermão. Enquanto eles passavam de um prédio para outro, cada um deles passou por um homem que estava encurvado e gemendo [com as mãos no estômago, se curva] claramente necessitando de ajuda. A pergunta é: Eles pararam para ajudar?
E a questão mais interessante é: Será que importa que eles estivessem contemplando a parábola do bom samaritano?
A resposta é: Não, nem um pouco.
O que acabou determinando se eles iriam parar para ajudar um estranho em necessidade, foi com quanta pressa eles pensavam estar, o quanto eles sentiam estar atrasados, ou o quanto eles estavam absortos no assunto sobre o qual eles iriam falar. E este, eu acho, é o predicado das nossas vidas. Nós não aproveitamos todas as oportunidades que existem para ajudar pois o nosso foco está na direção errada.
Existe um novo campo na neurociência, a neurociência social. Este campo estuda os circuitos neurais que são ativados, em duas pessoas, enquanto elas interagem. E a novidade sobre a compaixão que a neurociência social trás é que nossa configuração padrão é de ajudar, é de dizer que se nós encontrarmos outra pessoa, nós automaticamente sentimos empatia, nós nos sentimos automaticamente próximos a ela; são estes neurônios-espelho [mirror-neurons], recentemente identificados, que agem como um WiFi neural, ativando nos nossos cérebros exatamente as áreas ativadas nas daquela pessoa. Nós nos sentimos com ela automaticamente.
E se aquela pessoa está em situação de necessidade, se aquela pessoa está sofrendo, nós automaticamente nos preparamos para ajudar. Pelo menos este é o argumento.
Mas então a questão é: Por que não? - e eu acho que isso fala de um espectro que vai de completa absorção em si mesmo [individualismo] até a completa compaixão e disposição para ajudar. E eu acho que o simples fato é que, se estamos tão focados em nós mesmos, se nós estamos tão preocupados [pré-ocupados] como nós geralmente estamos ao longo do dia, nós não somos realmente capazes de notar os outros por completo.
E a diferença entre o foco em si mesmo e o foco no outro pode ser muito sutil. Eu estava fazendo a minha declaração de renda outro dia, quando cheguei no ponto onde podem ser listadas todas as doações que dei, e eu tive uma epifania! Cheguei no ponto onde eu havia enviado alguns cheques para uma fundação e notei que eu pensei: Nossa, meu amigo Larry teria ficado muito feliz por eu ter doado esse dinheiro para essa fundação.
Então eu notei que o que eu estava recebendo, ao doar, era um barato narcísico: eu estava me sentindo bem por mim mesmo! Então eu comecei a pensar sobre as pessoas no Himalaia, cujas cataratas estavam sendo tratadas; e então eu percebi que eu fui capaz de passar desse foco narcisístico para um prazer altruístico, de me sentir bem pelas pessoas que estavam sendo ajudadas.
Penso que isso é um motivador, mas acho que esta distinção entre focar em nós mesmos e focar nos outros, é algo que encorajo a todos para que prestem atenção.
Você pode ver isso de modo rudimentar no mundo dos encontros. Eu estava num restaurante japonês [de sushi] a algum tempo atrás, quando eu pude ouvir duas mulheres conversando sobre o irmão de uma delas, que era solteiro. E uma delas disse: Meu irmão está tendo problemas para conseguir encontros, então ele está tentando speed dating [encontros relâmpago]. Não sei se vocês já ouviram sobre speed dating. As mulheres sentam nas mesas, e os homens vão de mesa em mesa. Há um relógio em cada mesa, com um alarme ajustado para cinco minutos e bingo! A conversa acaba e a mulher pode decidir se dá o cartão ou o endereço de e-mail para o homem, para prosseguir a conversa. Então uma das mulheres [que estavam conversando no restaurante] fala: O meu irmão nunca conseguiu um cartão! E eu sei exatamente o motivo. No momento que ele se senta, ele começa a falar, sem parar, sobre si mesmo. Ele nunca para para ouvir sobre a mulher.
E eu estava fazendo um pouco de pesquisa olhando na sessão Sunday Style [Estilo de Domingo] do New York Times, lendo sobre as histórias por trás dos casamentos, pois é muito interessante. Cheguei ao casamento de Alice Epstein, e ali dizia que quando ela se encontrava em um encontro, ela tinha consigo um pequeno texto para lembrar a ela que notasse, a partir do momento em que ela encontrasse um homem, quanto tempo levaria para ele fazer uma pergunta com a palavra você. E aparentemente ela engoliu o texto quando encontrou o homem com quem se casou. [risos]
E este é um texto ótimo para experimentar em festas, ou mesmo em outras oportunidades, como aqui no TED Talks.
No Harvard Business eu li um artigo, recentemente, chamado O momento humano, sobre como fazer para estabelecer contato com as outras pessoas no trabalho, e eles disseram que basicamente o que você tem que fazer é desligar o seu blackberry [celular com assistente pessoal e envio de e-mails], fechar o seu laptop [notebook], parar de sonhar acordado, e prestar total atenção a pessoa [com quem você quer estabelecer contato]. Houve uma nova palavra cunhada, na língua inglesa, para o momento no qual a pessoa saca aquele blackberry e atende a uma ligação de celular, e subtamente nós já não existimos. A palavra é pizzled, é uma combinação da palavra puzzled [perplexo] com as palavras pissed off [irritado]. [risos]
Penso ser bem assim...
É a empatia, é a nossa sintonia, que nos separa de maquiavélicos e sociopatas. Eu tenho um cunhado que é um especialista em horror e terror. Ele escreve coisas do gênero do Drácula e do Frankeinstein, e as vezes eu penso que ele nasceu na Transilvânia, por causa do jeito dele...[risos]
Bom, de qualquer forma, em certo ponto, meu cunhado resolveu escrever um livro sobre um serial-killer [assassino em série]. Era sobre um homem que aterrorizava a vizinhança que nós morávamos, muitos anos atrás. Ele era conhecido como o Estrangulador de Santa-Cruz. Antes de ser preso ele matou a mãe, o pai, e cinco outras pessoas na Universidade de Santa-Cruz.
Então meu cunhado foi entrevistar este assassino, e percebe, no momento em que o encontra, que esse é um cara absolutamente assustador! Um motivo é que ele tinha quase dois metros de altura, mas este não era o aspecto mais assustador sobre ele. O aspecto mais assustador era que o QI dele era de 160, um gênio certificado, mas a relação entre QI e empatia emocional, o sentimento pelos outros, é zero. São coisas controladas por partes diferentes do cérebro.
Então, em certo momento, meu cunhado tem a coragem de fazer a pergunta que realmente queria fazer, e pergunta: Como você pode fazer o que fez? Você não sentiu nenhuma pena das tuas vítimas?
Afinal ele era um assassino muito íntimo, ele estrangulava as vítimas.
E o estrangulador respondeu, de forma bem categórica: Ah, não. Se eu tivesse sentido isso, eu não poderia ter feito o que fiz. Eu tive que desligar esta parte da minha pessoa.
E eu achei isso muito perturbador, quando estive refletindo sobre desligar esta parte em nós quando estamos focados em nós mesmos em alguma atividade. Nós fazemos isso e deixamos de pensar nas outras pessoas.
Pensem sobre ir as compras. Pensem sobre as possibilidades de um consumismo com compaixão. Agora mesmo, como Bill McDownell apontou, a compra de produtos novos sempre trás conseqüências, e somos todos vítimas do ponto cego coletivo. Nós não notamos, e nós não notamos que nós não notamos, a moléculas tóxicas emitidas por um carpete, ou por um tecido, como este nos assentos que estamos usando. Nós não sabemos se este tecido é produto de uma nova tecnologia e pode ser reaproveitado, ou se irá acabar em mais um aterro. Em outras palavras, nós estamos alheios às conseqüências ecológicas, de saúde pública, econômicas e de justiça social das coisas que compramos novas.
De certo modo, a venda em si é o elefante na lua, mas nós não o vemos, e nós nos tornamos vítimas daquilo que põe nosso foco em outro lugar.
Considerem que existe um livro chamado Stuff: the hidden life of the everyday objects [Coisas: a vida secreta dos objetos do dia a dia]. E ele fala sobre a história por trás de coisas como uma camiseta, por exemplo, como onde o algodão foi cultivado, e os fertilizantes que foram usados, e as conseqüências para o solo do uso daquele fertilizante; e ele menciona que o algodão é muito resistente às tinturas têxteis, cerca de 60% [da tintura] vai parar nas águas correntes. E é um fato bem conhecido por epidemiologistas que crianças que vivem perto de fábricas têxteis tendem a ter altos índices de leucemia.
Existe uma companhia, que fornece o tecido para grandes marcas Americanas, cuja qual o gerente ao ficar sabendo disso, tomou medidas nas operações internacionais na China, para que a água com resíduos fosse manejada de forma adequada para não contaminar o solo e a água corrente. Mas neste exato momento nós não temos a opção para escolher entre o tecido virtuoso e tecido não-virtuoso. O que seria necessário para poder fazer essa opção?
Bom, eu estive pensando em algo que é essa nova tecnologia de etiquetamento eletrônico, que permite a qualquer loja saber a história completa de qualquer item em suas prateleiras. Permite que seja rastreado até a fábrica, e uma vez conhecendo a fábrica é possível conhecer os processos de manufatura que foram utilizados. E... Se for virtuoso, ele poderia ser etiquetado dessa forma. Ou, se não for tão virtuoso, você poderia ir, nos dias de hoje, em qualquer loja e se informar sobre a origem daquele item. Ou seja, existe a possibilidade para que possamos fazer uma escolha compassiva. Há um conceito idêntico no mundo da tecnologia de informação, de que em última instância, todo mundo irá saber de tudo. A questão é: será que isso irá fazer alguma diferença?
Algum tempo atrás, quando eu estava trabalhando para o New York Times, nos anos 80, eu escrevi um artigo sobre o que era um problema novo na época, haviam pessoas sem ter onde morar, vivendo nas ruas. E eu passei algum tempo andando pelas ruas com os agentes do serviço social para encontrar aqueles que não tinham teto. E eu pude ver os residentes das ruas através dos seus olhos, e quase todos eles eram pacientes psiquiátricos que não tinham para onde ir. Eu tinha um diagnóstico. Isso fez com que eu saísse da tendência urbana, de que quando passamos por algum indigente, ele fica na periferia da nossa visão. Nós não notamos e, desta forma, nós não agimos.
Um dia, logo depois disso, era uma sexta-feira, no final do dia, eu estava descendo a rua - era a hora do rush, centenas de pessoas apressadas pelas ruas - e de repente eu percebi um homem caído em um canto, sem camisa, não estava se mexendo, e as pessoas simplesmente estavam passando por cima dele... Centenas e centenas de pessoas. E por que minha tendência urbana havia, de certa forma, se fragilizado, eu parei para saber o que havia acontecido.
No momento que eu parei, imediatamente meia dúzia de pessoas pararam ao mesmo tempo. Nós descobrimos que ele era latino, que ele não falava inglês, que ele não tinha nenhum dinheiro e que ele vinha vagando pelas ruas a vários dias, sem se alimentar, e havia caído de fome. Imediatamente alguém trouxe um suco de laranja, uma outra pessoa trouxe um cachorro quente, outro trouxe uma sopa... Este rapaz pode se levantar imediatamente. Mas tudo o que foi necessário foi aquele simples ato de notar. E por isso eu sou otimista. Obrigado a todos."

Tradução feita a partir do vídeo no site, onde eu podia pausar mas não podia retroceder o vídeo de forma eficiente. Não pude fazer uma tradução tão precisa quanto eu gostaria e acabei pulando uma ou outra coisa, como alguns nomes de fábricas citados. De qualquer forma, espero que seja interessante, e qualquer correção, não exitem em comentar.

Para mais vídeos como este, acesse o site TED.com.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Um sonho dentro de um sonho - Edgar Allan Poe

Um Sonho dentro de um Sonho

Tome este beijo sobre tua fronte!
E, desvencilhando-me de ti agora,
Permita-me confessar -
Não erras, ao supor
Que meus dias têm sido um sonho;
Ainda se a esperança esvaiu-se
Numa noite, ou num dia,
Numa visão, ou em nenhuma,
Tudo aquilo que vemos ou nos parece
Nada mais é do que um sonho dentro de um sonho.

Permaneço em meio ao bramido
Da costa atormentada pelas ondas,
E seguro em minha mão
Grãos dourados de areia-
Quão poucos! e contudo como arrepiam
Por entre meus dedos às profundezas,
Enquanto choro-enquanto choro!
Oh Deus! não posso eu segurá-los
De punho mais firme?
Oh Deus! não posso salvar
Um único da onda impiedosa?
Tudo aquilo que vemos ou nos parece
Nada mais é do que um sonho dentro de um sonho.

Tradução com base na tradução do blog ©als.



A Dream Within a Dream

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow—
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand—
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep—while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?


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Observações sobre a tradução:
brow: significa fronte, parte da face acima dos olhos.
"You are not wrong, who deem / That my days have been a dream;": traduz-se literalmente: "Você não está errada, quando supõe / Que meus dias tem sido um sonho"
"I stand amid the roar / Of a surf-tormented shore, / And I hold within my hand / Grains of the golden sand— / How few! yet how they creep" : literalmente: "Permaneço no bramido / de uma costa atormentada pelas ondas, / E seguro em minha mão / Grãos dourados de areia-- / Quão poucos! [e] ainda como eles arrepiam"
weep: derramar lágrimas por tristeza, raiva ou dor.
"O God! can I not grasp / Them with a tighter clasp? / O God! can I not save / One from the pitiless wave?": literalmente: "Oh Deus! não posso alçar / Eles [os grãos de areia (representam a realidade)] de punho mais firme? / Oh Deus! não posso eu salvar / Um [que seja] da impiedosa onda?"
pitiless: pity = comiseração, compaixão / less = ausência.

Sobre o poema:
Poema escrito por Edgar Allan Poe, publicado em 1849, que questiona o modo como alguém pode distinguir a realidade da fantasia perguntando: "Será tudo o que vemos ou tudo o que aparenta apenas um sonho dentro de um sonho?"
1848 foi o ano da Corrida do Ouro, na Califórnia, onde muitas pessoas tiveram suas vidas arruinadas na ilusão de enriquecer rapidamente.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Mais estranho que a ficção

O texto a seguir é a tradução do texto de uma página do Laboratório de Neuroengenharia da Georgia Tech, que descreve uma das linhas de pesquisas híbridas em processamento de informação.

Animat Neuralmente-Controlado

Um animat é um animal simulado por computador ou um robô que comporta-se em um ambiente. Nossas interfaces entre culturas e um ambiente simulado foram o primeiro animat neuralmente-controlado. Nós estamos criando um método para estudar como a informação é processada e codificada em redes neuronais vivas cultivadas ao prover a interface entre elas e o animat, dentro do mundo virtual.

Setup

Neurônios corticais de ratos são dissecados e cultivados em uma superfície contendo uma rede de eletrodos (MEAs) capazes tanto de registrar quanto de estimular a atividade neural. Padrões distribuídos de atividade neural são usados para controlar o comportamento do animat em um ambiente simulado. O computador age como o sistema sensorial, provendo respostas (estímulos) elétricos à rede quanto aos movimentos do animat no seu ambiente.


Esquema para um Animat Neuralmente-Controlado. Uma rede de centenas ou milhares de células corticais dissecadas de mamíferos (neurônios e glia) são cultivados em uma rede transparente de eletrodos. A atividade é registrada extracelularmente para controlar o comportamento de um animal artificial (o animat) dentro de um ambiente simulado. O input sensorial do animat é traduzido em padrões de estímulos elétricos que são enviados de volta à rede.

Mudanças no comportamento do animat devido a interação com seus arredores são estudadas concomitantemente com os processos biológicos (plasticidade neural, por exemplo) que produziram tais mudanças, para o entendimento de como a informação é processada e codificada dentro de uma rede neural viva. Desta forma, nós criamos um mecanismo híbrido de processamento em tempo real, um sistema de controle que consiste de componentes vivos, eletrônicos e simulados. Esta abordagem pode ser aplicada no controle de dispositivos robóticos, ou pode levar ao surgimento de melhores algoritmos de processamento de informação e controle em tempo real baseados em silício que sejam tolerantes à falhas e que possam se auto-reparar.

Experimentos Hybrot
O objetivo do experimento hybrot é criar uma interface neural entre neurônio e robô que seja capaz de exibir o comportamento de aproximação e evasão. Ou seja, aproximar-se de um objeto-alvo mas não colidir com o mesmo, mantendo a distância desejada do alvo. Se uma dada reação neural é reproduzível com baixa variabilidade, então a resposta pode ser usada para controlar um robô em uma tarefa específica.


Setup do hybrot (híbrido vivo+robô). Dados ópticos e elétricos dos neurônios e MEA são analisados e usados para controlar vários dispositivos robóticos, enquanto imagens com um lapso temporal são criadas para a obtenção de filmes da plasticidade neuronal.

Nós usamos os robôs Koala e Khepera (manufaturados pelo K-Team) para encorporar a rede cultivada e prover um ambiente com um objeto móvel. O robô Koala foi usado como o robô controlado neuralmente (também chamado de robô vivo híbrido ou hybrot), enquanto que o Khepera serviu como objeto referencial, movendo-se aleatoriamente sob o controle de um computador. Sob o controle neural, o Koala aproximou-se com sucesso do Khepera e manteve a distância dele, movendo-se para frente se o Khepera se afastasse, ou movendo-se para trás se o Khepera se aproximasse.

Além de demonstrar a capacidade computacional inerente dos neurônios cultivados, este hybrot pode ser utilizado para estudar a aprendizagem em redes neurais cultivadas.

MEART (MultiElectrode Array Art)

Meart é um hybrot construído em colaboração com o grupo de pesquisas SymbioticA. O projeto explora aspectos epistemológicos, éticos e estéticos relacionados ao uso de neurônios vivos para um fim etnocêntrico.


Para saber mais


* Thomas B. DeMarse, Daniel A. Wagenaar, Alex W. Blau & Steve M. Potter; The Neurally Controlled Animat: Biological Brains Acting with Simulated Bodies.

* Shkolnik, A. C. Neurally Controlled Simulated Robot: Applying Cultured Neurons to Handle and Approach/Avoidance Task in Real Time, and a Framework for Studying Learning In Vitro. In: Potter, S. M. & Lu, J.: Dept. of Mathematics and Computer Science. Emory University, Atlanta (2003).

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O texto acima é a tradução do texto de autoria dos responsáveis pelo site e pela pesquisa em questão.
http://www.neuro.gatech.edu/groups/potter/animat.html

...

Agora, este experimento remete ao Demônio de Descartes, e levanta uma pergunta óbvia: será que os neurônios cultivados são conscientes, em algum nível, do ambiente virtual ou robótico no qual estão inseridos? A resposta evidente parece ser sim, eles reagem e aprendem, ou são estimulados, a reagir ao ambiente... Para mim isso só torna mais importante a diferenciação entre reagir aos estímulos externos e elaborar associações complexas e subjetivas à estes estímulos. Se bem que... Uma vez que estes neurônios são modificados em sua organização, demonstrando algum nível de plasticidade, algum tipo de associação ocorre e, dado o contexto, é de certa forma única à eles. Filosoficamente, este tipo de experimento dá margem a muita discussão.

Leitura recomendada:
Where am I? - Daniel Dennett