Mostrando postagens com marcador processos psicológicos básicos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador processos psicológicos básicos. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de abril de 2011

Subjetividade da percepção

A percepção é um fenômeno subjetivo, pois cada ser humano é único. Daí os qualia. Cada percepção é única e privada. É única pois é impossível dois corpos dividirem o mesmo lugar no tempo e no espaço (pelo menos para o que tange a dimensão humana da percepção). E é privada uma vez que a linguagem é muito limitada para traduzir no todo a percepção subjetiva do indivíduo.
Para ilustrar melhor – de forma mais transparente – o conceito, podemos pensar em câmaras fotográficas digitais. Diferentes modelos e marcas de câmeras fotográficas digitais fazem fotos diferentes da mesma paisagem.
Os resultados são diferentes pois os componentes eletrônicos que captam a luz são diferentes e as instruções programadas que realizam um processamento posterior das imagens também são diferentes para cada marca e modelo. Da mesma forma, diferenças – ainda que pequenas – na retina de diferentes indivíduos, e diferenças que tenham ocorrido durante o desenvolvimento na forma de apreender o mundo, irão influir sobre a percepção consciente do mundo observado.
Nas câmeras podemos observar estas diferenças, geralmente de forma muito clara, observando as diferenças em fotografias tiradas da mesma cena. Por serem diferenças pictográficas comuns, a linguagem acaba se adaptando muito bem para que seja possível descrever o que é observado de forma apropriada.
A linguagem, sendo um fenômeno social, necessita que um grupo de indivíduos a confirme – por meio de significados, dando validade para o que é formulado em fonemas – o significante, para que possam surgir signos linguísticos que descrevam satisfatoriamente os respectivos referentes do mundo natural.
Diferentemente daquilo que pode ser observado pelo grupo, aquilo que é privado ao indivíduo, os qualia, não pode ser ratificado pelo grupo. Até o momento, as tentativas mais comuns de tal transposição para a linguagem se encontram na poesia, onde o poeta tenta traduzir o íntimo de sua percepção em linguagem poética. Contudo, sem que o qualia possa ser observado diretamente pelo grupo – ou pelo leitor – falta, à linguagem poética, a confirmação que é possível obter pelos referentes no mundo natural, externos ao indivíduo.
Quando os qualia se tornam integrantes da linguagem, tornam-se palavras especialmente difíceis conceitualizar e de traduzir entre línguas de povos diferentes. É o caso, por exemplo, da palavras ‘saudade’ na língua portuguesa, ‘weltanschauung’ na língua alemã, ‘banzo’ na língua iorubá e ‘ubuntu’ nas línguas bantas.
Da mesma forma que a linguagem em relação às percepções, a impressão, feita em uma impressora jato-de-tinta comum, das fotografias tiradas pelas diferentes máquinas de nosso exemplo, irá embotar o colorido e a diferença entre as fotos tiradas da mesma cena, homogenizando o resultado, diminuindo as diferenças. Há uma perda nos detalhes que são único ao modo que cada máquina apreende cada cena. Há uma perda no que é mais íntimo na forma como cada indivíduo experiencia um mesmo evento.

domingo, 17 de outubro de 2010

Memória de Longo Prazo

Citando a Wikipédia:
O cérebro não armazena as memórias em uma estrutura unificada, como pode ser visto no disco rígido de um computador. Ao invés disso, diferentes tipos de memórias são armazenados em diferentes regiões do cérebro. A memória de longo prazo geralmente é dividida em duas categorias: memória declarativa e memória implícita (ou procedural). Programas de computador armazenam informações de forma similar, com uma sessão para dados e uma sessão para código.
...1. Memória declarativa (explícita): são todas as memórias que podem disponíveis para a consciência. São codificadas pelo hipocampo, córtex entorrinal e córtex perirrinal, mas são consolidadas e armazenadas em outro local. A localização precisa das memórias não é conhecida, mas o córtex temporal tem sido considerado um candidato provável. A memória declarativa possui ainda duas subdivisões:
........a) Memória episódica: memórias de eventos específicos no tempo;
........b) Memória semântica: conhecimento sobre o mundo externo, como a função de um lápis.
...2. Memória implícita (procedural): é o conhecimento sobre o uso de objetos e movimentos do corpo, seu exemplo mais emblemático é andar de bicicleta. Acredita-se que este tipo de memória é codificada e armazenada no cerebelo e no corpo estriado.

Citando a Scholarpedia [1],[2]:
Todas as formas de memórias são baseadas nas mudanças nas conexões sinápticas em circuitos neurais de cada sistema de memória. A força de uma memória é modulada pela excitação emocional e declina com a idade. [...]
A teoria dos múltiplos sistemas de memória é baseada na evidência de que diferentes tipos de informações são processadas e armazenadas em diferentes partes do cérebro. Por exemplo, a atividade neural que se origina de receptores externos e internos (input) flui através de diferentes sistemas paralelos no cérebro, cada qual especializado em extrair um diferente tipo de informação sobre a atividade que está ocorrendo. Cada sistema possui uma estrutura central que realiza suas funções independente das demais. Interações entre os sistemas ocorrem ao nível de seus inputs que chegam de muitas das mesmas fontes, e de seus outputs que convergem para produzir o pensamento e o comportamento.
Um sistema no qual o núcleo caudado é a estrutura central representa relações do tipo estímulo-resposta (S-R) que levam a resultados desejados (i.e. reforços, como comida ou escapar de algum evento aversivo). Informações processadas e armazenadas neste sistema, chamado de memória procedural, tende a produzir a resposta sempre que o estímulo é encontrado. Um segundo sistema no qual a amígdala é a estrutura central, representa as relações entre estímulos neutros e estados emocionais recompensadores ou aversivos (S-Af ou associações estímulo-afeto). Esta forma de memória também é conhecida como condicionamento clássico ou condicionamento pavloviano. Um terceiro sistema no qual o hipocampo é a estrutura central, representa as relações entre estímulos (S-S) e eventos, ou informações puramente cognitivas. Este tipo de informação declarativa armazenada pode ser utilizada flexivelmente para gerar diferentes tipos de comportamentos dependendo das circunstâncias imediatas, ou contexto. Nos seres humanos, este sistema pode servir de suporte para a recordação de eventos prévios. Em algumas situações os outputs dos sistemas podem promover comportamentos similares ou partes complementares de comportamentos complexos. Está é a cooperação entre os sistemas. Em outras situações os sistemas podem promover diferentes comportamentos que competem entre si.
Na Scholarpedia também é possível encontrar esta ótima explicação sobre a formação de memórias no cérebro:
A base celular da memória envolve a plasticidade dependente da atividade nas conexões sinápticas. Um importante modelo no estudo das bases celulares da memória é o fenômeno de potenciação de longo termo (LTP), um aumento duradouro na força de uma resposta sináptica após estimulação. LTP ocorre proeminentemente no hipocampo, no córtex cerebral e em outras áreas do cérebro envolvidas em diferentes formas de memória. A LTP é geralmente induzido pela co-ocorrência de input excitatório e despolarização intracelular nas assim chamadas sinapses de Hebbian, envolvendo receptores NMDA que permitem a entrada de Ca++, o que ativa o cAMP. Subsequentemente, o cAMP ativa diferentes cinases, algumas das quais aumentam o número de receptores sinápticos. Além disso, o cAMP ativa proteínas CREB, que operam dentro do núcleo para ativar uma classe de genes chamados genes de início imediato que, por sua vez, ativam outros genes que ditam a síntese de proteínas. Entre as proteínas produzidas está a neurotrofina, que ativa o crescimento da sinapse. Assim, uma série de reações moleculares desempenham um papel vital na fixação de mudanças na função sináptica que ocorre na LTP. [...]
Além da LTP, há também um mecanismo que diminui a força das conexões das sinapses pouco utilizadas, que se chama depressão de longo prazo (LTD). A LTD envolve os mesmos substratos da LTP mas ocorre com diferentes regras temporais na atividade das sinapses. A combinação da LTP com a LTD permite a sofisticada reorganização dos circuitos que criam representações neurais da informação. LTP e LTD ocorrem em todas as estruturas cerebrais que são conhecidas por participar de diferentes tipos de memória. Estes eventos celulares e moleculares ocorrem num período de minutos a segundos e são essenciais para a transição da armazenagem de curto prazo para a armazenagem de longo prazo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Vieses Cognitivos (em andamento)

Os vieses cognitivos constituem padrões de desvio no julgamento que ocorrem em situações específicas nas quais as conclusões são baseadas em fatores cognitivos em detrimento às evidências. Acredita-se que estes vieses são formas de atalhos cognitivos, baseados em regras gerais ou rules of thumb: uma forma de heurística, a qual constitui princípios facilmente aprendidos e aplicados para aproximações estatísticas, cálculos, recordação ou tomada de decisão, que não visam ser precisos ou confiáveis para todas as situações.

Vieses de tomada de decisão e comportamentais

  • Base rate fallacy (Falácia da medida padrão): ignorar os dados estatísticos disponíveis em favor de indivíduos.

  • Choice-supportive bias (Viés pró-escolha): a tendência de lembrar das próprias escolhas como sendo melhores do que elas realmente foram.

  • Viés de confirmação: a tendência para procurar ou interpretar informações de forma a confirmar as próprias preconcepções.

  • Viés de congruência: a tendência de testar hipóteses exclusivamente por meio de testagem direta, em contraste a testes de possíveis hipóteses alternativas.

  • Efeito de contraste: aumento ou diminuição da altura (por exemplo) ou de alguma medida quando comparando com algum objeto contrastante recentemente observado.

  • Déformation professionnelle (Viés de profissão): a tendência de observar as coisas conforme as convenções da sua própria profissão, em detrimento a qualquer ponto de vista mais amplo.

  • Efeito da denominação: a tendência de gastar mais dinheiro quando este é denominado em unidades pequenas (i.e. moedas) ao invés de unidades grandes (i.e. cédulas).

  • Viés de distinção: a tendência para ver duas opções como mais díspares quando consideradas simultaneamente do que quando consideradas em separado.

  • Endowment effect (Efeito da doação): a tendência de exigir muito mais para se desfazer de um objeto do que estaria disposto a dar para adquirí-lo.

  • Viés de expectativa (Experimenter's bias): a tendência de cientistas experimentais para certificar, publicar e acreditar em dados que confirmam suas expectativas para o resultado de um experimento, e para desacreditar, descartar ou rebaixar a importância correspondente de dados que aparentem entrar em conflito com suas expectativas. Relacionado com o viés de confirmação e a dissonância cognitiva.

  • Viés de extraordinariedade: a tendência a valorizar mais um objeto do que outros da mesma categoria como resultado de sua singularidade que, por sua vez, não altera necessariamente o seu valor.

  • Viés de foco: viés de previsão que ocorre quando as pessoas dão importância demasiada a um único aspecto de um evento; causa erros na previsão precisa da utilidade de um resultado futuro.

  • Enquadramento (Framing): usar uma abordagem ou descrever uma situação ou questão de forma muito estreita, limitada.

  • Efeito de enquadramento: chegar a diferentes conclusões dependendo da forma como os dados são apresentados.

  • Desconto hiperbólico (Hyperbolic discounting): a tendência das pessoas para dar preferência para recompensas mais imediatas em relação a recompensas mais tardias, de modo que a tendência fica mais acentuada na medida que ambas as recompensas se aproximam do momento presente.

  • Ilusão de controle: a tendência de seres humanos em acreditar que podem controlar ou ao menos influenciar resultados que claramente não podem. Relacionado ao pensamento mágico (wishful thinking).

  • Viés de impacto: a tendência das pessoas para superestimar a duração ou a intensidade dos estados sentimentais futuros.

  • Viés de informação: a tendência a buscar informações mesmo quando estas não podem afetar a ação.

  • Interloper effect (Efeito do intruso): a tendência de valorizar a opinião de terceiros como objetiva e determinante sem motivos para tanto. Relacionado ao paradoxo da consultoria: a conclusão de que soluções propostas por indivíduos pertencentes a uma organização estão menos propensas a serem apoiadas do que aquelas de indivíduos recrutados para este propósito.

  • Escalada irracional: a tendência de tomar decisões irracionais baseadas em decisões racionais passadas ou para justificar ações passadas.

  • Fenômeno do mundo justo: ao presenciar uma injustiça inexplicável, as pessoas tendem a racionalizar procurando por coisas que a vítima tenha feito para merecer tal injustiça.

  • Aversão à perda: a inutilidade de desfazer-se de um objeto é maior do que a utilidade associada à sua aquisição. Relacionado ao endowment effect.

  • Efeito da mera exposição: a tendência das pessoas para expressar preferência injustificada por coisas meramente por lhes serem familiares.

  • Ilusão do dinheiro: a tendência das pessoas em concentrar-se no valor nominal do dinheiro ao invés de seu valor em termos de poder de compra.

  • Efeito da credencial moral: a tendência de um registro de aceitação para aumentar o preconceito subsequente.

  • Necessidade de finalização (Need for closure): a necessidade de chegar a um veredito para assuntos importantes, de ter uma resposta que supere o sentimento de dúvida e incerteza. O contexto pessoal (tempo ou pressão social) pode aumentar este viés.

  • Viés de negatividade: fenômeno pelo qual humanos dão maior importância e prestam mais atenção nas experiências negativas do que nas experiências positivas ou outros tipos de informação.

  • Negligência de provabilidade: a tendência para ignorar completamente a probabilidade quando tomando uma decisão sob incerteza.

  • Viés de normalidade: a recusa em planejar para o caso de um desastre, ou de reagir a um desastre, que nunca ocorreu anteriormente.

  • “Not invented here”: a tendência de ignorar que uma solução já existe por sua origem ser tida como inimiga ou inferior.

  • Viés de omissão: a tendência de julgar como piores ou mais imorais as ações do que omissões igualmente (ou mais) danosas. Relacionado ao experimento mental do carro desgovernado.

  • Racionalização pós-compra: a tendência para persuadir a si mesmo por meio de argumento racional (racionalização) de que uma compra foi proveitosa.

  • Efeito de pseudocerteza: a tendência de tomar decisões aversivas aos riscos se o resultado esperado for positivo, mas de fazer escolhas arriscadas para evitar resultados negativos.

  • Reactância: a necessidade de se opor àquilo que alguém quer que você faça por uma necessidade de resistir àquilo que é percebido como uma tentativa de restringir sua opção de escolha.

  • Viés da resistência (Restraint bias): a tendência de superestimar a própria habilidade para resistir às tentações.

  • Reflexo de Semmelweis: a tendência de rejeitar novas evidências que contradizem paradigmas estabelecidos.

  • Efeito Von Restorff: a tendência para um item que se destaca em meio aos demais para ser mais lembrado do que os demais itens.

  • Pensamento mágico (Wishful thinking): a formação de crenças e a tomada de decisões de acordo com o que é confortável para a imaginação em detrimento da racionalidade ou das evidências.

  • Viés do risco-zero: a preferência pela redução de um risco pequeno para risco-zero ao invés de uma redução maior em um grande risco.

Vieses de probabilidade e de crença

  • Efeito da ambiguidade: a evitação de opções para as quais a informação faltante faz com que a probabilidade pareça “desconhecida”.

  • Efeito de ancoragem: a tendência de confiar demais, ou “ancorar”, em uma referência passada ou em um aspecto ou traço ou fragmento de informação quando tomando decisões (também conhecido como “ajustamento insuficiente”).

  • Viés de atenção: ignorar dados relevantes em julgamentos de uma correlação ou associação.

  • Viés de autoridade: a tendência de valorizar estímulos ambíguos (i.e. uma performance artística) de acordo com a opinião de alguém que é considerado uma autoridade no assunto.

  • Heurística de disponibilidade: estimar o que é mais provável pelo o que está mas prontamente acessível à memória, a qual é enviesada para exemplos mais vívidos, singulares ou carregados emocionalmente.

  • Cascata de disponibilidade: um processo de auto-reforço no qual uma crença coletiva ganha mais e mais plausibilidade por meio da crescente repetição no discurso público (ver Argumentum ad nauseam).

  • Viés de crença (Belief bias): um efeito no qual a avaliação de alguém quanto a consistência lógica de um argumento é enviesada pela credibilidade da conclusão.

  • Ilusão de agrupamento (Clustering illusion): a tendência de ver padrões onde eles não existem realmente (ver Apofenia e Pareidolia).

  • Viés da capacidade: a tendência de acreditar que um conjunto de dados é mais conciso na medida que a performance média estiver mais próxima de um objetivo.

  • Falácia da conjunção: a tendência para assumir que condições específicas são mais prováveis do que as condições gerais.

  • Efeito da disposição: a tendência de vender bens cujos valores têm aumentado e manter bens cujos valores têm diminuído.

  • Falácia do apostador: a tendência de pensar que as probabilidades futuras são alteradas pelos eventos passados, quando na verdade elas permanecem idênticas. É resultado da conceitualização errônea da Lei dos Grandes Números.

  • Efeito Hawthorne: a tendência das pessoas em se comportar de forma diferenciada quando sabem que estão sendo observadas.

  • Hindsight bias (Viés de retrospectiva): as vezes chamado de “efeito eu sempre soube”, a inclinação para ver eventos passados como sendo previsíveis.

  • Correlação ilusória: supor erroneamente uma relação entre um certo tipo de ação e um efeito.

  • Última ilusão: a crença de que alguém deve saber o que está acontecendo.

  • Efeito de ignorar as razões base anteriores: a tendência a ignorar as tendências conhecidas quando reavaliando as tendências sob a luz de evidências fracas.

  • Efeito da expectativa do observador: quando um pesquisador espera um dado resultado e manipula inconscientemente um experimento ou interpreta erroneamente os dados de modo a confirmar suas expectativas.

  • Viés do otimismo: a tendência sistemática para ser super-otimista em relação ao resultado das ações planejadas.

  • Efeito Ostrich: ignorar uma situação (negativa) que é óbvia.

  • Efeito do Excesso de Confiança: confiança excessiva nas próprias respostas às questões propostas.

  • Viés do resultado positivo: a tendência de superestimar a probabilidade de coisas boas acontecerem.

  • Pareidolia: um estímulo vago e aleatório é percebido como algo significante.

  • Efeito da primazia: a tendência de dar maior importância aos eventos iniciais do que aos eventos subsequentes.

  • Efeito da novidade: a tendência de dar maior importância aos eventos mais recentes do que aos eventos passados.

  • Negligência da regressão à média: a tendência de esperar que uma performance extrema se mantenha.

  • Viés de seleção: uma distorção dos dados que surge do modo como estes são coletados.

  • Estereotipagem: a expectativa de que o membro de um certo grupo tenha certas características sem que se considere as informações sobre o indivíduo (ver Generalização apressada).

  • Efeito da subaditividade: a tendência de julgar a probabilidade do topo como menor do que a probabilidade das partes.

  • Validação subjetiva: a percepção de que algo é verdadeiro se uma crença subjetiva dependa de sua veracidade. Também cria conexões ilusórias entre coincidências.

  • Viés da sobrevivência: concentrar-se nas pessoas ou nas coisas que sobreviveram a algum processo e ignorar aquelas que pereceram, ou argumentar que uma estratégia é eficaz dado aos vencedores que foram produzidos, ignorando um grande número de indivíduos que saíram prejudicados.

  • Efeito telescópio: quando eventos recentes parecem ter ocorrido mais remotamente e eventos remotos parecem ter ocorrido mais recentemente.

  • Falácia do franco-atirador texano: selecionar ou ajustar uma hipótese após os dados serem colhidos, fazendo com que seja impossível testar a hipótese de forma fiel. Refere-se ao conceito de disparar tiros a esmo e declarar os atingidos como sendo os alvos.

  • Efeito do caminho bem conhecido: subestimar o tempo de viagem de rotas bem conhecidas e superestimar o tempo de viagem de rotas desconhecidas.

Vieses sociais

  • Viés do ator-observador: a tendência para superestimar a influência da personalidade e subestimar a influência da situação quando explicando o comportamento dos outros e, em contra-partida, subestimar a influência da personalidade e superestimar a influência do meio quando explicando o próprio comportamento.

  • Viés egocêntrico: ocorre quando as pessoas reivindicam mais responsabilidade para si sobre os resultados de uma ação conjunta do que um observador externo o faria.

  • Efeito Forer (também conhecido como Efeito Barnum): a tendência de dar avaliações de alta precisão para descrições de sua personalidade que supostamente são concebidas especificamente mas que, na verdade, são vagas e gerais o suficiente para aplicar a um vasto leque de pessoas. Por exemplo, horóscopos.

  • Efeito de falso consenso: a tendência das pessoas para superestimarem o grau em que outros concordam com elas.

  • Erro fundamental de atribuição: a tendência das pessoas para superenfatizar explicações baseadas na personalidade para comportamentos observados nos outros, enquanto subestimam o papel e o poder das influências situacionais sobre os mesmos comportamentos (ver também o viés do observador-ator, erro de atribuição do grupo, e efeito da negatividade).

  • Efeito halo: tendência das características positivas ou negativas de uma pessoa transbordarem de uma área de sua personalidade para outra na percepção dos outros (ver estereótipo da atratividade física).

  • Instinto de rebanho: tendência a adotar opiniões e seguir o comportamento da maioria para sentir-se seguro e para evitar conflitos. Ver também Ash, 1951.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Método Sedutivo

Hoje estava lendo um post da MindHacks que afirmava "a área [no cérebro] responsável pelos erros da neurociência foi descoberta". O autor cita um estudo de 2008 que demonstra que "incluir uma neuroimagem em um argumento científico sobre a natureza humana faz com que o público em geral fique mais propenso a acreditar [no argumento] mesmo se a atividade cerebral [da área apontada na imagem] não seja relevante ao argumento que se quer defender".
De modo engraçado, a imagem no post aponta para o córtex pré-frontal, onde se lê: "a área do cérebro que desliga a análise crítica quando vê belas imagens do cérebro" - ilustrando, de fato, apenas o que está afirmando, e não a rede que estaria envolvida no processo de ver -> recompensa -> para então desligar a crítica. :D
Ainda em 2009, num ótimo curso de introdução à neuropsicologia que tive a oportunidade de assistir em minha cidade, já havia sido informado sobre esta forma de utilização de neuroimagens para sobrepujar a crítica e, em 2008, numa palestra sobre neurologia, havia presenciado uma análise crítica sobre a forma como as neuroimagens são editadas antes de serem publicadas em artigos e na mídia.
A validade científica da neuroimagem tal como é publicada para fins ilustrativos é questionável, sem dúvida, pois trata-se de uma imagem editada, onde toda a atividade julgada como não relevante para o estudo em questão é removida. Mas, também é verdade que este é um pensamento crítico ao reducionismo científico, necessário para o avanço das ciências e muito menos problemático do que seus detratores afirmam, uma vez que os princípios científicos exigem revisões e mais revisões antes de uma hipótese se tornar um paradigma.
Enfim, fato é que estudamos o cérebro, em suas ilustrações que podem ser encontradas em atlas de anatomia como o Netter ou o Gray, ou em peças cadavéricas, ou em neuroimagens, e adoramos aquilo que estudamos. É evidente que todos que estudam o cérebro e obtém prazer neste estudo, enxergam um valor estético nas neuroimagens que vai além daquele do público em geral, da mesma forma que "só vê a beleza de uma placa de circuitos quem com elas trabalha". Por isso é preciso fazer um esforço, não desligar a crítica, e ler atentamente quais são os pontos defendidos nos trabalhos ricamente ilustrados.


Este post será intencionalmente não-ilustrado. (:


Link para o post no MindHacks: Area responsible for neuroscience erros located

Onde ler mais sobre o assunto:
D. McCabe, A. Castel. Seeing is believing: The effect of brain images on judgments of scientifc reasoning. J. Cognition. 2008
D. Weisberg, F. Keil, J. Goodstein, E. Rawson, and J. Gray. The Seductive Allure of Neuroscience Explanations. J. Cog. Neuroscience 20:3, 2008
M. Alac, E. Hutchins. I See What You Are Saying: Action as Cognition in fMRI Brain Mapping Practice. J. Cog. and Culture 4.3, 2004

Inductive reasongin, deductive reasoning... seductive reasoning.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Neuroimagem, Psicometria e Inteligência

Estudo [1] aponta para as conexões entre diferentes partes do cérebro como sendo o fator mais importante para a inteligência geral (fator G). Publicado em 22 de fevereiro de 2010, este estudo parece estar de acordo com a teoria da integração parieto-frontal (P-FIT), que identifica a rede do cérebro relacionada ao fator G como envolvendo principalmente os lobos frontais e parietais.
P-FIT
Fontes:
[1] J. Gläscher, D. Rudrauf, R. Colom, L. K. Paul, D. Tranel, H. Damasio, and R. Adolphs. The distributed neural system for general intelligence revealed by lesion mapping. Proceedings of the National Academy of Sciences, February 22, 2010. http://www.pnas.org/content/early/2010/02/05/0910397107.full.pdf+html
[2] J. Gläscher, D. Tranel, L. Paul, D. Rudrauf, C. Rorden, A. Hornaday, T. Grabowski, H. Damasio, and R. Adolphs. Lesion Mapping of Cognitive Abilities Linked to Intelligence. J. Neuron, January, 2009. http://www.iapsych.com/articles/glascher2006.pdf [Supplemental Data: http://www.iapsych.com/articles/glascher2006b.pdf]
[3] J. Gray, C. Chabris, and T. Braver. Neural mechanisms of general fluid intelligence. Nature Science Publishing. February, 2004. http://www.christofflab.ca/pdfs/2009/01/gray-et-al-2003.pdf


Ver também:
S. Karama, Y. Ad-Dab'bagh, R. Haier, I. Deary, O. Lyttelton, C. Lepage, A. Evans, and the Brain Development Cooperative Group. Erratum to "Positive association between cognitive ability and cortical thickness in a representative US sample of healthy 6 to 18 year-olds". Elsevier, 2008. http://stbb.nichd.nih.gov/pdf/cog_abil_cort_thickness.pdf
J. Haier: http://www.pediatrics.uci.edu/faculty/neurology/haier/haier.html

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Crenças Científicas

Tradução e comentários à algumas cartas enviadas por cientistas e filósofos em resposta à pergunta: No que você acredita e não pode provar?, do site Edge (www.edge.org). Meus comentários estão entre chaves '[ ]' e em itálico, para não se confundirem com as idéias defendidas pelos autores.

DANIEL GILBERT
Psicólogo, Harvard University
Fonte: http://www.edge.org/q2005/q05_10.html#gilbert

Em um futuro não muito distante nós seremos capazes de construir sistemas artificiais que irão exibir toda a aparência de sistemas conscientes, que irão agir como nós agimos em todos aspectos. Estes sistemas irão falar, andar, piscar, mentir e aparentar perturbação pela proximidade das eleições. Eles irão afirmar que são conscientes e irão exigir seus direitos civis. Mas nós não termos um meio para saber se o comportamento deles não passa de um truque não mais genial do que um pombo que foi treinado para digitar "Eu sou, eu sou!"
Nós tomamos a consciência de cada um de nós na base da fé, pois nós precisamos, mas após 200 anos de discussão sobre este assunto, ninguém jamais conseguiu elaborar um teste definitivo para a sua existência. A maioria dos cientistas cognitivos acreditam que a consciência é um fenômeno que emerge da interação complexa de partes absolutamente inconscientes (neurônios), mas mesmo quando nós finalmente entendermos a natureza desta interação complexa, nós ainda seremos incapazes de provar que ela produz o fenômeno em questão. Ainda assim, eu não tenho a menor dúvida de que todos aqueles que eu conheço possuem uma vida interior, uma experiência subjetiva, um senso de self, que é muito semelhante ao meu.

No que eu acredito ser verdade que eu não posso provar? A resposta é: Você!

---
O modelo de investigação científica atual, que exige um observador externo, realmente torna difícil a abordagem da consciência, da experiência subjetiva e do self. Enquanto a evolução de técnicas de neuroimagem e dos testes neuropsicológicos torna cada vez mais possível a observação de processos cognitivos importantes -- já é possível distinguir com uma margem de erro aceitável se uma pessoa está olhando para uma casa ou para um rosto observando as imagens de sua atividade cerebral -- ainda falta muito para que possamos observar a significação que é dada a tais imagens. Talvez já seja possível ou quase possível observar que alguém se sente bem observando a foto de um familiar próximo ou da pessoa amada, mas identificar tudo (memórias, associações, etc) que leva essa pessoa a se sentir bem ao visualizar tal imagem e se sentir mal quando vê a imagem de alguém que lhe causou muito sofrimento, é outra história. Quem sabe um dia no futuro? Já existem discussões acerca da privacidade de pensamento em face aos avanços da neurociência. (:

-*-*-*-*-

DANIEL C. DENNETT
Filósofo,Tufts University, autor de Freedom Evolves
Fonte: http://www.edge.org/q2005/q05_10.html#dennett

Eu acredito, mas não posso ainda provar, que a aquisição de uma linguagem humana (uma linguagem oral ou de sinais) é uma condição necessária para a consciência - no sentido forte de que haja um sujeito, um Eu, um 'algo que é como algo para ser'. Segue, então, que animais de outras espécies e crianças que ainda não adquiriam uma linguagem, embora possam ser sensíveis, alertas, respondentes à dor e ao sofrimento, e competentes cognitivamente de muitas formas notáveis - incluindo maneiras que ultrapassam a competência de um humano adulto normal - não são realmente conscientes (no sentido forte): não há um sujeito organizado (ainda) para ser apreciador ou sofredor, nenhum proprietário das experiências em contraste com um mero locus cerebral de efeitos.
Esta afirmação pode ser chocante para muitas pessoas, que temem que ela irá remover os animais de outras espécies e as crianças que ainda não adquiriram uma linguagem da proteção moral, mas não é este o caso. De quem é a dor quando a dor ocorre no recém nascido? Não há ainda um indivíduo a quem a dor pertença, mas este fato não nos dá o direito de infligir estímulos dolorosos em bebês ou em animais, da mesma forma que não temos o direito de abusar do corpo ainda vivo de pessoas em coma que estão absolutamente inconscientes.
Se a noção de self se desenvolve gradualmente, então certos tipos de eventos se tornam experiências apenas gradualmente, e não haverá uma fronteira bem definida entre dores inconscientes (se assim podemos chamá-las) e dores conscientes, e ambas merecem atenção da moral. (E, é claro, a verdade da hipótese empírica é, de qualquer forma, estritamente independente de suas implicações éticas, quaisquer que sejam elas. Aqueles que rejeitam uma hipótese meramente com base na moral estão deixando que o pensamento mágico [forma primitiva de racionalização, em inglês wishful thinking] suplantar uma atitude científica apropriadamente inquisitiva. Fico feliz em dar aos animais e às crianças pequenas o "benefício da dúvida" para propósitos morais, mas não para propósitos científicos. Aqueles que ficam chocados com a minha hipótese devem parar, se forem capazes de suportar, e perceber o quanto é difícil provar que ela está errada, ao invés de certa. Mas pode ser, penso eu, que eventualmente assim seja comprovado. Aqui está o que será preciso, de uma forma ou de outra:

(1) Um modelo bem confirmado da arquitetura funcional da consciência de um adulto humano, demonstrando como que os longos caminhos de interações reentrantes ou reverberantes precisam ser dispostos e mantidos pelas diferentes formas de cascatas de auto-estimulação que advém com o uso da linguagem;

(2) Uma interpretação da dinâmica do modelo que explique o motivo, fora aqueles bem explorados caminhos de micro-hábitos neurais, que não há unidade funcional ao sistema nervoso - nenhuma unidade para distinguir um Eu de um nós (ou de uma multidão) como candidato a sujeito(s) servido por o sistema nervoso em questão [para entender melhor este item, é preciso conhecer a abordagem do Dennett ao experimento mental do cérebro na jarra];

(3) Um hospedeiro de posteriores trabalhos experimentais demonstrando a importância daquilo que Thomas Metzinger chama de modelo fenomenológico da relação de intencionalidade (PMIR) na habilitação de todas as formas de experiências que consideramos centrais para nossa própria consciência adulta. Este trabalho irá demonstrar que a esperteza animal nunca requer as habilidades que são identificadas nos seres humanos, e que os animais são, de fato, incapazes de apreciar muitas coisas que nós normalmente tomamos por certas na nossa experiência consciente.

Esta é uma hipótese empírica, e pode muito bem ser provada falsa. Pode ser provada falsa caso fique demonstrado que de fato os caminhos necessários que unem funcionalmente sistemas cerebrais importantes (nas formas que eu clamo serem necessárias para a consciência) já estarem presentes em um bebê normal [anatomicamente o cérebro do bebê não possui todos os giros, sulcos, estruturas e tratos que o cérebro de um adulto? eu acho que sim -- a mielinização de certos 'caminhos' se dá posteriormente durante o desenvolvimento, podendo levar até os 25 anos de idade para se completar, mas é bastante seguro afirmar que um indivíduo com menos de 25 anos é uma entidade consciente.. ou não?] ou durante o desenvolvimento fetal, e de fato estejam presentes, digamos no sistema nervoso de todos os mamíferos com certa maturidade.

Cof.. Cof.. - Imagem obtida no site de Mark Dow, LCNI.
Cof.. Cof.. - MRI de um bebê prematuro.
O que eu vejo? Sulcos, giros... Nem um
pouco estranhos. Imagem obtida
em Washington University MedNews.



Eu duvido que isso seja verdade pois me parece claro que a evolução já demonstrou que uma grande variedade de coordenação adaptativa pode ser alcançada sem tais meta-sistemas hiper-unificantes, como é o caso de colônias de insetos sociais, por exemplo. Como é ser uma formiga em uma colônia? Nada, eu afirmo, e penso que a maioria iria concordar intuitivamente. Como é ser parte de um rebanho de gado? Nada (mesmo que seja como ser um boi individual) [eu me pergunto com base no quê ele afirma tais coisas]. Mas então nós temos que considerar seriamente a extensão na qual animais - não apenas colônias de insetos e répteis, mas ratos, baleias e, sim, morcegos e chimpanzés - podem se virar com cérebros de certa forma desunificados.
A evolução não iria prover habilidades além daquelas que não são necessárias para que os membros destas espécies sejam capazes de realizar as tarefas que se apresentam para as suas vidas. [Oh.. então porquê raios nós fazemos música? A evolução cria coisas 'inúteis' para a sobrevivência, ou que apenas dêem alguma vantagem mas não sejam condicionais à sobrevivência... Se um pavão não tivesse penas coloridas no rabo as fêmeas seria atraídas por outro atributo qualquer. Ninguém precisa de uma Ferrari para se locomover numa cidade, mas certamente que uma Ferrari vai ajudar na transmissão da carga genética de um indivíduo.] Se animais fossem como criaturas imaginárias nas ficções de Beatrix Potter ou Walt Disney, eles teriam consciência da mesma forma que nós temos. [Isso porque você acredita que é preciso falar para ser consciênte desta forma.. Duh..] Mas animais são mais diferentes de nós do que geralmente imaginamos, iludidos como somos por estas ficções antropomórficas charmosas. [Eu discordo da hipótese dele e cresci sem assistir aos filmes da Disney pois não me atraíam nem um pouco.] Nós precisamos destas habilidades para nos tornar pessoas, indivíduos comunicativos capazes de perguntar e responder, pedir e proibir, e prometer (e mentir). Mas nós não precisamos nascer com estas habilidades, uma vez que a audição normal irá causar as disposições neurais necessárias. [Hãã? Não foi assim que eu li nos livros de neurociência. O.o -- a estimulação externa leva ao desenvolvimento de sistemas já presentes.] A subjetividade humana, estou propondo, é um notável produto colateral da linguagem humana, e nenhuma versão desta poderia ser extrapolada a qualquer outra espécie a princípio, mais do que pudéssemos assumir que os sistemas rudimentares de comunicação de outras espécies são verbos, pronomes, adjetivos e etc.
Por fim, uma vez que em geral há um mal entendido quanto a isto, eu não estou dizendo que toda a consciência humana consiste em falar consigo mesmo em silêncio, embora boa parte dela consista. Eu estou dizendo que a habilidade de falar consigo mesmo silenciosamente, a medida que se desenvolve, também trás consigo a habilidade de rever, admirar, apreciar, reconsiderar, e em geral alcançar o conteúdo dos eventos no sistema nervoso do indivíduo, que de outra forma teriam seus efeitos de uma forma meramente "balística", deixando nenhuma memória ao serem despertados, e contribuindo para o direcionamento do indivíduo de formas que são bem descritas como inconscientes. Se um sistema nervoso pode possuir todas estas habilidades sem possuir uma linguagem [humana] então estarei errado.

------
A minha pergunta ignorante e simplória como pode soar, em resposta à esta hipótese do Dennett é: por acaso ele já ouviu a mente de uma criança que ainda não desenvolveu a linguagem (da forma que conhecemos) ou a mente de um animal não humano? Ou viu, se for o caso?
Pensamento verbal é uma das muitas formas de pensar, Nikola Tesla que o diga -- talvez Nikola Tesla seja uma daquelas pessoas que jamais perdeu a habilidade de pensar como uma criança pensa antes de sofrer o domínio do hemisfério esquerdo.
Quando reflito sobre minhas experiências, às vezes reflito na forma de palavras e sentenças (geralmente uma mistura mais ou menos homogênia de português e inglês); mas, enquanto as palavras não estão sempre presentes, e mesmo quando estão, meu pensamento sempre vem acompanhado de imagens -- imagens completamente abstratas que eu não seria capaz de descrever por meio de palavras, além de imagens do dia a dia.
Não me sinto apto a afirmar que esta forma de pensar seja exclusivamente minha, nem mesmo que me dê alguma vantagem. Por exemplo, não foi fácil desenvolver uma forma de me lembrar de uma quantidade grande de conceitos que precisam ser descritos na forma de sentenças objetivas, mas também não foi impossível.
Por outro lado, meu "mundo interno" é extremamente rico, colorido e interessante, muitas vezes infinitamente superior ao mundo que meus sentidos trazem, especialmente naquilo que se refere ao que codifico na forma de linguagem.
Afinal, ver uma bela flor em um passeio pelo campo numa tarde agradável de primavera não é a mesma coisa que dizer: "Eu vi uma bela flor em um passeio pelo campo numa tarde de primavera." E por mais que eu me alongasse na descrição, ainda assim não seria a mesma coisa, para aquele que escuta, que vivenciar aquela experiência.
Da mesma forma, se minha reflexão fosse muito centrada na forma lingüística de análise ou introspecção, muito seria perdido. Concordo que a linguagem, quando bem desenvolvida e rica, dá a estrutura necessária para um pensamento mais coerente. Mas não concordo que seja uma condição necessária para uma apropriação da experiência.
Até que ponto uma criança que não domina a linguagem ou um animal não humano são capazes de se apropriar das experiências? Não sei, uma coisa eu sei ao certo, a dor inflingida a eles lhes pertencem sim, e lhes causa sofrimento enquanto entidades individuais e únicas.
Uma questão que eu gostaria de fazer ao ilustre filósofo, e talvez lhe envie por e-mail na esperança de receber uma resposta, é: Onde ficam os primatas não-humanos que dominam uma linguagem de sinais rudimentar que inclui palavras como "eu", "gostar", "sentir" e "dor"? Ora... Posso criar um programa que faça uso de tais palavras. Mas um computador, ou mesmo um robô, não teriam uma amígdala, nem um hipotálamo, nem um córtex, para se apropriar do sentido destas palavras. Por outro lado, tanto um animal não humano quanto as crianças que não adquiriram uma linguagem possuem tal instrumental biológico. Macacos, cachorros, pássaros e principalmente crianças, sentem dor e sabem quando estão sentido dor.
As vezes paro um pouco de ficar andando em círculos nos conceitos filosóficos de qualia e consciência e penso: que coisa mais idiota questionar a experiência subjetiva da dor, do prazer, do que quer que seja. Eu tenho a minha experiência subjetiva. A riqueza que a presença dos meus amigos me trás é indício forte o suficiente para que eu acredite que eles também detém essa habilidade.
Por fim, muitas coisas na ciência são tomadas por verdades pela mera observação das reações. A ciência acredita que a radiação acima do limite tolerado pelo organismo irá causar danos aos tecidos e eventualmente a morte. Ninguém fica se questionando se não é o organismo que se autodestrói na presença da radiação, sem influência direta desta, só para nos iludir. Isso, talvez, porque hoje em dia conhecemos em grande medida os mecanismos pelos quais a radiação age no organismo. Mas não vejo motivo para questionar se um ser não verbal sente dor, quando este exibe todo um comportamento que afirma que sim, ele sente dor, ele aprende a ter medo daquilo que causa dor, e assim por diante. Está certo que a observação dos eventos nem sempre é suficiente para a elaboração de um modelo correto -- todos conhecem (ou deveriam conhecer) o questionamento de Wittgenstein quanto ao motivo pelo qual se acreditou durante tanto tempo que as estrelas e o Sol giravam em volta do planeta Terra. Contudo não vejo motivo para levar isso ao extremo e dizer que, embora todos os seres mais complexos demonstrem um comportamento que claramente indica que eles sentem dor, eles não sejam capazes de sentí-la e ter noção de que aquela dor lhes pertence. Sou capaz de dizer que não vejo motivo para acreditar que animais superiores sejam incapazes de sofrimento psicológico. Ora, cadelas somatizam a gravidez psicológica, pássaros somatizam doenças que lhes causa a perda das penas quando submetidos a grande estresse... Então sim, existe uma entidade subjetiva, passível de sofrimento - e também de prazer e apreciação - ainda que não verbal da forma como o ser humano concebe a linguagem.
Não digo isso tudo pela necessidade de acreditar em algo moral, bonitinho e politicamente correto. Estou ciente de que a ciência não existe para nos tornar mais felizes e que as leis naturais não precisam necessariamente obedecer nossa moral humana. Digo essas coisas simplesmente baseado na observação. Vejo um gato se espreguiçando ao sol e não consigo deixar de pensar: se existe um animal que realmente é capaz de sentir prazer, um prazer num nível muito profundo e intenso, esse animal é o gato. Talvez o pensamento verbal, a vida civilizada e moderna, tenha nos tornado menos conscientes e apropriadores de certas experiências do que um simples gato. Quantas pessoas você conhece que param no meio da rua e se deixam tomar pelo simples prazer de um banho de sol -- ainda que isso seja possível? Nós estamos sempre ocupados demais correndo para obter dinheiro para comprar coisas que não precisamos e pensando em maneiras de nos tornar diferentes dos demais animais e iguais entre nós mesmos, e acabamos perdendo de vista os pontos nos quais somos todos iguais e ao mesmo tempo completamente diferentes. Isso por que somos únicos. E os animais também. Eu já tive muitos gatos e alguns cachorros. Nenhum era igual ao outro e, pelo menos no que diz respeito ao significado no senso comum da palavra 'personalidade', todos eles tinham personalidades bem próprias e bem definidas, individualmente.
Será que a falta de giros do cíngulo, frontal inferior, supramarginal e angular avantajados transforma os indivíduos em zumbis? Humm.. Eu acredito que não, se fosse o caso George Romero faria filmes sobre criaturas portadoras de afasias.
Ah, e só para terminar... Sim, me senti ofendido pela hipótese levantada e talvez eu a tenha interpretado mal. Mas, que coisa, está é a minha experiência subjetiva quanto ao que li. (:


-*-*-*-*-

WILLIAM CALVIN
Neurobiólogo, University of Washington, autor de A Brief History of the Mind
Fonte: http://www.edge.org/q2005/q05_10.html#calvin

Dan Dennett está certo em seus comentários quando ele põe ênfase na aquisição da linguagem, não possuindo linguagem, como uma condição para o nosso tipo de consciência. Para todos os efeitos, eu tenho algumas (altamente improváveis) crenças sobre o motivo pelo qual a aquisição de uma linguagem estruturada na idade pré-escolar é tão importante para todas as demais funções intelectuais de alto nível. Além da sintaxe, o intelecto inclui coisas estruturadas como planejamento contingente de múltiplos-estágios, cadeias de lógica, jogos com regras arbitrárias, e a nossa paixão por descobrir "como as coisas funcionam."
Muitos animais possuem alguma versão de um período crítico para sintonizar a percepção sensorial. Os seres humanos também parecem ter um [período destes] para a linguagem estruturada, a julgar pela experiência com crianças surdas de pais ouvintes que não expostas a uma linguagem de sinais rica durante os anos da pré-escola. Oliver Sacks, em "Seeing Voices", descreveu o caso de um garoto de 11 anos de idade que era tido como retardado mas que na verdade era apenas surdo. Depois de um ano de instrução na ASL (linguagem de sinais americana), Sacks o entrevistou:
"Joseph viu, distinguiu, categorizou e usou; ele não teve problemas com categorização perceptiva ou generalização, mas ele não podia, ao que parece, ir muito além disso, como sustentar idéias abstratas em sua mente, refletir, jogar, planejar. Ele parecia completamente incapaz de utilizar imagens ou hipóteses ou possibilidades, incapaz de entrar em um reino imaginativo ou figurativo... Ele parecia, como um animal ou um bebê, estar preso ao presente, estar confinado à percepção literal e imediata..."
No primeiro ano, o bebê está ocupado criando categorias para os sons falados que escuta. No segundo ano, o bebê está ocupado adquirindo novas palavras, cada uma composta por uma série daqueles blocos edificadores dos fonemas. No terceiro ano, ele começa a adquirir aquelas combinações típicas de palavras, que nós chamamos de gramática ou sintaxe. Ele logo começa a se formar na fala de sentenças longas e estruturadas. No quarto ano de idade, ele consegue inferir um padrão às sentenças e começa a exigir finais apropriados às histórias que ouve. É como uma pirâmide, usando os blocos de construção sobre os níveis imediatamente subjacentes. Quatro níveis em quatro anos!
Estes anos são repletos de conexões por meio do ajustamento e melhoramento das conexões pré-natais entre os neurônios corticais, parcialmente com base em quão útil uma conexão tem sido até aquele momento na vida. Algumas destas conexões ajudam a montar uma nova combinação de palavras, verificam coisas que não fazem sentido por meio de algum controle de qualidade, e então - mirabile dictu - uma sentença inteiramente nova é proferida. Algumas deve estar em espaços de trabalho que poderiam planejar não apenas sentenças, mas uma agenda para o fim de semana ou uma cadeia lógica, ou checar uma jogada de xadrez antes de ser feita - até mesmo ser afetada por música estruturada com suas múltiplas melodias interligadas.
Então, sintonizar este espaço de trabalho para a linguagem estruturada nos anos da pré-escola iria acarretar estes outros aspectos estruturais do intelecto. É por isso que eu gosto de enfatizar na aquisição da linguagem como uma pré-condição para a consciência: afinar para a estrutura de sentenças pode fazer com que uma criança seja mais capaz de realizar tarefas não lingüísticas que também necessitam de alguma estruturação. Melhore uma, melhore todas?
É isso que impulsiona nossa sabedoria e inteligência? Seria "o nosso tipo de consciência" nada mais do que o intelecto estruturado com um bom controle de qualidade? Não sou capaz de provar isso, mas com certeza me parece um bom candidato.

------
Sem dúvida que a linguagem estruturada é importantíssima para a experiência humana. Mas ainda não estou convencido de que seja um pré-requisito indispensável para a consciência de modo geral.

-*-*-*-*-

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Palestra: Consciência: Novas Idéias e Experimentos, Francis Crick

Consciência: Novas Idéias e Experimentos
Francis Crick, Ph.D.
Do Instituto Salk para Estudos Biológicos
Prêmio Nobel de 1962
Fronteiras do Conhecimento - Universidade da Califórnia, San Diego.
http://www.youtube.com/watch?v=1Kvv7fKadyc


"Como podem ser os CNN, os correlatos neurais para a consciência, assumindo que eles sejam um processo neurocientífico emergente? E deixem-me dizer, logo de início, que nós não sabemos como eles são. Eu apenas tenho que enumerar algumas das possibilidades.
O que nós sabemos, como já falei anteriormente, é que não é provável que a consciência esteja contida em um único lugar; é mais provável que ela esteja em vários lugares, e a evidência mais forte que temos para tanto, ou as duas fontes de evidências para tanto, são [pacientes que sofreram] danos cerebrais, e também, mais recentemente, de neuroimagens obtidas das pessoas. Então [a consciência] não irá estar em uma única área cortical, ou algo deste tipo.
Agora, o que ainda não está claro, é se envolve tipos específicos de neurônios e sinapses ou se, por outro lado, ela pode estar em todos os lugares, se qualquer neurônio no cérebro pode ser, em um dado momento, um ingrediente essencial dos CNN. E isso nós realmente não sabemos.
Muitas pessoas dizem que é um fenômeno global, que não é possível reduzir a consciência a alguns tipos particulares de neurônios.
O ponto de vista que eu e Christof [Koch] defendemos é de que não devemos assumir isso sem maiores investigações, vamos nos manter abertos a possibilidade de que tipos especiais de neurônios, não apenas um tipo, não acredito nisso, mas tipos diferentes de neurônios que, obviamente, podem estar em muitos lugares diferentes, possam ser essenciais à consciência.
A próxima questão que nós temos que levantar é se os CNN estão associados a tipos especiais de disparos? Por exemplo, alguns neurônios disparam em rajadas, e sem entrar muito nisso, existem vantagens em disparar em rajadas pois algumas sinapses que com eles se relacionam não são completamente confiáveis e podem não funcionar no primeiro pico [ou potencial de ação] que chega, mas a regra geral é de que se você tiver pelo menos dois picos, um deles irá sempre funcionar.
A outra questão que também é muito debatida é se depende de disparos relacionados dos neurônios, não apenas um conjunto de neurônios disparando em sucessão, mas disparos com os picos chegando com um alto grau de correlação. E uma forma disso é se você tem os neurônios disparando em um certo ritmo, o ritmo chamado de gama ou 40 Hz, e assim por diante.
E isso nos leva a um problema que é central para compreender o cérebro, e não apenas a consciência: será que o que importa é a taxa média de disparo dos neurônios - que é tradicionalmente aceito ainda que as pessoas sejam um pouco vagas quanto a qual freqüência deva ser considerada - ou, no outro extremo, será que isso depende do tempo exato dos picos axonais? E a resposta para isso irá depender da atividade a qual você está estudando.
O que nós sabemos é que ambos são verdadeiros em certas circunstâncias. O que nós não sabemos é qual dos dois importa, ou qual combinação utilizar, em diferentes lugares... E, é claro, nós queremos saber qual deles é especialmente importante para os CNN. Isso tem sido motivo para especulação aguda entre eu e o Christof no momento, não irei entrar nos detalhes pois é muito preliminar, mas só quero ressaltar que este é um problema importante.
A outra coisa que penso ser igualmente importante não são apenas conjuntos de neurônios, mas os chamados loops [circuitos fechados], caminhos de reentrância como [Gerald] Edelman diria. Esta é uma idéia altamente atraente, embora não seja fácil de estudá-la.
Infelizmente, existem caminhos de reentrância por todo o cérebro, por todo o córtex, em todos os lugares que você olhar, entre o córtex e o tálamo, é incomum não encontrar loops deste ou daquele tipo. Então a pergunta-chave é: quais loops são importantes para a consciência e como que eles interagem? Quais deles são essenciais? Talvez você tenha cinco loops importantes, ou talvez você tenha uma combinação entre três loops, você pode elaborar todos os tipos de possibilidades.
A resposta é: nós não sabemos. Mas estas são as coisas para as quais temos de manter nossos olhos voltados.
E quais outras características existem neste assunto?
Bem, uma coisa que é importante - e tudo é bastante especulativo - é que a atividade deve se manter acima de um certo nível [ver Sistema Ativador Reticular Ascendente]... E é preciso lembrar, o quão vago nós somos quanto ao que queremos dizer quanto a "atividade", mas vamos deixar isso de lado no momento... Parece ser mais do que provável que você precisa, para atingir a consciência, que a atividade de conjuntos de neurônios, quaisquer que sejam eles, alcance e supere um certo nível, e se mantenha naquele nível por um dado período de tempo. E se você tiver experiências muito transientes de consciência, ou o que é chamado de fringe consciousness por exemplo, será um tempo mais curto... Em outras situações o tempo será mais longo. Para sinais fracos, deve haver alguma forma de integração [ver EEG e estados alterados de consciência].
Agora, por quanto tempo você deve manter este nível de atividade? Bem, certamente não pode ser durante um intervalo muito curto. A muito tempo atrás, no século passado, William James citou um francês que disse que iria apreciar qualquer dor que durasse não mais do que um milissegundo, pois depois não haveria lembrança de tal dor.
Então é virtualmente certo que para se tornar consciente algo deve durar, e o tipo de tempo que estamos falando é de cerca de no mínimo 200 milissegundos, embora não saibamos o tempo exato.
Se isso é aquilo que os psicólogos chamam de memória sensorial, ou se é a chamada memória de trabalho, que é aquela que você usa quando tenta se lembrar de um número de telefone e pode durar por um tempo mais longo, vários segundos ou mais, não é algo que está bem definido. Minha crença é de que você pode ter déficits na memória de trabalho e ainda assim ser consciente, embora de forma limitada, de forma muito limitada por causa disso...
Outra generalidade que podemos dizer é, e isso foi trazido por Bernie Baars, que quando você tem neurônios expressando os CNN, eles estarão enviando informação de forma bastante abrangente no cérebro. Infelizmente isso não te ajuda muito a saber exatamente "o quê" e "quando", mas certamente é algo a ser considerado.
E aqui nós temos que fazer uma distinção importante: quando você tem os CNN, o que acreditamos é que você tem certas atividades que levam o conteúdo dos CNN. Este conteúdo será levado a algum lugar e ativará todo tipo de coisa, e isto será muito relevante quando você vier a perguntar "qual o significado do que estou vendo?"
Quando você vê algo, é evidente que você fica excitado e isso lhe trás muitas associações, que podem até não fazer com que os outros neurônios que relacionam-se a estas associações dispararem amplamente, mas certamente irá trazer alguma atividade a estes neurônios. E esta é uma das dificuldades quando você observa neuroimagens funcionais de pessoas conscientes, é difícil determinar qual atividade é primária da consciência e qual atividade é secundária, associada a atividade primária. Naturalmente temos interesse em entender tudo, mas no momento estamos focando em quais neurônios expressam a atividade primária, antes de tudo. Talvez esta não seja a análise teórica correta, talvez precisemos mudar nosso ponto de vista, mas é assim que fazemos no momento.
E certamente temos que considerar isso quando chegamos ao "significado". E não queremos dizer significado em termos de palavras, mas significado no sentido que John Searle, o filósofo, me disse: "aqui você tem neurônios, uma parte do cérebro, conjuntos de neurônios, que respondem - falando de modo geral - a rostos. Então como o resto do cérebro sabe que aquilo corresponde a um rosto?" - E esta é, realmente, uma questão muito interessante. Você não está consciente, como mostra o filósofo, do disparo dos neurônios como tal, você está ciente do rosto. Alguns dizem que isto seria ser transparente quanto ao que você está ciente, e assim por diante. Então, certamente temos que pensar sobre isso.
Existe uma outra forma de pensar sobre o problema, que eu imagino estar no caminho certo mas que precisa ser usado com alguma precaução. É a possibilidade de que seja, e Christof e eu pensamos nisso de tempos em tempos, correto pensar na atividade cerebral, nas regiões e nos âmbitos dos quais estamos falando agora, dividida em duas classes amplas: um que pode ser chamada de computações, que em outras palavras - pois não queremos fazer com que soe muito parecido com um computador, são as atividades que levam à consciência; e a outra [classe] são aquelas atividades que expressam os resultados. E é claro que estamos familiarizados com isso em um computador, todas aquelas computações que acontecem no interior levam àqueles resultados que são expressos na tela em frente a você... Mas não podemos levar isto muito longe, ou então iremos nos encontrar perguntando a nós mesmos "quem está olhando para a tela?" - nós tivemos uma pequena dificuldade com isso, por exemplo. [Falando muito a grosso modo: quando pensamos sobre aquilo que pensamos e vamos adiante pensando sobre o modo como pensamos sobre aquilo que pensamos, no cérebro, quem - quais estruturas - pensa sobre aquilo que pensa quando pensa o que pensa... Aí entra a metacognição na neurociência.]"

-----------------------------------------------

Estes são, aproximadamente, os primeiros 8 ou 9 minutos da palestra do Francis Crick sobre experimentos com a consciência. Gostaria de poder traduzir o restante, mas a palestra tem duração de 60 minutos e eu não tenho tanto tempo disponível no momento. Estes minutos iniciais são especialmente importantes pois eles enumeram algumas das questões mais salientes que relacionam a filosofia da mente com a neurociência e a psicologia:
1. Qual é a natureza dos correlatos neurais para a consciência?
2. Quais tipos de neurônios ou sinapses desempenham papel crucial na emergência da consciência, se não todos, se não for um fenômeno global?
3. Qual tipo de atividade em nível neuronal está mais associada à consciência? Potenciais de ação desempenham algum papel em especial quanto a consciência?
4. Qual a relação entre as ondas cerebrais - evidentemente relacionadas à atenção e despertar - com a consciência e com a atividade neuronal isolada?
5. Qual o papel dos loops em tratos cerebrais para consciência? Como descrever sua participação na emergência da consciência, estabelecendo bases fisiológicas?
6. Como identificar os fenômenos de atividade neural primários à consciência por meio da tecnologia disponível?
7. Qual a relação entre as diferentes áreas onde o processamento de diferentes aspectos da realidade, ou mesmo de diferentes partes de um mesmo aspecto da realidade, ocorre?
8. Qual o papel da metacognição na consciência?

Dá para ter uma idéia do que é o restante da palestra, não? Tendo tempo disponível, possivelmente irei traduzir o pôr aqui outras partes interessantes. Abaixo, seguem alguns conceitos que podem ajudar a compreender melhor o texto acima e algumas idéias, ou mesmo de onde surgiram, as vezes de uma forma meio primitiva, as idéias acima.

Para entender melhor:
"Os Correlatos Neurais da Consciência (CNN) podem ser definidos como os mecanimos neuronais mínimos que, em conjunto, são suficientes para qualquer percepção consciênte específica. (Crick & Koch, 1990)"
KOCH, Christof and MORMANN, Florian. Neural Correlates of Consciousness (NCC). In: Scholarpedia: the free peer reviewd encyclopedia. 2007.

"Em neurofisiologia, um potencial de ação (também conhecido como impulso nervoso ou pico) é uma onda de voltagem que se assemelha a um pico e que viaja ao longo de diversos tipos de membranas celulares. O exemplo mais compreensível é gerado na membrana de uma axônio de um neurônio, mas também pode estar presente em outros tipos de células excitáveis, como as células do músculo cardíaco ou mesmo nas células de plantas."
Action Potential. In: Wikipedia: the free encyclopedia.

"Rajadas é um modo de sinalização rápida presente nos neurônios no qual sucessões de dois ou mais potenciais de ação são emitidos como um único evento sinalizador. Uma rajada de dois potenciais de ação é chamada de doublet, de três de triplet, de quatro quadruplet, etc. Acredita-se que o modo de rajada é útil para sinalizar eventos importantes e direcionar informações no cérebro."
Bursting. In: Wikipedia: the free encyclopedia.

"Uma onda gama é um padrão de ondas cerebrais associado com a percepção e com a consciência. Ondas gama são produzidas quando conjuntos de neurônios emitem sinais elétricos numa freqüência de 40 vezes por segundo (40 hertz), mas podem encontrar-se entre 26 até 70 Hz. Segundo uma definição, ondas gamas se manifestam a partir dos 24 Hz em diante, embora pesquisadores reconheçam que níveis mais altos de atividades cognitivas ocorrem quando ondas gama de baixa freqüência subitamente dobram para o patamar dos 40 Hz. Pesquisas têm demonstrado que ondas gama estão constantemente presentes durante a atividade neocortical rápida de baixa voltagem (LVFA), que ocorre durante o processo de despertar e durante o sono REM."
Gamma wave. In: Wikipedia: the free encyclopedia.

"Circuitos tálamo-córtico-talâmicos são caminhos neurais fechados que conectam o tálamo ao córtex cerebral e conectam o córtex cerebral de volta ao tálamo. Alguns pesquisadores propõe que tais circuitos permitem que o cérebro obtenha dados sobre sua própria atividade, tornando a autoconsciência [a compreensão do indivíduo quanto a sua existência enquanto indivíduo, separado das demais pessoas e com pensamentos só seus] possível."
Thalamo-cortico-thalamic circuits. In: Wikipedia: the free encyclopedia.

"Pode haver um milhão de neurônios no meu cérebro disparando num padrão no qual todos concordam uns com os outros, e neste padrão eles estão todos reforçando uns aos outros, dizendo: sim isso é bom. E este padrão, pode ser o padrão característico que ocorre sempre que eu vejo um livro. Então, este padrão característico significa que eu estou vendo um livro ou pensando a respeito do conceito de um livro. Agora, com algum outro conceito, como mesa, então seria um conjunto diferente de neurônios, eles estão todos disparando e reforçando uns aos outros, e formando de forma cooperativa uma organização de neurônios que diz 'mesa'.
[Narrador:]As células mais importantes no cérebro são células nervosas, ou neurônios, cada neurônio possui um número de sinapses ou interputs [dendritos], um corpo celular, e um axônio ou output. O interput e o output são a corrente eletroquímica de íons móveis, e no corpo celular uma decisão simples é feita [não é bem assim, para uma explicação mais exata ver o Neuroanatomia Funcional do Machado]: se o interput das sinapses for suficiente, ele irá disparar um output. Este output de íons irá eventualmente cruzar-se com os interputs de outros corpos celulares, que irão fazer a mesma decisão. É adição simples que move o nível mais básico da mente [explicação horrível da comunicação neuronal, mas tudo bem...].
Por um lado, aquelas pequenas células [os neurônios] não estão pensando, óbvio, a atividade delas é muito distante do que é pensar [lembrando de um outro post meu]. De fato, a atividade que ocorre em cada neurônio do cérebro não é diferente da atividade que ocorre em uma célula nervosa [neurônio] no seu dedo. O que ocorre é que, quando você junta elas, e permite que elas troquem informações de forma intensa, então você permite que estes tipos de estados macroscópios existam. Então, em alguns modelos de inteligência artificial, a idéia é criar um modelo, não necessariamente para um neurônio, mas para uma atividade computacional bastante pequena, e permitir que esta pequena atividade computacional seja capaz de cooperar com várias outras pequenas atividades, e fazer com que elas enviem mensagens de volta uma para as outras. E como todas estas pequenas atividades, na forma de um programa, irão ter um comportamento coerente em grande escala. [...]
A história que estou tentando contar é de como os detalhes funcionam. Como que uma coisa unitária como a consciência pode emergir. Como que milhões, bilhões de pequenas coisas acontecem. Este tem sido um dos meus principais interesses ao longo dos anos. Pois é um mistério, você não precisa partir, você não precisa nem começar pelos neurônios como os menores elementos: mesmo quando eu era uma criança eu aprendi que eu era feito de átomos. Isso foi um choque para mim, pois de alguma forma isso me reduziu a uma vasta coleção de pequenas coisas invisíveis. Sendo que todas estas pequenas coisas obedecem as leis da física. Onde eu fico, onde isto me deixa alguma espaço para ter algum livre-arbítrio, ou para ter algum controle? Eu estava preocupado quanto a isso. Eu me lembro bem. Bom, existe um problema. Eu gosto de pensar na atividade microscópica de um organismo vivo, em particular em um cérebro vivo, na forma desta analogia que eu chamo de caranium, que é uma brincadeira com as palavras, em inglês, com a palavra cranium - pois havia um pesquisador do cérebro, muito famoso, que escreveu uma frase certa vez, em um dos seus artigos, na qual ele diz: 'Quem empurra quem dentro do crânio?' ('Who shoots who around inside the cranium?') - e nesta questão, o que ele realmente pretendia dizer era: 'Será que as leis da física estão controlando pequenas partículas de forma que não sobra espaço algum para o livre-arbítrio e coisas do tipo, ou será que as coisas como desejos, crenças, esperanças e idéias [conceitos simbólicos], será que são estas coisas que estão controlando os elétrons?' Qual seria a melhor maneira de pensar sobre isso?
[Narrador:]Imagine o caranium como um vasto espaço, e a atividade neural como pequenas bolas de gude amarelas, batendo uma nas outras continuamente, como os íons passando de célula em célula. Elas tem muita liberdade, mas estão restritas por certos objetos maiores, preferindo então certos caminhos, como a atividade neural. Mas o que são estes obstáculos? Imagine que as bolas de gude são magnéticas e que, as vezes, elas se juntam umas as outras. Nós podemos chamar estes agrupamentos de 'símbolos', como os grupos de células cerebrais que formam estruturas mais ou menos estáveis, e que mantêm-se juntas durante a maior parte do tempo. Os símbolos são estáticos, e determinam a direção das bolas de gude, mas se você pudesse ver tudo ocorrendo rapidamente, você poderia ver os símbolos se movendo, empurrados na mesma direção, parecendo até mesmo interagir uns com os outros. Supunha que as bolas de gude são impulsionadas pelas condições do exterior. Supunha que se acenda uma luz verde, e a quantidade de bolas de gude aumente. Nós podemos chegar a conclusões causais sobre a conexão entre a luz e os movimentos no interior do caranium. Faz com que pareça que os símbolos não gostam da luz verde. Quando a luz verde se apaga novamente, algo da situação anterior permanece visível no arranjo dos símbolos: os símbolos se lembram da luz. É claro, que na realidade, a luz não interage diretamente com as células do cérebro, mas através dos olhos. O pulso de íons viaja pelo nervo óptico e entra no cérebro, iniciando um processo complexo de formação de símbolos. No final, um pulso retorna aos músculos da boca e da língua, que juntos dizem: 'Eu vejo uma luz verde'. [forçou o arco-reflexo, mas tudo bem...] É isso que chamamos de consciência, a habilidade de perceber, de espelhar esta percepção nas células do cérebro, e de expressar isso para o mundo. Quem empurra quem dentro do caranium? São os símbolos que estão empurrando a atividade das células, ou são as células que estão manipulando os símbolos? É a interação dos símbolos que realmente importa, ou é a consciência, sobre todas estas coisas, que está dirigindo tudo? Na realidade, parece depender do nível [de reducionismo] do qual você está observando.
Uma das visões é de que quando você está concentrado no microscópio você não está vendo o macroscópio. Você está concentrado nas pequenas coisinhas que acontecem e não está vendo as coisas grandes. A outra visão é quando você apenas vê as coisas grandes e não vê as pequenas. Agora, se você tomar isso como uma metáfora, você pode tentar pensar sobre como as pessoas olham para si mesmas, como as pessoas sentem a si mesmas. Pessoas não são capazes de sentir as pequenas ações nos seus cérebros. É como se tudo o que elas sentissem fosse a atividade de símbolos. Ou seja, coisas que simbolizam o mundo exterior. Conceitos. Símbolos são outra forma de falar de conceitos de um certo modo. E tudo o que sentimos nas nossas mentes, é esta atividade de alto-nível [processamento de alto-nível, baixo-nível, como em programação de alto-nível, baixo-nível, orientada a objetos, etc...] na qual várias coisas que são simbólicas eliciam outras coisas que são simbólicas. Atividades simbólicas eliciando atividade simbólica."
HOFSTADFER, Douglas. Victim of the Brain. 1988.

EDELMANN, Gerald. Recorte: A Hipótese do Núcleo Dinâmico. In: Um Universo de Consciência. pg. 138.

"O sistema de ativação reticular (ou SARA, de sistema ativador reticular ascendente) é o nome dado à parte do cérebro (a formação reticular e suas conexões [especialmente no tronco cerebral entre o mielencéfalo e o mesencéfalo]), que se acredita ser o centro do despertar e da motivação nos mamíferos, incluindo os humanos."
Reticular activating system. In: Wikipedia: the free encyclopedia.

A janela de tempo que um estímulo deve durar para que a dor se torne consciente, e o tempo que leva para que a tomada de consciência de uma dor, aparentemente variam conforme a área do corpor a ser estimulada, o tipo de estímulo empregado e a atenção despendida na dor.
Ver:
* SHIMIZU, T. Tooth Pre-pain Sensation Elicited by Electrical Stimulation
* VELDHUIJZEN, Dieuwke S., KENEMANS, J. Leon, et al. Pain and Attention: attentional disruption or distraction?

Memória de trabalho (ou memória de curto-prazo) é um construto teórico da psicologia cognitiva que se refere às estruturas [ainda não completamente conhecidas] e processos usados para manipular e armazenar temporariamente informação. [...] Contudo, muitos pesquisadores concordam que o córtex frontal, o córtex parietal, a parte cortical anterior do gíro do cíngulo (ACC) e partes dos gânglios basais ou núcleos da base desempenham um papel crucial no funcionamento da memória de trabalho."
Working Memory. In: Wikipedia: the free encyclopedia.

BAARS, Bernard J. Consciousness: The WebCourse.

"A persistência da visão deve ser comparada com os fenômenos relacionados do movimento beta [no qual duas ou mais imagens estáticas são combinadas no cérebro e criam a ilusão de movimento] e phi [no qual a ilusão de movimento é produzida por uma sucessão de imagens estáticas, mas não de um movimento contínuo como no movimento beta]. Uma parte crucial para o entendimento destes fenômenos da percepção visual é que o olho não é a câmera: não existe "frame rate" ou "scan rate" no olho, ao invés disso o sistema olho/cérebro possui uma combinação de detectores de movimento, detalhes e padrões, sendo que o output de todos estes detectores são combinados para criar a experiência visual."
Persistence of Vision. In: Wikipedia: the free encyclopedia.
Demonstração da diferença entre os fenômenos phi e beta em java: Phi is not Beta.


"A área de Wernicke, que é única dos seres humanos, e algumas outras estruturas, agindo em conjunto para gerar o seu sentido de self, ok? Especialmente o hemisfério direito e sua autoimagem corporal, o senso de self ancorado no seu corpo, o senso de planejar para o futuro... Envolvendo parte do cingulado anterior [CCA - córtex cingulado anterior] e do lobo frontal, e o self sendo capaz de inspecionar as informações sensoriais que estão chegando... E isto é perigoso, teoricamente, pois quando falamos em inspecionar pode fazer você pensar na falácia do homúnculo, de que há um pequeno homenzinho observando, e não é isto o que estou querendo dizer. O que estou querendo dizer é que, em algum momento de nossa evolução, ao invés de apenas criar uma representação das sensações, nós começamos a criar aquilo que eu chamo de uma metarepresentação: uma representação da representação; diferente da mosca da fruta, o que nos permite manipular símbolos internamente, em nossas cabeças, e que está intimamente ligado a coisas como o significado. Isto se dá no lobo parietal inferior em conjunto com a área de Wernicke, que até certo ponto está relacionado ao senso de antecipação, que está lá no cingulado anterior. Com todas estas estruturas agindo em conjunto surge, então, esta propriedade dupla de qualia e self, que eu acredito ser única dos seres humanos."
V. S. Ramachandran fala sobre qualia, self e consciência.