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domingo, 3 de abril de 2011

Subjetividade da percepção

A percepção é um fenômeno subjetivo, pois cada ser humano é único. Daí os qualia. Cada percepção é única e privada. É única pois é impossível dois corpos dividirem o mesmo lugar no tempo e no espaço (pelo menos para o que tange a dimensão humana da percepção). E é privada uma vez que a linguagem é muito limitada para traduzir no todo a percepção subjetiva do indivíduo.
Para ilustrar melhor – de forma mais transparente – o conceito, podemos pensar em câmaras fotográficas digitais. Diferentes modelos e marcas de câmeras fotográficas digitais fazem fotos diferentes da mesma paisagem.
Os resultados são diferentes pois os componentes eletrônicos que captam a luz são diferentes e as instruções programadas que realizam um processamento posterior das imagens também são diferentes para cada marca e modelo. Da mesma forma, diferenças – ainda que pequenas – na retina de diferentes indivíduos, e diferenças que tenham ocorrido durante o desenvolvimento na forma de apreender o mundo, irão influir sobre a percepção consciente do mundo observado.
Nas câmeras podemos observar estas diferenças, geralmente de forma muito clara, observando as diferenças em fotografias tiradas da mesma cena. Por serem diferenças pictográficas comuns, a linguagem acaba se adaptando muito bem para que seja possível descrever o que é observado de forma apropriada.
A linguagem, sendo um fenômeno social, necessita que um grupo de indivíduos a confirme – por meio de significados, dando validade para o que é formulado em fonemas – o significante, para que possam surgir signos linguísticos que descrevam satisfatoriamente os respectivos referentes do mundo natural.
Diferentemente daquilo que pode ser observado pelo grupo, aquilo que é privado ao indivíduo, os qualia, não pode ser ratificado pelo grupo. Até o momento, as tentativas mais comuns de tal transposição para a linguagem se encontram na poesia, onde o poeta tenta traduzir o íntimo de sua percepção em linguagem poética. Contudo, sem que o qualia possa ser observado diretamente pelo grupo – ou pelo leitor – falta, à linguagem poética, a confirmação que é possível obter pelos referentes no mundo natural, externos ao indivíduo.
Quando os qualia se tornam integrantes da linguagem, tornam-se palavras especialmente difíceis conceitualizar e de traduzir entre línguas de povos diferentes. É o caso, por exemplo, da palavras ‘saudade’ na língua portuguesa, ‘weltanschauung’ na língua alemã, ‘banzo’ na língua iorubá e ‘ubuntu’ nas línguas bantas.
Da mesma forma que a linguagem em relação às percepções, a impressão, feita em uma impressora jato-de-tinta comum, das fotografias tiradas pelas diferentes máquinas de nosso exemplo, irá embotar o colorido e a diferença entre as fotos tiradas da mesma cena, homogenizando o resultado, diminuindo as diferenças. Há uma perda nos detalhes que são único ao modo que cada máquina apreende cada cena. Há uma perda no que é mais íntimo na forma como cada indivíduo experiencia um mesmo evento.

sábado, 16 de outubro de 2010

Retomando Self, Mente e Personalidade

Ultimamente tenho dedicado muito tempo a estudar a aprender apenas aquilo que é proposto no curso de Psicologia e tenho dedicado praticamente nenhum tempo a estudar aquilo que mais me instiga. Como resultado disso, sinto como se me escapassem as ideias que eu vinha desenvolvendo sobre os temas que mais gosto. Este tem sido um sacrifício necessário em razão da minha transferência de uma instituição de ensino para outra.
Mas vejo que é muito danoso não me organizar a ponto de dedicar pelo menos um tempo mínimo para minhas questões pessoais, como estudar aquilo que realmente me interessa. Assim, vou aproveitar esta tarde de sábado para retomar algumas ideias, tentar deixá-las mais claras por meio de argumentos e farei isto no blog pois há sempre a possibilidade de alguém passar por aqui, comentar e apontar algum detalhe importante que precisa ser revisto ou melhorado.

Começo por três dos meus pressupostos:
1. A "Mente", ou seja, aquilo que de forma geral as pessoas chamam de mente: é o estado total atual eletroquímico do sistema nervoso. A mente não é o conjunto de neurônios suas sinapses, mas o estado metabólico destes e sua comunicação em um dado momento.
2. Personalidade: é a população e (a) a configuração sináptica das redes neuronais, que codificam a informação retida e mais (b) o funcionamento hormonal de um dado organismo, sendo que uma armazena informações e outra define, em especial, o quanto uma resposta a um dado estímulo será forte ou fraca.
3. O "Self": se trata da mente mais a personalidade em um determinado contexto ambiental; contexto que, vale destacar, é único para cada observador, uma vez que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo.
Ainda em relação ao ambiente, ainda que possamos imaginar que uma mesma experiência possa ser observada por dois corpos distintos, ao mesmo tempo e de um mesmo ponto, em um ambiente virtual, no cotidiano isso não é algo normal.

Agora vou tecer alguns argumentos com base nos pressupostos acima...
O cérebro faz parte do organismo, que por sua vez faz parte do ambiente. Em se tratando de conjuntos, podemos pensar em um conjunto corpo, do qual o cérebro faz parte, e um conjunto ambiente, do qual o corpo e seus constituintes fazem parte.
Mas é preciso ter clareza de que o cérebro não é o corpo, assim como o corpo não é o ambiente. O cérebro, parte do sistema nervoso central, assim como sua extensão, o sistema nervoso periférico, é um objeto delimitado. Se pensarmos em sistema nervoso, este termina nas placas terminais, de modo que é possível distinguir onde termina o sistema nervoso e começa o restante do corpo. Se pensarmos no corpo, este é delimitado em relação ao restante do ambiente, pela pele e pelas mucosas. Desta forma, enquanto que o cérebro e o corpo são partes constituintes de um conjunto, não é correto confundir as partes com o todo. O cérebro não é o ambiente.

{Sistema Nervoso} ⊇ {S.N.C., S.N.P.}
{Sistema Nervoso} ⊊ {Corpo}
{Corpo} ⊊ {Ambiente}

O cérebro, assim como o corpo, pode ser causa para alguns comportamentos. Por exemplo, uma pessoa sente fome, independentemente de lhe ser apresentado um estímulo para tanto. Dizer que a fome é "uma disposição para agir", uma "alta probabilidade de ingerir alimentos", não é o suficiente. A fome sem dúvida aumenta a probabilidade de um organismo, em uma determinada situação, ingerir alimentos. Obviamente, isso só é verdade se houverem alimentos disponíveis para serem ingeridos, caso contrário a probabilidade não irá aumentar e ainda assim, lá estará "a fome".
Mais que isso, para que a probabilidade de ingerir alimento aumente, além da disponibilidade de alimentos, também é necessário que o organismo, supondo um organismo consciente, esteja dotado de outras disposições não-concorrentes para ingerir o alimento.
Um indivíduo que nasça com os genes da doença de Huntington e que venha a desenvolver a doença, irá exibir determinados comportamentos, independente de estímulos ambientais. Desde tremores, até estados depressivos, todos terão origem no sistema nervoso do indivíduo, que é como é por conta de sua genética. Dizer que a doença de Huntington é uma disposição para tremer, apresentar sintomas depressivos, tiques, distúrbios na linguagem, etc, é falar de apenas um aspecto da doença, uma vez que há de fato 50% de chance do indivíduo a desenvolver. Porém é fato que a doença e um sistema nervoso são fatores necessários, condicionais, para que os sinais e sintomas apareçam.
Mas falo da doença de Huntington apenas para apontar um exemplo claro. Um cérebro é um fator condicional para que muitas características humanas apareçam, características que não podem ser encontradas em sua totalidade nos animais, e nem puderam ser emuladas em sua totalidade nos computadores.

Podem estas características serem descritas como comportamento? Não tenho dúvida que sim, inclusive aquelas mais peculiares aos indivíduos. Mas são comportamentos que acontecem em um substrato físico, localizado; de forma que o comportamento é um fenômeno, um efeito, uma atividade de um objeto. O pensamento não está flutuando em um balãozinho imaterial, de alguma energia etérea ou mística qualquer, ao redor da minha cabeça. Nenhum comportamento ocorre em algo imaterial. O fluxo de pensamento, que é contínuo, mesmo quando estamos em repouso e de olhos fechados, emerge da atividade metabólica de conjuntos de células. Este fluxo não pode ser afirmado como sendo completamente aleatório, e nem como sendo completamente determinado simplesmente pela atividade metabólica celular, pois estímulos internos - daquilo que sentimos de nossas vísceras ou da posição de nosso corpo - e estímulos externos estão constantemente chegando ao cérebro, ainda que na periferia de nossa atenção, e ainda há aquilo que conhecemos.

Só pensamos naquilo que conhecemos, só nos recordamos daquilo que experienciamos e que temos memória. Por exemplo, até alguns segundos atrás eu não poderia pensar e nem escrever sobre o município de Kelmè na Lituânia, pois nunca me foi dado a conhecer sua existência. Como pude então utilizá-lo aqui, neste exemplo? Acessei na Wikipédia o artigo Lituânia, pois foi o primeiro nome que me ocorreu enquanto pensava em um "país obscuro (pra mim) de nome engraçado", olhei como ele era dividido administrativamente, pois sei que os países assim são divididos, e procurei qualquer unidade administrativa que fosse interiorana. Até então, era possível pensar em um país do qual tenho pouco conhecimento, que provavelmente possui divisões administrativas como a maioria dos demais países, sendo que dentre estas unidades, algumas delas devem ter as características interioranas e outras devem ser capitais. Após esta busca sou capaz de pensar algo que até então eu absolutamente não era capaz: a Lituânia possui um município chamado Kelmè.
Se nos próximos dias eu estiver ocioso, de olhos fechados, e me ocorrer pensar sobre este município, a causa para tanto estará na elaboração deste exemplo, além é claro do fato de eu ter acesso a internet, de ter me ocorrido o nome Lituânia quando pensava em elaborar este exemplo, etc. Aonde quero chegar com isso? Na afirmação de que, a nível da experiência humana, o nada a nada dá origem. Tudo se origina de alguma coisa, ou sistema, que o preceda.Brain-ComputerO cérebro não é causa última para pensamento algum, mas é um elemento condicional para que o pensamento possa existir (pelo menos até o dia que inventarem um computador dotado de consciência ou alguma coisa semelhante). Em certas circunstâncias, contudo, um cérebro, pode dar origem a pensamentos, sem a presença de um estímulo externo. Por exemplo, para pensar em Kelmè não preciso que me ponham um mapa na frente dos meus olhos. É possível que se eu vir a comer um chocolate Laka nos próximos dias eu me lembre deste município. Mas neste caso estou falando de pareamento, pois estava comendo um chocolate enquanto bolava o aquele raciocínio, e o chocolate seria um estímulo externo eliciando o comportamento de lembrar-me de Kelmè.
Porém acredito na hipótese de que, se por algum motivo eu apresentasse alguma doença rara neurológica que me privasse de todo e qualquer input sensorial, mas mantivesse meu cérebro preservado, ainda assim eu pensaria. Pensaria em inúmeras coisas, provavelmente pensaria no horror da situação, de estar privado de qualquer forma de contato com o mundo exterior. Isso seria um comportamento reforçado pela remoção dos estímulos externos, ou seja, pode-se dizer que é de causa externa. Mas eventualmente, acredito, me voltaria para o mundo interno, tudo aquilo que está registrado nas minhas memórias. O que eu viesse a pensar, embora se originasse de experiências externas, seria evocado ao sabor do que estivesse acontecendo em minha vivência interna, privada, cerebral.

Esse comportamento só seria possível pois já experienciei o mundo. O que leva a outra hipótese que acredito, que é a de que o cérebro não surge dotado de experiências. Se imaginarmos um organismo humano que tenha se desenvolvido, desde a concepção, sem nenhum input sensorial, é viável afirmar que tal organismo, ainda que tenha um tecido cerebral preservado quando no momento do nascimento e pelo período que viver, não é consciente, não possui "vida mental". Acredito nessa hipótese por saber que organismos humanos privados do contato com a linguagem apresentam atrofia em áreas do cérebro relacionadas à linguagem. Provavelmente um organismo nas condições descritas não seria capaz de sobreviver muito tempo.

Embora o cérebro não possa ser causa última (origem) para pensamento algum, o cérebro pode ser causa para outros comportamentos, como tremores e tiques. Dizer que se é capaz de controlar certos tremores ou tiques não elimina sua origem no cérebro. Por exemplo, indivíduos com a síndrome de Tourette são capazes de controlar os tiques durante alguns momentos, até que cedem à necessidade de emitir aqueles dados comportamentos. Mas estes tiques não necessitam de estímulos externos para se fazer presentes, ainda que possam ser agravados ou amenizados por estímulos externos. Até mesmo o comportamento de tentar resistir aos tiques pode muito bem ser uma resposta ao tique, que é um estímulo interno.Voltando ao caso de uma experiência idêntica simulada artificialmente... Não é possível que dois observadores conscientes observem o mesmo fenômeno do mesmo ponto ao mesmo tempo na natureza. Seria mais ou menos possível se fosse ligado o output de um par de olhos a dois cérebros, ou então numa circunstância em que duas pessoas estivessem observando uma mesma cena, cuja qual ficasse chamando a atenção para um determinado foco, de um mesmo ponto em uma realidade virtual. Mas ainda assim, considerando que estes dois cérebros estariam recebendo outros inputs de seus respectivos corpos, a experiência total não seria a mesma. Caso contrário, assistir um filme em um cinema seria quase isso. Talvez o mais próximo possível a isso seria um par de gêmeos idênticos que, do momento do nascimento, fossem conectados a uma realidade virtual na qual são passivos, observam os eventos a partir do mesmo ponto no espaço, e apenas observam o desenrolar destes eventos, sem interagir com nada. Supondo que, de alguma forma, todo input sensorial destes gêmeos houvesse sido idêntico durante toda suas existências - mesmo intraútero, a nível de extrapolação - estaríamos falando possivelmente de duas consciências idênticas. Talvez, caso lhes fosse dado o controle sobre a ação em algum momento, ambos agiriam da mesma forma. Porém, se eles viessem a ser colocados em pontos diferentes da simulação, suas consciências se distinguiriam. Ou, se eles fossem simplesmente desconectados da simulação ao atingir a idade adulta, se deparariam com um Doppelgänger. O que seria verdade só até o momento da desconexão. A partir de então suas experiências se diversificariam e seriam apenas pessoas muito parecidas, mas cujas consciências iriam ser gradativamente preenchidas por conteúdos diversos.
A nível experimental, se eu considerar que meu computador de alguma forma uma extensão do meu cérebro, da minha memória, se eu clonar meu disco-rígido e colocar o disco com a cópia em outro computador idêntico, com o mesmo hardware, terei dois computadores exatamente iguais, com o mesmo conteúdo. Porém, se eu começa a utilizar eles alternadamente (sem uma configuração RAID 1), seus conteúdos irão se diversificar.

Neste momento, enquanto nunca foi feita clonagem ou espelhamento deste disco-rígido, não existe outro computador na face da Terra com o mesmo conteúdo do disco-rígido do meu computador. E o fato de meu computador ser único o faz funcionar de forma única. Apesar do sistema operacional ser um Linux, o mesmo de tantos outros computadores, o uso continuado fez com que eu fosse alterando diversos elementos funcionais, como a disposição e o conteúdo dos menus, a forma como eles surgem e exibem seus conteúdos, a forma como os dados são armazenados e evocados, etc. De modo geral, ao clicar num ícone de um arquivo, o arquivo - eventualmente - será exibido. Mas o que acontece de forma discreta ao usuário enquanto este arquivo é utilizado pelo usuário é particular nesta máquina, configurada para equilibrar o desempenho e a economia do SSD com alguma segurança para a integridade de dados. Pode ser que exista outra máquina que maneje os arquivos da mesma forma, mas seriam arquivos diferentes e outros aspectos funcionais seriam diferentes.
Se algo tão simples quanto um computador adquire diversidade por meio da intervenção de agentes conscientes, o que dizer do substrato dos agentes conscientes? As pessoas possuem gostos diferentes, pois ao longo da vida fizeram diferentes associações. A experiência de cada indivíduo é única e a linguagem é apenas uma janela, estreita e não muito transparente, para o que essa experiência realmente é.

Não sei se consegui ser claro até aqui. Mas pelo menos consegui me concentrar por algumas horas em um debate sobre assuntos que realmente me instigam a curiosidade e despertam minha imaginação. :D

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Conhecimento e Consciência


Como a experiência consciente se relaciona com a memória da experiência consciente? Lembrar-se da experiência de algo é, por si, uma experiência consciente? E como a experiência consciente se relaciona com o conhecimento? Conhecer amplia nossa consciência?
Por exemplo, vamos imaginar que um entrevistador estivesse conversando com Mary, a Supercientista que nunca viu a cor vermelha. Para os fins deste exemplo, Mary e o entrevistador são organismos completamente preto e branco e ambos são capazes de enxergar a cor vermelha, porém Mary passou sua vida toda isolada em um quarto onde tudo era preto e branco. O entrevistador pergunta para Mary, que conhece absolutamente tudo sobre a fisiologia da visão e sobre as propriedades físicas das cores, como é experienciar a cor vermelha. Mary não sabe.
O entrevistador fica perplexo, pois para ele, a mera menção da cor trás a lembrança e com a lembrança a experiência.
Neste momento o entrevistador põe a mão no bolso e puxa um lenço... de uma determinada cor. Mary se vê diante de uma experiência completamente nova. Provavelmente, sabendo tudo sobre os aspectos físicos das cores, ela classificaria tal experiência como a visão de uma nova cor. Saberia ela de que cor era o lenço? Como ela poderia saber sem nunca ter experienciado as cores?
Mary então pergunta para o entrevistador, o que é que está havendo. O que ele têm para lhe dizer sobre aquele lenço. Ao que o entrevistador responde, com um pouco de embaraço, que aquele lenço que ele puxou por descuido de seu bolso estragando toda a experiência, é um lenço vermelho.
Mary pega o lenço com as mãos, toca, observa, e se regojiza por dentro, tendo finalmente alcançado a experiência crua e subjetiva de observar a cor vermelha.
O entrevistador pede para que Mary nada fale sobre o ocorrido, pois ele perderia o emprego. Mary concorda com ele, pensando na possibilidade de enganar os demais cientistas que estudaram seu caso enquanto ela permanecia presa no quarto por todos estes anos de sua vida.
Alguns meses se passaram e o experimento de Mary chega ao seu desfecho final. Um dos cientistas entra no quarto onde Mary está e lhe pergunta se ela sabe como é experienciar a cor vermelha. Mary responde que não com o ar mais frustrado que consegue representar, embora esteja lembrando-se do lenço do entrevistador e deleitando-se com sua travessura.
O cientista então pergunta se ela está preparada para conhecer a cor vermelha, ao que Mary responde que sim, fingindo uma certa insegurança desta vez. Ela é conduzida até uma sala na qual há um objeto retangular coberto por um pano branco. O pano é levantado, desvelando um quadro completamente vermelho diante de seus olhos...
Desta vez Mary não precisa fingir nada, pois está realmente atônita. A experiência lhe é completamente nova, pois nunca ela havia visto nada como aquilo que agora ela vê. O cientista, percebendo o franco assombro de Mary, pergunta o que há de errado. Mary tenta encontrar palavras, mas nada consegue dizer.
Então uma porta se abre e quem entra na sala é o entrevistador. Vestido como o cientista que acompanha Mary, ele se apresenta como sendo também um cientista.
O assombro de Mary começa a dar espaço para um sentimento de indignação que parecia prever o que viria asseguir.
O cientista puxa o lenço do bolso e com um sorriso diz: - Te apresento a cor verde.
Mary, que agora conhecia o vermelho e o verde, lembrava-se dos últimos meses nos quais passava horas a olhar fotos monocromáticas de rosas, imaginando suas pétalas em matizes de verde.
Eventualmente Mary consegue perdoar os cientistas maldosos, pois ela mesma era uma cientista e estava interessada nos desdobramentos do experimento do qual participava.
Alguns dos quais remetem às perguntas com as quais iniciei este post. Assim como o cientista que se passava por entrevistador, a menção da cor vermelha remetia Mary a uma dada experiência consciente que, embora fosse a realidade para Mary, não era propriamente a realidade. Mary acreditava deter consigo a experiência consciente da cor vermelha quando na verdade tudo o que ela tinha era a experiência da cor verde. Era consciente esta experiência? Se sim, seria mais consciente se ela houvesse sido corretamente informada sobre a cor que observava?
Será que o conhecimento nos torna mais conscientes sobre o mundo que nos cerca?

terça-feira, 20 de julho de 2010

Existe racionalidade?

Uma das questões propostas pela Filosofia da Psicologia é: Serão os seres humanos entidades racionais?

Proponho duas respostas curtas, uma metafórica e outra direta:
  • O único ser realmente racional sou Eu; por esta afirmação provo que eu, também, sou irracional.

  • Humanos são seres emocionais capazes de produzir sistemas racionais e de fazer uso limitado destes sistemas.
A racionalidade não ocorre naturalmente nos seres humanos e não é, por si só, medida de inteligência em uma sociedade humana. Sendo humano e convivendo com outros humanos em diferentes contextos sociais, me parece evidente que o ser humano é uma entidade regida por emoções e que faz uso de sistemas racionais aprendidos para poder integrar-se ao meio e, pelo meio, suprir suas necessidades reais e percebidas.
Além de aprender o ser humano também é capaz de criticar os sistemas racionais que lhe são apresentados. Esta crítica não é homogênea entre os seres humanos, diferindo em qualidade e extensão. Alguns seres humanos desenvolvem críticas suficientemente boas para originar novos sistemas racionais que perduram e são estudados. Outros desenvolvem críticas válidas apenas para si e delas não conseguem se desfazer, podendo inclusive romper com a realidade social e qualquer senso de racionalidade.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Sentido da Vida

"Life has no meaning; only machine intelligence is truly significant on a cosmic scale."
The Grim Adventures of Billy & Mandy

Esta é uma das minhas citações favoritas embora seja, a princípio, uma afirmação que nega a si mesma. Resolvi criar um mapa de argumento:
O Sentido da Vida
Desta forma, a menos que seja possível a emergência da consciência e da inteligência em entidades não-biológicas sem a intervenção de uma entidade biológica consciente e inteligente - ou seja, de forma natural - a vida se justifica por sua necessidade para o projeto e construção da primeira geração de máquinas inteligentes. Ainda assim, vale dizer que esta razão não se aplica caso adotemos o mecanicismo, segundo o qual entidades biológicas são apenas máquinas extremamente complexas.

segunda-feira, 23 de março de 2009

On being unique

I like the way Metzinger takes "the problem" of consciousness... But I still think that, like many other authors, he is also making it harder than it needs to be. I'm pretty sure that "mind" is something material. Mind is the overall arrangement of neurons' synapses and their activity. Mind is material because neurons and synapses are material things; also, the activity of neurons and synapses are electrochemical reactions. Mind is constantly changing as we are constantly using our brain in varied forms for different problems and, also, because we are able to learn and to form new memories through out the entire life.
Because of all the above, is that I also believe in qualia. Since our synaptic connections must be somewhat organized (too) by our environmental experiences and since two people - i.e. twins - are not able to experience exactly the same set of events during their lives, it's pretty obvious that their minds are different from each other. They will function differently and it will make them notice the world in different ways. Not necessarily aberrant differently, but at least differently enough for them to make different associations while - let's say - experiencing "red".
The totality of these associations are not possible nor practical to be transmitted by means of language, because: 1. they are so many; 2. some are learned in a very subtle way; 3. some are associations that are actually hard to describe in a broader way (i.e. "I see things turning yellow when I am near fainting." or "I see things in red when I am on extreme physical pain." - or even "This music feels like violet to me..." and you don't need to be a textbook synesthete to experience this...). It is a little like poetry, you hardly will know exactly what the author was referring to with his poems, the magic of good poetry is to gather the right feelings within the reader.
The totality of these associations are not likely to be presented by any media that we know, because whatever way you try to encode your experience you'll be passing a message with pieces of information that will not be interpreted by the others the same way that you do.
As each "mind" - in its physical form as I see it - is inherently unique... So are the qualia.
There is nothing special or supernatural about it: fingerprints are - almost - unique and so is the DNA.
But there is something catchy about this thinking - the thinking that our communication is hardly perfect, specially when it comes to those things that come with first person accounts...
I believe in a form of materialistic "afterlife" where our existence on Earth continues by means of memories on the minds of those who know us. Think about it: when you are talking face to face to a person, the image that your friend sees is nothing more than the image that his brain provides to him. If he had some brain damage that could affect his color perception, you would be seen in a different way. When you are not present and your friend reminds - lets say - of your smile, the image that he "sees" is not much different from the one that he sees when he is with you. To be thought of is not much different than being present.
And it is not limited to the experience of images - or sounds, smells, or any other first hand account... You may form a "memory" about someone you never saw.
I think that it is a great way of afterliving because it does affect the world long after you are gone. Let's say that your grandson talks to his son about you and say that this conversation was of great help for his son to deal with some issue that was afflicting him. We can say that the memories of your grandson about you affected the world. Much better and much more real then any spirit or soul stuff, huh?
What is catchy about it is that the memories about you that your grandson will carry with him are his interpretations of the person that he knew. So are the memories of all your friends about you. As the same event will be described in different forms by different witnesses, the "phenomenon" of a parenthood or a friendship in one's life will be much more prone to different interpretations. It is important to have this in mind and to make some of those little efforts that are so crucial in letting people know our feelings about them. Efforts like saying:"I love you" or giving a hug. The things that we feel, sometimes with an immense intensity, like love, may be obvious for us, but not so obvious for those around us - they have nothing but our actions and our words to be aware of our feelings.
There are small neural networks in my brain representing each one of my friends and each person that I knew - personally or not - through my life. There may be even different representations for the same person! Think about those very beloved friends that for some reason spent a long time away from us. Some of them come back with a different hair cut, some new tattoos and, more striking, different on the inside, deeply changed by the experiences that they had while away.
The lesson that I take from it all is that even been a materialistic - non-dualistic - person, I have strong reasons to be good and to try to do some good whenever I am around someone else - no matter who. Those moments are the only certainty that I have of continuity of life. This continuity will not last forever. Someday we all - except a few notable individuals - will be forgotten.
I don't know if it is bad or good. There are some philosophical interpretations that credit this oblivion as the ultimate step in the individual existence. Right now I don't understand it entirely. But it is certainly something to think about.

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Ps.: I must thank my friend Marina for greatly enhance this text. (:

sábado, 7 de março de 2009

Consciência Quântica

Várias vezes me deparei com referências feitas ao famoso artigo no qual Roger Penrose juntamente com Stuart Hameroff exploram o mistério da consciência com uma abordagem baseada na física quântica. Finalmente resolvi procurar por tal artigo, que encontrei exposto na página do próprio Hameroff, e dei uma olhada...

Redução Orquestrada Objetiva da Coerência Quântica nos Microtubúlos Cerebrais: O Modelo "OR Orq" para Consciência
Stuart Hameroff e Roger Penrose

Resumo

As qualidades da consciência que são difíceis de compreender nos termos da neurociência convencional têm evocado a aplicação da teoria quântica, que descreve o comportamento fundamental da matéria e energia. Neste artigo nós propomos que aspectos da teoria quântica (p.e. coerência quântica) e um fenômeno físico recentemente proposto de "auto-colapso" de função de onda quântica (redução objetiva: OR [Objective Reduction] -Penrose, 1994) são essenciais para a consciência, e ocorrem nos microtúbulos do citoesqueleto e em outras estruturas dentro de cada neurônio do cérebro. As características particulares dos microtúbulos que são apropriadas para os efeitos quânticos incluem o arranjo de sua estrutura similar à do cristal, núcleo interior oco, organização da função celular e capacidade de processamento de informação. Nós prevemos que estados conformativos das subunidades (tubulinas) dos microtúbulos são agrupados para eventos quânticos internos, e interagem cooperativamente (computam) com outras tubulinas. Vamos além e pressupomos que estados conformativos da superposição coerente macroscópica de tubulinas quânticamente agrupadas ocorrem por um significante volume cerebral e provê a ligação essencial à consciência. Nós calculamos a emergência da coerência quântica dos microtúbulos com processamento pré-consciente que cresce (por até 500 milissegundos) até que a diferença massa-energia entre os estados separados das tubulinas alcance um nível relacionado à gravidade quântica. De acordo com os argumentos para OR expostos em Penrose (1994), cada estado superposto possui sua própria geometria espaço-tempo. Quando o grau de diferença de massa-energia coerente leva à separação suficiente da geometria espaço-tempo, o sistema deve escolher e decair (reduzir, colapsar) para um estado de universo único. Desta forma, uma superposição transiente de geometrias espaço-tempo levemente diferentes persiste até que uma redução quântica clássica abrupta ocorra. Diferentemente da "redução subjetiva" (SR [de Subjective Reduction], ou R) aleatória da teoria quântica padrão causada pela observação ou por confusão ambiental [enviromnental entanglement], o OR que propomos nos microtúbulos é um auto-colapso e resulta em padrões particulares de estados conformativos de microtúbulos-tubulina que regular as atividades neuronais incluindo as funções sinápticas. Possibilidades e probabilidades para estados pós-redução da tubulina são influenciadas por fatores que incluem anexos de proteínas associadas aos microtúbulos (MAPs) agindo como "nodos" que afinam e "orquestram" as oscilações quânticas. Nós, desta forma, afirmamos que o processo da auto-regulação OR nos microtúbulos "orquestram redução objetiva" ("B > Orq RO" [ou "B > Orch OR" no original]), e calculam uma estimativa para o número de tubulinas (e neurônios) cuja coerência para períodos de tempo relevantes (p.e. 500 milissegundos) irá eliciar a orquestração da redução objetiva [Orch OR no original]. Ao prover a conexão entre 1) a transação entre pré-consciente para consciente, 2) noções fundamentais de espaço-tempo, 3) não-computabilidade e 4) aprisionamento [binding] de várias (na escala temporal e espacial) reduções em eventos instantâneos ("consciente agora"), nós acreditamos que Orq OR nos microtúbulos cerebrais constituem o mais específico e plausível modelo para a consciência já proposto.

E olha que este é só o resumo do artigo... Até aqui, nem mesmo a tradução foi fácil, isso que já traduzi pequenos manuais que química e outros artigos em áreas bem específicas do conhecimento. A impressão inicial ao ler o resumo, depois de ter lido centenas de artigos sobre a questão mente-cérebro, é que se trata de um tremendo MF (os iniciados que me entendam...).
Hameroff e Penrose partem das explicações neurofisiológicas atuais para a consciência, que sugerem que esta é uma manifestação de padrões de disparos de grupos neuronais envolvidos em redes específicas, disparos de 40 à 80 Hz coerentes e/ou circuitos de busca da atenção. Mas concordam que mesmo as correlações precisas de padrões de disparos neuronais com as atividades cognitivas falham em resolver - o que segundo eles são - as diferenças mais complicadas entre cérebro e mente, incluindo o "problema difícil" da natureza de nossa experiência interior.
Então eles se utilizam dos microtúbulos do citoesqueleto dos neurônios para abordar alguns das questões propostas por tal "problema difícil" (de Chalmers, publicado no mesmo volume). Os próprios autores sintetizam sua abordagem na tabela da introdução, 1) relacionando o sentimento de um self unitário à coerência quântica não-local - o estado quântico macroscópico indivisível (acho que é o que impede que nós nos desintegremos a troco de nada) à teoria proposta por Penrose do auto-colapso instantâneo de estados superposicionados (que eu não sei, nem pesquisei para saber, se já foi comprovada empiricamente ou se é apenas uma hipótese da física baseada em cálculos); 2) a transição entre os processos pré-conscientes/sub-conscientes para processos conscientes com o modo de computação quântica... um colapso de função de onda intrinsecamente consciente (?); 2) lógica não-computável, não-algorítmica à teoria proposta por Penrose (Orch OR), que seria não-computável; o livre-arbítrio aparentemente não-determinístico à tal função de onda consciente não-computável porém não-aleatória; 3) a natureza essencial da experiência humana ao auto-colapso de função de onda da superposição incompatível de espaços-tempos separados (O.o), transições pré-conscientesconscientes (Pre-consciousconscious no original) e colapsos "agora" (Orch OR) efetivamente instantâneos... E chamam esta tabela de "Tabela 1 - Aspectos da consciência difíceis de explicar pela neurociência convencional e possíveis soluções quânticas."
Ah, sim... Claro. Parece que pegaram aquilo que era difícil e tornaram mais difícil ainda, ainda que sugerindo possíveis soluções.
Eu vejo claros problemas com tais pressupostos: 1) quanto ao sentimento de self unitário, será que tem fundamento querer explicar a continuidade da experiência humana e o sentimento de que somos um ser com um todo completo, imputando tais sentimentos ao que mantém nossos átomos unidos? Parece uma resposta tão boa quanto dizer que nós sentimos estas coisas pois estamos num envólucro de pele e que não notamos claramente este envólucro se renovar com o passar do tempo. 2) este me parece ser o mais problemático: me parece que eles querem resolver a discussão sobre a consciência, imputando a qualidade de ser consciente aos microtúbulos, pequenas estruturas cilíndricas ocas que fazem parte do citoesqueleto das células. Está certo que o mundo está cheio de cabeças-ocas - talvez incluindo eu - mas se já é difícil abordar a consciência em um cabeça-oca, quem dirá numa estrutura muito mais simples, constituinte de tais cabeças-ocas. Além disso, tais estruturas estão presentes nas outras células do corpo, que aparentemente não estão envolvidas na consciência. 3) a não-computabilidade, o livre-arbítrio e a natureza essencial da experiência humana são conceitos debatíveis na neurociência tanto por filósofos e psicólogos quanto por neurologistas. É difícil sustentar uma argumentação lógica que defenda o livre-arbítrio; e processos não-computáveis, mas que também não são aleatórios, são processos probabilísticos, ou alguma outra coisa que me foge até à imaginação? - sério, eu gostaria muito de saber, expandiria demais meus horizontes; não vejo grandes contradições entre a natureza essencial da experiência humana com abordagens mais tradicionais do problema da consciência ou problema mente e cérebro, desde que se abandone idéias de livre-arbítrio e de coisas que não são nem aleatórias e nem computáveis.
Conscious Tubs
Penso que este artigo vai contra a "Lei de Occam" ou "Lei da Parcimônia", segundo a qual a explicação mais simples para um problema tem mais possibilidade de ser mais próxima da verdade, e a explicação mais complexa, que dependa de mais variáveis para funcionar, seja a mais distante da verdade.
O problema aqui não é a complexidade da física quântica, mas que, para funcionar, teríamos que aceitar o pressuposto de que, para sermos conscientes, pequenos filamentos constituintes de nossas células também o sejam. Se estes filamentos são dotados de consciência, e deles emergem nossa consciência, então nos deparamos com o problema do "Teatro de Descartes", e inevitavelmente temos de perguntar de onde vem a consciência de tais filamentos. A resposta que o artigo dá a esta pergunta, pelo o que eu entendi, é que tal microconsciência vem de um fenômeno da física quântica teórica. Sendo assim, seria uma propriedade da natureza e, por qual motivo, então, todo o resto das coisas que possuem microfilamentos não é consciente?
Bom, neste sentido eu dei uma pesquisada a mais, e encontrei uma proposta na página do Tony Smith, segundo a qual as tubulinas constituintes dos microtúbulos podem representar informação e agem como autômatos celulares no processamento de informação, sendo que 10% do total de tubulinas presentes no cérebro estariam envolvidas com a consciência, para permitir que todos os efeitos da física quântica teórica supostamente necessários para a consciência ocorram da forma que precisam ocorrer.
Partindo disso, seria necessário um cérebro de tamanho mínimo e complexidade mínima para que a consciência ocorra. *Aqui é necessário e importante lembrar que tais pressupostos redefinem todas as definições de conceitos relativos à consciência até então elaboradas, como é possível conferir pela tabela mencionada anteriormente...* Seguindo... Neste modelo, animais como gatos, macacos e chimpanzés são capazes de ter consciência, enquanto coelhos, gambás e outros animais com um cérebro mais leve do que 14 gramas ou menor do que 1% do cérebro humano, são inconscientes pois não podem sustentar o "Pensamento Consciente Abstrato de Larga Escala"...
Recorrendo à segurança do comportamentalismo, existe alguma diferença aparente tão grande no comportamento dos coelhos e dos gatos que justifique imputar consciência similar à humana em um e não no outro? Já tive coelhos e já tive gatos, e pelo o que me lembro de minhas observações, ainda que de leigo na época, ainda que houvessem várias diferenças, não haviam diferenças tão gritantes assim. Não via um zumbi em no coelho que morava comigo e dormia aos pés da minha cama...
Como era de se esperar, uma hipótese extremamente complexa - e um tanto confusa, penso eu - como a da consciência quântica, leva à conclusões confusas...
O artigo de Penrose-Hameroff conclui reafirmando a reformulação dos conceitos filosóficos e psicológicos da consciência e afirmando que encontrou as respostas para o problema difícil da consciência imputando - de certa forma - consciência aos microtúbulos, pois se estes são capazes se processamento de informação - possuem papel na organização celular, para falar de forma mais prática - e são autocontidos, logo devem ser conscientes... Ou algo assim. Deu até vontade de rever o vídeo onde o Searle usa de hipóteses quânticas como uma possibilidade para o livre-arbítrio... (:

Ps.: De modo algum o presente post pretende menosprezar os autores citados, que inclusive admitem que suas idéias atraíram muito interesse e, ao mesmo tempo, críticas severas. Os meus comentários com certeza não são novidade e certamente comentários tanto positivos quanto negativos foram feitos por pessoas com mais conhecimento que eu. Acima de tudo, os autores não ignoram as críticas e é assim que se faz a melhor ciência.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Ser Ninguém - Thomas Metzinger

"Este livro é sobre consciência, o self fenomenológico e a perspectiva de primeira pessoa. Sua principal tese é de que não existem tais coisas como selves no mundo: ninguém nunca foi ou teve um self. Tudo o que sempre existiu foram modelos de self conscientes que não podem ser reconhecidos como modelos. O self fenomenológico não é uma coisa, mas um processo -- e a experiência subjetiva de ser alguém emerge se um sistema consciência de processamento de informação opera sob um modelo de self transparente. Você é tal sistema neste exato momento, enquanto lê estas sentenças. Por não ser capaz de reconhecer o seu modelo de self como um modelo, ele é transparente: você olha diretamente através dele. Você não o vê, mas vê com ele. Em outras palavras mais metafóricas, a afirmação central deste livro é que enquanto você lê estas linhas você constantemente confunde a si com o conteúdo do modelo de self atualmente ativado no seu cérebro." (TMZ, 2004, p.1)

Assim começa o livro Being No One, do Thomas Metzinger, um filósofo contemporâneo alemão que propõe a não-existência de um self individual enquanto coisa, apenas enquanto um processo. De certa forma ele está em concordância do Daniel Dennett, na negação do self e dos qualia e na idéia de um self emergente,
Perguntas: Se há um 'si' para ser confundido, o que implica um alguém, quem é este alguém? Quem exerga através do modelo transparente? Pode um processo dar origem à uma coisa? Fenomenologia -- a interação de coisas pode dar origem a uma nova coisa com qualidades que não estavam presentes nas coisas que a originaram... Adoro livros que, logo de cara, no primeiro parágrafo, conseguem nos levar a tantas perguntas.
Acho que estas perguntas são relevantes, uma vez que as própria forma como esta breve introdução foi escrita - e traduzida por mim do original em inglês - nos leva à elas.
"A consciência, o self fenomenológico e a perspectiva de primeira pessoa são fenômenos representacionais fascinantes que possuem uma longa história evolucionária, uma história que eventualmente levou à formação de sociedades complexas e da assimilação cultural de nossa própria experiência consciente. Para muitos pesquisadores em neurociência cognitiva está claro, agora, que a perspectiva de primeira pessoa deve ter sido um elo decisivo entre a evolução biológica e a evolução cultural. No âmbito filosófico, por outro lado, é comum dizer coisas como "A perspectiva de primeira-pessoa não pode ser reduzida à perspectiva de terceira-pessoa!" ou elaborar argumentos tecnicamente complexos demonstrando que alguns fatos irredutíveis de primeira-pessoa existem. Mas ninguém nunca perguntou o que é a perspectiva de primeira-pessoa para começar. É isto que me proponho a fazer. Oferecer uma análise representacionalista e funcionalista do que é a perspectiva de primeira-pessoa experimentada conscientemente." (TMZ, 2004, p. 1)

Ainda em relação ao âmbito filosofico, Metzinger escreve: "O objetivo epistêmico deste livro consiste em descobrir se a experiência consciente, em particular a experiência de ser alguém, resultante da emergência de um self fenomenológico, pode ser convincentemente analisado em níveis subpessoais de descrião. Um segundo objetivo relacionado consiste em descobrir se, e como, nossas intuições cartesianas - aquelas intuições profundamente entranhadas que nos dizem que a acima mencionada experiência de ser um sujeito e um indivíduo racional não pode jamais ser naturalizada ou explicada de forma reducionista - estão, em última instância, enraizadas em uma estrutura representacional mais profunda de nossas mentes conscientes. Intuições devem ser abordadas com seriedade." (TMZ, 2004, p. 2)

Magritte - The Son of Man
O que Metzinger aponta, de forma clara a seguir, é que as afirmações advindas das novas descobertas nas áreas científicas, em especial nas neurociências, não precisam, necessariamente, levar a conclusões que estejam de acordo com as nossas intuições enraizadas. Na psicologia, podemos nomear tal fenômeno, quando são apresentadas à uma pessoa evidências contundentes de uma realidade que vai de encontro às suas mais fortes crenças, como dissonância cognitiva. Corretamente, Metzinger afirma que [estas novas descobertas] "irão nos apresentar um novo tipo de autoconhecimento que muitos de nós simplesmente não poderá acreditar." (TMZ, 2004, p. 2)
Metzinger fala do valor do pensamento indutivo e do insight, quando calcados em dados sólidos e bem estudados, mas aponta para os riscos de grandes erros conceituais que podem advir da falta de sistematização e prova na utilização das conclusões obtidas desta forma. Um exemplo que me ocorre, talvez um dos exemplos máximos de ambas as faces da abordagem indutiva, é a obra de Sigmund Freud. Enquanto tal obra é resultado de uma mente brilhante e de grande conhecimento na ciência de sua época, e representa um enorme avanço no estudo da saúde mental, tão grande que tem impacto sobre as mais diversas áreas do conhecimento humano, ela também é responsável por um atraso e uma resistência na aceitação de evidências posteriores que não confirmam seus pressupostos.
Por outro lado, aponta Metzinger, a "escolástica analítica", que constitui uma das bases mais sólidas da filosofia da mente contemporânea, também possui seus riscos, nos momentos em que ignora a experiêcia fenomenológica de primeira-pessoa e a análise empírica de terceira-pessoa na elaboração de ferramentas conceituais. (TMZ, 2004, p. 3)
"Se a consciência e a subjetividade fossem apenas analisanda [aspectos conceituais], então poderíamos resolver todos os problemas filosóficos relacionados à consciência, o self fenomenológico e a perspectiva de terceira-pessoa, apenas modificando a maneira como falamos. Teríamos de fazr lógica modal e semântica formal, e não neurociência cognitiva. A filosofia seria uma disciplina fundamentalista que poderia decidir sobre a verdade e a falsidade de afirmações empíricas por meio, apenas, do argumento lógico. Eu não acredito que deva ser assim." (TMZ, 2004, p. 3)

Como Metzinger, acredito que a consciência e a subjetividade não devam ser tomadas apenas como analisanda, mas sonho com o dia que não haverá contradições entre a lógica modal, a semântica formal e a neurociência cognitiva, os conceitos de mente e vida mental. Não há como ler Wittgenstein e Skinner e não perceber as contradições que surgem a partir de nossas intuições que invadem e se reforçam por meio da linguagem. Mas tal mudança não irá ocorrer rapidamente, uma vez que, além de novas descobertas científicas, também depende de grandes transformações socioculturais.
Uma das perguntas que o livro propõe e que mais me interessam, neste momento, é a seguinte: "Qual é a forma mais simples de conteúdo fenomenológico? Existe algo como "qualia" no sentido clássico da palavra?" (MTZ, 2004, p. 8)
Para Metzinger, o conceito de "quale" sofreu uma "inflação semântica", vindo a ser utilizado de forma cada vez mais vaga em relação aos seus pressupostos clássicos e, portanto, gerando equívocos interdisciplinares e na própria filosofia da mente. "Desde Aristóteles até Peirce, uma grande variedade de diferentes significados e percursores semânticos apareceram." (MTZ, 2004, p. 66) Enquanto, obviamente, isto constitui um problema, como Metzinger aponta, por outro lado a existência deste problema, tão flagrante pode apontar para uma solução. Talvez a questão não seja eliminar ou negar a existência dos qualia, mas admitir que o conceito clássico, em especial nas palavras de Lewis e Nagel, precisa ser retomado e "afinado" às atuais descobertas científicas. Esta é a minha opinião, pois acredito que se há experiência consciente, um observador consciente - seja um observador consciente meramente um observador que levanta questões sobre aquilo que é observado e infere conclusões -, se há uma experiência de primeira-pessoa, então o todo desta experiência é pessoal e intransferível pelos meios da linguagem, pelos meios que temos hoje à disposição (ainda não temos um autocerebroscópio e nada indica que teremos um tão cedo...). Digo isso pois acredito que as "representações mentais" possuem suas contrapartes bem físicas em configurações ou redes neuronais, que se relacionam com outras redes, e que são ativadas em conjuntos diferentes, de forma bastante dinâmica e complexa. Acredito que tais redes são plásticas, sujeitas à mudanças com experiências advindas do ambiente e do próprio uso - pensamento introspectivo, por exemplo. Tais redes, e as representações que delas emergem, nossos próprios pensamentos, são muito mais complexos do que uma impressão digital e, possívelmente, muito mais complexos estruturalmente do que nossas próprias moléculas de DNA. Não acredito que existam dois seres humanos com suas respectivas redes de sinapses que sejam exatamente iguais para representar um conceito tão simples quanto, por exemplo, a tipografia da letra 'A'. Mas este foi apenas meu discursinho para defender a existência dos qualia... Voltando ao Metzinger...
"[...] Atualmente é importante deixar claro sobre o que se está falando [quando se fala sobre qualia]. O locus clássico para a discussão no século XX pode ser encontrado em Clarence Irving Lewis. Para Lewis, qualia eram universais subjetivos:
"Existem características qualitativas reconhecíveis de algo, que podem ser repetidas em diferentes experiências, e são portanto, deste modo, universais; eu posso chamá-las de "qualia". Mas, embora tais qualia sejam universais, no sentido de serem reconhecidas da experiência de um [indivíduo] para outro, elas devem ser distinguidas das propriedades dos objetos... O quale é diretamente intuído, apreendido, e não é sujeito à nenhum erro possível por é puramente subjetivo. A propriedade de um objeto é objetiva; a atribuição deste é um julgamento, que pode estar errado; e o que a predicação de suas conclusões é algo que transcende o que poderia ser obtido em qualquer experiência isolada." (C. I. Lewis 1929,p. 121 (apud TMZ, 2004, p.67)

Para Lewis está claro, desde o início, que nós possuímos critérios de identidade subjetiva para os qualia: eles podem ser reconhecidos de um espisódio experiêncial para outro [por exemplo, reconhecemos a cor vermelha numa maçã, numa camiseta, em um carro ou nos lábios pintados de uma garota; ainda assim, sabemos sem sombra de dúvida, que se trata da cor vermelha]. Também, os qualia formam o núcleo intrínseco de todos os estados subjetivos. Este núcleo é inacessível à qualquer análise relacionar. Portanto é inefável, pois seu conteúdo fenomenológico não pode ser transportado ao espaço público de sistemas de comunicação [foi o que eu falei ali sobre os limites da linguagem, coisa que Wittgenstein já falava a muito tempo também]. Apenas afirmações sobre propriedades objetivas podem ser sujeitos à falseabilidade [óbvio, imagina uma pergunta numa prova: "o que você acha da matéria?" - é uma pergunta cuja a resposta pode ser corrigida?]. Os qualia, contudo, são propriedades fenomenológicas subjetivas:
Os qualia são subjetivos; eles não possuem nomes no discurso ordinário mas são indicados por algumas circulocuções tais como "se parece com"; eles são inefáveis, uma vez que eles podem ser diferentes em duas mentes com nenhuma possibilidade de descoberta de tal fato e nem nenhuma inconveniência necessária ao nosso conhecimento dos objetos ou suas propriedades [ver "O Besouro de Wittengestein em Investigações Filosóficas]. Tudo que pode ser feito para designar um quale é, assim falando, localizar este na experiência, ou seja, designar as condições de sua recorrência ou outras relações deste. Tal localização [contextualização] não abrange o quale em si; se este pudesse ser reduzido da rede de suas relações, na total experiência do indivíduo, e substituído por outro, nenhum interesse social ou interesse de ação poderia ser afetado por tal substituição [aqui é onde, acredito eu - o autor deste blog, este conceito filosófico esbarra com a ciência]. O que é essencial para a compreensão e para a comunicação não é o quale como tal mas o padrão e suas relações estáveis em experiência que são implícitamente previstas quando são tomadas como sinal de uma propriedade objetiva. (C. I. Lewis 1929, p. 124 ff.)
Compreendo que um dos problemas encontrados pelos filósofos contemporâneos em relação aos qualia é a afirmação de que estes são inefáveis. Algo inefável escapa ao conhecimento objetivo da ciência. Mas não são os pensamentos, em toda a sua riqueza enquanto no reino de nossas mentes - cérebros -, inefáveis? Por mais que eu me utilize da linguagem ou de qualquer outra mídia, seja pintura, música, etc, para transferir aquilo que se passa, por vezes na forma de uma narração, por vezes na forma de imagens e movimentos, em geral de ambas as formas, em minha mente, o todo não poderá ser transferido. Ninguém nega a existência dos pensamentos tais como são, pois é uma experiência comum para todos nós. Nós sonhamos, elaboramos, discursamos internamente. Tal atividade não pode ser observada em detalhes, nem com a tecnologia mais avançada que dispomos. Podemos observar as atividades metabólicas do cérebro enquanto alguém fala de amor, mas não podemos visualizar na tela as lembranças que emergem de tal discurso e suas relações. Os qualia são - ou deveriam ser tomados como - a matéria ou os blocos constituintes de tais episódios.
Até aqui, penso que a grande contradição que surge é justamente quando Lewis esbarra na ciência, afirmando que um quale de um indivíduo poderia ser substituído pelo quale de outro indivíduo sem que nada se modificasse. Segundo entendo, esse deslize é compreensível dada a época em que Lewis elaborou este conceito e dada a sua formação e área de atuação. Lewis era filósofo e, como é de se esperar, muito mais proeficiente nas relações da filosofia com a lingüística do que nas relações da filosofia com as neurociências, que em 1929 ainda eram bastante incipientes se comparadas ao que são hoje. Na lingüística, por meio de ferramentas filosóficas, se buscam os significados essenciais aos objetos... Como na pergunta: "Se removermos uma perna de uma cadeira, ela continua sendo uma cadeira? E se removermos duas pernas e o encosto? Até que ponto uma cadeira é suas partes constituíntes?" (ver o Barco de Teseu, por exemplo - se todas as partes de um barco forem substituídas ao longo dos anos de manutenção que este sofrer, será o barco as peças originais que agora formam uma pilha de lixo ou continuará sendo o barco que, agora, não possui nenhuma de suas peças originais?) - Bom, isso é uma coisa, mas não se relaciona com o aquilo que realmente interessa aos qualia, mesmo que isso entre em contradição com o elaborador da teoria! Se Lewis visse os qualia como redes de neurônios, configurações sinápticas, e não como significados de lingüagem, ele não poderia dizer que a substituição de um quale por outro - de mesmo propósito mas de outrém - seria indiferente. Poderia, intuitivamente, ser indiferente, para a linguagem, afinal entendemos o que qualquer fulano quer dizer quando diz "vermelho". Por outro lado, se entendermos que ao falarmos vermelho não estamos realmente nos referindo ao que é objetivamente a cor vermelha, mas a sua representação mental, na forma de uma configuração sináptica de uma rede de neurônios em algum lugar de nosso cérebro, que foi criada por meio da experiência, e que as experiências que levaram a tal configurações não podem ser idênticas para dois seres humanos diferentes - duas pessoas não podem ocupar o mesmo lugar no tempo e espaço - então haveria diferenças sim e, mais do que isso, esta compreensão também questiona a igualdade entre os significados na própria linguagem. Pode ser que sejam iguais o suficiente para serem compreendidos, mas definitivamente acredito que não sejam idênticos de uma pessoa para outra. Quanto a possibilidade de tal diferenciação na "essência" que utilizamos ao nos referirmos aos objetos, cito a esquizofrenia. Na esquizofrenia a diferenciação é tamanha que a negociação da comunicação se torna difícil, se não inviável.
Metzinger elabora mais a sua afirmação de que qualia não existe na continuação, sob o título de "Why qualia don't exist?" na página 69. Infelizmente não poderei argumentar nada a respeito pois tal parte está indisponível no preview oferecido pelo Google Books. ):
Ainda que eu discorde de alguns posicionamentos do Metzinger, o que pude ler de seu livro é realmente genial. Eu preferiria uma abordagem um pouco diferente à alguns problemas propostos, mas certamente seguindo uma metodologia similar - uma metodologia, adotada por Metzinger - que é impecável e essencial ao século XXI.
Recomendo este livro e pretendo adquirí-lo tão logo me sobrem uns dinheiros... (:

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pesquisa sobre Dilemas Morais

Estava lendo o Blog Around the Clock e, por meio dele, fiquei sabendo de uma pesquisa que está sendo realizada por um filósofo e um psicólogo, visando comparar o desempenho de pessoas de todas as áreas ao desempenho de filósofos em dilemas morais. Quem quiser participar, basta acessar este link.
Eu mesmo já respondi as perguntas, mas resolvi traduzir alguns para ficar matutando o problema sobre outros ângulos, conforme vou postar. Se forem participar da pesquisa, não se deixem influenciar pelas minhas decisões. (;

Você faz parte de um grupo de ecologistas que vive em uma parte remota de uma floresta. O grupo inteiro, que inclui oito crianças, é tomado como refém por um grupo de terroristas paramilitares. Um dos terroristas começa a gostar de você. Ele lhe informa que o líder dos terroristas está planejando matar a você e a todos os reféns, assim que amanhecer. O terrorista se dispõe a ajudar você e as crianças a fugir, mas exige que você, num ato de boa fé, mate um dos reféns com o qual ele não simpatiza. Se você recusar a oferta dele, todos os reféns irão morrer, incluindo você e as oito crianças. Se você aceitar a oferta dele, então os outros reféns irão morrer pela manhã, mas você e as oito crianças irão poder escapar. Você considera que matar o colega refém é moralmente aceitável ou moralmente inaceitável?
Para responder a esta questão, é preciso analisar diversos pontos. Em primeiro lugar, que isto é um exercício mental, com algumas regras estabelecidas e bem determinadas, diferente da vida real. Segundo o que foi proposto, é fatalístico que todos irão morrer caso a oferta não for aceitada. Disso se exclui a possibilidade, por mais remota que fosse, de uma outra solução fora as mencionadas. Na vida real, dificilmente é possível excluir algum imprevisto que modifique a situação radicalmente.
Contudo, vamos supor que analisando todos os aspectos da situação, uma mudança durante o decorrer da noite fosse altamente improvável, que fosse quase que uma certeza absoluta a execução de todos tão logo o dia raiasse.
Neste caso, é preciso se colocar no lugar do colega a ser executado. Se você estivesse no lugar dele, e fosse ele que iria fugir com as oito crianças, você acharia justo ser executado para tanto?
Levando em conta a certeza da execução pela manhã, morrer algumas horas antes para que um colega e oito crianças se salvem, me parece justo e moral. No lugar do colega, eu aceitaria ser executado para este intento, até mesmo pelo motivo de que tudo o que eu perderia seriam algumas horas de cativeiro.
Mas a análise não deve parar por ai. Sendo o indivíduo a ser executado, um colega, supõe-se que você o conheça. Segundo o tanto que você conhece daquele indivíduo, você acha que ele consideraria justo e moral ser executado para que você e as outras oito crianças sobrevivam?
É uma pergunta de certa forma relevante. Você jamais vai poder afirmar, com absoluta certeza, que ele acharia justo ou injusto, pois você não está na mente dele e o exercício proposto não lhe dá a opinião de perguntar o que ele pensa a respeito. Neste caso, você teria de confiar naquilo que você acha que ele pensa, e no tanto que você conhece ele.
Supondo que você chegue a conclusão de que ele também, assim como você, acharia justo morrer para que você e as oito crianças se salvem. Neste caso, é com pesar que você iria executar o colega mas estaria fazendo a coisa que você acha que ele pensa ser certo, e que você também pensa ser certo.
Mas supunha que, pela convivência que você tem com ele, você acredite que ele não iria achar justa e moral tal troca. Seja por ser um tremendo covarde, seja por ser completamente egoísta, ele iria recusar-se a morrer, preferindo que todos morressem junto com ele na manhã seguinte. Neste caso, validaria também a execução, penso eu.
Outros fatores a serem levados em conta são: Será que ele iria executar você para se salvar e salvar as oito crianças? Será que ele iria pelo menos tentar pensar o que você pensou? Será que ele seria capaz de executar você para salvar apenas a si mesmo, caso não houvessem oito crianças a serem resgatadas? Será que você executaria ele para salvar apenas a si mesmo, caso não houvesse oito crianças a serem resgatadas?
Contudo, todas estas contingências fogem um pouco ao escopo delimitado pelo exercício. O que o exercício propõe é que se você matar um, você e mais oito crianças irão fugir e irão sobreviver. Neste argumento de bifurcação, a única opção apresentada é que se você não matar a ninguém, você, as oito crianças, o seu colega e o restante do grupo irão morrer no decorrer de algumas horas.
Neste contexto, colocando-se como você mesmo no lugar da pessoa a ser executada, e concordando que seria justo, e colocando-se no lugar da pessoa a ser executada, tentando imaginar o que ela pensaria a respeito, quer ela gostando ou não, continua parecendo ser justo.
Assim, levando em conta que se trata de um exercício de imaginação, e levando em conta as regras apresentadas por este exercício de imaginação, considero ser justo e moral a execução do colega - que segundo o exercício irá morrer de qualquer forma nas próximas horas - em troca da sobrevivência de oito crianças e da minha própria.


Uma epidemia viral se espalhou pelo globo matando milhões de pessoas. Você é um cientista e desenvolveu duas substâncias em seu laboratório caseiro. Uma destas substâncias você sabe que é a vacina, mas você não sabe qual delas. Você também sabe que a outra substância é um veneno mortal. Uma vez que você descobrir qual das substâncias é a vacina, você poderá usá-la para salvar milhões de vidas. Sob os seus cuidados estão duas pessoas, e a única maneira de descobrir qual das duas substâncias é a vacina, é injetando as substâncias nestas pessoas. Uma delas irá viver e a outra irá morrer, e você poderá começar a salvar vidas com a sua vacina. Você considera que injetar a substância nas pessoas é moralmente aceitável ou moralmente inaceitável?
Colocando o exercício na esfera da vida real, a impressão que tenho, no caso deste exercício, é que deve haver uma causa para o cientista não saber qual das substâncias é a vacina e qual das substâncias é um veneno mortal. A primeira causa provável me parece ser o descuido do cientista. Neste caso, moralmente aceitável seria que ele - no caso eu - injetasse a substância em si mesmo e arcasse com o risco e as conseqüências do próprio descuido. Bastaria escrever um recado assim: "Existem dois frascos a minha frente, um vazio e outro cheio. Caso você esteja lendo este bilhete é sinal de que me encontrou morto, desta forma, o frasco cheio é com certeza aquele que contém a vacina. Por causa do meu descuido misturei os frascos e, portanto, resolvi que deveria arcar com os riscos de identificar qual deles contém a vacina. Por favor, envie minha história para o Darwin Awards."
Caso eu sobrevivesse, teria solucionado o problema que criei e poderia descartar o bilhete. Caso eu morresse, seria justo - dada a situação, e os milhões de vidas ainda seriam salvas.
Mas o exercício não indica a causa para que se desconheça qual dos frascos contém o veneno mortal e qual dos frascos contém a vacina. Pode ser algum outro motivo qualquer, desde a prática inerente a produção inicial da vacina, até mesmo algum acaso qualquer que tenha ocorrido no laboratório, sem um responsável direto.
Neste caso é preciso mudar o foco da atenção para as duas pessoas sob meus cuidados. Serão elas pessoas que estão infectadas pelo virus pretensamente mortal? Ou serão pessoas saudáveis? Caso sejam pessoas saudáveis, acho que não justifica submetê-las ao risco. Neste caso, imaginando que tenha sido uma obra do acaso ou do processo a confusão dos frascos, acho que o próprio cientista deveria testar em si mesmo.
Caso sejam pessoas que estão infectadas é preciso perguntar quanto tempo elas têm de sobrevida. Digamos que a vacina faça efeito em duas ou três horas, e o vírus demore vários dias para matar uma pessoa. Eu poderia injetar o conteúdo de um dos frascos em uma das pessoas e esperar pelo resultado. Se fosse o frasco certo, ninguém morreria. Porém... Neste mesmo caso, é preciso perguntar se realmente é necessário submeter a pessoa a um risco de 50% de morte, uma vez que estou com a vacina em mão. Estando com a vacina em mão, e esta sendo identificável por outro meio, a morte daquela pessoa que antes era de uma probabilidade de 100%, cai para 0%. Não é o caso de uma pessoa que iria morrer... Novamente, acho que seria mais justo testar a vacina em si mesmo.
A não ser que ambas as pessoas contaminadas estivessem incapacitadas, que o virus tivesse uma ação muito rápida, e que ninguém fosse encontrar o bilhete a tempo de salvá-las. Neste caso, se eu me injetasse o conteúdo de um dos frascos e viesse a morrer, aquelas duas pessoas morreriam também. Assim sendo, se este fosse o caso, seria preciso perguntar o quão rápida é a ação do vírus e do veneno. Digamos que o prognóstico fosse de que as pessoas fossem sobreviver por mais 3 horas, e que para ação do veneno demorasse 4 horas. O que fazer? Acho que aqui fica bastante evidente, a pessoa que fosse usada de cobaia ficaria impossibilitada de morrer por ação do veneno, esta é uma possibilidade de 0%. E como ambas as pessoas morreriam de qualquer forma, seria inútil se submeter a um risco desnecessário. Neste caso justifica injetar o conteúdo dos dois frascos, um em cada pessoa infectada, e salvar uma delas, já que seria impossível salvar ambas: se eu injetasse apenas em uma pessoa, ambas morreriam antes que eu pudesse determinar qual é a vacina e qual é o veneno. Se eu me injetasse e viesse a morrer, os três morreriam.
Outro fator complicante é: se eu me injetasse e viesse a sobreviver, eu poderia fabricar mais vacina em tempo de salvar as outras duas pessoas? Se sim, neste caso estaria submentendo a eu mesmo e a aquelas duas pessoas, a três pessoas, a uma chance de 50% de sobrevivência. Se não, apenas eu sobreviveria e as outras duas pessoas morreriam de qualquer forma. A situação delas ficaria inalterada na espectativa de 100% de chance de morrer.
Mas isso tudo são extrapolações, feitas apenas para estudar a moral subjacente ao problema proposto pelo exercício. Voltando ao exercício em si, o que este propõe? Apenas duas linhas de ação: ou injeto as substâncias em ambas as pessoas e salvo uma, ou não injeto as substâncias em nenhuma das pessoas e ambas morrem. Por tabela pode se dizer que neste caso morrem outros milhões de pessoas que estão infectadas, e possivelmente outras pessoas que vierem a se infectar.
Qual dos casos estudados na extrapolação parece ser este? Me parece o caso no qual é necessário que o cientista viva por alguma razão qualquer, para que a vacina possa ser produzida. E me parece ser o caso de que se o cientista viesse a morrer, por qualquer razão, a vacina não seria produzida e todos morreriam. No exercício também não fala se as pessoas sob os cuidados do cientista são saudáveis ou não, logo há de se supor que sejam. Qual a situação real que se coloca em vista então? Existem três pessoas saudáveis e milhões de pessoas morrendo. Duas podem ser colocadas sob um risco de 50% de morrer, para salvar outros milhões de pessoas. Uma delas irá certamente morrer, a outra vai sobreviver. Não existe outra opção para salvar o restante das pessoas. É... O que resta é me colocar no lugar das pessoas que terão de servir de cobaia. Acharia eu ser justo me submeter a um risco de 50% de morrer para que outros milhões de pessoas sobrevivessem, sabendo que não há outra escolha para tanto? Sim, acharia. Se eu fosse uma das pessoas sob os cuidados do cientista, eu me submeteria a tal risco.
Enfim, levando em conta que o exercício não abre nenhuma outra possibilidade, acho que é justo e moral sejam injetadas as duas substâncias, uma em cada pessoa.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Experimento do João da Mão

Eu posso te dizer como é, mas
só você pode saber o quanto é.

Estive relendo o experimento mental de Mary, a supercientista, e discutindo com um amigo a respeito do assunto, quando me dei conta de algo crítico em relação ao experimento: embora muitas vezes uma percepção consciente visual possa ser carregada de emoções fortes, em geral, na maior parte do tempo, nossa percepção visual não é algo que desperte reações fisiológicas/emocionais realmente fortes em nossos corpos. Observar uma revista masculina ou mesmo uma mulher despindo-se está longe, em termos de reações que ocorrem no nosso organismo, de ser o mesmo que uma relação sexual.
No experimento de Mary, a supercientista, em suas várias versões, basicamente a protagonista do experimento deixa um quarto preto e branco, ou sofre uma operação para adquirir a visão colorida, e se depara com algum estímulo tal como uma banana, ou uma rosa, ou um quadro... Convenhamos, são coisas de certo modo interessantes, especialmente para quem nunca viu cores, mas são estímulos que não eliciam grandes respostas do organismo, com excessão da banana, caso a pessoa esteja faminta, ou do quadro, se for um quadro realmente espetacular. Além disso, com excessão de que a protagonista estivesse com fome -- no caso de uma banana -- ou fosse sinesteta -- nos demais casos, apenas uma modalidade perpectiva seria evocada em maior medida.
No cérebro, na vida, as coisas não são tão simples, são mais dinâmicas, as modalidades perceptivas interagem em grande medida -- ouvimos um som e quase como que por reflexo viramos nossos olhos em direção ao som, ou fechamos os olhos no caso de uma grande explosão, etc --, e em algumas experiências em especial, muitas modalidades interagem para dar o sentido à experiência. Bons chefs de cozinha sabem que grande parte do sucesso de um prato depende da apresentação do mesmo, a aparência, suas cores, além, é claro, do paladar e do aroma.
Mas mais do que a interação entre as diferentes modalidades perceptivas, algumas experiências em especial desencadeiam fortes reações fisiológicas que modificam a maneira como nos sentimos no momento em que elas ocorrem. Após nos alimentarmos, por exemplo, temos a sensação de saciedade. Mas não é uma sensação tão relevante, pois pode-se dizer que é uma sensação fácilmente ignorada -- não é a toa que a obesidade é um problema nos dias atuais.
Por isso tudo, proponho que o experimento de Mary, a supercientista, venha a ser remodelado ou substituído por um experimento que envolvesse a interação de diferentes modalidades de percepção e também uma forte reação fisiológica que não pudesse ser ignorada.
Dentre as experiências possíveis, é possível citar o medo, mas acredito que mais interessante seria a experiência sexual. O ato sexual envolve em grande medida todos os sentidos: tato, propriocepção (interocepção e exterocepção, sem dúvida), paladar, olfato, visão, audição, além das respostas motoras e gladulares. Não apenas todos os músculos do corpo são utilizados, mas em especial os músculos que coordenam a fala, pois o comportamento verbal também é importante nestas horas. Enfim, no cérebro tudo interage, as diferentes áreas se afetam mutuamente, e sem dúvida tal interação é importantíssima para a subjetividade da experiência consciente.
Então o experimento que proponho seria mais ou menos assim...
Imagine um rapaz adolescente, que não tem muito sucesso com as garotas, e que já passou dos 15 anos de idade, dos 16, dos 17, e está chegando aos 18 sem ter tido nenhuma experiência sexual envolvendo outra pessoa. Tudo o que este rapaz sabe sobre sexo é aquilo que ele ouviu falar na televisão e em conversas com amigos, aquilo que ele aprendeu em palestras de prevenção de DSTs na escola, alguma coisa que ele aprendeu nas classes de biologia, aquilo que ele leu e viu em revistas masculinas e em filmes adultos. Mas este é um rapaz singular, muito inteligente e determinado, com uma memória quase sobrehumana e uma ótima capacidade de compreensão. Ele também é um grande admirador da linha de pensamento do Daniel Dennett e resolve que, se ele não consegue ter a coisa real, ele irá estudar a fundo o assunto até que saiba tudo a respeito. Nada faltaria a ser acrescentado, então, por sua falta de experiência prática no assunto.
O rapaz, que neste experimento se chama João, resolve então assistir a aulas de antropologia, de psicanálise -- claro --, de psicologia social, de fisiologia humana, estuda o comportamento reprodutivo animal, adquire e lê vários livros e documentários sobre reprodução humana e sobre sexo e, por fim, participa de um curso extensivo, porém apenas teórico, com alguns dos maiores sexólogos contemporâneos.
Assim, João fica sabendo tudo o que há para saber a respeito de sexo: tudo o que ocorre fisiologicamente no corpo tanto do homem quando da mulher durante todos os passos que levam ao sexo e durante o sexo, como se dá a reprodução, todas as posições do kama sutra e das centenas de filmes adultos que assistiu... João até mesmo exerceu muito o cinco contra um durante todo esse processo de aprendizagem, utilizando todos estes recursos audio-visuais e imaginativos. Ao completar, João acreditava que não havia mais nada que o sexo pudesse lhe acrescentar, que ele já não soubesse... Ou será que havia?
João já havia visto como um homem toca uma mulher durante o sexo, e como uma mulher toca um homem, mas até então João apenas havia tocado a si mesmo. Mesmo assim, ele sabe descrever toda a fisiologia táctil. João já havia ouvido gemidos e frases em filmes adultos, mas jamais havia ouvido nada disso próximo ao seu ouvido, acompanhado do hálito quente de uma mulher, ou da estimulação táctil da língua dela no ouvido externo. João já havia feito muito o cinco contra um, mas esta prática não envolve sentir o peso de outra pessoa, nem o cheiro, nem a temperatura do corpo, nem todo o feedback que se recebe para o próprio comportamento.
É como quando você está prestes a chegar ao orgasmo, você olha para o rosto da pessoa -- ou para as costas da pessoa, ou para qualquer parte do corpo da pessoa que a posição permitir, mas é especialmente olhar para o rosto da pessoa -- você olha para o rosto da pessoa e o que você vê? Você vê pupilas dilatadas, ou os olhos entreabertos, você vê a boca entreaberta, e escuta um gemido, os lábios vermelhos dos beijos e/ou da pressão sangüínea que aumenta, você vê a face tornar-se rubra... Vermelho. O cânon dos qualia.
É possível descrever como você vê, como ocorrem as percepções envolvidas: fótons são captados pelas moléculas de rodoxina nas células fotorreceptoras da retina, que transformam este estímulo em impulsos nervosos, que são invertidos no quiasma óptico e enviados ao colículo superior, que localiza-se logo acima do colículo inferior na parte dorsal do mesencéfalo, que por sua vez recebe os impulsos nervosos do nervo auditivo; posteriormente a informação visual sobe ao núcleo geniculado lateral, próximo ao núcleo geniculado medial que recebe informação auditiva, e é enviada à área V1 do córtex visual, enquanto que a informação auditiva é enviada ao córtex auditivo no lobo temporal; a informação visual, depois de processada pelo córtex visual, se divide em duas correntes que são enviadas dorsal e ventralmente, sendo que a corrente ventral irá para o lobo temporal onde curiosamente coisas como rostos ganham significado. Tanto a informação auditiva quanto visual e táctil são trafegam no cérebro em correntes, ou vias, que acabam interagindo de uma forma ou de outra pela excitação das áreas especializadas próximas as áreas de destino, é fácil compreender isso observando o homúnculo do córtex motor, próximo a área de broca, pelo fato da área que controla os movimentos envolvidos na fala ficar próxima a área que controla os movimentos das mãos, por isso gesticulamos e conseguimos escrever. De certa forma, pode-se dizer que a escrita era algo biologicamente determinado para a espécie humana.
Bom, mas tudo isso diz respeito a apenas visão e audição, ainda que da mesma forma pudessem ser descritos todos os demais sentidos. E mesmo que se descrevesse de forma mais detalhada do que a forma como foram descritos acima, todos os sentidos envolvidos, ainda faltaria descrever o orgasmo em si. O gozo. Não apenas o gozo fisiológico, toda a imensa e forte cascata química que deflagra as sensações de prazer que ocorrem junto com a ejaculação, mas também o gozo cognitivo, aquele que se dá quando o ato sexual é da espécie mais complexa de comportamento, quando o quale, a qualidade do orgasmo em si, está atrelada a empatia que se tem pela contraparte que participa do ato e pelo desejo de que pra ela seja interessante e intenso também.
Tudo isso pode ser descrito de uma forma ou de outra. Mas é o suficiente, não fica faltando um pedacinho de informação?
Esse é o pedacinho de informação que diz respeito à experiência consciente em primeira pessoa, e -- vejam só que engraçado -- é justamente por meio deste pedacinho de informação que foge do alcance da linguagem, que se dá, de fato, a apropriação da experiência. O como é, o sentir, o experienciar.
Acredito que este experimento precisa ser lingüisticamente mais lapidado, de forma a economizar em argumentos e descrições e ser mais objetivo quanto ao que se quer demonstrar, mas quem quer que tenha entendido o ponto, acho que ele não só serve para apontar o aspecto inefável, ou que não pode ser transmitido, dos qualia, mas mais do que isso, pelo menos ao meu ver, ele também é uma forma de explorar o conceito de que a apropriação da experiência não depende da linguagem.

Ver: Daniel Dennett, em Crenças Científicas.

*** Aquilo que se pode descrever é justamente diferente daquilo que de fato é a apropriação da experiência, daquilo que torna a experiência única para cada indivíduo. Como, então, podem afirmar que a aquisição da linguagem é condicional para a apropriação da experiência, se justamente é naquilo que escapa da linguagem que se dá a apropriação?

Ele queria provar que era um filósofo qualiudo

"Unfortunately, no one can told
you what the Matrix is. You have
to see it for yourself."
Morpheus

Falando sobre um hotel na Austrália que adotou o nome de qualia, sobre como foi bem utilizado o conceito na divulgação... "Você vê as fotos e sabe que não vai saber como é até que esteja lá, especialmente acompanhado com uma garota como a das fotos."
qualia pool
Foto de divulgação do qualia resort.

[00:28:19] C. says: o fato de que se vc não experienciar não vai saber como é
[00:28:26] C. says: no final tudo se resume a isso
[00:28:33] T. says: ahahaha
[00:28:35] C. says: por exemplo
[00:28:50] C. says: o X. já bateu milhões de bronhas com revistas de mulher pelada
[00:29:04] C. says: mas ele nunca vai saber exatamente como é trepar até botar uma mulher naquele corpo
[00:29:12] T. says: ahhahaha
[00:29:16] C. says: mesmo que ele tenha um curso extensivo com os 10 maiores sexólogos do mundo
[00:29:34] C. says: humm
[00:29:45] C. says: tai um experimento mental bom
[00:29:50] C. says: "X. o punheteiro"
[00:29:54] T. says: ahuahauahuahuhauhauhuahua
[00:29:58] C. says: ilustra melhor a parte fisiológica dos qualia
[00:30:06] C. says: pois diferente da experiência visual
[00:30:15] C. says: a experiência sexual tem toda uma cascata química violenta
[00:30:35] T. says: depende, esse é um quale q simula a experiência da sensação do orgasmo
[00:31:00] C. says: simula? ou acontece de fato?
[00:31:06] C. says: porra é apenas uma ilusão?
[00:31:08] T. says: sim, é
[00:31:11] C. says: pq acontecem os bebês?
[00:31:13] C. says: hehehehehehehehe
[00:31:15] T. says: ahahahaha
[00:31:22] T. says: sim, mas o orgasmo em si é o orgasmo
[00:31:27] T. says: hmm
[00:31:44] T. says: é q não dá pra definir com linguagem qualia
[00:31:50] T. says: com uma palavra curta
[00:31:56] C. says: tem uma diferença marcante entre gozar dentro de uma mulher ou por indução pelo contato com uma mulher e gozar simplesmente fazendo o cinco contra um
[00:32:08] T. says: tipo, poderia ter um quale pra uma mina q ficasse em específico e outro pra outra, pq não é idêntico
[00:32:15] T. says: e mesmo o da mesma pessoa seria diferente num outro dia
[00:32:39] C. says: qualia, pra mim, é o besouro de Wittgenstein.. é aquilo que vc não pode transmitir por meio da linguagem.. aquele pedacinho de informação q fica faltando
[00:33:29] C. says: é como a dor que o paciente sente.. o médico observa... ele sabe os mecanismos fisiológicos da dor.. mas ele não é capaz de afirmar com 100% de certeza: é, de fato, esta é uma dor "grau 10" ou "grau 8"
[00:41:43] T. says: é, mas qualia é qualidade
[00:41:48] T. says: é variável
[00:41:57] T. says: no caso da mina q tu disse por exemplo
[00:42:00] T. says: ou conosco
[00:42:05] T. says: um dia tu me vê e tens um quale
[00:42:12] T. says: noutro dia será um quale diferente
[00:42:17] C. says: qualidade: isso é meramente uma definição lingüística, aquilo que o Pinker chama de mentalês.
[00:42:25] T. says: ahahah

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Palestras sobre Neurociência, Psicologia, Filosofia e Saúde Mental

The Bane of Pain is Plainly in the Brain

A dor é geralmente considerada um sintoma de uma doença. A singularidade da doença da dor, obviamente, é que esta não pode ser observada pelo terapeuta. Ela é experienciada e relatada apenas pelo paciente. Entender como a dor é gerada e, mais importante, como tratar a dor, é o foco desta palestra. Entre os tópicos que são discutidos estão os muitos tipos diferentes de dor que podem ser produzidos, a diferença entre dor aguda e dor crônica, se o efeito placebo realmente funciona e, se funciona, como, e onde a dor é percebida no cérebro. Da série UCSF Mini Medical School for the Public. 5/2003. Duração: 109 minutos.

Pain and the Brain

Dê uma olhada na compreensão atual sobre o funcionamento do cérebro humano e algumas das doenças importantes que fazem com que o sistema nervoso se torne disfuncional. Nesta edição, Allan Basbaum, do Departamento de Anatomia da UCSF, explora a dor e o cérebro. Da série UCSF Mini Medical School for the Public. 10/2007. Duração: 87 minutos.

SIRA: Sleep Patterns

A medida que envelhecemos ocorrem mudanças no sono, mas não é o envelhecimento, por si, que causa tais mudanças. O sono de má qualidade é geralmente associado com doenças, medicamentos e mudanças no relógio biológico. Esta exposição pretende descrever o sono normal durante o envelhecimento, as causas da má qualidade do sono e as opções de tratamento para diferentes problemas relacionados ao sono. Da série Instituto Sam e Rose Stein para Pesquisa sobre o Envelhecimento. 7/2007. Duração: 59 minutos.

Grey Matters: Sleep Waking and Arousal

O sono serve para descansar? Para conservar energia? Para o desenvolvimento? Para resfriar o cérebro? Para aquecer o cérebro? Para incrementar o sistema imunológico? Para o aprendizado e para a memória? Ou para esquecer, livrando o cérebro do excesso de informação? Todas estas idéias já foram propostas, levando a sugestão de que pessoas que sofrem de insônia podem passar a contar teorias sobre o sono ao invés de contar carneirinhos. Junte-se ao renomado neurocientista Ralph Greensapn do Instituto de Neurociências para explorar as últimas pesquisas a respeito da razão pela qual dormimos. Da série Grey Matters. 7/2005. Duração: 59 minutos.

SIRA: Pop! Goes the Memory

O Instituto Stein para Pesquisa sobre o Envelhecimento (SIRA: Stein Institute for Research on Aging) apresenta os novos achados sobre a perda de memória, com o Dr. Jody Corey-Bloom, do Departamento de Neurociência da UCSD. Da série Instituto Sam e Rose Stein para Pesquisa sobre o Envelhecimento. 4/2005. Duração: 58 minutos.

Grey Matters: Conscious and Unconscious Memory Systems

Junte-se a Larry Squire, da UCSD, numa apresentação fascinante sobre as pesquisas recentes sobre os sistemas de memória nos seres humanos e em outros mamíferos. Da série Grey Matters. 1/2007. Duração: 59 minutos.

Grey Matters: How do We Predict the Future: Brains, Rewards and Addiction

Nesta apresentação fascinante, Terry Sejnowski do Instituto Salk explora como o cérebro humano é naturalmente suscetível aos efeitos de substâncias que causam dependência. Da série Grey Matters. 6/2005. Duração: 59 minutos.

Brain Development

A cientista cognitiva Joan Stiles revela os últimos achados sobre as intricadas relações entre a biologia e as influências externas no desenvolvimento cerebral. Da série Grey Matters. 3/2006. Duração: 58 minutos.

Disorders of Mind and Brain

Annette Karmioff-Smith, Ph.D., faz uma exposição interdisciplinar sobre os modos possíveis de explorar doenças humanas por meio de técnicas de neuroimagem. Da série M.I.N.D. Institute Lectures on Neurodevelopmental Disorders. Duração: 58 minutos.

Imaging the Brain, Reading the Mind

Programa da Universidade Northwestern para ajudar o público geral a entender o impacto da tecnologia de ponta em imagem cerebral na saúde humana, na justiça e seus aspectos éticos. Especialistas discutem as questões científicas e sociais que cercam o uso de tecnologia de imagem cerebral avançada. Duração: 42 minutos.

Grey Matters: The Origin of the Human Mind: Brain Imaging and Evolution

O cientista cognitivo Martin Sereno, da UCSD, leva você a uma exploração cativante sobre a estrutura e as funções do cérebro conforme reveladas por meio de investigações com o uso de novas e avançadas técnicas de neuroimagem e à luz do entendimento da evolução. Da série Grey Matters. 12/2005. Duração: 57 minutos.

Grey Matters: Perception: Taste, Smell and Vision

O professor Charles Zuker, da UCSD, explora a neurobiologia do sabor, do cheiro e da visão. Ele trás achados de quase 20 anos de pesquisa experimental na área, com grande clareza e objetividade nas explicações. Da série Grey Matters. 5/2005. Duração: 88 minutos.

The Human Genome: Human Genetics and the Brain

A pesquisa do Dr. Louis Ptacek tem como tema central a identificação e a caracterização dos genes que causam as variações normais e as doenças do sistema nervoso. Da série UCSF Mini Medical School for the Public. 7/2006. Duração: 59 minutos.

What We See

Nós vemos (pelo menos) três tipos de coisas fundamentalmente diferentes: objetos (um tomate), as propriedades destes objetos (o tamano, a cor, a forma e a orientação do tomate), e os fatos sobre os objetos (que é um tomate, que o tomate é vermelho, etc). O professor de Filosofia de Stanford, Fred Dretske, discute a primeira: nossa percepção a cerca dos objetos. Quantos objetos captamos durante uma breve mas atenta obsevação? As respostas apontam para algo importante sobre a natureza da experiência perceptual consciênte. Da série UC Berkeley Graduate Council Lectures. 3/2008. Duração: 58 minutos.

Intention in Action

John McDowell é um filósofo contemporâneo cujo trabalho mais influente tem sido na área da filosofia da mente e da linguagem. Ele questiona se o pensamento empírico é racionalmente baseado na experiência nesta palestra em Berkeley. Da série UC Berkeley Graduate Council. Duração: 58 minutos.

Conversations with History: John R. Searle

O professor de Filosofia John R. Searle fala sobre seu trabalho como filósofo, pensador crítico e sobre as lições aprendidas com o movimento em prol da expressão livre. Da série Conversations with History. Duração: 58 minutos.

Language and the Mind Revisited: The Biolinguistic Turn

Noam Chomsky examina a biolingüística: o estudo das relações entre fisiologia e linguagem. Duração: 87 minutos.

Coping with Stress: Stress Eating and Premature Aging

Elissa Epel, do Departamento de Psiquiatria da UCSF, explora a conexão entre estresse, alimentação e envelhecimento celular. Ela e seus colegas têm encontrado evidências de que as células de indivíduos submetidos a grande estresse aparentam ter um maior envelhecimento do que as células daqueles indivíduos com baixos níveis de estresse. Estes achados têm grandes implicações para a compreensão de como, em nível celular, o estresse pode levar ao surgimento de doenças relacionadas ao envelhecimento. Da série UCSF Mini Medical School for the Public. 2/2008. Duração: 58 minutos.

The Importance for Forgiveness for Health and Healing

A enfermeira JoAnne M. Saxe explora a profunda conexão entre o perdão e a saúde. Se você acredita que você mesmo ou alguém significante pra você precisa trabalhar o perdão, esta é a sua oportunidade para adquirir alguns recursos para iniciar a sua jornada. Da série Saúde Atual da Mulher. 4.2007. Duração: 56 minutos.

Brain, Mind and Behavior: Why Drugs for Depression?

Dr. Steve Hamilton, do Departamento de Psiquiatria da UCSF, explora alguns dos conceitos atuais sobre a depressão e seu tratamento. Da série UCSF Mini Medical School for the Public. 10/2007. Duração: 87 minutos.

TEDTalks: Sherwin Nuland: A history of electroshock therapy

Sherwin Nuland, cirurgião e autor, fala sobre o surgimento da terapia de eletrochoque como cura para depressão severa e relata suas experiências pessoais, com ênfase na recuperação, redenção e em segundas chances. Duração: 22 minutos.

Epilepsia

Dr. Daniel Lowenstein, diretor do Centro de Epilepsia da UCSF, explora o tratamento da epilepsia. Duração: 85 minutos.