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quarta-feira, 3 de março de 2010

Competitividade e Poder

Este post está mais para auto-ajuda do que para a Psicologia propriamente dita; feito o aviso, segue a história.

Estava na aula da disciplina de Dinâmica de Grupos ouvindo uma discussão sobre a necessidade das pessoas serem reconhecidas e a relação desta necessidade com o "querer ser melhor do que os outros", ao que fiquei pensando sobre um paradigma pessoal, que já aceitei faz muito tempo, que afirma - ou segundo o qual afirmo - que não adianta querer ser melhor dos que os outros, uma vez que nosso desempenho depende apenas e tão somente de nós mesmos. Ilustro com um exemplo, para alguém que não tenha familiaridade com este conceito: alunos que gostam de competir nas avaliações e que se importam em receber notas superiores as dos seus colegas. Na prática, não faz diferença se o colega recebe nota 8, 9 ou 10, pois a nota que o colega receber não modifica a nota que você recebeu. Se você não se esforçou e não estudou o suficiente para uma prova exigente, irá receber um 6 ou 7, por outro lado, se você é um aluno esforçado, provavelmente irá receber uma nota melhor, talvez um 10. Neste processo, as notas dos colegas não modifica a nota que você irá tirar.
Claro que, muitas vezes, não é tão simples. Existem professores que não avaliam por desempenho, mas por afinidade. Neste caso, especialmente se tratando do curso de Psicologia, cabe ao aluno explorar um meio para desenvolver a afinidade necessária com o professor para garantir uma avaliação justa. O sistema, neste caso, não é muito justo, mas infelizmente a vida é assim (postura bastante estoica, eu sei). Quer ser justo, pense nas pessoas que irão depender dos teus serviços no futuro e se esforce para que ao receber um 10, este 10 seja correspondente ao teu aproveitamento da matéria.
Voltando à aula de Dinâmicas de Grupo, a discussão seguiu e foi abordada a questão do poder. Lembro que chegou a ser comentada a máxima: "Quer saber quem uma pessoa realmente é, basta dar poder a ela." - Não sou muito afeito a ditos, mas este me ajudou a levar o pensamento que estava elaborando anteriormente um pouco mais adiante. "Dá poder àquela pessoa e saberás quem ela realmente é." - ora, enquanto cidadãos livres, é verdade que temos plenos poderes sobre nossas vidas dentro dos limites impostos para que façamos parte de uma sociedade organizada. Temos a liberdade de nos associarmos à indivíduos e instituições, de estudarmos, de trabalharmos, de ajudar aos outros, de pedir ajuda, de expressar nossa opinião, só para citar algumas das nossas liberdades que também podem ser consideradas como poderes que nos são dados. Não se trata de uma onipotência selvagem, na qual fazemos o que bem entendemos, mas de poderes constritos por regras que buscam equilibrar o bem-estar do indivíduo e do grupo.
Mas onde quero chegar quando afirmo que não são poucos os poderes dos quais goza o cidadão livre numa sociedade como a sociedade brasileira?
Muitas vezes pensamos que somos vítimas da situação, reclamamos dos nossos pares - das pessoas que nos cercam, das instituições com as quais estamos envolvidos - o lugar onde trabalhamos, o lugar onde estudamos - mas, é importante ficar atento até que ponto estamos sendo vítimas da situação e até que ponto estamos sendo vítimas da nossa incapacidade ou ineficiência em usar os poderes dos quais gozamos.
Em razão do que estudo, acredito que o comportamento do ser humano é determinado pela genética, pelas experiências a que teve acesso e pelo meio em que vive (alguns iriam resumir experiências e meio em ambiente, mas neste caso prefiro separá-los ao escrever). Porém, havendo a capacidade de pensar sobre aquilo que se está fazendo e de desenvolver um raciocínio crítico sobre suas próprias atitudes, é possível elaborar novas estratégias de ação, que podem não dar certo de início - pois sendo novas são tentativas - mas que podem ser refinadas e gerar resultados melhores do que aqueles que são obtidos pelo conformismo ou acomodação.
Assim, concluo resumindo que: 1. a única pessoa que precisamos nos preocupar em superar é a nós mesmos; e 2. temos a vantagem de ter nascido em uma época e em uma sociedade de liberdade, e liberdade é poder, é nossa responsabilidade usar esse poder em prol do nosso próprio bem. Somos, então, nossos próprios Leviatãs.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O Estudo Monstro de Wendell Johnson

Resolvi traduzir o relato mais detalhado que encontrei sobre este estudo idealizado por Wendell Johnson e perpetrado por Mary Tudor pois, estando atualmente no final do 5° semestre do curso de Psicologia, notei que os livros com os quais estamos estudando não possuem referências a este estudo, que ficou conhecido como o "Estudo Monstro". O nome se justifica, a leitura do artigo abaixo parece a leitura de um conto de horror.

A ÉTICA E OS ÓRFÃOS: O 'Estudo Monstro'
Publicado em 10 de junho de 2001
Fonte: http://www-psych.stanford.edu/~bigopp/stutter2.html

Norma Jean Pugh, o mais jovem dos sujeitos experimentais, era tida como rebelde depois que desenvolveu gagueira. Agora, conhecida como Kathryn Meacham, ela vive reclusa.

Hazel Potter, que tinha 15 anos em 1939, diz que sabia que os órfãos eram usados para pesquisas. Sua fala piorou depois que o experimento de gagueira foi finalizado.

Por Jim Dyer
Mercury News


O pacote chegou no final da vida de Mary Tudor Jacob. Ela ficou sobre o umbral de sua casa em Moraga, uma cidade da baía leste, onde ela se aposentar, e lutava para decifrar as pequenas letras rabiscadas no envelope. No destinatário lia-se: "Mary Tudor Jacobs, O Monstro".

A mulher de 84 anos começou a respirar mais rápido. Ela olhou o nome do remetente: "Mary Korlaske Nixon, caso no. 15 do Grupo Experimental".

"Oh Deus", ela disse. Balançou a cabeça, suas mãos começaram a tremer.

O pacote vinha de Iowa. O tempo de uma vida havia se passado, quando ela - enquanto uma estudante de graduação [em psicologia] - havia conduzido um experimento nas crianças de um orfanato daquela cidade.

O experimento utilizada pressão psicológica para fazer as crianças gaguejarem. Foi elaborado pelo seu professor, o Dr. Wendell Johnson, para testar a hipótese dele, sobre a causa da gagueira. Várias crianças sofreram danos duradouros, mas a pesquisa ajudou a comprovar a teoria e Johnson se tornou um dos mais proeminentes patologistas da fala nos EUA.

Mas ele jamais deixou a pesquisa ir a público. O estudo teve fim pouco antes da Segunda Guerra Mundial e, na medida que o mundo aprendeu com os experimentos médicos nazistas em seres humanos, os colegas do professor Wendell avisaram que seu trabalho deveria ser mantido em sigilo para evitar comparações que poderiam arruinar sua carreira.

Os órfãos não iriam contar o que haviam lhes feito.

E Mary Tudor passou meio século tentando esquecer.

Vez e outra ela recebia algum telefonema, de algum pesquisador, fazendo perguntas sobre o experimento. Então, no ano passado [2000], um repórter chamou Tudor e começou a examinar seriamente aquela parte da vida dela.

Agora lá estava aquele pacote, endereçado à ela - O Monstro. Na Universidade de Iowa, onde ela era uma estudante de graduação, o experimento havia ficado conhecido como "O Estudo Monstro".

Ela olhou o nome da remetente novamente. Mary Korlaske? Ela não conseguia lembrar-se. Foram tantos órfãos: 22 meninos e meninas, e a maioria dos nomes daquelas crianças -- Norma, Clarence, Hazel, Elizabeth -- já desapareciam de suas lembranças, assim como as centenas de páginas dos dados do experimento, que ela havia mantido em sua casa durante todos estes anos.

O que ficara foi uma grande ambivalência sobre o experimento.

"Era um pequeno preço a pagar pela ciência", diria ela em diversas ocasiões, falando com o repórter. "Olhe para as inúmeras crianças que ele ajudou". E ainda assim, ela não conseguia esquecer a maneira como os órfãos saudavam ela a cada visita, correndo para o carro dela e ajudando ela a carregar os materiais que ela usaria nos experimento.

"Era a parte sofrida -- eu ter feito eles confiarem em mim e depois fazer aquelas coisas horríveis com eles", disse ela.

Ela carregou o pacote para a sala de jantar e sentou-se na antiga mesa de carvalho.

"Espero que não seja uma bomba", ela disse.

Apenas um número: Mantendo a objetividade

Mary Tudor diz não se lembrar da primeira vez que viu Mary Korlaske. De acordo com os registros cuidadosos que ela manteve do experimento foi em 17 de janeiro de 1939.

Naquele dia, Tudor e cinco especialistas em patologias da fala da Universidade de Iowa haviam ido ao Orfanato de Filhos de Soldados de Iowa, em Davenport, uma pequena cidade no rio Mississippi, para selecionar as crianças que seriam sujeitos de um experimento nas causas da gagueira. Um complexo de 22 casinhas, uma escola e um prédio administrativo, o orfanato abrigava entre 500 e 600 crianças que o Estado tinha como negligenciadas ou dependentes.

Tudor, uma estudante de 23 anos, havia sido instruída a se manter objetiva e indiferente, para designar números para cada criança e para referir-se a elas, em seus registros, apenas pelos números.

"Era uma pesquisa científica, então eu não deveria me envolver emocionalmente", lembra-se Tudor.

Mary Korlaske, uma estudante de 12 anos da quarta série, era uma das 256 crianças que participaram da seleção para o experimento. As anotações daquele dia descrevem a série de avaliações iniciais. Primeiro ela teve de ler em voz alta enquanto os patologistas da fala graduavam sua fluência. Depois ela passou por uma bateria de testes de coordenação motora e visual.

"Ela chamou atenção", nota Tudor.

Depois, demonstram os registros, Tudor nomeou Mary Korlaske como o "caso no. 15 do grupo experimental IIA, fluência normal".

Um tormento problemático: o que causa a gagueira?

A gagueira, para aqueles 1% da população que gagueja, é mais do que um incômodo ou uma inconveniência. É uma condição que rapidamente define uma pessoa, tanto pra si quanto para os outros. É o tormento para as crianças e a insegurança para os adultos. É debilitante. E, até a atualidade, desafia os especialistas que tentam tratá-la.

Johnson dedicou sua vida à encontrar a causa e a cura para a gagueira. Quando chegou na Universidade de Iowa em 1926, ele compreendeu intimamente esta aflição. Johnson sofria de gagueira severa. Ele trouxe consigo seu apelido "Jack", em referência ao campeão do boxe Jack Johnson, devido a maneira como respondia aos seus colegas que riam de sua gagueira: com socos.

Um bom atleta e estudante, Johnson chegou no campus com dois objetivos: tornar-se um escritor e receber terapia para a fala. A universidade era líder no campo da patologia da fala. As principais teorias sobre a gagueira, naquela época, apontavam para causas genéticas ou orgânicas.

Johnson passara horas na clínica da fala, geralmente oferecendo a si mesmo como sujeito experimental. Eventualmente ele focou seus estudos de graduação nas patologias da fala, em especial na gagueira.

Na clínica, Johnson fora hipnotizado, psicoanalisado, examinado com eletrodos e sentou em água fria para ter seus tremores gravados. Como Demóstenes, um antigo gago grego, Johnson pôs pedrinhas na própria boca. Johnson teve seu braço dominante, o direito, engessado para ajudar a provar a controversa teoria sobre "dominância cerebral" de um professor: a ideia de que se fosse forçado a usar o braço esquerdo, o desequilíbrio dos seus hemisférios cerebrais seria equalizado.

Nada parecia funcionar. Em 1936 Johnson escreveu em seu diário: "Eu sou um ratinho branco profissional".

Ainda assim, Johnson persistia. Ele conhecia intimamente os efeitos danosos que a gagueira tinha sobre o crescimento emocional e social, fazia palestras sobre tais efeitos para auditórios lotados, em todo o Meio-oeste. Crianças que gaguejavam geralmente tiravam baixas notas, apresentavam déficits morais e de auto-respeito e buscavam isolar-se, dizia ele. O medo, a humilhação e o receio poderiam levar a tentativas de suicídio.

"A criança gaga é uma criança aleijada", escreveu ele.

Nos diários, ele fazia registros metódicos sobre seus próprios progressos, destacando o prazer nos dias nos quais ele falou bem e melancolia nos dias de relapso. Em sua vida pública ele odiava formalidades e apreciava contar piadas e recitar pequenas rimas. Ele sabia que o humor aliviava o estresse e reduzia sua gagueira.

Em 1936 Johnson começou a duvidar das principais teorias de que a gagueira era uma condição inata e propôs experimentos para testar a validade destas teorias, como ficou registrado em seus diários. Dois anos mais tarde ele alcançou um ponto de virada com uma série de estudos de casos, nos quais ele conduzira entrevistas com pais e suas crianças gagas. Cada criança, descobrira ele, havia sido rotulada de gaga desde tenra idade.

"A gagueira começa no ouvido do ouvinte, não na boca da criança", teorizou ele.

Todas as crianças apresentam problemas de linguagem quando são muito novas, geralmente repetindo palavras e sílabas. Tendo sua atenção chamada para a sua fala, pensou ele, parentes super-zelosos fariam com que suas crianças se tornassem tão autoconscientes destes problemas e ansiosas, que as crianças viriam a repetir com maior frequência ainda. Com o tempo, as crianças se tornariam tão sensíveis à própria fala que não mais poderia falar sem gaguejar.

Johnson veio a atribuir as origens de sua própria gagueira a uma professora da primeira série que diagnosticou suas repetições normais como um estágio inicial de gagueira. Esta professora informara seu 'diagnóstico' aos pais de Johnson, que passaram a corrigi-lo. Infelizmente, quanto mais o menino tentava falar normalmente, pior ficava sua gagueira.

"A aflição é causada pelo diagnóstico", dizia Johnson.

Testando uma teoria: o estudo tem início

Este era um pensamento revolucionário na época, uma volta de 180 graus em relação às teorias estabelecidas. Ainda assim, já em 1938, Johnson já se convencera. Aplicando os princípios de como as pessoas reagem à linguagem, ele começou a formular o que era para ser sua "teoria diagnóstica": diagnosticar e rotular pequenas crianças como gagas quando elas gaguejam irá piorar o problema e transformá-las em adultos gagos.

Mas ele precisava de evidências diretas, preferencialmente uma pesquisa conduzida em um ambiente controlado.

Ele voltou-se para 50 milhas ao leste, para o orfanato estadual que servia de lar para os órfãos dos soldados. A universidade já havia conduzido numerosos projetos de pesquisa usando os órfãos daquele local, entre tais projetos alguns com mais de uma década de duração sobre se o retardo do desenvolvimento seria mais comum entre crianças que permanecessem em orfanatos lotados nos quais seriam pouco estimuladas em relação à crianças que fossem incluídas em pré-escolas especiais.

"Eles usavam o orfanato como uma colônia de ratos de laboratório", dizia Franklin Silverman, um professor de patologia da fala da Universidade Marquette, que estudou sob a orientação de Johnson na Universidade de Iowa na década de 60.

No outono de 1938, Johnson recebeu permissão dos responsáveis do orfanato para começar seu experimento. Foi então que ele chamou Mary Tudor em sua sala.

"Você já escolheu o assunto da sua tese final?" Lembra Tudor de ter sido inquirida por Johnson.

Tudor lembra de Johnson descrevendo o experimento e dizendo a ela que ela fora escolhida porque ele havia notado nela um grande rapport com as crianças. Ela escutou atentamente a medida que ele explicava os detalhes do experimento.

Tudor iria trabalhar com dois grupos de crianças: os gagos e os normais. Metade das crianças de cada grupo iriam ser designadas para um grupo experimental, e a outra metade seria o grupo de controle. As crianças nos grupos de controle seriam rotuladas de falantes normais e receberiam terapia positiva. As crianças no grupo experimental seriam rotuladas de gagas e iriam receber terapia negativa.

Primeiro ela iria se certificar de que as crianças do grupo experimental soubesse o que é gagueira. Depois ela iria avisá-las de que elas apresentavam os sinais iniciais de gagueira. Ela iria, então, sistematicamente sensibilizá-las em relação a própria fala, interrompendo-as e apontando cada vez que elas repetissem alguma palavra.

Tudor fora avisada que teria de mentir para os responsáveis pelo orfanato e para os professores, dizendo para eles que se tratava de terapia para a fala, para que eles viessem a participar do experimento sem saber do que realmente se tratava. Se Tudor rotulasse uma criança como gaga, os professores e e responsáveis deveriam reforçar aquele rótulo negativo, explicava Johnson.

Tudor ficara excitada ao ser escolhida por Johnson. Ela sabia o peso que teria uma tese dirigida por Wendell Johnson em sua carreira. Mais ainda, sua teoria fazia sentido para ela. Ela lembrava de casos de estudo de crianças da clínica naquele verão e estava intrigada pela perspectiva de ajudar seu orientador a encontrar uma causa e - possivelmente - uma cura para a gagueira.

Mas ela não esperava pelas condições deprimentes que ela iria encontrar ao chegar no orfanato, nem o quão difícil seria para ela fazer mal àquelas crianças.

Depois de avaliar a fala de 256 órfãos, ela e outros patologistas da fala escolheram 22 sujeitos: 10 gagos e 12 falantes normais. Eles parearam as crianças com base em similaridades de idade, sexo, QI e fluência. Então eles designaram aleatoriamente uma de cada par para o grupo de controle e outra para o grupo experimental.

Com um movimento de sua caneta, Tudor iria separar amigos e irmãos. Ela colocou Jane Anne Pugh no grupo de controle e sua irmã mais nova, Norma Jean Pugh no grupo experimental. Ela separou os irmãos Albertson, Lester e Noah, da mesma forma. Mary Korlaske e sua amiga Marion Higdon foram pareadas: Mary foi parar no grupo experimental e Marion tornou-se seu controle.

"Mas, pela graça de Deus, eu poderia ter sido posta em um grupo experimental", diria Donna Lee Hughes Collings, outra órfã, 62 anos mais tarde. "Poderia ter sido a minha vida a ser destruída".

Ansiosa por agradar: a esperança de uma nova mãe

Mary Tudor não conseguia mais lembrar-se do seu encontro com Mary Korlaske naquele frio dia de Janeiro.

Mary Korlaske, contudo, jamais esqueceu. Aquele fora um de seus melhores dias no orfanato. Ela pensou que Mary Tudor poderia ser sua nova mãe.

Korlaske, agora com 74 anos, lembrou-se daqueles dias em conversas que teve com um repórter durante os últimos seis meses. Quando ela foi localizada por eles, ela sabia ainda do que se tratava o experimento e nem o que havia acontecido durante aquele inverno e primavera de 1939. Nem sabia Collings ou os outros sujeitos do experimento que foram encontrados pelos repórteres.

Mas muitos deles lembravam-se com clareza seus anos de orfanato -- nenhum deles mais do que Mary Korlaske.

Ela ainda se lembrava o quão bela Tudor parecia pra ela -- alta e elegante, com cabelos negros ondulados e agradáveis olhos castanhos. A estudante lembrava a Korlaske de sua própria mãe.

Mary vinha vivendo no orfanato já faziam cinco anos. Sua mãe a havia mandado para lá junto com seus dois irmãos mais velhos quando ela tinha 7 anos de idade. A Grande Depressão havia devastado a jovem família, varrendo Iowa e levando a falência fazendas e negócios em sua cidade natal, Emmettsburg.

Mary disse que enquanto órfã, ela ficava recordado do último dia em que ficara em seu lar e tentava compreender o motivo pelo qual havia sido mandada embora. Aquele dia havia começado de maneira gloriosa: sua mãe a levara para a cidade e comprara pra ela uma bela bolsa de oleado e um lenço branco novinho. Mas quando elas chegaram em casa, sua mãe a introduziu em um carro preto que a aguardava.

"Você ficará a salvo", disse ela a sua garotinha. Ela lhe deu um dedal prateado. "Você irá se sair bem".

A medida que o carro se afastava, Mary apertava com força o dedal e observava a sua mãe da janela traseira.

Cinco anos mais tarde Mary Korlaske conhece Tudor. Ao longo do experimento ela ficava imaginando se Tudor era casada e se tinha algum filho. Ela esperava que Tudor viesse a adotá-la. Ela se lembra de esperar impacientemente durante a escola para ser chamada para as sessões de 'terapia de fala', e seguir orgulhosa Tudor até a sala de testes. Para dar uma boa impressão, Mary falava bastante.

Terapia Negativa: criando a ansiedade

Os experimentos ocorreram a tanto tempo atrás que as pessoas envolvidas precisavam se esforçar para lembrar dos detalhes.

As memórias de Tudor eram impressionistas. Ela lembra-se de virar as noites e sentir-se deprimida quando ela encontrou as crianças esfregando e varrendo o chão e trabalhando no orfanato. Ela se lembra de instalar a sala experimental no prédio que servia de escola e de chamar as crianças uma a uma.

Mas ela manteve centenas de páginas de registros do experimento, incluindo transcrições de gravações de um dictafone. Os documentos proviam uma clara visão clínica de como as crianças foram usadas.

A primeira sessão experimental aconteceu em 19 de janeiro de 1939. Tudor perguntou para Mary Korlaske se ela conhecia alguém que gaguejava e Mary disse que conhecia uma menina chamada Dorothy Ossman. Então Mary começou a contar uma história para Tudor. No meio da história, Tudor a interrompeu quando ela fizera uma simples repetição, avisando a menina de 12 anos que ela não apenas estava começando a gaguejar, como também que, se ela não se esforçasse muito para parar com isso, ela iria se tornar uma gaga tão má quanto a Dorothy.

"Ela reagiu imediatamente à sugestão", notou Tudor no registro da sessão, "e as repetições em sua fala começaram a ficar cada vez mais frequentes".

Então Tudor deu a Mary um conselho que ela disse que ajudaria. De fato, era terapia negativa, planejada para fazer a menina mais consciente de sua fala:

"Respire antes de falar a palavra se você acha que irá gaguejar. Pare e comece novamente se você gaguejar. Ponha sua língua no céu da boca. Não fale a menos que você consiga falar corretamente. Observe a sua fala durante todo o tempo. Faça o que for preciso para não gaguejar."

Tudor notou que Mary era "facilmente influenciável". Suas sugestões envolveram Mary imediatamente e ela se tornou tão consciente de sua fala que na sessão seguinte ela já estava repetindo as palavras.

Em intervalos variados de uma ou duas semanas, Tudor retornava para novas sessões. Em março, as gravações do dictafone de Tudor mostravam que a fala de Mary havia deteriorado bastante. A garota demonstrava problemas marcantes com palavras começadas com "w", ou "s", ou "r".

Em uma transcrição subsequente, mary Korlaske havia regredido para sentenças incompletas. Tudor perguntou à menina: "Como está a sua gagueira, Mary?"

"Gagueira está parando."

"Como você sabe disso?"

"Porque eu escuto a mim mesma falar."

"E o que você escuta?"

"Eu escuto a mim mesma falando ah ah -- dizendo as palavras duas vezes."

"Você já havia escutado a si mesma antes?"

"Não, a professora tem me interrompido e me obrigado a repetir."

Tudor estava satisfeita com o reforço dos professores ao rótulo de gagos e à terapia negativa.

Mary dizia que estava tendo problemas nas aulas de leitura. Tudor notou que as interrupções na fala aumentavam de forma consistente no decorrer do experimento. Durante o período de quatro meses haviam mais que dobrado.

As outras crianças no grupo experimental de Mary apresentavam efeitos semelhantes. Norma Jean Pugh, de seis anos de idade, na primeira série, com seus cabelos castanhos-claro cacheados e grandes olhos azuis falava de forma fluente e correta no início do experimento. Ao final ela mal conseguia falar.

Sua fala havia começado a se tornar hesitante e trêmula e ela cobria seu rosto e se curvava em sua cadeira durante as sessões, conforme as anotações de Tudor. Ela sabia exatamente quando iria gaguejar. Durante uma sessão, ela começara a dizer a palavra "vermelho" [red em inglês] e mudara subitamente para "rosa" [pink em inglês] pois ela "estava com medo de gaguejar no 'vermelho'", anotou Tudor. Na sessão de 24 de abril a fala havia se tornado completamente desjuntada. Tudor pediu para que ela lhe contasse uma história e, depois de muito estímulo, Norma finalmente respondeu:

"Há uma jara. Há uma raposa. Está de casaco. Há uma árvore. Menininha. E há algumas flores. E há uma cerca. Xícara de chá. Vaso de flores." ["There's a jar. There's a fox. Got a coat on. There's a tree. Little girl. An' here's some flowers. An' there's a fence. Teapot. Flower bowl." -- no original.]

Ela havia gaguejado em palavas como "mão" e "pegar", e quando ela tentou ler "Os Três Ursos", ela gaguegou na palavra "mingau" ["porridge" em inglês], embora meses antes ela não havia apresentado problema algum para ler a história.

Elizabeth Ostert de nove anos e Phillip Spieker de 12 viram suas notas despencarem pois sentiam medo de falar durante as aulas. "É quase impossível fazer o menino falar em uma situação que não seja a hora da brincadeira", escreveu Tudor.

Outros meninos do orfanato começaram a atormentar Clarence Fifer, um menino gordinho de 11 anos, por causa da gagueira. Durante o experimento Clarence se transformara de normal em "trêmulo e atrapalhado", reportou Tudor. E os meninos do recreio também perceberam a mudança.

"Eles meio que riram", relatou ele para Tudor em uma sessão gravada.

"E o que você fez?"

"Eu me afastei."

"Isso te incomodou muito?"

"Sim, me senti muito mal."

Hazel Potter, uma menina magrinha de 15 anos de idade, estava apresentando efeitos ainda mais severos. "Durante o período experimental ela começou a desenvolver maneirismos característicos de pessoas gagas, como estalar os dedos para conseguir pronunciar uma palavra... e ocasionalmente ela apresentava o fenômeno de escrever a mesma palavra duas ou três vezes em suas redações", relatou Tudor.

Na primavera o experimento havia se tornado emocionalmente e fisicamente desgastante para Tudor. Ela estava tendo dificuldades de manter a imparcialidade científica que seu orientador havia muito lhe recomendado. Em muitas de suas anotações ela começara a se referir às crianças pelos nomes, subsequentemente riscando os nomes e substituindo pelos números.

Depois de cada sessão, ela deixava o orfanato mais desiludida pelo efeito que o experimento estava tendo sobre as crianças. Ela lembra de entregar os resultados para Johnson torcendo para que ele interrompesse a pesquisa. Mas ele parecia cada vez mais excitado depois de cada sessão.

"Eu não gostava do que eu estava fazendo para aquelas crianças", lembra-se Tudor. "Era difícil, uma coisa horrível. Hoje eu provavelmente teria desistido. Naquele tempo eu fazia o que me mandavam fazer. Era uma missão. E eu a cumpri."

Em 24 de maio de 1939 Johnson dirigiu até o orfanato com Tudor e uma equipe de patologistas da fala para ver em primeira mão os testes finais dos 22 órfãos. Nos grupos experimentais, sujeitos à terapia negativa, a fala havia deteriorado em cinco das seis crianças que falavam normalmente e em três das cinco crianças que gaguejavam. Nos grupos de controle apenas uma das crianças apresentava mais interrupções na fala ao final do experimento.

Tudor não se lembra de falar com Johnson sobre o experimento após a sessão final. Ela se lembra apenas das longas horas que se passaram, ao final do experimento, transcrevendo as gravações do dictafone e contando e arquivando cada irregularidade na fala das crianças.

Ao final do verão sua tese de 256 páginas estava pronta. O experimento havia acabado. Ela ingressou no trabalho de terapeuta da linguagem no nordeste de Wisconsin, a um dia de distância do orfanato de Iowa.

Mas os órfãos lá ficaram, e as professoras e responsáveis continuaram com a terapia negativa que haviam aprendido.

"Quando deixei o orfanato, o experimento havia acabado para mim", disse Tudor. "Aparentemente não havia acabado para aquelas crianças."

No Pacote: uma acusação

Seis décadas mais tarde, Mary Tudor ainda é assombrada por ter transformado crianças em adultos gagos e ter deixado elas sozinhas para lidarem com o problema.

"Não posso ver o rosto dos órfãos, mas eu me lembro do orfanato e de onde eu passava as noites. Se você realiza um estudo como aquele, você jamais esquece", disse Tudor.

Um pacote inesperado de Mary Korlaske que havia chegado em março trouxe a Tudor amargas memórias em um doloroso foco.

Tudor lentamente rasgou o envelope. Dentro havia uma carta e outro pacote -- pequeno e de formato curioso, fortemente amarrado em papel de curativo com fita médica branca.

Ela segurou a grossa fita, mas não conseguia abri-la. Então ela resolveu ler a carta de três páginas primeiro. Após ler ela dobrou a carta na forma de um pequeno quadrado.

A escrita era confusa e as vezes incoerente. Haviam muitos erros de ortografia. Mas a mensagem era clara.

"Você destruiu a minha vida", dizia a carta. "Eu poderia ter sido uma cientista, uma arqueóloga ou mesmo presidente. Em vez disso eu me tornei uma pobre gaga. As crianças me atormentavam, minhas notas despencaram, eu me sentia burra. Durante toda a minha vida adulta, até o dia de hoje, eu tenho evitado o contato com as pessoas".

Os olhos castanhos de Tudor estavam embaçados. Suas mãos tremiam. E ela observava o pacote, que permanecia fechado sobre a mesa de jantar.
* Atualização: ler os comentários.

* Atualização 2: Os primeiros genes para a gagueira: este problema comum da fala, em alguns casos, pode ser uma desordem metabólica herdada - ScienceDaily (11/02/2010) - A gagueira pode ser o resultado de uma falha em um processo diário pelo qual os componentes celulares em regiões-chave do cérebro são metabolizados, diz um estudo do dia 10 deste mês do New England Journal of Medicine. Fonte: ScienceDaily
Link para o artigo no NEJM: Mutations in the Lysosomal Enzyme-Targeting Pathway and Persistent Stuttering (10.1056/NEJMoa0902630)
Outros artigos disponíveis on-line sobre a gagueira (citados pelo artigo acima):
Genetic factors in stuttering confirmed. 1991. [Free Full Text]
Genetic etiology in cases of recovered and persistent stuttering in an unselected, longitudinal sample of young twins. 2007. [Free Full Text]
Epidemiological and offspring analyses of developmental speech disorders using data from the Colorado Adoption Project. 1997. [Free Full Text]
Stuttering in families of adopted stutterers. 1961. [Free Full Text]
Early childhood stuttering. I. Persistence and recovery rates. 1999. [Free Full Text]

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pesquisa sobre Dilemas Morais

Estava lendo o Blog Around the Clock e, por meio dele, fiquei sabendo de uma pesquisa que está sendo realizada por um filósofo e um psicólogo, visando comparar o desempenho de pessoas de todas as áreas ao desempenho de filósofos em dilemas morais. Quem quiser participar, basta acessar este link.
Eu mesmo já respondi as perguntas, mas resolvi traduzir alguns para ficar matutando o problema sobre outros ângulos, conforme vou postar. Se forem participar da pesquisa, não se deixem influenciar pelas minhas decisões. (;

Você faz parte de um grupo de ecologistas que vive em uma parte remota de uma floresta. O grupo inteiro, que inclui oito crianças, é tomado como refém por um grupo de terroristas paramilitares. Um dos terroristas começa a gostar de você. Ele lhe informa que o líder dos terroristas está planejando matar a você e a todos os reféns, assim que amanhecer. O terrorista se dispõe a ajudar você e as crianças a fugir, mas exige que você, num ato de boa fé, mate um dos reféns com o qual ele não simpatiza. Se você recusar a oferta dele, todos os reféns irão morrer, incluindo você e as oito crianças. Se você aceitar a oferta dele, então os outros reféns irão morrer pela manhã, mas você e as oito crianças irão poder escapar. Você considera que matar o colega refém é moralmente aceitável ou moralmente inaceitável?
Para responder a esta questão, é preciso analisar diversos pontos. Em primeiro lugar, que isto é um exercício mental, com algumas regras estabelecidas e bem determinadas, diferente da vida real. Segundo o que foi proposto, é fatalístico que todos irão morrer caso a oferta não for aceitada. Disso se exclui a possibilidade, por mais remota que fosse, de uma outra solução fora as mencionadas. Na vida real, dificilmente é possível excluir algum imprevisto que modifique a situação radicalmente.
Contudo, vamos supor que analisando todos os aspectos da situação, uma mudança durante o decorrer da noite fosse altamente improvável, que fosse quase que uma certeza absoluta a execução de todos tão logo o dia raiasse.
Neste caso, é preciso se colocar no lugar do colega a ser executado. Se você estivesse no lugar dele, e fosse ele que iria fugir com as oito crianças, você acharia justo ser executado para tanto?
Levando em conta a certeza da execução pela manhã, morrer algumas horas antes para que um colega e oito crianças se salvem, me parece justo e moral. No lugar do colega, eu aceitaria ser executado para este intento, até mesmo pelo motivo de que tudo o que eu perderia seriam algumas horas de cativeiro.
Mas a análise não deve parar por ai. Sendo o indivíduo a ser executado, um colega, supõe-se que você o conheça. Segundo o tanto que você conhece daquele indivíduo, você acha que ele consideraria justo e moral ser executado para que você e as outras oito crianças sobrevivam?
É uma pergunta de certa forma relevante. Você jamais vai poder afirmar, com absoluta certeza, que ele acharia justo ou injusto, pois você não está na mente dele e o exercício proposto não lhe dá a opinião de perguntar o que ele pensa a respeito. Neste caso, você teria de confiar naquilo que você acha que ele pensa, e no tanto que você conhece ele.
Supondo que você chegue a conclusão de que ele também, assim como você, acharia justo morrer para que você e as oito crianças se salvem. Neste caso, é com pesar que você iria executar o colega mas estaria fazendo a coisa que você acha que ele pensa ser certo, e que você também pensa ser certo.
Mas supunha que, pela convivência que você tem com ele, você acredite que ele não iria achar justa e moral tal troca. Seja por ser um tremendo covarde, seja por ser completamente egoísta, ele iria recusar-se a morrer, preferindo que todos morressem junto com ele na manhã seguinte. Neste caso, validaria também a execução, penso eu.
Outros fatores a serem levados em conta são: Será que ele iria executar você para se salvar e salvar as oito crianças? Será que ele iria pelo menos tentar pensar o que você pensou? Será que ele seria capaz de executar você para salvar apenas a si mesmo, caso não houvessem oito crianças a serem resgatadas? Será que você executaria ele para salvar apenas a si mesmo, caso não houvesse oito crianças a serem resgatadas?
Contudo, todas estas contingências fogem um pouco ao escopo delimitado pelo exercício. O que o exercício propõe é que se você matar um, você e mais oito crianças irão fugir e irão sobreviver. Neste argumento de bifurcação, a única opção apresentada é que se você não matar a ninguém, você, as oito crianças, o seu colega e o restante do grupo irão morrer no decorrer de algumas horas.
Neste contexto, colocando-se como você mesmo no lugar da pessoa a ser executada, e concordando que seria justo, e colocando-se no lugar da pessoa a ser executada, tentando imaginar o que ela pensaria a respeito, quer ela gostando ou não, continua parecendo ser justo.
Assim, levando em conta que se trata de um exercício de imaginação, e levando em conta as regras apresentadas por este exercício de imaginação, considero ser justo e moral a execução do colega - que segundo o exercício irá morrer de qualquer forma nas próximas horas - em troca da sobrevivência de oito crianças e da minha própria.


Uma epidemia viral se espalhou pelo globo matando milhões de pessoas. Você é um cientista e desenvolveu duas substâncias em seu laboratório caseiro. Uma destas substâncias você sabe que é a vacina, mas você não sabe qual delas. Você também sabe que a outra substância é um veneno mortal. Uma vez que você descobrir qual das substâncias é a vacina, você poderá usá-la para salvar milhões de vidas. Sob os seus cuidados estão duas pessoas, e a única maneira de descobrir qual das duas substâncias é a vacina, é injetando as substâncias nestas pessoas. Uma delas irá viver e a outra irá morrer, e você poderá começar a salvar vidas com a sua vacina. Você considera que injetar a substância nas pessoas é moralmente aceitável ou moralmente inaceitável?
Colocando o exercício na esfera da vida real, a impressão que tenho, no caso deste exercício, é que deve haver uma causa para o cientista não saber qual das substâncias é a vacina e qual das substâncias é um veneno mortal. A primeira causa provável me parece ser o descuido do cientista. Neste caso, moralmente aceitável seria que ele - no caso eu - injetasse a substância em si mesmo e arcasse com o risco e as conseqüências do próprio descuido. Bastaria escrever um recado assim: "Existem dois frascos a minha frente, um vazio e outro cheio. Caso você esteja lendo este bilhete é sinal de que me encontrou morto, desta forma, o frasco cheio é com certeza aquele que contém a vacina. Por causa do meu descuido misturei os frascos e, portanto, resolvi que deveria arcar com os riscos de identificar qual deles contém a vacina. Por favor, envie minha história para o Darwin Awards."
Caso eu sobrevivesse, teria solucionado o problema que criei e poderia descartar o bilhete. Caso eu morresse, seria justo - dada a situação, e os milhões de vidas ainda seriam salvas.
Mas o exercício não indica a causa para que se desconheça qual dos frascos contém o veneno mortal e qual dos frascos contém a vacina. Pode ser algum outro motivo qualquer, desde a prática inerente a produção inicial da vacina, até mesmo algum acaso qualquer que tenha ocorrido no laboratório, sem um responsável direto.
Neste caso é preciso mudar o foco da atenção para as duas pessoas sob meus cuidados. Serão elas pessoas que estão infectadas pelo virus pretensamente mortal? Ou serão pessoas saudáveis? Caso sejam pessoas saudáveis, acho que não justifica submetê-las ao risco. Neste caso, imaginando que tenha sido uma obra do acaso ou do processo a confusão dos frascos, acho que o próprio cientista deveria testar em si mesmo.
Caso sejam pessoas que estão infectadas é preciso perguntar quanto tempo elas têm de sobrevida. Digamos que a vacina faça efeito em duas ou três horas, e o vírus demore vários dias para matar uma pessoa. Eu poderia injetar o conteúdo de um dos frascos em uma das pessoas e esperar pelo resultado. Se fosse o frasco certo, ninguém morreria. Porém... Neste mesmo caso, é preciso perguntar se realmente é necessário submeter a pessoa a um risco de 50% de morte, uma vez que estou com a vacina em mão. Estando com a vacina em mão, e esta sendo identificável por outro meio, a morte daquela pessoa que antes era de uma probabilidade de 100%, cai para 0%. Não é o caso de uma pessoa que iria morrer... Novamente, acho que seria mais justo testar a vacina em si mesmo.
A não ser que ambas as pessoas contaminadas estivessem incapacitadas, que o virus tivesse uma ação muito rápida, e que ninguém fosse encontrar o bilhete a tempo de salvá-las. Neste caso, se eu me injetasse o conteúdo de um dos frascos e viesse a morrer, aquelas duas pessoas morreriam também. Assim sendo, se este fosse o caso, seria preciso perguntar o quão rápida é a ação do vírus e do veneno. Digamos que o prognóstico fosse de que as pessoas fossem sobreviver por mais 3 horas, e que para ação do veneno demorasse 4 horas. O que fazer? Acho que aqui fica bastante evidente, a pessoa que fosse usada de cobaia ficaria impossibilitada de morrer por ação do veneno, esta é uma possibilidade de 0%. E como ambas as pessoas morreriam de qualquer forma, seria inútil se submeter a um risco desnecessário. Neste caso justifica injetar o conteúdo dos dois frascos, um em cada pessoa infectada, e salvar uma delas, já que seria impossível salvar ambas: se eu injetasse apenas em uma pessoa, ambas morreriam antes que eu pudesse determinar qual é a vacina e qual é o veneno. Se eu me injetasse e viesse a morrer, os três morreriam.
Outro fator complicante é: se eu me injetasse e viesse a sobreviver, eu poderia fabricar mais vacina em tempo de salvar as outras duas pessoas? Se sim, neste caso estaria submentendo a eu mesmo e a aquelas duas pessoas, a três pessoas, a uma chance de 50% de sobrevivência. Se não, apenas eu sobreviveria e as outras duas pessoas morreriam de qualquer forma. A situação delas ficaria inalterada na espectativa de 100% de chance de morrer.
Mas isso tudo são extrapolações, feitas apenas para estudar a moral subjacente ao problema proposto pelo exercício. Voltando ao exercício em si, o que este propõe? Apenas duas linhas de ação: ou injeto as substâncias em ambas as pessoas e salvo uma, ou não injeto as substâncias em nenhuma das pessoas e ambas morrem. Por tabela pode se dizer que neste caso morrem outros milhões de pessoas que estão infectadas, e possivelmente outras pessoas que vierem a se infectar.
Qual dos casos estudados na extrapolação parece ser este? Me parece o caso no qual é necessário que o cientista viva por alguma razão qualquer, para que a vacina possa ser produzida. E me parece ser o caso de que se o cientista viesse a morrer, por qualquer razão, a vacina não seria produzida e todos morreriam. No exercício também não fala se as pessoas sob os cuidados do cientista são saudáveis ou não, logo há de se supor que sejam. Qual a situação real que se coloca em vista então? Existem três pessoas saudáveis e milhões de pessoas morrendo. Duas podem ser colocadas sob um risco de 50% de morrer, para salvar outros milhões de pessoas. Uma delas irá certamente morrer, a outra vai sobreviver. Não existe outra opção para salvar o restante das pessoas. É... O que resta é me colocar no lugar das pessoas que terão de servir de cobaia. Acharia eu ser justo me submeter a um risco de 50% de morrer para que outros milhões de pessoas sobrevivessem, sabendo que não há outra escolha para tanto? Sim, acharia. Se eu fosse uma das pessoas sob os cuidados do cientista, eu me submeteria a tal risco.
Enfim, levando em conta que o exercício não abre nenhuma outra possibilidade, acho que é justo e moral sejam injetadas as duas substâncias, uma em cada pessoa.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Resumo crítico dos três primeiros capítulos do livro Psicologia Social Contemporânea

História (Psicologia Social)


O autor propõe uma abordagem da história da Psicologia Social com a utilização de uma lógica que transcenda a tradicional visão centrada no Positivismo, tomando a Psicologia Social como um fenômeno norte-americano, embora europeu em suas raízes, para então finalizar com um apanhado dos desdobramentos que tal fenômeno teve no contexto brasileiro.

Seu método de relato é histórico relativístico: são consideradas as limitações do historiador, ou daquele que conta a história, em razão dos vieses que carrega consigo e que lhe foram transmitidos por aquele que lhe contou a história que pretende agora relatar. Existe uma noção de “história ideal” e “história de fato”, diferenciada pela percepção incutida no povo por aqueles que estão no poder e por aquilo que os registros factuais são capazes de revelar.

Como ponto de partida o autor trata daquele que é considerado o pai da Psicologia no mundo Ocidental, Wilhelm Wundt (1832-1920). Wundt havia se proposto a dar nascimento à Psicologia experimental da mente, tornando a Psicologia independente da Filosofia, uma vez que esta era um campo de estudo filosófico em Leipzig, e iria fazer isso sendo extremamente metódico em suas investigações experimental-introspectivas da experiência imediata à consciência, seu objeto de estudo. Por meio do uso de uma Lógica, de uma Ética e de Sistemas Filosóficos, tudo na melhor tradição filosófica, Wundt criaria um corpo teórico metafísico para sua nova ciência.

Tais procedimentos trouxeram a crítica dos positivistas, que seguiam o pensamento de Auguste Comte, segundo o qual uma Ciência Metafísica não seria justificável pois seria um oximoro, na sua concepção, com o perdão da redundância. Para aqueles que seguiam o pensamento de Comte, um homem muito doente e atormentado, havia três estágios para o desenvolvimento do conhecimento humano: o teológico, baseado em crenças e superstições; o metafísico, baseado na lógica filosófica; e o científico, que seria um corpo de conhecimento experimental a posteriori, calcado no rigor científico. Wundt era rigoroso, porém falhou ao escolher a mente, ou a consciência, na forma de experiência imediata consciente, como objeto de estudo. Esta seria sua única falta ao método científico.

Contudo, a mesma crítica que é feita pelos positivistas àquilo que vieram a chamar amplamente de mentalismo, também revela uma falha muito simples no próprio pensamento positivista: o método científico depende do rigor lógico da Matemática, ciência amplamente aceita desde a Antiguidade Clássica, como modelo de lógica para qualquer corpo teórico científico. Mas a própria Matemática é uma abstração, uma representação mentalista estruturada e organizada da realidade e dos objetos reais – e também dos irreais – que o ser humano consegue perceber e conceber.

A questão que fica para a História, com a leitura destas críticas, é: só porque um conhecimento não pode ser comprovado empiricamente ele deve ser desprezado por aqueles que fazem ciência? Levaria quase 200 anos para que a tecnologia alcançasse um estágio em que pudéssemos ter as primeiras visões do funcionamento da mente humana, mas teria tal tecnologia se desenvolvido e, ainda que tivesse se desenvolvido, teria ela um corpo teórico coeso para ser confirmado ou refutado que lhe desse sentido, caso os estudos mentalistas tivesse sido simplesmente abandonados?

Pessoalmente acredito que a intensão dos positivistas era, em grande parte, boa, e o método científico na sua formulação original trouxe imensos benefícios para a aquisição do conhecimento cientifico em geral; contudo o radicalismo exacerbado sempre trás conseqüências funestas, tanto para aqueles que são radicais, que por mais contribuições que tenham feito ficarão com uma mancha de preconceitos em suas histórias, quanto para aqueles que buscam conhecimento em áreas nas quais a tecnologia não oferece os recursos necessários para a confirmação experimental.

Acredito que todo estudo é válido desde que respeite tanto quanto possível o método científico, a ética científica, os valores sociais vigentes e siga uma lógica extremamente rígida e baseada nos preceitos da Filosofia e das Ciências Naturais. Desta maneira eliminamos grande parte das verdadeiras pseudociências – estas dificilmente sobrevivem ao rigor lógico, sem abrir mão daqueles campos de estudo que são honestos e sérios, mas carecem de meios para sua comprovação.

Num apanhado geral, o positivismo teve mais aspectos positivos do que negativos para a ciência dos Séculos XIX e XX, suas críticas são um constante lembrete, a todos os cientistas, da necessidade de seriedade e metodologia em suas investigações.

Mais um exemplo de como isso ocorre, é na crítica à Psicologia Social de Wundt, a Volkerpsychologie, que por carecer de métodos de amostragem válidos para testar suas hipóteses, apresentava, neste caso, uma falha em sua lógica. Todos os seus achados eram sujeitos a estarem inferindo na população uma característica obtida por meio de uma amostra não representativa, criando uma falácia de composição.

É preciso distinguir os pontos onde o “repúdio positivista de Wundt” são justificados, como é o caso das críticas aos aspectos falhos na lógica de seus métodos de investigação, e os pontos onde tal repúdio é abusivo, quando critica um objeto de estudo válido, importante, porém carente de meios tecnológicos para um estudo apropriado.

O segundo ponto levantado pelo autor, é a questão da criação de um cenário de “nascimento” para a Psicologia, colocada de forma um tanto caricata mas fiel à maneira como é ensinada nos cursos de História da Psicologia. A crítica que o autor faz não é realmente a este cenário criado mais com fins didáticos e celebrativos do que propriamente políticos ou filosóficos, mas sim à atribuição da paternidade da Psicologia Social à Auguste Comte. Neste ponto concordo inteiramente com a crítica do autor, uma vez que não podemos dissociar a Psicologia, qualquer Psicologia, dos aspectos subjetivos humanos, sejam eles enquanto indivíduos ou enquanto grupo, sob o risco de tratar humanos como menos do que humanos, como coisas. A existência dos trabalhos anteriores à Comte em Psicologia Social, e as diferenças de abordagem e interesses no ser humano nos campos da Sociologia e da Psicologia, fazem com que a atribuição de “paternidade” à Comte possa levar a enganos e a precipitações nos procedimentos de estudo no campo da própria Psicologia Social.

No terceiro ponto, o autor trata do florescimento da Psicologia Social durante a Segunda Grande Guerra, onde suas aplicações militares foram exploradas, sem deixar de dar frutos que foram utilizados, posteriormente, para o bem e para o mal da população civil. Ao lembrar do julgamento de Nuremberg, não fica difícil entender o motivo pelo qual a Psicologia Social veio a ser um fenômenos tipicamente norte-americano: nas guerras os vencedores nunca são criminosos e muito menos culpados de coisa alguma, independente do que tenham feito; já os derrotados serão sempre maldosos, perversos e ricos objetos de estudos para a criação de teorias da parte dos cientistas do lado vencedor, os quais, muitas vezes, realizam tal estudo com uma forte intensão não explicitada de tripudiar sobre os derrotados e usar seus aspectos culturais contrastantes para fortalecer o sentimento cultural dos vencedores.

Os campos de concentração para judeus, na Alemanha, são amplamente conhecidos e se transformam em museus masoquistas para um povo que continua a amargurar os erros de uma ou duas gerações anteriores, ainda que seja um princípio jurídico universalmente aceito em todos os países ditos “livres” de que as conseqüências ações criminosas dos pais não devam ser carregadas pelos filhos, e muito menos pelos netos. Já os campos de concentração para imigrantes japoneses criados pelos Estados Unidos também durante a Segunda Grande Guerra, estes são pouco conhecidos, em especial no Brasil. O que dizer, então, dos modernos campos de concentração como Guantánamo Bay? Ah, estes são conhecidos como “Centros de Detenção para prisioneiros extrajudiciais dos Estados Unidos”...

A guerra favoreceu os norte-americanos não apenas com uma história para contar, mas também com a mão-de-obra especializada para realizar tal tarefa, com um grande número de cientistas judeus que imigraram para os Estados Unidos fugindo dos terrores nazistas e, ao final da guerra, um grande número de cientistas alemães que imigraram mais ou menos voluntariamente em uma corrida pela assimilação do maior número de cientistas que houve entre os Estados Unidos e a União Soviética.

O poderio econômico norte-americano, representado no texto pelas grandes universidades, também teve papel vital no surgimento da Psicologia Social como conhecemos hoje. Não fossem os vastos recursos financeiros para pesquisa, o avanço nas áreas da Psicologia Social teria sido bem mais lento. E foi em solo americano que se deu o encontro entre o pragmatismo daquilo que era feito nos Estados Unidos até então, com a abordagem fenomenológica, vinda da Gestalt alemã.

Os motivos que levaram, durante anos, aos escritores de livros-textos (ou handbooks) de Psicologia Social, na sua maioria norte-americanos, a ignorarem o pesamento Europeu e, em especial, o pensamento Histórico-Marxista, são um tanto óbvios: tais livros foram escritos a décadas atrás, alguns datando do período da Guerra Fria, e então são apenas revisados, ampliados e republicados, sob a supervisão dos mesmos autores originais. Seria, na verdade, surpreendente tais autores falando qualquer coisa positiva que fosse sobre o Marxismo ou mesmo valorizando o pensamento do “Velho Mundo”. Pelo menos é esta a interpretação que faço daquilo que o autor brasileiro descreve como sendo, praticamente, uma conspiração positivista. Tal conspiração, por parte dos positivistas, seria muito mais evidente na Europa Anglo-Saxônica, no obscurecimento das obras metafísicas e alquímicas do grande herói da Física, Isaac Newton, pela intelectualidade acadêmica.

O autor também trata das teorias de George Mead sobre o Behaviorismo Social, sobre o comportamento social na forma da linguagem. Tais teorias vem sendo resgatadas por psicólogos cognitivos, psicólogos sociais e até por filósofos e neurologistas que se preocupam com aspectos individuais e sociais da consciência e do comportamento humano.

Ao finalizar o terceiro ponto, o autor faz uma citação de Farr, na qual chega a criticar o viés da Filosofia da Ciência na narração da história da Psicologia. Acho que há uma superestimação por parte do autor quanto a importância de tal viés e uma subestimação quanto a importância do Positivismo. Não seria possível fazer ciência sem a Filosofia da Ciência, assim como a ciência moderna é inconcebível sem que as regras, trazidas com o Positivismo, existissem.

Ao final do texto o autor narra o surgimento da ALAPSO (Associação Latino-Americana de Psicologia Social) e da ABRAPSO (Associação Brasileira de Psicologia Social), para suprir a demanda por adequação, contextualização e regionalização dos estudos de Psicologia Social, além, é claro, de interesses políticos justificados, sendo o autor, ou nem tanto, da maneira que vejo.

Quando se fala em ruptura, se passa a idéia de cessação de trocas, afinal, aquilo que se rompeu não faz mais contato com o todo. Gostando ou não, os norte-americanos são e continuam sendo um pólo produtor de conhecimento, com investimentos em educação e pesquisa muito superiores aos dos países latino-americanos e a cessação de troca com tal pólo seria não apenas uma temeridade mas, também, um retrocesso. Sou a favor de copiar e adaptar, dando o devido crédito a todos os intermediários do processo, assim se faz a construção do conhecimento e, de fato, é assim que tem sido feito. Pelo menos em parte.

Não é raro ver em sites especializados algum autor brasileiro publicando um trabalho “inédito” que não e mais do que uma tradução e adaptação de algum trabalho norte-americano anterior. Infelizmente isso faz parte da realidade de um país onde os investimentos da educação e na pesquisa ainda são muito escassos e mal direcionados. Exemplo disso é a continuada desvalorização da educação de base: enquanto ninguém questiona a proficiência de instituições como a USP, a UNICAMP, o ITA e outras tantas instituições de ensino superior público, o ensino de base não conta com escolas que sejam referencias de mesmo peso. Escolas técnicas que gozavam de excelência e eram um referencial tem seus recursos destinados sendo diminuídos, e escolas de ensino primário, quanto a essas é até difícil falar, pois o ensino primário público no Brasil é extremamente carente de atenção das autoridades.

Contudo o autor discorda desse meu ponto de vista, afirmando que a produção de conhecimento no Brasil não deixa nada a desejar em relação ao restante do Ocidente. Afirmação esta que pode ser facilmente refutada por meios quantitativos ou qualitativos de pesquisa e indexação da produção acadêmica Ocidental. Para citar apenas um ponto que corrobora com isso, basta lembrar que algumas das pesquisas de ponta realizadas por pesquisadores brasileiros são patrocinadas e vinculadas a instituições estrangeiras, sendo publicadas inicialmente na língua inglesa, isso quando chegam a ser publicadas em português.

Outra frase do texto que me incomoda muito é a seguinte: “Contextualizada, histórica, preocupada com a cultura, valores, mitos e rituais brasileiros e latino-americanos em geral, já não vêem mais a necessidade de importação desenfreada de teorias e métodos cientificistas.” É difícil compreender tanta raiva por parte do autor contra o método científico, uma vez que é muito difícil pecar por usar demais tal método, mas é extremamente fácil pecar pela falta no uso do mesmo. Com tudo isso fica fácil compreender as críticas à abundância de artigos, teses e pesquisas que vêm sendo feitos e que abordam assuntos completamente irrelevantes, que não causaram nenhum acréscimo digno de nota ao conhecimento científico existente e que, muitas vezes, não passam de releituras de obras anteriores.

Em tempos de super-acesso à informação (graças aos norte-americanos também), nenhum tipo de pesquisa científica pode ser subestimada, seja uma pesquisa realizada no Brasil, na Argentina, no Chile, em Angola, em Mali, ou em qualquer país do mundo, seja um país em estado de calamidade ou em desenvolvimento. Mas mais do que isso, subestimar e “romper” com pesquisas de países que possuem recursos que não possuímos, é prepotência na melhor das hipóteses. O próprio Pedrinho Guareschi, outro grande defensor do social e do popular, deve muito de sua formação e de seu reconhecimento a estudos realizados no exterior.

Termino minhas críticas às observações históricas e científicas feitas pelo autor do texto, lembrando da dificuldade de encontrar material relevante e de qualidade sobre a própria história da Psicologia brasileira. No semestre passado tivemos de fazer um trabalho sobre isso, e as principais publicações sobre o assunto, incluindo livros e artigos, eram restritas a um punhado de autores muito repetitivos que focalizavam em uma série de fatos de pouca ou nenhuma relevância para o acréscimo do conhecimento teórico em Psicologia. Também no relato – moderno – da história da Psicologia brasileira, existe um passado longínquo subestimado, com algumas contribuições de grande importância, e uma breve contemporaneidade superestimada carente de grandes contribuições. Em algumas fontes sobre a história da Psicologia brasileira o passado nem ao menos é mencionado, à semelhança do que foi feito nos Estados Unidos.

O autor encerra com recomendações de leitura e mais uma crítica à Psicologia Social norte-americana que me parece completamente infundada, de que nos Estados Unidos se dá ênfase à uma Psicologia Social voltada para o indivíduo em detrimento ao social. Hum, sim. É verdade, nos Estados Unidos, os psicólogos que estudam e se especializam na Psicologia Social realmente possuem esta ênfase. Contudo lá existe a Psicologia Social enquanto campo de estudo da Sociologia, também conhecida como a Psicologia Social Sociológica. Neste outro campo de estudo, sociólogos dão ênfase ao social. No Brasil, apenas psicólogos estão permitidos a realizar tais estudos e já existe pelo menos um artigo que aponta para a possível falta de diálogo interdisciplinar entre psicólogos e sociólogos por conta da impossibilidade destes últimos de se especializarem nesta área.

Concluo este resumo e minhas reflexões a cerca do que li afirmando que o texto é interessante, bem escrito, traz algumas informações muito boas, mas peca pelo excesso de etnocentrismo, excesso de críticas ao cientificismo, críticas desprovidas de argumentos à Filosofia da Ciência e algumas afirmações que não condizem com a realidade factual brasileira.


BERNARDES, Jefferson de Souza. História. In: Psicologia Social Contemporânea. Marlene Neves Strey (org.). 10ª ed. Petrópolis : Vozes, 2007. pg. 19, 35.





Epistemologia (Psicologia Social)



Começarei este resumo traçando um mapa de argumento da introdução da autora:



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Partindo da premissa que aponta para a necessidade de uma análise dos caminhos do desenvolvimento científico que nos levaram até onde estamos para que possamos ter uma previsão de para onde tal desenvolvimento está nos levando, os argumentos da autora sustentam que o curso da ciência é determinado historicamente e que, portanto, é preciso um estudo que aponte para quais são os fatores que determinam este curso.



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Neste segundo mapa de argumento podemos ver que a autora parte da premissa do poder adquirido pela ciência como uma reação, presumivelmente, às agruras da Idade das Trevas e que, ao mesmo tempo que é reveladora de verdades objetivas, também revela as limitações e falhas do ser humano.

A importância de traçar estes dois mapas de argumento iniciais é a busca de silogismos que fortaleçam o posicionamento da autora, coisa que não foi encontrada, e, como diriam alguns filósofos, atomizar sua linguagem para descobrir do que são formadas suas idéias. Mesmo carecendo de argumentos fortes para sustentar suas premissas e conclusões introdutórias nestes dois parágrafos inicias, a autora não entra em contradições em sua linha de raciocínio.


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A autora conclui a introdução partindo de uma premissa que se utiliza da definição da epistemologia e argumentando que a virada do século e do milênio, juntamente às novas perspectivas para discussão das transformações sociais e humanas e, retomando, o poder e o método científico, devem ser guiados por um juízo ético, concluindo que este juízo se faz necessário para que a ciência traga bons frutos.

Podendo analisar argumento por argumento, ainda que sejam vagos como é característico das introduções de ensaios das áreas humanas, penso que o único que não se sustenta é aquele que usa a passagem cronológica do tempo, apontada na virada do século/milênio, para justificar o juízo crítico para com a ciência. Tal juízo, obviamente, deve ser constante, independente da contagem da passagem do tempo praticada no mundo ocidental, caracterizando, assim, o único argumento fraco na introdução da autora. A epistemologia está tão arraigada ao método científico, que se dá a conhecer neste por seus requisitos de falseabilidade e contra-prova.

Fora isto, a argumentação introdutória levantou pontos interessantes, como a determinística dos rumos científicos, influenciados pelo contexto histórico em que se dão, os limites morais da ciência pela ciência e a necessidade do juízo ético justamente para contrabalançar tais limites.

Seguindo com o texto, a autora aborda a crise pela qual passa a Psicologia Social, como um ponto de mudança, que pode ser positivo se forem considerados os aspectos corretos, tais como o aumento da complexidade e o parco corpo teórico que explique as questões constituintes desta complexidade. Um interessante comentário é feito quanto a adaptação ou acomodação de conceitos e interpretações, prática que se mostra inadequada, sendo necessário, muito bem colocado pela autora, repensar os fundamentos da própria reflexão psicológica – ou seja, repensar o modo de repensar tais conceitos e interpretações – para um mundo singular no que tange a globalização, virtualidade, diversidade, etc.

O paradoxo da contemporaneidade que estamos vivenciando se dá, parafraseando a autora, pela duração do passado e pela obcecada tendência pela instantaneidade. Nas ciências, em especial nas humanas e, mais especialmente ainda nas ciências humanas com grande penetração política, as mudanças ocorrem num ritmo muito mais lendo do que os paradigmas científicos e sociais são derrubados pelo trabalho de pesquisa e de inovação, e pelo impacto dos resultados destes trabalhos nas sociedades. O que temos, então, são regras ultrapassadas, de um passado relativamente distante, para uma realidade nova, que se acelera em distanciar-se das características do passado no qual foram fundamentadas tais regras que serão utilizadas para ajuizar o avanço científico e social; o que temos é um futuro que se torna presente cada vez mais rápido e cujos únicos observadores vivem no passado, com possuem uma visão que se torna cada vez mais turva dada a distância crescente imposta por seus passos lentos. Isso trás a perda da confiança na epistemologia, pois ela se torna incapaz de compreender o presente e, desta maneira, incapaz de estabelecer um juízo crítico adequado.

A autora levanta, então, a questão de como podemos intervir numa crise que já vez se arrastando a tempos e que se faz cada vez mais evidente. Tal questão começa a ser trabalhada ao apontar alguns fenômenos transformadores, como a derrubada da sua formulação verificacionista – conhecimento a posteriori, experimentação e observação –, também naturais, nas bases neopositivistas.

Pessoalmente não acredito nesta derrubada, coisa que se confirma na contradição em que a autora entrará mais adiante no texto ao apontar a permeabilidade da Psicologia Social ao Positivismo Lógico. O que houve foi uma tênue adaptação no hemisfério do norte no mundo ocidental, que se fez notar em todo o “mundo civilizado”, no que diz respeito ao pensamento pragmático e seu rompimento com o positivismo radical motivado pelas limitações óbvias neste, algumas que chegam a induzir ao erro.

Além das mudanças metodológicas, o aspecto construtivista do conhecimento, assim como suas considerações reflexivas e sócio-econômicas, se tornam importantes para que se possa pensar em modificações na epistemologia, coisa que já encontra-se em um clima propício segundo a autora. De fato, na academia, tais mudanças são notadas, mas até que ponto o mesmo é verdadeiro na realidade social e no quanto aquilo que é trabalhado academicamente se faz notar na sociedade?

Ao retomar as questões metodológicas, a autora transparece sua premissa de que a natureza não é um mecanismo determinístico o que, em parte, é verdadeiro, porém jamais teríamos ciência sem esta abordagem. O que ainda se faz necessário quanto ao método científico é a relativização das leis que são consideradas universais, em especial nas ciências sociais, e uma maior agilidade na adaptação dos conceitos derivados da epistemologia ao direcionar o avanço científico e aceitação teórica.

As pretensões funcionais e utilitárias, apontadas pela autora, nada mais são do que a prevalência do pragmatismo, reflexo cultural de uma potência econômica dominante. É preciso saber lidar e aceitar a incerteza, assimilando-a no corpo teórico quando necessário, ao invés de recorrer a sua negação. Isso vem sendo feito a décadas nas ciências naturais – desde a mudança de paradigma culminada por Einstein –, mas até o presente momento tem encontrado resistência nas ciências sociais, como apontado pela autora ao final de sua abordagem quanto a crise epistemológica.

A autora prossegue e se repete, ao falar de alguns efeitos trazidos pela crise, que podem se fazer sentir (academicamente talvez?) na Psicologia Social, como a margem para questionamento de acepções antigas e descentralizações na produção de conhecimento, maior espaço para debates interdisciplinares e a diversidade advinda destes, assim como a análise de seus resultados. O texto segue com muitos rodeios que se beneficiam do uso exacerbado de palavras-conceito sem adentrar no conceito em si, uso este que se reflete neste resumo e parece presente apenas para dar corpo ao ponto defendido pela autora. Os parágrafos seguintes podem ser “traduzidos” em pressupostos tais como:

  1. É preciso considerar a relativização do conhecimento científico-social, ver item 2;

  2. A ciência é contingente, e não auto-evidente – com relação ao que pode ser alcançado por meio da experimentação, já foi tratado no texto;

  3. A ciência é uma construção social e interdisciplinar – também já foi tratado no texto;

  4. O papel da percepção da realidade pela sociedade e a discrepância da descrição da realidade pelas ciências sociais, no caso a Psicologia;

  5. Ad infinitum (com termos variados para os mesmos conceitos)...

Em suma, a autora aponta para a imposição da realidade social e psicológica descrita pela Psicologia sobre aquele que a vivencia, ainda que divergente de tal vivência, como se dá por meio da definição de normalidade e anormalidade neste sentido, fazendo-se valer de seu status científico para tanto (ainda que este status não seja paradigmático, uma vez que suas escolas são concorrentes). Como solução para este impasse a autora aponta uma retomada histórico-filosófica da concepção de realidade social, identificando e valendo-se dos determinantes sociais para uma construção de um novo modelo mais aproximado para o uso na Psicologia Social.

Concluo que a autora apontou quais são as correntes que norteiam o rumo que a epistemologia deve tomar no âmbito da Psicologia, levantando questões importantes e observações relevantes; trazendo sugestões de resolução válidas, porém um tanto repetitivas e, por vezes, evidentes para tais questões. Ela poderia ter valido-se de uma linguagem mais coloquial e poderia ter explorado um pouco mais os conceitos abordados ao invés de repeti-los em uma argumentação circular (circulus in probando) de maneira exaustiva ao defender seus pontos.


FONSECA, Tânia M. G. Epistemologia. In: Psicologia Social Contemporânea. Marlene Neves Strey (org.). 10ª ed. Petrópolis : Vozes, 2007. pg. 36, 48.





Ética (Psicologia Social)



O autor inicia seu texto apontando para a predominância do pensamento liberal individualista na sociedade moderna, propondo uma reflexão crítica voltada para o âmbito da Psicologia, que permita uma visão de como este pensamento, esta atitude social, afeta a dinâmica das relações globais em sociedade.

Para que tal visão seja possível, propõe o autor, se faz necessária uma compreensão da ética seu papel na dinâmica social. Desta maneira são expostos dois paradigmas, ou duas visões, correntes, sobre a ética, uma tratada como lei natural e outra como lei positiva.

A abordagem da lei natural baseia-se na existência de uma regra geral quanto ao que é bom, baseada na “natureza”; sendo que tanto em sua vertente pré-moderna, quanto na sua vertente moderna, tal lei assume contornos divinos, ainda que sua vertente moderna defenda uma secularidade.

Já a abordagem da lei positiva baseia-se no estudo do corpo legal e sua evolução histórica, lembrando dos três estágios – teológico, metafísico ou abstrato e positivo – propostos por Auguste Comte, visando evitar os abusos cometidos por governantes que utilizam-se do apelo àquilo que não pode ser questionado para submeter seres humanos ao seu domínio arbitrário.

O autor faz, então, uma crítica aos dois paradigmas, afirmando que a lei natural e, também, a lei positiva apresentam claras limitações e riscos à liberdade humana. Assim sendo, ele propõe como solução que, abstendo-se de recorrer ao eterno e ao transcendente – explicações de origem divina – e balizando-se por aquilo que foi estabelecido pelas instituições humanas, sejamos capazes de elaborar uma instância crítica e propositiva quanto aos ideais das relações humanas objetivando a liberdade para realizar o potencial individual em sua totalidade.

O autor aponta para a necessidade de superar a visão da dimensão crítica da ética como algo pronto e finalizado, uma vez que – à semelhança da sociedade – a mesma está sempre em transformação, sem, contudo, impedir que a mesma seja propositiva, estabelecendo desafios ou limites para a conduta individual visando uma adequação benéfica e pacífica à vida em sociedade, permitindo que todos desfrutem das possibilidades que esta trás para a realização humana.

O ponto acima pode ser facilmente relacionado aos problemas da sociedade altamente globalizada e digital na discrepância que se nota quanto aquilo que é percebido pelos indivíduos como sendo inócuo e permitido e aquilo que é estabelecido legalmente em razão dos interesses do capital e de tabus que muitas vezes, embora vívidos no imaginário dos grupos, não correspondem às práticas dos mesmos.

Tendo em mente as relações de poder, o autor argumenta a ineficácia de uma postura de pseudoneutralidade, uma vez que a mesma não se sustenta em razão da intencionalidade determinada historicamente na práxis política. Esta postura, quando usada como justificativa, apenas serve para dissimular as reais intenções dos detentores do poder, substituindo as justificativas “naturais” em um contexto secular e positivo e impedindo a análise crítica da ideologia vigente, tanto por parte daqueles que são submetidos quanto àqueles que exercem a dominação institucionalizada.

Seguindo nesta linha de raciocínio, o autor parte para a dimensão da relação, ou o papel da ética nas relações humanas; e aqui é importante ressaltar que estas relações se dão não apenas entre indivíduos, mas cada vez mais entre indivíduo e grupos, ou entre grupos e instituições de poder.

Partindo da afirmação de que não é possível para alguém ser justo sem a interação com outrem, uma vez que justiça implica em uma relação ética em sociedade, o autor argumenta que a justiça ocorre quando o direito das pessoas são respeitados. Para ficar mais claro, explico que a justiça ocorre quando o direito de todas as partes envolvidas em uma relação é respeitado, uma vez que a sociedade – notavelmente a sociedade brasileira – parece esquecer-se disto, dada a contaminação pelo sensacionalismo da mídia na moral popular e no fazer jurídico. E assim procede com a ética, segundo o autor, não apenas no sentido de que a ética se realiza no contexto social, mas de que a ética individual deve levar em consideração o indivíduo em sociedade.

Aqui abro um parenteses para discordar de Guareschi, uma vez que suas proposições trazem consigo a afirmação de que o ser humano só pode ser ético inserido em sociedade e em relação à sociedade. Isto contraria a minha visão pessoal – que é compartilhada por muitos cientistas naturais e que é, lamentavelmente, desprezada pelas ciências sociais – de que é possível e é necessário ser ético em relação ao meio ambiente, à natureza e ao direito das demais formas de vida, e da própria natureza enquanto estrutura ou obra, de existir em harmonia ao ser humano, seus agrupamentos sociais e suas atividades.

O pensar ético que descarta a possibilidade do ser humano ser ético em relação a algo que não seja outro ser humano causa grandes distorções de valores que ecoam no pensamento de preservação ambiental que se faz nos dias de hoje, tão cheio de boas intenções e com tão poucos resultados reais. Por isso defendo que sim, devemos ser éticos em relação à natureza, mas não só porque a nossa vida e a vida dos nossos descendentes depende disso, mas por respeito à natureza em si.

Seguindo esta mesma visão, descordo que quem irá decidir se somos éticos ou não são os outros, mas sim o resultado das nossas ações em relação aos outros mas não restringindo-se apenas aos outros, e sim estendendo-se aos demais habitantes do planeta em que vivemos e ao próprio planeta em que vivemos, e além (já se discute, atualmente, os problemas do lixo espacial que o ser humano colocou em órbita).

O autor conclui sintetizando sua compreensão de que devemos ter consideração pelos outros indivíduos em sua singularidade, enxergando-os além de uma relação de competição ou usura; e eu concluo dizendo que é possível estender esta mesma visão para o mundo que nos sustenta a vida e para todas as formas de vida, que como nós, possuem este dom que se assenta no topo de qualquer escala de valores, o dom de estar vivo.


GUARESCHI, Pedrinho. Ética. In: Psicologia Social Contemporânea. Marlene Neves Strey (org.). 10ª ed. Petrópolis : Vozes, 2007. pg. 49, 57.



Ver também: Ética e isolamento

sexta-feira, 14 de março de 2008

Os valores morais e a Ética

Quero debater sobre ética e o papel dos “valores”, mas desta fez não irei fazer uso de referencial bibliográfico. Mesmo correndo o risco de errar feio, quero utilizar a argumentação e o pensamento lógico-racional, para chegar a uma conclusão.
Ouvimos falar em valores. Que valores são estes? Seriam valores morais? De onde vêm os valores morais? Nas aulas de Psicanálise vimos que estes são introjetados no indivíduo durante o Complexo de Édipo, segundo Freud. Estes valores (morais) são introjetados no indivíduo arbitrariamente por seus pais ou provedores, resultantes das crenças e dos valores que estes trazem consigo e que, por sua vez, também lhes foram impostos. Por isso, normalmente não escolhemos uma religião, sendo esta determinada pelos nossos pais, assim é com o time de futebol para o qual iremos torcer, se iremos ter uma visão mais tolerante ou mais autoritária para com os outros, se iremos dar mais valor a demonstrações de afeto ou se manteremos uma maior distância emocional. Existem várias exceções, no sentido de que, durante a formação destes valores, o contato com a sociedade em todas as suas manifestações, altere de algum modo aquilo que nossos pais nos ensinam em palavras, atitudes e gestos, mas os pais ainda são a base daquilo que somos feitos interna e externamente.
Tomar uma decisão baseada em tais valores nada mais é do que seguir a moral vigente. A moral é um conjunto de normas e regras estabelecidas por um agrupamento social em um determinado tempo, ou época. A moral é influenciada pelas crenças religiosas, regras políticas, leis e, em nossa sociedade moderna, até mesmo pela mídia de massa, e não é uma moral escolhida por nós. Antes do que isso, é uma moral que já vem pronta e cabe aos pais estabelecerem um juízo crítico sobre ela.
Um exemplo disso que me vem em mente são pais que botam músicas de letras com forte conteúdo sexual para seus filhos pequenos escutar, músicas de bandas populares como "É o tchan" e outras. Se forem inquiridos sobre o motivo que os leva a fazer isso, provavelmente responderão que se tratam de músicas alegres. Se forem inquiridos sobre as letras, provavelmente dirão que as crianças não entendem ou não têm malícia. Seria este um julgamento ético? É possível argumentar que os valores deste pais, introjetados ao longo de suas vidas, formam um entendimento moral que lhes permite um julgamento ético apenas até o ponto de que, se na televisão o programa Domingo Legal mostra crianças dançando tais músicas, então este é um comportamento aceitável. Seus valores morais não lhes permite ver as conseqüências da exposição precoce das crianças a esse tipo de música.
O mesmo pode ser dito sobre um indivíduo que se criou em uma família militar, no qual foram introjetados valores com base na moral militar. Moral esta que prega a obediência cega a cadeia de comando. Onde há obediência cega, não há julgamento de valor... Ou há? Pode se argumentar que o julgamento de valor, que a ética de um indivíduo criado e que vive neste contexto, vai apenas até sua decisão de sempre obedecer. Decisão esta que foi influenciada pelos seus valores morais.
Estar em conformidade com a moral é ser ético? O soldado que pilotava o avião Enola Gay e que jogou a bomba atômica sobre Hiroshima matando milhares de pessoas instantaneamente agiu conforme a moral militar, obedecendo às ordens dos seus superiores.
Após ver o que havia feito, seu julgamento ético se limitou a um valor de "dever cumprido." Ainda hoje este senhor acredita ter feito um bem para o povo americano e, pasmem, para o povo japonês. Seu neto é hoje um comandante de um esquadrão de bombardeiros. Em contrapartida, alguns historiadores e críticos afirmam que a rendição do Japão era eminente quando as bombas foram lançadas, e que estas serviram apenas para demonstrar à União Soviética do que os americanos eram capazes. Ainda que isso não seja totalmente verdade, a morte massiva de civis não pode ser justificada dentro do contexto de guerras daquela época, nem no contexto de guerras atuais.
Se nossos julgamentos éticos são sempre contaminados pelos nossos valores morais, então é possível ser verdadeiramente ético e fugir do viés de nossa moral imposta pela sociedade?
Talvez a busca pela ética seja como a busca por uma verdade final. Uma ambição que pode estar além das nossas capacidades humanas, sejam elas físicas, tecnológicas ou filosóficas.
Mas assim como podemos utilizar o microscópio para observar a estrutura da matéria e o telescópio para invalidar o geocentrismo, podemos usar a Filosofia para desconstruir nossas crenças, nossos valores morais e para aperfeiçoar nossos julgamentos morais, nossa ética.
A Filosofia, embora seja uma ciência humana, conta com métodos lógicos e analíticos que fornecem ferramentas ou meios para que compreendamos melhor a maneira pela qual chegamos a uma certa conclusão, que nos leva a tomar uma determinada atitude, motivados por nossas crenças. Tendo capacidade para analisar este processo, podemos fazer um juízo crítico sobre nossas crenças e decidir se realmente elas são aquelas que consideramos mais adequadas para a nossa realidade e os nossos objetivos como pessoa.
Por meio da Filosofia podemos gozar mais amplamente das possibilidades de nossa racionalidade, pois livramos a racionalidade dos vieses que causam distorções em nossos julgamentos. Aristóteles dizia que a ética não pode ser fruto da coerção, mas da ação tomada de forma consciente, fruto de uma escolha onde houve uma reflexão. Aquilo que fazemos por mera obrigação é imposto, mas há a escolha por obedecer as regras ou sofrer o risco de arcar com as conseqüências. Desta maneira, todos nós utilizamos a ética quando fazemos estas escolhas, mesmo que seja a escolha de sempre obedecer. Porém, o que vai determinar se algo é ético ou anti-ético, são os resultados de nossas escolhas. Digo mais, o que vai determinar se algo é ético ou anti-ético, vai além do contexto moral em que o indivíduo está inserido, como mostram os dois casos que citei acima. Ainda que sejamos incapazes de ver a falha em nossa ética, isso não nos torna mais éticos, apenas mais ignorantes.
A moral é tão imperfeita que varia de uma sociedade para outra.
Um exemplo bem claro disso é o questionamento da validade dos direitos universais do homem por parte do mundo islâmico, incluindo ai, grupos onde existe o costume de se mutilar as mulheres cortando seus genitálias para que estas sejam incapazes de sentir prazer, ou sintam menos prazer, durante as relações sexuais. O julgamento ético que pode ser realizado pelos integrantes destes grupos vai até onde suas crenças lhes permitam racionalizar. Mas poderá este julgamento passar pelo crivo de uma argumentação lógico-racional?
É neste ponto em que a ética, como busca por uma conduta universal mais apropriada, supera as crenças individuais. E isso ocorre porque temos os meios filosóficos para tanto.
Não podemos dizer que acreditamos na Matemática por que é um valor moral que adquirimos ao longo de nossa vida. Isso porque a Matemática possui rigor científico e é exata. Ainda que se use números diferentes dos algarismos arábicos (na verdade hindus) em algumas partes do mundo, qualquer expressão matemática pode ser convertida de um sistema para o outro. Podemos realizar as mesmas contas em números binários, hexadecimais, arábicos, chineses e romanos (com exceção da carência do zero por este último para a execução de contas mais complexas). A Matemática permite isso por gozar de uma lógica forte. Não é a lógica do "se você me der um ponta pé eu te dou uma facada" ou "se eu não posso explicar este fenômeno é porque sua causa é divina."
E assim também é a Filosofia. A Filosofia evoluiu durante milênios para se livrar dos vieses comuns a que estamos submetidos, e este processo de evolução continua até os dias de hoje, embora já tenhamos chegado a um patamar onde ela nos permite desconstruir nossas crenças, os valores que nos são arbitrariamente introjetados, com bastante eficácia.
O risco de se obter um resultado anti-ético ao tomar uma decisão qualquer sem recorrer ao crivo filosófico é muito grande.
Pessoalmente eu acredito que este seja o principal motivo pelo qual o ensino de Filosofia é um dos primeiros a ser banidos em governos autoritários, tais como ditaduras, e também é um motivo para que o ensino de Filosofia para as massas seja tão pouco incentivado. Ensinam as crianças a fazer contas, até mesmo as contas mais abstratas, ensinam Física, ensinam Química e Biologia.. Mas quando entra o ensino da História, do Direito, da "Moral e Cívica" (se não me engano este é o componente curricular que veio a substituir a Filosofia nos anos da ditadura), e mesmo quando ensinam Filosofia, muita coisa é deixada de lado. Por que?
Pensem bem, um político do nosso tempo, seja ele qual for, seria capaz de angariar votos de uma população habilitada a fazer uma análise de seu discurso? As forças armadas poderiam ser capazes de impor uma obediência cega de maneira crível a um indivíduo que questiona os pressupostos, os fins e os meios? Viveríamos num mundo capitalista onde a massa proletária se contenta com sua situação de produzir para que o detentor do capital goze os frutos, e faz isso motivada por crenças tais como "sou pobre mas sou honesto", ou "o trabalho (qualquer trabalho) dignifica o homem"? Existiriam as religiões, que são altamente dependentes do fator econômico, num mundo onde as pessoas questionassem seus motivos pessoais para se dizerem praticantes desta ou daquela religião mesmo sem seguir suas regras e acreditar em seus dogmas (por exemplo, a proibição de métodos anticoncepcionais (regra) e a infalibilidade papal (dogma) no catolicismo)?
Acredito que a respostas a todas as perguntas acima é não. As próprias bases de nossa sociedade não sobreviveram a uma massa de pessoas educadas de forma correta na Filosofia. E não estou dizendo que todos tenham que ser PhDs em Filosofia, mas estou dizendo que limitar nossos conhecimentos ao estudo de resumos da visão e conceitos dos filósofos é a mesma coisa do que limitar nossos conceitos as 4 operações básicas da matemática ou aos princípios da física newtoniana.
Esta é a minha visão sobre os "valores morais" em relação a ética: enquanto a moral estabelecida é útil para manter a coesão de agrupamentos humanos, ela não nos torna, necessariamente, pessoas melhores e éticas. Se formos obedecer e seguir aquilo que está pré-estabelecido em uma sociedade baseada no consumo e interesses de capital, estaremos sujeitos a uma miríade de ações morais, mas antiéticas, no decorrer de nossas vidas.

Indicação de leitura: IBSEN, Henrik. O Inimigo do Povo. L&PM Pocket.