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domingo, 2 de novembro de 2008

Anesthesia awareness

Estava lendo sobre anestesia, após assistir ao filme Awake - A vida por um fio (2007), e clicando em um link e outro link cheguei à seguinte sinopse de um filme protagonizado por Boris Karloff, Corredores de Sangue (Corridors of Blood, 1958):
"Um cirurgião britânico da década de 1840, Dr. Thomas Bolton (interpretado por Boris Karloff), realiza experimentos com gases anestésicos visando tornar a prática cirúrgica livre da dor. Ao demonstrar seus experimentos diante de uma banca de colegas cirurgiões algo horrível acontece: seu paciente desperta sob o bisturi. Como resultado Bolton é obrigado a deixar sua prática sob o estigma da desgraça..."
Existe um sério problema no raciocínio de quem elaborou a trama descrita acima, pois se não eram usados anestésicos eficazes na época retratada no filme, e o protagonista estava justamente experimentando para resolver este problema, o "despertar do paciente sob o bisturi" seria um fracasso em sua experiência, mas não seria de forma alguma algo horrível para os padrões da época. De fato, não seria diferente do cotidiano cirúrgico retratado pelo filme.
Mal comparado, é como se alguém estivesse realizando experimentos para descobrir um modo recolocar a corrente da bicicleta sem sujar as mãos de graxa; aí resolve demonstrar o que descobriu até então para seus colegas ciclistas, e acaba sujando as mãos de graxa -- o que demonstraria que o procedimento ainda não está perfeito e precisa de mais ajustes... Contudo, a corrente poderia ser recolocada no lugar da mesma forma como sempre se fez. O suor e as manoplas do guidão fazem o resto para livrar as mãos da graxa.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

A pequena Miss Sunshine

O filma A Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, FOX Searchlight, 2006) foi exibido para os alunos da primeira turma do curso de Psicologia da Faculdade Atlântico Sul do Rio Grande, na manhã de Sábado, em 17 de novembro de 2007. Trata-se de uma comédia dramática, classificada por alguns como comédia de humor negro, que retrata a ocorrência de uma série de eventos marcantes em um curto espaço de tempo, no decorrer de apenas alguns dias, na vida de uma família norte-americana a beira da desintegração.
Sempre que possível gosto de tentar expandir os limites de aproveitamento didático dos trabalhos propostos, algumas vezes não consigo por falta de tempo, e algumas vezes não consigo por conta de minhas próprias limitações. Sendo este o último trabalho curricular que irei entregar este ano, quero tentar, sem evadir a pergunta inicial, fazer um exercício de imaginação semelhante àquele que o roteirista fez quando elaborou o filme e seus personagens. Desta maneira, quero trazer a personagem Olive mais uma vez a vida, no papel, para que ela possa relatar o seu ponto de vista sobre os eventos ocorridos durante o concurso Pequena Miss Sunshine.
Nas linhas a seguir, uma transcrição ....
Entra uma menina de sete anos de idade na sala, trazida pela mão por sua mãe, de porte normal para sua idade, cabelos loiros compridos, e grandes óculos de grau que dão a impressão de estarem se projetando para frente e além de seu rosto. A mãe da menina, Sra. Sheryl Hoover, tenta parecer descontraída, mas é possível perceber em seu rosto as feições e marcas de alguém que precisa lidar diariamente com tensões e conflitos bastante próprios.
Enquanto a garotinha percorre a sala com os olhos, após encarar brevemente o terapeuta, sua mãe explica que a trouxe para uma pequena avaliação, pois esta tem apresentado alguma dificuldade para dormir, “pedindo que eu e meu marido fiquemos acordados até tarde com ela contando histórias para dormir” – nas palavras da mãe.
Quando agendou a consulta, a Sra. Hoover comentou, por telefone, que acreditava que Olive poderia estar sofrendo com a morte do avô, pai de seu marido, com quem ela tinha uma relação bastante afetuosa e próxima. Segundo a Sra. Hoover, ele teria morrido após ingerir uma grande dose de heroína no quarto de um motel, durante uma viagem em família para um concurso de beleza infantil no qual Olive iria concorrer. O avô teria incentivado e preparado Olive para o concurso; ela, a mãe, não dispunha de tempo para tanto.
Antes de deixar da sala a Sra. Hoover voltou-se para sua filha Olive e lhe deixou uma série de recomendações, e finalizou dizendo que estaria de volta dentro de quarenta e cinco minutos, após passar em um fast-food para comprar o almoço da família. Imediatamente seu telefone celular tocou e ela atendeu, saindo sem se despedir do terapeuta, apenas fazendo um breve afago nos cabelos de Olive.
A menina olhou novamente para o terapeuta e, na seqüência, voltou os olhos para a uma mesa com papel e alguns lápis de colorir. Após fechar a porta, o terapeuta sorri gentilmente, se agacha até a altura da menina e pergunta se ela gostaria de fazer alguns desenhos enquanto conversa. Ela levanta os ombros, curvando levemente a cabeça para o lado, e responde com um “tudo bem” quase soprado.
O terapeuta se senta ao lado dela, enquanto ela separa algumas folhas e escolhe as cores que vai utilizar, e pergunta sobre o concurso de beleza do qual ela participou. Olive responde que o “concurso foi legal”, e começa a fazer alguns rabiscos em uma das folhas.
Percebendo que algo semelhante a uma família correndo atrás de um carro começava a aparecer nos rabiscos de Olive, o terapeuta pergunta se ela gostaria de lhe falar sobre a viagem até o concurso. Ele nota que Olive aperta com força o lápis de cor, parando momentaneamente de desenhar, para logo depois seguir fazendo os traços, agora depositando maior pressão no papel.
Enquanto desenha ela começa a falar:
“Minha mãe recebeu um telefonema da minha tia, dizendo que eu poderia participar do concurso Miss Sunshine. Eu fiquei muito feliz, sempre quis ser uma miss, como aquelas que via na tevê. Elas são bonitas, e todo mundo olha para elas e fica feliz.” - faz uma pequena pausa...
“Meu pai disse que a gente não podia ir. Ele era escritor, estava esperando um amigo dele ligar para falar sobre o livro dele. Mas meu avô Edwin, e a minha mãe, convenceram meu pai a ir. Ah! E o tio Frank também ajudou.”
“O tio Frank cortou os pulsos... Ele estava muito triste com o amigo dele.”
O terapeuta não interrompe, deixando que ela continue com a descrição dos eventos.
“Nós fomos no carro do meu pai, ele vendeu o carro quando voltamos da Califórnia. Eu gostava do carro porque cabia todo mundo nele, e era bonito e amarelo...” – O terapeuta percebe ela pintando o carro de amarelo. Olive faz uma pausa mais longa, e o terapeuta intervêm perguntando como foi viajar com “todo mundo” no carro.
“Ah... Eu fui escutando o cd que meu avô me deu, a música que eu ia dançar no concurso, sabe? Meu avô disse que para ser uma miss eu tinha que aprender bem direitinho a música. Quando a gente parou no posto o carro do meu pai estragou... Eles tiveram que passar correndo pra me pegar.” – o terapeuta pede esclarecimento quanto ao “correndo.”
“Correndo, sabe? Eu pulei pra dentro do carro, foi divertido... Depois todo mundo tinha que empurrar, ai a gente corria e me botavam dentro do carro.” - Olive esboça um sorriso, ainda voltada para a folha onde está desenhando.
O sorriso logo se apaga, e mais uma pausa se inicia no discurso dela. O terapeuta nota que ela risca com força a camisa de um das pessoas no desenho, e pergunta de quem se trata. “É meu avô,” – diz Olive – “ele morreu.” Segue mais uma breve pausa. “Mamãe chorou quando vovô morreu. O Dwayne disse para eu abraçar ela.” – o terapeuta pergunta se Dwayne é o irmão de Olive. “É, tipo, ele é filho da minha mãe. Ele tem outro papai... Ele não podia falar com ninguém porque queria ser piloto. Acho que ele pedia para que eu fizesse as coisas por ele.”
Olive muda de assunto: “Meu pai disse que se eu quisesse ser miss eu não podia comer sorvete. Mas eu gosto muito de sorvete. A miss disse que comia sorvete.” - faz uma pausa. “Meu avô me dava sorvete.” E reforça o traço que lembra um sorriso no desenho do avô.
O terapeuta nota uma pequena contração nos lábios de Olive, e pergunta como foi falar com a miss. “Eu não falei muito,” – responde Olive – “ela autografou uma foto pra mim e me disse que come sorvete de iogurte. Eu gosto muito de iogurte... Depois eu tinha que me arrumar pro desfile.”
“O Dwayne e o tio Frank não ficaram, mas minha mãe foi comigo para me ajudar. Tinha muitas meninas lá, e elas eram diferentes...” – já imaginando a resposta, o terapeuta pergunta como eram diferentes estas meninas. “Ah... Elas eram magras. E as mães delas ficavam correndo na volta e mexendo no cabelo delas e pintando o rosto delas...” – faz uma pausa – “minha mãe ajudou a arrumar meu cabelo.”
Olive sorri novamente... “Quando eu fui me apresentar no final, e ia dançar como tinha ensaiado com meu avô, o Dwayne e meu tio Frank vieram correndo perguntar se eu queria me ir.” – tira os óculos e olha mais uma vez pro terapeuta – “É claro que eu queria. A gente foi até lá para isso. Daí eu subi no palco e dancei igualzinho eu tinha ensaiado com meu avô. Meu pai tava assistindo e bateu palma para mim...”
“Mas tinha uma tia meio louca lá... Ela ficava fazendo careta pra mim, ai o moço disse que tinha acabado minha apresentação. Mas meu pai não deixou, ele subiu no palco pra dançar comigo. Depois minha mãe, o Dwayne e meu tio Frank também subiram e a gente dançou todo mundo junto...” – faz mais uma pausa.
“A gente teve que sair correndo... Mas o policial nos levou pra delegacia e disse que não era mais, nunca mais, para gente voltar.” – ela fala ainda sorrindo.
O terapeuta pergunta se isso não é ruim, se ela não gostaria de tentar ser miss outra vez. “Não...” – responde Olive – “...era divertido brincar de miss quando meu avô estava com a gente...” – o terapeuta pergunta como ficou a família depois que voltaram do concurso.
“Ah, o Dwayne agora fala. Ele lia histórias pra mim, que nem meu avô. Mas ele teve que ir embora, ele está estudando em outra cidade... O tio Frank também, ele agora dá aula de novo.” – o terapeuta pergunta sobre os pais de Olive – “Meu pai disse pra minha mãe que está procurando emprego. Mas ele fica muito brabo. Minha mãe tá sempre correndo. Ela diz que nunca consegue descansar... Eu queria que eles lessem história pra mim dormir...”
O relógio marca o fim da sessão. O terapeuta acompanha Olive até a porta, mas não há ninguém na sala de espera...


Bom, assim termino meu exercício de imaginação; procurei não pré-conceber nada e ir descrevendo a medida que me lembrava dos acontecimentos do filme, tentando filtrar tudo sob a ótica da pequena Olive, mas sendo relevante o suficiente para que o terapeuta fictício pudesse extrair algo da conversa e, ao mesmo tempo, para que eu tivesse subsídios que apontassem para os acontecimentos posteriores àqueles que foram exibidos ao final do concurso.
Acredito que a cadeia que eventos que culminou no concurso Miss Sunshine tenha caracterizado algo singular na vida daquela família, mas a julgar pelas personalidades do pai e da mãe, não sou capaz de conceber nenhuma mudança duradoura na trama de atitudes que compõe aquele lar.
Penso que tais acontecimentos possam ter promovido um amadurecimento no jovem Dwayne, e propelido uma retomada para o Frank... Também penso que aqueles eventos condensados em poucos dias tenham colaborado para um crescimento da pequena Olive, mas seu desenvolvimento é prejudicado pela sua situação familiar.
Assim como Freud, acredito na capacidade infantil de lidar relativamente bem com os traumas provocados pela estupidez dos adultos, que acabam transferindo para a criança suas frustrações cotidianas provenientes do seu próprio modo cristalizado de encarar o mundo. Como na cena do sorvete, torço para que todas as Olives continuem optando por aquilo que realmente querem fazer, pelas coisas que gostam, e para que não se deixem envolver nas neuroses de adultos mal resolvidos e tenham suas infâncias abreviadas por isso.

Baseado em um trabalho da disciplina de Teoria Psicanalítica.

domingo, 25 de novembro de 2007

Cruzando o golfo

"Actually, the gap between say Plato or Nietzsche and the average human is greater than the gap between that chimpanzee and the average human." Louis Mackey, no filme Waking Life, parafraseando Walter Kaufmann.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Ficha - Filme Laranja Mecânica

Data: 02/10/2007

Título do Filme: Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)


1. Comente os aspectos mais significativos do filme.

A capa do filme já avisa: “Trazendo as aventuras de um jovem rapaz cujos principais interesses são o estrupo, ultra-violência e Beethoven” – partindo dessa premissa, somos levados ao futuro, no caso o ano de 1995, como indica o nome do carro pilotado em uma das cenas (Durango 95), da maneira como era imaginado em 1965. Tendo assistido ao filme anteriormente, assistir novamente em 2007 é quase um paradoxo ontológico: o diretor, Stanley Kubrick, nos leva por cenários que por vezes nos fazem imaginar que se trata de um futuro distópico, e por vezes nos trazem uma sensação estranhamente familiar – na segunda vez parece que estamos olhando para o passado, e não para o futuro.

Lembrando da primeira vez que assisti a esse filme, por volta de 1994, a sensação era de que ele não se passava no futuro, apenas se tratava de uma realidade onde as pessoas usavam roupas e cortes de cabelo realmente esquisitos, e falavam de maneira pitoresca... Ora, essa realidade não difere muito daquilo que sempre foi e ainda é a Inglaterra. Naquele tempo eu usava fitas-cassete para gravar músicas, que eram escutadas em um toca-fitas portátil. Bom, já havia discos compactos, mas utilizávamos muito mais as fitas-cassetes. No filme Alex usava fitas-cassete compactas, como aquelas que são utilizadas em gravadores de voz.

Agora, em 2007, o filme parece incrivelmente atrasado. Problema? Mais parece um acerto, uma vez que a projeção prevista pelo diretor era 1995. Como muitos filmes futuristas, o futuro apresentado tornou-se passado, mas diferente da maioria dos filmes que fazem especulações sobre o futuro, este encontrou um lugar muito próximo no presente.

Outro aspecto interessante do filme é a preferência musical do protagonista/narrador; quando eu estava passando pelo processo de divórcio e fui questionar a guarda da minha filha, uma assistente social me perguntou: “Que tipo de filme e que tipo de música você mais gosta?” – a mesma pergunta foi repetida por uma psicóloga quase um ano depois, e em ambas ocasiões eu sabia que era uma pergunta repleta de preconceitos, sendo que escolhi uma resposta vaga, apelando para a generalidade e ecleticismo. Não adiantou muito pois aquelas pessoas já possuíam uma idéia formada a meu respeito antes mesmo de me entrevistar, mas teria sido pior se eu tivesse simplesmente respondido que adoro assistir filmes de terror trash, com muito sangue de molho de tomate e gosma de massinha de modelar, e ouvir punk rock. A questão é que os gostos subjetivos de uma pessoa não a tornam melhor ou pior.

Em 1999 culminava uma onda de violência nas escolas americanas, que vinha crescendo ao longo da década, com o massacre de Columbine. Na época, muito mais do que questionar o bullying, a prescrição indiscriminada de psicotrópicos, e o fácil acesso às armas de fogo nos EUA, apontaram para as músicas que os atiradores escutavam, para as roupas que eles vestiam, e para os jogos presentes em seus computadores.

Semana passada, no programa Fantástico da Rede Globo, os repórteres acusavam o movimento punk e o movimento skinhead de promover a violência em São Paulo. O problema não está no grupo ou nos gostos de um grupo: alguns anos atrás alguns garotos de classe média alta do Distrito Federal puseram fogo em um índio; e outros, da mesma classe, amarram uma cadela prenha a um carro e a arrastaram pelas ruas da cidade de Pelotas. Dirão então que os playboys são um problema?

O filme mostra um jovem psicopata carismático e bem articulado – apesar das gírias, que escuta Beethoven e se veste de branco para roubar, espancar, estuprar e matar pessoas sem motivo algum. Como suas preferências encaixariam-se nos esteriótipos que nossa sociedade tanto recorre quando precisa espiar suas próprias faltas?

Também me marcou muito a cena onde o protagonista é agredido de forma teatral e degradante em frente à duas platéias, uma na tela e outra na sala de aula, provocando reações iniciais de riso, que foram diminuindo à medida que a violência persistia e aumentava. Uma vez que o protagonista estava enquadrado como um criminoso, um pária, ele se torna alvo de toda violência reprimida do restante da sociedade, que espera que as autoridades expressem essa violência de forma física, moral e psicológica. As fantasias destrutivas que todos temos guardadas encontram sua gratificação na negação do aspecto reintegrador, no esquecimento do aspecto reparativo, e no uso desmedido do aspecto punitivo da pena – a base tríplice do direito penal. Em busca desse tipo de gratificação, a sociedade ignora que muitos desses indivíduos irão voltar para as ruas, mais violentos, mais experientes e mais doentes do que quando foram institucionalizados.

Em um documentário exibido recentemente no Discovery Channel, foi abordada uma lei aprovada no estado da Califórnia, durante um período de comoção pública em decorrência a um crime violento, que prevê uma pena de 25 anos à prisão perpétua para qualquer criminoso que fosse condenado pela terceira vez, independente do crime que tenha cometido: não importa se o indivíduo foi condenado pela terceira vez por furtar uma garrafa de uísque levado pelo alcoolismo, ele será condenado à uma pena que o tornará um fardo para os cofres públicos, e um fantasma em vida, sem esperança de recuperação. A realidade no Brasil, embora no papel não seja tão absurda, não é muito diferente. As instituições rotulam os indivíduos, e ignoram séculos de teorias que vem sendo elaboradas desde o direito romano, passando pelos textos de Beccaria e Ihering, até o burocrático movimento legislativo brasileiro, que não possui velocidade para acompanhar as transformações sociais, e nem mesmo se importa em cumprir com seus pressupostos de eqüidade, humanismo, reparação e recuperação. Basta fazer a vontade do povão, basta empregar a punição.

Reflexo disso está no sucesso do filme Tropa de Elite, visto como divertido e como violência justificada. Embora não tenha visto o filme, ouvi comentários que diziam: “Então o policial começou a bater no guri de 14 anos, depois botou o ‘saco’ na cara dele... Não, mas a violência foi justificada, o policial queria saber onde morava o traficante.” Não sei se compreendi direito a lógica desse pensamento, mas não vejo justificativa, primeiro porque o policial estava agredindo um adolescente e não o traficante, segundo porque a legitimidade do poder do policial emana das leis, que por sua vez não endossam a tortura em caso algum. Mas entendo o prazer obtido pelo público, ao ver o policial espancando o garoto, o marginal, eles se colocam na pele do policial, e estão espancando aquele chefe que não sai do pé, aquele flanelinha que riscou o carro, o político corrupto... Acontece que o chefe continuará sendo chefe, o flanelinha vai continuar nas sinaleiras, e o político continuará sendo corrupto; e talvez algum garoto, de alguma favela, que foi de fato espancado por um policial, pegue uma arma e resolva descontar sua raiva, buscar uma gratificação para esse sentimento destrutivo, coincidentemente num dos espectadores do filme que vibraram com a violência policial.

Estes foram os três aspectos que mais me chamaram atenção nos trechos do filme Laranja Mecânica que foram exibidos em aula.



2. Destaque possíveis críticas e posicionamentos do argumento do filme.

O filme questiona conceitos de justiça, moralidade, bondade e liberdade. Um momento bastante ilustrativo disso foi o pensamento do protagonista ao sair da prisão: “Agora estou livre.” Como foi levantado pelo padre, após a terapia de aversão Alex se comportaria como um cidadão exemplar, mas não por livre escolha, ele simplesmente não conseguiria agir de maneira diferente. É a mecanização do ser humano que dá origem ao título do filme, “uma laranja mecânica” - assim se comportaria o indivíduo condicionado.

Também, como comentado anteriormente, o filme discute sobre como a sociedade tende a responder violência com violência, por meios que utilizam-se de seus dotes intelectuais para fins não racionais – uma vez que os resultados tendem a voltar-se contra a sociedade: o final do filme dá a entender que, após superar sua terapia de aversão, Alex aceita um cargo no governo, já imaginando como irá resumir de maneira mais dissimulada sua agressividade.

No filme, Alex está condicionado a um comportamento agressivo e cruel, cuja causa se encontra numa psicopatologia de personalidade anti-social, psicopata. Seriam seus amigos também psicopatas? Todos os jovens que agem de maneira irresponsável, destrutiva e agressiva são psicopatas? Acredito que não; sem recorrer às hipóteses estereotipantes já descartadas na primeira questão, defendo que parte da crueldade infantil se deve a um córtex pré-frontal ainda em formação, e parte da agressividade e impulsividade adolescente se devem a uma maior atividade do sistema límbico. Ao atingir a maturidade, a atividade desse sistema, relacionado justamente aos impulsos agressivos, à sexualidade, à emoção, diminui, e uma atividade maior no lobo frontal, relacionado ao juízo e ao controle das emoções, pode ser notada. A maturação biológica do sistema nervoso não é desculpa para atos de vandalismo, o ser humano vive em sociedade, e na sociedade desenvolve-se de maneira civilizada... Ou não?

Seriam os jovens que, desprovidos de deficiências mentais, cometem atos reprováveis, vítimas do corpo social que o cerca, seu núcleo familiar, sua escola, amigos e exemplos adultos, uma mídia que glamoriza a violência e a impunidade? Se são as regras da sociedade que são quebradas, e se tais regras devem ser introjetadas no jovem pelo corpo social que o cerca, então considero justo atribuir à sociedade parte da falha no desenvolvimento do caráter daquele que é taxado de delinqüente. Ao invés de, por dentro, nos regozijarmos com a violência sofrida por esses indivíduos quando são punidos, deveríamos sofrer junto com eles por nossa falta.



3. Associe as idéias apresentadas às Teorias Comportamentais.

Vejo o filme como uma crítica à psicologia behaviorista como proposta por Watson e Skinner. O aparato utilizado para manter o protagonista imóvel e de olhos abertos lembra o gosto behaviorista pelas máquinas e uma questão que muitos estudantes se fazem ao ouvir, por exemplo, a história de Pavlov e seus cães: como Pavlov poderia considerar que, um cachorro que teve seu aparelho bucal perfurado para a implantação de um medidor de salivação feito de metal, estaria demonstrando um comportamento normal, “num ambiente controlado e livre de influências externas?”

Mais que isso, a utilização da segregação de ratos, pombas e outros animais para a realização de experiências num ambiente que não é em nada natural ao animal, também deve influir sobre seu comportamento, da mesma maneira que já foi comprovado que ao serem observados por pesquisadores, grupos de seres humanos se comportam de maneira diferente do usual – em geral procurando responder de maneira positiva à espectativa manifesta consciente ou inconscientemente pelo pesquisador. Técnicas como a double-blind já foram elaboradas para minimizar esses e outros vicariantes, mas a crítica do filme é dirigida ao behaviorismo clássico. Ao ver o protagonista na cadeira, que procura exercer algum nível de domínio sobre sua atenção, não pude deixar de me lembrar imediatamente da foto da cadeira projetada por Skinner para seu uso pessoal, cuja a finalidade era a mesma: controlar sua atenção.

O tipo de comportamento modelado na cena dos filmes é o comportamento operante, pois procurava modificar as ações violentas voluntárias do protagonista. Ao definir o que é e o que não é sua ciência de modificação do comportamento, Skinner alega que seu objetivo é “aliviar os problemas humanos.” Em resposta a isso, o filme levanta a questão: quem decide o que é um problema e o que não é um problema? Um indivíduo completamente violento certamente é um problema, mas um indivíduo incapaz de se defender está fadado à morrer de maneira horrível.

Fazendo uma comparação, recentemente fiquei surpreso na aula de Psicofisiologia ao saber que as deformidades apresentadas pelos portadores da doença de Hansen (vulgarmente conhecidos como leprosos) não são causadas pela doença, mas pela incapacidade desses indivíduos de sentir dor, dessa maneira, quando sofrem algum ferimento, ou quando da infecção por fungos ou bactérias, não buscam tratamento até que seja tarde demais, além de sofrerem ferimentos por não serem capazes de sentir o aviso de dano tissular durante suas atividades cotidianas; de maneira semelhante a um indivíduo que não é capaz de se defender, porém, a diferença crucial é que tal indivíduo sente a dor, seja ela moral ou física.

O grande problema da terapia aversiva vista no filme foi a completa eliminação do impulso agressivo, ao invés de um moderamento do mesmo, e a situação incapacitante em que o reflexo condicionado à agressão deixava o indivíduo, impedindo que esse recorresse à fuga de tal situação, quando a esquiva não fosse possível. A técnica Ludovico aleijou psicologicamente o protagonista.

O abuso da punição por diferentes indivíduos, quando a modalidade de punição negativa é usada recorrentemente, também está presente no decorrer filme. O protagonista já havia cumprido um certo tempo de prisão, e teria sua capacidade defensiva maculada, quando implorou para que não prejudicassem seu gosto por música clássica, ao que o cientista respondeu “que este poderia ser o elemento punitivo.” Mais adiante, na demonstração para políticos e para administradores institucionais, o protagonista é novamente punido, vindo a ser punido outra vez ao chegar em casa, e mais uma vez quando é capturado por uma de suas vítimas.

Não sou um defensor dos malfeitores, assim como os defensores dos direitos humanos também não são. Quero um mundo seguro e melhor para todos, uma sociedade justa e harmoniosa; e é justamente por isso que quero mecanismos legais que não piorem aqueles que cometeram delitos mas, tendo consciência da realidade legal do país, de que esses indivíduos voltarão às ruas mais cedo ou mais tarde, que eles pelo menos tenham a chance de uma recuperação, ou que recebam os cuidados cabíveis quando tal recuperação não for possível. Se eu tivesse que responder à pergunta clássica daqueles que defendem penas cada vez mais duras, do “e se fosse com um ente amado, com alguém da tua família?”, eu admitira desconhecer a minha reação, mas caso eu não tivesse a coragem de fazer justiça com as minhas próprias mãos e depois arcar com as conseqüências legais das minhas ações – que fossem consqüências justas ou injustas, eu estaria sendo duplamente covarde se esperasse que o instrumento coercitivo do governo agisse com iniqüidade ou me sentisse vingado com isso.

Ironicamente, foi uma das vítimas do protagonista que promoveu sua recuperação instantânea durante um procedimento de punição negativa, ao fazer com que ele tentasse suicídio.


Seres humanos e sociedades fazem parte de um processo cíclico que se move pra frente e para trás no tempo, entre a bondade e a maldade, o totalitarismo e a liberdade.”

Anthony Burgess

sábado, 18 de agosto de 2007

Por um pouco de boa vontade

O filme Gênio Indomável (título original em inglês Good Will Hunting / algo como ‘Em busca da Boa Vontade’) conta a história de Will Hunting, um faxineiro do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) dotado de um grande conhecimento e muita facilidade para matemática. Para poder beneficiar-se dos seus dons, ele deve superar o seu “medo de abandono e se tornar capaz de confiar e amar as pessoas que se importam com ele, [...] é a história de um jovem e sua luta tanto consigo mesmo quanto com seus relacionamentos pessoais, tentando superar seus problemas para poder abrir-se aos outros e utilizar-se de seu potencial intelectual incalculável.”
Eu não tive a oportunidade de assistir ao filme na íntegra, mas fiquei perplexo pelas cenas de terapia que foram exibidas em sala de aula. Enquanto a imagem do psicólogo que temos formada em nosso imaginário é aquela de um profissional que se mantém sentado, na maior parte do tempo em silêncio, ouvindo e analisando o interlocutor, para em um dado momento, proclamar um diagnóstico e aplicar algum método de tratamento, o filme nos mostra um psicólogo que interage física e verbalmente com o paciente, abrindo capítulos de sua vida pessoal, levando o paciente para fora do consultório, enfim, utilizando-se de uma vasta gama de recursos para estabelecer uma comunicação com aquele sujeito que busca ajudar.
Dos momentos da terapia que foram exibidos em aula, considerei três como sendo os mais marcantes: o momento em que o psicólogo Sean Maguire, interpretado por Robin William, restringe os movimentos de Hunting, ameaçando-o fisicamente caso voltasse a desonrar a memória de sua esposa; o momento em que Maguire leva Hunting para fora do consultório, sentando-se com ele na beira de um lago e desafiando suas defesas com suposições quanto à maneira que ele responderia a abordagens mais tradicionais de tratamento; e o momento em que Hunting desafia Maguire a dar uma nova chance ao amor.
Enquanto as interações físicas entre psicólogo e paciente exibidas no primeiro momento foram um tanto caricatas e usaram da liberdade criativa típica dos filmes, os outros dois momentos pareceram delinear uma prática bastante interessante que, se aplicada responsavelmente pode vir a gerar bons resultados. Ainda acredito que o psicólogo deve ser extremamente cuidadoso ao expor suas próprias experiências a um paciente e deve sim, buscar evitar fazê-lo para não comprometer o profissionalismo da relação; mas dada a subjetividade humana que torna cada caso único, é possível que seja necessário ‘ceder um pouco de si’ em troca do estabelecimento de um vínculo de confiança da parte do paciente para com o psicólogo.
O filme também mostra os supostos benefícios que um psicólogo pode herdar com uma abordagem mais aberta e íntima para com o paciente, no momento em que Maguire decide dar um novo rumo ao seus relacionamentos amorosos. Mais uma vez, acredito que embora seja interessante pensar em benefícios pró-terapeuta, não devemos perder o foco do tratamento, que deve ser voltado para o paciente, que comumente vem até o profissional buscando ajuda.
Nos foi mostrada, também, um pouco da história do paciente. Um jovem adulto, com dificuldades um pouco fora de contexto para a idade que aparentava, uma vez que no filme ele é interpretado por um ator de uns 30 anos de idade, que precisava finalizar algumas questões mal resolvidas para encontrar seu lugar no mundo. A rebeldia e os padrões de comportamento demonstrados nos laços de relacionamento que puderam ser percebidos nas cenas exibidas, nos remete a um comportamento adolescente, em um corpo de adulto com uma mente poderosa. Como muitos adolescentes, me pareceu que Hunting estava na verdade clamando por alguém que lhe estendesse a mão, sem olhá-lo de cima; por alguém disposto a ouvir suas demandas e que lhe oferecesse compreensão e confiança. Hunting buscava por um modelo de adulto maduro com um pouco de boa vontade, para poder ele mesmo amadurecer e tornar-se aquilo que naturalmente tendia a ser.
Não posso deixar de traçar um paralelo, ressaltando aquela que foi a lição mais importante que pude apreender do filme, com um caso da vida real – um estudo realizado na ocasião da elaboração da biografia de um certo cidadão. O estudo buscava mensurar informalmente, dada as limitações das circunstâncias, a validade do teste Rorschach. Um dos biógrafos, Victor Goertzel, era um psicólogo que havia defendido seu pós-doutorado com base no teste Rorschach.
O sujeito havia participado em duas ocasiões do teste, sempre com entusiasmo. Em uma das ocasiões levou 29 minutos para transmitir suas impressões sobre os 10 cartões. Já os resultados da análise posterior às suas respostas não foi digno de tanto entusiasmo.
Vários psicólogos utilizaram seus conhecimentos no teste para analisar as impressões que foram coletadas: os dois psicólogos que aplicaram o teste, um psicólogo que conhecia o sujeito, e outros sete especialistas no teste, que concordaram em fazer uma análise ‘as cegas’ – sem saber de quem se tratava.
Em favor do teste e dos métodos empregados, é necessário ressaltar a homogeneidade dos resultados apresentados por todos os psicólogos. Resultados que delineavam um sujeito com “[...]muitas das características comuns às pessoas que se suicidam. A possibilidade de um suicídio deve ser cuidadosamente levada em conta e aqueles responsáveis por ele devem ser alertados [...] as composições encontradas relativas à falta de acuidade perceptual e de pensamento sugerem a possibilidade de esquizofrenia... ele parece propenso a episódios freqüentes de depressão ou turbulências emocionais... ele processa informações de maneira desorganizada e aleatória... sua concepção de si mesmo não é bem desenvolvida e é provavelmente distorcida. Sua auto-imagem inclui muito mais aspectos negativos do que deveria ter.”
O sujeito do teste certamente não era esquizofrênico, nunca demonstrou nenhum sinal de ser suicida e nunca precisou de ninguém para tomar conta dele.
Outros achados do teste indicavam que “[...]ocorreram muitos problemas no pensamento, lógica e síntese através das categorias cognitivas que, em termos tanto de freqüência e tipo de distorção, são similares aos indivíduos que sofrem de esquizofrenia.”
O sujeito avaliado pelo método Rorschach era ninguém menos que Linus Pauling, casado, pai de quatro filhos, cientista e ativista ganhador do Prêmio Nobel de Química em 1954 e do Prêmio Nobel da Paz em 1962, pioneiro na aplicação dos conceitos da mecânica quântica na química. Ficou conhecido pelo seu vasto conhecimento nas áreas da química inorgânica, química orgânica, metalurgia, imunologia, anestesiologia, psicologia, oratória, armamentos nucleares, mecânica quântica e biologia molecular.
Várias hipóteses – ou desculpas – foram levantadas para explicar os motivos para as incoerências entre a personalidade delimitada pelo teste e a personalidade real que realizou o teste. Entre elas as de que Pauling havia lido sobre processos de brainstorming e havia relacionado tais processos com o teste, distorcendo os resultados, ou ainda, apelando para o conhecido ditado de que a linha limite entre a insanidade e a genialidade é de difícil compreensão. Defensores do teste também alegam que um único resultado fora do normal não invalida o teste.
Para mim, este caso relaciona-se com o filme pela própria abordagem totalmente contrária em um teste que visa interpretar a subjetividade do sujeito padronizando o método de interpretação. Até mesmo as palavras subjetividade e padronizando não ficam bem na mesma frase. Para aqueles que buscam uma resposta rápida às particularidades individuais da mente alheia, penso que os testes podem se tornar uma ferramenta muito enganadora, deixando transparecer mais sobre os temores e fraquezas daquele de analisa – ou julga – do que sobre a real personalidade daquele que é analisado.
Faltou boa vontade em abrir-se para uma mente brilhante. Faltou coragem para entrar em contato com um mundo que pode ser radicalmente diferente do seu, mas capaz de criar coisas maravilhosas.

Baseado em um trabalho para a disciplina de Fenomenologia.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A Fenomenologia de Babel

O filme Babel, dirigido por Alejandro González Iñárritu e escrito por Guillermo Arriaga, é a parte final dos dramas de narrativas múltiplas que ficaram conhecidos como “a trilogia da morte”, iniciada com Amores Perros e 21 Gramas. Babel expõe quatro narrativas compostas por diferentes grupos de personagens e diferentes situações, todas interrelacionadas, onde os eventos não são exibidos em uma seqüência natural, sacrificando a clareza. Enquanto este artifício parece ter funcionado com a crítica, já que o filme recebeu muitos prêmios e elogios, uma boa parte da audiência acredita que falta de clareza não é necessariamente uma qualidade, mas sim um meio de criar o efeito “a nova roupa do rei.”
Segundo Edmund Husserl, a fenomenologia é “o estudo reflexivo da essência da consciência da forma que esta é experienciada de uma perspectiva de primeira pessoa.” E foi justamente conversando com meus colegas que fiz algumas das conexões mais interessantes entre as situações exibidas no filme e essa vertente da fenomenologia. Uma colega me relatou algo assim: “Não, vê só, no começo do filme o homem dá uma arma para as crianças, dois guris deste tamanho , uma coisa horrível!” Outro colega me disse que o problema era “a japonesa tarada, porque o pai dela não dava atenção nem para ela e nem para a mãe dela.” Até então eu não havia assistido ao filme, mas guardei esses comentários para ver se concordaria ou não com eles.
Assistido ao filme, notei que o homem que dá uma arma para as crianças é um criador de cabras do Marrocos, e que as crianças são seus filhos. É realmente uma coisa horrível ver um pai entregando uma arma carregada para seus filhos, especialmente para nós, que crescemos em zonas urbanizadas. Mas na área rural, seja no Marrocos ou no Brasil, não é incomum que crianças trabalhem na criação de animais e que saibam manejar armas para proteger a criação dos predadores. Estaria minha colega equivocada no seu comentário? Não, a conseqüência do manejo da arma pelas crianças mostra que, eliminando aquilo que é adicionado ao fato – ou fenômeno – observado, o resultado é horror. Contudo, conhecendo um pouco melhor o ocorrido, desenvolve-se uma compreensão mais ampla sobre aquela situação em particular: a realidade de que crianças de áreas rurais aprendem, de uma forma não muito segura, a usar armas desde muito cedo. No modelo de produção rural familiar, os pais contam com os filhos para ajudar nas tarefas diárias, não como uma forma de explorar o trabalho dessas crianças – elas estão trabalhando para aquilo que lhes será deixado de herança – mas como uma maneira de passar adiante as ferramentas ou o conhecimento necessário para poder manter a herança deixada pelos pais. Seria o caso de condenar o modelo de produção rural familiar ou seria o caso de lidar com o problema em si? Talvez a ONU, ou alguma outra organização internacional, devesse imprimir uma cartilha com algumas regras de segurança para o manejo de armas, tais como: nunca, jamais, em hipótese alguma, apontar a arma para uma pessoa ou para uma habitação onde possam haver pessoas ou para um veículo que possa estar transportando pessoas; e distribuir tal cartilha entre as famílias que vivem dessa maneira em áreas com comércio irregular de armas de grande calibre. Com certeza os pais iriam passar a informação aos filhos, da mesma forma que ensinaram seus filhos a guiar o rebanho e outras funções da vida rural.
Também notei que a japonesa realmente tinha problemas de fundo emocional para lidar com pessoas do sexo masculino, e que o pai da japonesa realmente não era uma pessoa muito dedicada à filha. A observação do meu colega, embora não ficasse completamente clara no filme sendo, portanto, baseada em suposições, não estava completamente errada. Mas seria justo eliminar dessa equação os milhares de anos de história da construção da cultura japonesa? Anos estes que culminaram no surgimento de uma sociedade que, mesmo pelos padrões modernos, possui costumes que ainda são difíceis de aceitar dentro de uma visão ocidental. Uma vez que nós ocidentais reconhecemos o problema crescente de individualismo como modo de vida, pregado pela visão capitalista dominante, os japoneses possuem um individualismo sexista já enraizado em sua cultura e que apenas se fortaleceu com a queda do império e modernização dos modos de produção após o final da Segunda Guerra Mundial. Como exemplo dos extremos comuns aos japoneses podemos citar: a pressão e cobrança por sucesso pessoal; a manutenção da honra familiar que normalmente recai sobre os ombros dos filhos homens e está relacionada ao sucesso pessoal e enraizada até mesmo na religião professada pela maioria dos japoneses; o papel da mulher na sociedade japonesa, onde as mulheres ainda são sujeitas até mesmo a abusos sexuais nos metrôs como forma de uma manifestação da cultura oriental em si, embora admitidamente errada no contexto da atualidade. Seria justo esperar que naquela sociedade um pai agisse de maneira diferente da maneira que agiu o Sr. Wataya em relação às mulheres de sua família? É muito fácil julgar quando temos o sangue latino – indiscutivelmente passional – correndo pelas veias.
O filme, por se passar em locações e realidades tão diversas quanto os Estados Unidos, o Marrocos e o Japão, cruza diversas fronteiras culturais em que julgamentos devem ser feitos com extremo cuidado para não basearem-se no etnocentrismo ou em um viés cultural (cultural bias). Se, por um lado, na raiz da fenomenologia está a experiência imediata como descrita por Wundt, Husserl pega emprestado o conceito de intencionalidade de Betrano para que, livre de pré-conceitos o observador possa usar o discernimento ao avaliar um fenômeno. Foi justamente a falta do discernimento uma das críticas mais duras à introspecção, que levou a necessidade do desenvolvimento de novas vertentes e do desenvolvimento da própria Psicologia que temos o imenso prazer de estudar agora. Em um mundo perfeito, contaríamos com profissionais que fossem treinados para desprezar seus preconceitos e fossem detentores de discernimento suficiente para avaliar caso a caso o passado (background) de seus clientes. Infelizmente muitos ainda preferem pegar o atalho mais fácil e utilizar lentes culturais que enquadrem as realidades apresentadas – ou ainda por apresentar – em sua própria subjetividade. Desta maneira, jamais desenvolvem empatia alguma com seus clientes e jamais entram em contato com a realidade vivenciada por eles.
Eu gostaria de ter um conhecimento mais aprofundado da Gestalt Terapia de Perls para poder encaixar melhor a subjetividade vivenciada por ele no desenvolvimento de suas teorias à fenomenologia da maneira que se deixa transparecer no filme, mas estamos apenas nas primeiras aulas sobre esse teórico que já exerce certo fascínio. Para mim seria mais fácil relacionar com Sigmund Freud, que embora tenha vivido em um local e uma época extremamente etnocentrista, foi capaz de pensar fora-da-caixa e propor que o terapeuta se deixasse absorver pela subjetividade do paciente (ou cliente) pelo método de associação livre – pegando uma carona naquele trem e sentando na janela para observar a paisagem. Para nós, contemporâneos da Era Digital, é valido ressaltar que não é possível fazer isso sem conhecer a cultura e o passado do paciente, coisa especialmente complexa em um mundo globalizado onde as culturas se entrelaçam pela hiper-conectividade.
Ainda que tenhamos dificuldade para assimilar nossas diferenças culturais e pessoais, para melhor compreender as pessoas com as quais deveríamos nos encontrar no exercício da Psicologia, é no mínimo uma obrigação a utilização das ferramentas que nos são entregues por pessoas que foram capazes de ver muito além daquilo que vemos, tais como os teóricos/filósofos da Fenomenologia, para que tentemos alcançar essa sintonia e compreensão. Sem enganos, a vida é dura para as mulheres no Japão, assim como é dura para as crianças em áreas rurais do Marrocos, e até mesmo para o casal americano que tenta resolver suas crises conjugais em uma viagem exótica; é papel do psicólogo endurecer ainda mais essas vidas humanas? Eu acredito que não. Antes devemos entrar em contato com as diferentes realidades para depois tentar ser uma luz guia em direção à “arte do bem viver”. Caso contrário, podemos nos tornar iguais àqueles agentes da imigração do filme, impassíveis diante de qualquer argumentação, meras máquinas de reproduzir comandos e executar ordens. A sociedade já está repleta desse tipo de atitude, e consegue com isso provocar essa verdadeira epidemia de pessoas que não conseguem encarar a vida da maneira que é apresentada, recorrendo a diversas fugas por medo de uma coisa tão simples quanto olhar a si mesmo no espelho da consciência.

Baseado em um trabalho para a disciplina de Fenomenologia.