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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Metapsicologia Freudiana e a Neurociência

Freud foi um dos primeiros pensadores a estudar o funcionamento da mente e da memória humana sob um prisma físico e não abstrato. Levando em conta que ainda hoje sentimos os efeitos do dualismo de Descartes (Damasio, 1995), e a época na qual Freud viveu, suas investigações em neurologia são extremamente relevantes – e surpreendentemente pouco conhecidas em seus aspectos mais importantes: em muitos cursos introdutórios de Teoria Psicanalítica e História da Psicologia mal são citados seus estudos com enguias (Schultz & Schultz, 2005).
O princípio no qual Freud se baseou é o de que existe uma energia que tem uma origem, um percurso, um armazenamento e um destino, dentro do organismo humano, e que flui através de um meio físico, que é o sistema neurológico (Machado, 2004). Curiosamente, Freud apontava tanto para causas endógenas, tais como fome, tensão sexual, etc; quanto para estímulos do meio e associações entre estímulos:
Freud concluiu que estímulos endógenos, gerados pela fome ou pelo desejo sexual - por exemplo, iriam permanecer circulando pelo sistema até que estas necessidades fossem aplacadas. Desta forma, estes estímulos necessitavam daquilo que ele chamou de "ações específicas". Mas uma ação específica - perfazer a ação apropriada sobre o objeto apropriado para satisfazer uma demanda biológica e terminar o fluxo de estímulo endógeno - necessitaria de uma configuração considerável. Ele então ofereceu uma hipótese sobre como tais ações poderiam ter início. No princípio, quando um bebê estava com fome, por exemplo, a fonte de comida era simplesmente colocada na boca do bebê quando este virava sua cabeça. A comida satisfazia a necessidade biológica e o estímulo endógeno cessava, causando a redução da energia e um sentimento de prazer. Seguindo a tradição psicológica que vai de encontro a Hobbes, Freud assumia que os estados mentais que eram experienciados juntamente e eram acompanhados pelo prazer, tornavam-se especialmente associados ao seio materno, a sensação sinestésica de movimentar a cabeça e, talvez, muitas outras sensações que se tornariam intimamente associadas. (Kitcher, 1992)

Fica clara, também, a influência da física newtoniana (conservação de energia, etc) em seus estudos iniciais, embora Freud não tenha chegado a quantificar tal energia, nem mesmo definir sua natureza físico-química - coisa que só veio a se estabelecer com estudos em neuroquímica e neurobiologia molecular, nas décadas de 1950 e 1960. Na época de Freud ainda havia discussões a respeito da natureza do tecido neural, e pouco se sabia a respeito das sinapses.
Notáveis, neste sentido, são as observações de LeDoux (2003) sobre tal momento da história da neurociência: Todos os órgãos são formados por tecidos que, por sua vez, são formados por células, mas diferentemente das células de outras partes do corpo, as células do cérebro – os neurônios – comunicam-se diretamente entre si. Apenas em 1837 tomou-se conhecimento da existência de células formadoras de tecidos por meio do trabalho do botânico Matthias Schleiden. No ano seguinte, o memorável Theodor Schwann estendeu esta noção aos animais, unificando botânica e zoologia em uma única teoria celular, segundo a qual todos os seres vivos são compostos por células. Contudo, levou décadas para decidirem se tal teoria era aplicável ao cérebro, pois este não apresentava estruturas que se assemelhavam às células até então conhecidas: diferente das células de outros órgãos, as células cerebrais apresentavam fibras que se estendiam partindo do soma. Isto levou alguns cientistas a acreditar que o cérebro era único – não composto por células discretas, mas por um emaranhado de fibras ou um retículo de elementos continuamente conectados. Outros, contudo, acreditavam que a teoria das células aplicava-se ao cérebro também, entre eles estava o jovem Sigmund Freud.
As duas figuras mais importantes no debate que ficou conhecido como a ‘Guerra das Células’ eram Santiago Ramón y Cajal e Camillo Golgi. Enquanto Golgi defendia a ‘Teoria Reticular’, Cajal defendia a ‘Doutrina do Neurônio’. Cajal ganhava muitos seguidores com seus métodos inovadores, entre eles estava Wilhelm Waldeyer, que em 1891 sugeriu o nome ‘neurônio’ para as células do cérebro.
baseado no Synaptic Self - Joseph LeDoux
Já em 1883, Freud postulava que as células nervosas eram fisicamente separadas umas das outras, conceito que ele veio a explorar mais amplamente no trabalho “Projeto para uma Psicologia Científica” (1895), ou simplesmente ‘O Projeto’, como veio a ficar conhecido.
Freud também introduziu o conceito de ‘barreiras de contato’ para descrever os pontos onde os neurônios se encontravam, e sugeriu que a interação entre os neurônios através das barreiras de contato era o que tornava possível a memória, a consciência e outros aspectos da mente humana. Embora estes conceitos fossem absurdamente sofisticados e a frente de seu tempo, Freud imaginava que a neurociência iria evoluir em passos muito lentos para seu gosto, vindo a abandonar a teoria neural em favor de uma teoria puramente psicológica. “O resto é história [da psicanálise]...” – Dois anos depois que Freud escreveu ‘O Projeto’, Sir Charles Sherrington, alheio ao trabalho de seu colega, propôs o termo sinapse para aquilo que Freud chamava de barreira de contato.
Em 1906, Golgi e Cajal receberam o prêmio Nobel por seus estudos em anatomia cerebral... E, com o passar dos anos, a psicanálise veio a tornar Freud um ícone popular.

Fontes:
DAMASIO, Antonio. The Human Heart in Conflict. Modern Neurobiology and the Idea of Medicine. In: Descartes’ Error: Emotion, Reason, and the Human Brain. 1995.
KITCHER, Patricia. Two Principles of Mental Functioning. In: Freud's Dream: A Complete Interdisciplinary Science of Mind. MIT Press, 1992.
LeDOUX, Joseph. The Most Unaccountable of Machinery. In: Synaptic Self: How Our Brains Become Who We Are. 2003. p. 37-9.
MACHADO, Elci F. Elementos do APF. In: Metapsicologia: Princípios para um Conceito Alternativo de Cognição em Inteligência Artificial. 2004. p. 27.
SCHULTZ, Duane P. e SCHULTZ, Sydney E. História da Psicologia Moderna. 2005. p. 355.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

A pequena Miss Sunshine

O filma A Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, FOX Searchlight, 2006) foi exibido para os alunos da primeira turma do curso de Psicologia da Faculdade Atlântico Sul do Rio Grande, na manhã de Sábado, em 17 de novembro de 2007. Trata-se de uma comédia dramática, classificada por alguns como comédia de humor negro, que retrata a ocorrência de uma série de eventos marcantes em um curto espaço de tempo, no decorrer de apenas alguns dias, na vida de uma família norte-americana a beira da desintegração.
Sempre que possível gosto de tentar expandir os limites de aproveitamento didático dos trabalhos propostos, algumas vezes não consigo por falta de tempo, e algumas vezes não consigo por conta de minhas próprias limitações. Sendo este o último trabalho curricular que irei entregar este ano, quero tentar, sem evadir a pergunta inicial, fazer um exercício de imaginação semelhante àquele que o roteirista fez quando elaborou o filme e seus personagens. Desta maneira, quero trazer a personagem Olive mais uma vez a vida, no papel, para que ela possa relatar o seu ponto de vista sobre os eventos ocorridos durante o concurso Pequena Miss Sunshine.
Nas linhas a seguir, uma transcrição ....
Entra uma menina de sete anos de idade na sala, trazida pela mão por sua mãe, de porte normal para sua idade, cabelos loiros compridos, e grandes óculos de grau que dão a impressão de estarem se projetando para frente e além de seu rosto. A mãe da menina, Sra. Sheryl Hoover, tenta parecer descontraída, mas é possível perceber em seu rosto as feições e marcas de alguém que precisa lidar diariamente com tensões e conflitos bastante próprios.
Enquanto a garotinha percorre a sala com os olhos, após encarar brevemente o terapeuta, sua mãe explica que a trouxe para uma pequena avaliação, pois esta tem apresentado alguma dificuldade para dormir, “pedindo que eu e meu marido fiquemos acordados até tarde com ela contando histórias para dormir” – nas palavras da mãe.
Quando agendou a consulta, a Sra. Hoover comentou, por telefone, que acreditava que Olive poderia estar sofrendo com a morte do avô, pai de seu marido, com quem ela tinha uma relação bastante afetuosa e próxima. Segundo a Sra. Hoover, ele teria morrido após ingerir uma grande dose de heroína no quarto de um motel, durante uma viagem em família para um concurso de beleza infantil no qual Olive iria concorrer. O avô teria incentivado e preparado Olive para o concurso; ela, a mãe, não dispunha de tempo para tanto.
Antes de deixar da sala a Sra. Hoover voltou-se para sua filha Olive e lhe deixou uma série de recomendações, e finalizou dizendo que estaria de volta dentro de quarenta e cinco minutos, após passar em um fast-food para comprar o almoço da família. Imediatamente seu telefone celular tocou e ela atendeu, saindo sem se despedir do terapeuta, apenas fazendo um breve afago nos cabelos de Olive.
A menina olhou novamente para o terapeuta e, na seqüência, voltou os olhos para a uma mesa com papel e alguns lápis de colorir. Após fechar a porta, o terapeuta sorri gentilmente, se agacha até a altura da menina e pergunta se ela gostaria de fazer alguns desenhos enquanto conversa. Ela levanta os ombros, curvando levemente a cabeça para o lado, e responde com um “tudo bem” quase soprado.
O terapeuta se senta ao lado dela, enquanto ela separa algumas folhas e escolhe as cores que vai utilizar, e pergunta sobre o concurso de beleza do qual ela participou. Olive responde que o “concurso foi legal”, e começa a fazer alguns rabiscos em uma das folhas.
Percebendo que algo semelhante a uma família correndo atrás de um carro começava a aparecer nos rabiscos de Olive, o terapeuta pergunta se ela gostaria de lhe falar sobre a viagem até o concurso. Ele nota que Olive aperta com força o lápis de cor, parando momentaneamente de desenhar, para logo depois seguir fazendo os traços, agora depositando maior pressão no papel.
Enquanto desenha ela começa a falar:
“Minha mãe recebeu um telefonema da minha tia, dizendo que eu poderia participar do concurso Miss Sunshine. Eu fiquei muito feliz, sempre quis ser uma miss, como aquelas que via na tevê. Elas são bonitas, e todo mundo olha para elas e fica feliz.” - faz uma pequena pausa...
“Meu pai disse que a gente não podia ir. Ele era escritor, estava esperando um amigo dele ligar para falar sobre o livro dele. Mas meu avô Edwin, e a minha mãe, convenceram meu pai a ir. Ah! E o tio Frank também ajudou.”
“O tio Frank cortou os pulsos... Ele estava muito triste com o amigo dele.”
O terapeuta não interrompe, deixando que ela continue com a descrição dos eventos.
“Nós fomos no carro do meu pai, ele vendeu o carro quando voltamos da Califórnia. Eu gostava do carro porque cabia todo mundo nele, e era bonito e amarelo...” – O terapeuta percebe ela pintando o carro de amarelo. Olive faz uma pausa mais longa, e o terapeuta intervêm perguntando como foi viajar com “todo mundo” no carro.
“Ah... Eu fui escutando o cd que meu avô me deu, a música que eu ia dançar no concurso, sabe? Meu avô disse que para ser uma miss eu tinha que aprender bem direitinho a música. Quando a gente parou no posto o carro do meu pai estragou... Eles tiveram que passar correndo pra me pegar.” – o terapeuta pede esclarecimento quanto ao “correndo.”
“Correndo, sabe? Eu pulei pra dentro do carro, foi divertido... Depois todo mundo tinha que empurrar, ai a gente corria e me botavam dentro do carro.” - Olive esboça um sorriso, ainda voltada para a folha onde está desenhando.
O sorriso logo se apaga, e mais uma pausa se inicia no discurso dela. O terapeuta nota que ela risca com força a camisa de um das pessoas no desenho, e pergunta de quem se trata. “É meu avô,” – diz Olive – “ele morreu.” Segue mais uma breve pausa. “Mamãe chorou quando vovô morreu. O Dwayne disse para eu abraçar ela.” – o terapeuta pergunta se Dwayne é o irmão de Olive. “É, tipo, ele é filho da minha mãe. Ele tem outro papai... Ele não podia falar com ninguém porque queria ser piloto. Acho que ele pedia para que eu fizesse as coisas por ele.”
Olive muda de assunto: “Meu pai disse que se eu quisesse ser miss eu não podia comer sorvete. Mas eu gosto muito de sorvete. A miss disse que comia sorvete.” - faz uma pausa. “Meu avô me dava sorvete.” E reforça o traço que lembra um sorriso no desenho do avô.
O terapeuta nota uma pequena contração nos lábios de Olive, e pergunta como foi falar com a miss. “Eu não falei muito,” – responde Olive – “ela autografou uma foto pra mim e me disse que come sorvete de iogurte. Eu gosto muito de iogurte... Depois eu tinha que me arrumar pro desfile.”
“O Dwayne e o tio Frank não ficaram, mas minha mãe foi comigo para me ajudar. Tinha muitas meninas lá, e elas eram diferentes...” – já imaginando a resposta, o terapeuta pergunta como eram diferentes estas meninas. “Ah... Elas eram magras. E as mães delas ficavam correndo na volta e mexendo no cabelo delas e pintando o rosto delas...” – faz uma pausa – “minha mãe ajudou a arrumar meu cabelo.”
Olive sorri novamente... “Quando eu fui me apresentar no final, e ia dançar como tinha ensaiado com meu avô, o Dwayne e meu tio Frank vieram correndo perguntar se eu queria me ir.” – tira os óculos e olha mais uma vez pro terapeuta – “É claro que eu queria. A gente foi até lá para isso. Daí eu subi no palco e dancei igualzinho eu tinha ensaiado com meu avô. Meu pai tava assistindo e bateu palma para mim...”
“Mas tinha uma tia meio louca lá... Ela ficava fazendo careta pra mim, ai o moço disse que tinha acabado minha apresentação. Mas meu pai não deixou, ele subiu no palco pra dançar comigo. Depois minha mãe, o Dwayne e meu tio Frank também subiram e a gente dançou todo mundo junto...” – faz mais uma pausa.
“A gente teve que sair correndo... Mas o policial nos levou pra delegacia e disse que não era mais, nunca mais, para gente voltar.” – ela fala ainda sorrindo.
O terapeuta pergunta se isso não é ruim, se ela não gostaria de tentar ser miss outra vez. “Não...” – responde Olive – “...era divertido brincar de miss quando meu avô estava com a gente...” – o terapeuta pergunta como ficou a família depois que voltaram do concurso.
“Ah, o Dwayne agora fala. Ele lia histórias pra mim, que nem meu avô. Mas ele teve que ir embora, ele está estudando em outra cidade... O tio Frank também, ele agora dá aula de novo.” – o terapeuta pergunta sobre os pais de Olive – “Meu pai disse pra minha mãe que está procurando emprego. Mas ele fica muito brabo. Minha mãe tá sempre correndo. Ela diz que nunca consegue descansar... Eu queria que eles lessem história pra mim dormir...”
O relógio marca o fim da sessão. O terapeuta acompanha Olive até a porta, mas não há ninguém na sala de espera...


Bom, assim termino meu exercício de imaginação; procurei não pré-conceber nada e ir descrevendo a medida que me lembrava dos acontecimentos do filme, tentando filtrar tudo sob a ótica da pequena Olive, mas sendo relevante o suficiente para que o terapeuta fictício pudesse extrair algo da conversa e, ao mesmo tempo, para que eu tivesse subsídios que apontassem para os acontecimentos posteriores àqueles que foram exibidos ao final do concurso.
Acredito que a cadeia que eventos que culminou no concurso Miss Sunshine tenha caracterizado algo singular na vida daquela família, mas a julgar pelas personalidades do pai e da mãe, não sou capaz de conceber nenhuma mudança duradoura na trama de atitudes que compõe aquele lar.
Penso que tais acontecimentos possam ter promovido um amadurecimento no jovem Dwayne, e propelido uma retomada para o Frank... Também penso que aqueles eventos condensados em poucos dias tenham colaborado para um crescimento da pequena Olive, mas seu desenvolvimento é prejudicado pela sua situação familiar.
Assim como Freud, acredito na capacidade infantil de lidar relativamente bem com os traumas provocados pela estupidez dos adultos, que acabam transferindo para a criança suas frustrações cotidianas provenientes do seu próprio modo cristalizado de encarar o mundo. Como na cena do sorvete, torço para que todas as Olives continuem optando por aquilo que realmente querem fazer, pelas coisas que gostam, e para que não se deixem envolver nas neuroses de adultos mal resolvidos e tenham suas infâncias abreviadas por isso.

Baseado em um trabalho da disciplina de Teoria Psicanalítica.

domingo, 25 de novembro de 2007

Psicodesenvolvimento

"Que chocante contraste existe entre a brilhante inteligência de uma criança e a débil mentalidade do adulto médio."
Sigmund Freud

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Os Sonhos

“Sonhos são como psicoses passageiras, embora não haja dúvida de que os sonhos não são, em si próprios, fenômenos patológicos.”


Sonhar: é o processo de satisfação de impulsos reprimidos do Id por meio de uma fantasia.

As três partes componentes do Sonho: o conteúdo latente; a elaboração do Sonho; e o conteúdo manifesto.

Conteúdo Latente: são desejos e pensamentos inconscientes que ameaçam acordar a pessoa e transtornar o sono. São elementos do conteúdo latente, por ordem de importância: os impulsos e desejos do Id; as impressões sensoriais noturnas; pensamentos, idéias e preocupações correntes. Todo o conteúdo latente do sonho é inconsciente.
A parte mais importante do conteúdo latente do sonho é a que deriva do Id reprimido, pois dela provém a maior parte da energia psíquica envolvida no sonho. Ela é geralmente infantil e pueril, podendo ter sua origem na infância com o surgimento dos mecanismos de defesa; em contraste com isso, os pensamentos e preocupações do dia anterior e as sensações são correntes, atuais.

Elaboração do Sonho: formação ou seleção de uma fantasia para a satisfação do desejo, que seja aceita pelo Ego e não perturbe o sono.


A elaboração do sonho se divide em três partes: a tradução dos impulsos e desejos do Id para o processo primário e a condensação do produto dessa tradução em uma fantasia; nas atividades defensivas do Ego agindo sobre esse processo de tradução e condensação; e na elaboração secundária.
A tradução dos impulsos e desejos reprimidos do Id para o processo primário ocorre simultaneamente com a tradução das preocupações atuais e sensações noturnas do processo secundário para o processo primário, condensando toda a informação.
Por se tratar do processo primário é tudo bastante visual e simbólico, e com a condensação, uma imagem pode representar vários desejos. O objetivo dessa tradução é formular uma fantasia que propicie a descarga dos impulsos reprimidos do Id para que estes não perturbem o sono.

Atividades defensivas do Ego (ou Censor Onírico): agem sobre o processo de tradução e tentam barrar os impulsos do Id, as preocupações correntes e, possivelmente, as sensações noturnas, para que não interfiram no sono. Para barrar as preocupações correntes e as sensações noturnas é utilizado o princípio do prazer, já os impulsos do Id são constantemente antagonizados e são barrados por meio de distorções e disfarces naquilo que será o conteúdo manifesto do sonho. Essas atividades são as principais responsáveis pela dificuldade de se interpretar o sonho.

Elaboração secundária: é uma tentativa do Ego dar lógica e racionalidade ao sonho, traduzindo o que foi sonhado para o processo secundário. Acontece quando tentamos relatar um sonho.

Sonho Manifesto (Formação de Compromisso): é o produto final do equilíbrio entre as forças de defesa do Ego e o Conteúdo Latente do sonho. Quando as forças defensivas não são suficientemente fortes para impedir que parte do conteúdo latente se torne consciente, elas podem tornar esse conteúdo vago, impedindo assim que este se torne totalmente consciente.
Assim, além das vicissitudes sofridas pelo conteúdo latente, partes do sonho podem ser reprimidas. A formação de compromisso irá determinar o quão distante do conteúdo original será o sonho e o quão vago ele será conscientemente.

Pesadelos ou Sonhos de Ansiedade: podem ocorrer devido a uma falha no mecanismo defensivo que permite ao conteúdo latente tornar-se consciente e gerar ansiedade no Ego, ou na forma de sonhos de punição, ou, ainda, como resultado do disfarce e distorção exacerbados dos impulsos do Id por parte dos mecanismos de defesa – neste caso o conteúdo latente aparece de tal forma distorcido que chega a ser assustador.

Sonhos de Punição: o Ego antecipa a culpa (condenação do Superego) se parte do conteúdo latente proveniente do Id encontrar expressão direta demais no sonho manifesto. O resultado é que a fantasia expressa, ao invés de retratar de forma mais ou menos disfarçada algum tipo de gratificação, acaba retratando de forma mais ou menos disfarçada algum tipo de punição.

Duas Teorias do Sonho

1ª Teoria (baseada na hipótese telescópica do aparelho psíquico): A descarga da energia psíquica, ao invés de seguir seu curso normal indo da extremidade perceptiva para a extremidade motora, fazia um arco reverso, voltando à extremidade perceptiva, uma vez que a extremidade motora estaria bloqueada durante o sono.

2ª Teoria (baseada na segunda tópica – hipótese estrutural): Durante o sono ocorre um enfraquecimento da função do Ego de Prova da Realidade e sua profunda regressão a um nível de funcionamento comparável ao da infância muito remota, onde predomina o processo primário de pensamento. Então ocorre um estado em que os pensamentos se manifestam de forma muito visual na forma de imagens pré-verbais e a incapacidade do Ego para determinar se estas imagens são provenientes do meio externo ou do meio interno.

Interpretação dos Sonhos: processo de engenharia reversa onde a tarefa consiste em verificar o conteúdo latente por meio do conteúdo manifesto.

Sonhos 101

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terça-feira, 25 de setembro de 2007

Fases do desenvolvimento psicossexual

Fase Oral (0-2 anos) → envolve a fantasia de incorporação pela ingestão de alimentos, a boca é a zona erotizada. A zona secundária desta fase é o sistema digestivo.

1ª Etapa da Fase Oral → sucção; a incorporação é mais ativa, energia psíquica libidinal;

2ª Etapa da Fase Oral → canibal; inicia-se com a eclosão dos dentes, energia psíquica agressiva (realização do destruto).

Patologia associada a esta fase: esquizofrenia.

Mecanismos de Defesa da Fase Oral: projeção, introjeção, cisão e negação.


Fase Anal (2-3 anos) → envolve as sensações obtidas por meio do controle dos esfíncteres do corpo. É marcada pelo ensaio para autonomia (estão mais desafiadores) e é a fase narcísica, do auto-erotismo.

Etapas (ou aspectos) da Fase Anal: expulsiva e retentiva – acontecem concomitantemente.

Patologias associadas a esta fase: problemas na fase expulsiva podem gerar neurose e problemas na fase retentiva podem gerar paranóia. Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), egoísmo, encoprese – leva a pessoa a buscar o fracasso em suas relações.

Mecanismos de Defesa da Fase Anal: formação reativa, isolamento do sentimento e anulação.


Fase Fálica (3-5) → ocorre a busca pelos objetos, é o fim da fase narcísica. É marcada pelos questionamentos (fase dos porquês). A criança entende que há objetos exteriores a ela (inconsciente coletivo – Jung); Fantasia da Cena Primária (pai e mãe em coito); dá-se o complexo de édipo (relação triangular); angústia de castração; ocorre a reestruturação do ego e emerge o superego. Vicissitudes do voyeurismo e exibicionismo.

Patologias associadas a esta fase: histerias, fobias, somatizações.

Problemas advindos da fixação na fase fálica: pessoas frias nas relações, homens machistas, mulheres passivas ou fálicas.


Fase da Latência (6-12) → os impulsos e a catexia são reprimidos, ocorre a sublimação para áreas de aprendizagem e formação.

Mecanismos de defesa da Fase da Latência: racionalização, sublimação.


Fase Genital (12~): busca de uma identificação extra-parental.

sábado, 22 de setembro de 2007

Esquema das Teorias do Aparelho Psíquico

Feito no primeiro semestre.
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Resumão de Psicanálise

Este resumo não exime ninguém de ler os livros recomendados, mas serve para ajudar aqueles que já leram e para dar uma idéia sobre os termos psicanalíticos para aqueles que ainda não leram.

As Cinco Premissas da Psicanálise:


1. Existe um inconsciente dinâmico.


2. Existe uma sexualidade infantil.


3. O núcleo da neurose é o complexo de édipo.


4. A neurose do adulto é a repetição da neurose infantil.


5. O indivíduo adoece com a diminuição da capacidade de amar.


Anotações:

O inconsciente dinâmico exerce grande influência na conduta dos pacientes.

A sexualidade infantil é o conjunto de transformações no corpo e no psiquismo que se iniciam no nascimento e culminam na fase fálica.

A neurose está ligada a uma tendência a repetir situações traumáticas.

Freud: focalizava suas teorias no complexo de édipo e na sexualidade infantil.

Pós-Freudianos: focalizavam nas primeiras experiências emocionais infantis.


As duas hipóteses fundamentais da Psicanálise:


As duas hipóteses fundamentais são o determinismo psíquico e o inconsciente.


Teoria Psicanalítica é um corpo de hipóteses sobre o funcionamento e desenvolvimento da mente humana.


O Determinismo Psíquico afirma que nada acontece por acaso na mente, tudo está relacionado com algo anterior. Os sonhos também estão sujeitos a essa regra.


A Técnica Psicanalítica são métodos indiretos para o estudo de fenômenos psíquicos ocultos.


A Associação Livre é a essência da técnica psicanalítica.


O Pré-consciente detém tudo aquilo que é de fácil acesso, como memórias e lembranças que podem facilmente tornar-se conscientes.


O Inconsciente detém aquele conteúdo de difícil acesso e exerce grande influência na vida mental.


Os Atos falhos ocorrem por influência do inconsciente.


Impulsos


Impulsos são forças instintivas que, juntamente às percepções sensoriais, vinculam a Psicanálise com a Biologia.


A diferença entre instinto e impulso está na resposta motora do impulso que é mediada pelo Ego.


Os impulsos são dinâmicos pois possuem uma fonte, uma finalidade, um objeto e uma força, empregado energia psíquica (catexia); são inatos e internos ao organismo; estão no limite entre o somático e o psicológico (no limite entre as necessidade fisiológicas e as necessidades psicológicas); pertencem ao inconsciente, mas tornam-se conscientes quando se ligam a um afeto ou a uma representação.


Representações abrangem sensações e experiências emocionais primitivas que ficam impressas no Ego.


Pulsões (impulsos) são dinâmicas, originam-se do corpo (fonte), visam obter satisfação (finalidade), possuem um objeto que pode ser uma pessoa ou a própria pessoa, e empregam uma energia e intensidade (força/catexia) que é constante enquanto não há satisfação.


As pulsões passam por vicissitudes, que são a transformação ou deslocamento da energia psíquica de uma pulsão para outra.


Tensão é o estado de excitação psíquica provocada por um impulso que impele o indivíduo a buscar alguma gratificação.


A Energia Psíquica é a energia envolvida na tensão provocada por um impulso.


Catexia é a quantidade de energia psíquica associada à representação mental de uma pessoa ou objeto.


Libido é a energia com um componente erótico originária de um impulso sexual. A libido abrange todas as pulsões que se relacionam ao amor.


Destruto é a energia com um componente destrutivo originária de um impulso agressivo.


Fases do desenvolvimento psicossexual são fases de fluxo gradual e variável, denominadas fase oral, fase anal, fase fálica, latência e fase genital. Os nomes estão relacionados ao objeto e modalidade de gratificação em que está investida grande energia psíquica.

As três primeiras fases (oral, anal e fálica) compreendem o desenvolvimento psicossexual da criança. A fase oral e a fase anal são conhecidas também como a fase narcísica.

Tanto o impulso libidinal quanto o impulso agressivo participam da progressão das fases.


As pulsões normais são aquelas observadas no desenvolvimento psicossexual.


Intercâmbio de pulsões podem ser exemplificadas quando o sadismo vira masoquismo ou o voyeurismo vira exibicionismo.


A transformação de pulsões pode ser exemplificada pelos mecanismos de sublimação - quando a energia da pulsão sexual é empregada em outra atividade; repressão - quando a energia é reprimida para o inconsciente; e pela formação reativa - quando a energia é manifesta de uma forma contrária à pulsão original.


Compulsão a repetição trata-se da tendência de voltar a catexia para objetos que já foram altamente catexizados e repetir a modalidade de gratificação.


Fixação da libido é a permanência de forte catexia libidinal em algum objeto ou modalidade de gratificação de uma fase passada.


Refluxo ou regressão é quando, na progressão normal do desenvolvimento psicossexual, a catexia libidinal retorna para um objeto de alguma fase anterior. Quando é desencadeada por um impulso trata-se de uma regressão instintiva.


Auto-erotismo é voltar a catexia libidinal dispensada a um objeto para o próprio corpo.


Infantilismo psicossexual: refere-se àquelas pessoas que se tornam fixadas em algum estágio do desenvolvimento psicossexual e não atingem a maturação para a heterossexualidade.


O Aparelho Psíquico


A mente é dinâmica em seu amadurecimento e funcionamento. As fases não possuem uma divisão bem definida e eventos marcantes em cada fase costumam influência a vida mental por um longo tempo.


A diferença entre pré-consciente e inconsciente é que aquilo que está no pré-consciente torna-se consciente facilmente.


A Psicologia Profunda (ou Ψ do Ics.) trata dos conteúdos e processos mentais impedidos de atingir a consciência por alguma força psíquica.


As três hipóteses do Aparelho Psíquico:


1ª. Hipótese Telescópica (ou do Trauma): modelo funcional → uma percepção ou sensação chega a mente e provoca uma resposta motora (sistema perceptivo → mente → sistema motor). Paradigma: o neurótico possui remanescências que precisam ser revividas.


2ª. Hipótese Topográfica: dividia a mente em consciente, pré-consciente e inconsciente. Paradigma: o que é inconsciente precisa se tornar consciente.


3ª. Hipótese Estrutural: divide a mente em Id, Ego e Superego. Paradigma: onde há Id precisa haver Ego.


Diferença entre a 2a e a 3a Hipótese: a 3a hipótese é mais dinâmica.


Id é onde residem os impulsos. Ego é onde a mente interage com o ambiente e onde os impulsos do Id são intermediados com os preceitos morais do Superego. Superego é onde residem os preceitos morais.


As funções do Ego são o controle motor, a percepção sensorial, as lembranças, os sentimentos e os pensamentos.


A Prova da Realidade é uma função do Ego que consiste em distinguir os estímulos do ambiente (externos) dos impulsos e desejos do Id (internos).


Os fatores de desenvolvimento gradativo do ego são dois: o crescimento físico sistema nervoso central (maturação) que é geneticamente determinado e os fatores experienciais.


O corpo do bebê tem uma importância fundamental para o desenvolvimento do Ego pois, diferente dos demais objetos, o corpo não é apenas sentido, mas também sente. Isso define o Ego corporal.


Identificação é o processo que enriquece o ego para melhor ou para pior.


A identificação com o agressor ocorre quando um objeto é catexizado pela energia agressiva e o indivíduo sente satisfação de participar ele próprio, pelo menos em fantasia, do poder e da glória que atribui ao seu oponente.


O Superego é formado durante o complexo de édipo, como subproduto do medo da castração – é uma instância psíquica que se separou do ego. É a internalização simbólica da figura paterna e da cultura ideal. O Superego age como consciência, mantendo o senso de moral e de proibição, e por tender a ficar em constante oposição aos desejos do Id acaba sendo agressivo com o Ego. Diz-se que o Superego é o herdeiro do complexo de édipo por sua formação estar marcada pelas proibições paternais que impedem a realização dos desejos incestuosos dessa fase. Ele emerge da solução dada pela criança a esse impedimento, na forma da introjeção dos pais para si (identificação).

O Superego também encontra a energia para sua formação no sentimento de hostilidade da criança para consigo mesma.


As três funções principais do Superego são:

Auto-observação;

Consciência moral – responsável pela culpa;

Ideal – responsável pelo sentimento de inferioridade.


Ideal do Ego é uma subdivisão do ego, relativamente autônoma, que surge com a perda do narcisismo individual e permite a submissão de grupos à figura de um líder.


Ego Auxiliar são objetos do Superego que se organizam como aliados do Ego, estabelecendo limites e impondo valores de forma não agressiva


Processo primário é o modo original como funciona aparelho psíquico, característico de um Ego imaturo. No processo primário a energia psíquica se desloca e descarrega no Id ou no Ego imaturo.


A tendência a gratificação imediata, a facilidade com que a catexia pode ser deslocada do objeto original ou a facilidade com que um método de descarga pode ser substituído por outro são características do processo primário.

O deslocamento está ligado ao modo como o Ego originalmente se manifesta, até evoluir e se tornar capaz de retardar a descarga da energia catéxica.


O
pensamento do processo primário é ilógico, atemporal, confuso, não verbalizado e sem seqüência.


São três os aspectos do pensamento do processo primário:

  1. Deslocamento: uma parte representa o todo ou o todo representa uma parte de uma idéia ou objeto.

  2. Simbolismo: linguagem inconsciente para objetos e idéias proibidas.

  3. Condensação: várias idéias são representadas por uma idéia ou parte de uma idéia.


Renegação: o indivíduo acredita em nível inconsciente ter sofrido a castração, sem ter sido deveras castrado.


Perverso polimórfico: é a capacidade de utilizar qualquer tipo de objeto como fonte de prazer. É característico das fases iniciais do desenvolvimento psicossexual, a catexia fica dispersa em vários órgãos.


O processo secundário é o modo característico de funcionamento do Ego maduro. São características do processo secundário o pensamento consciente, primariamente verbal que obedece as leis habituais da sintaxe e da lógica.


Neutralização é colocar a energia de um impulso a serviço do Ego. No processo primário a energia do impulso não é neutralizada. No processo secundário a energia do impulso é neutralizada.


A frustração é importante para a maturação e desenvolvimento do Ego pois estabelece os limites entre o "eu" e o "não eu".


O Ego pode opor-se aos impulsos e desejos do Id, e até mesmo combatê-los.O desenvolvimento do Ego determina inevitavelmente um certo grau de enfraquecimento do Id.


Os processos de gratificação fantasiosa são devaneios ou sonhos onde os desejos do Id se encontram parcialmente realizados, trazendo uma certa gratificação.


O Princípio do Prazer é a tendência da mente em obter prazer e evitar o desprazer. O Id é dominado pelo princípio do prazer e pelo processo primário.


É importante notar a diferença entre o princípio do prazer e o processo primário: o processo primário é objetivo, enquanto o princípio do prazer é subjetivo.


Duas Teorias da Ansiedade


1ª. Teoria da Ansiedade: a ansiedade seria resultado da transformação da libido represada.


2ª. Teoria da Ansiedade: a ansiedade seria conseqüência da influência de estímulos que podiam emanar dos impulsos ou do ambiente.


A ansiedade é causada por estímulos internos do Id ou externos do ambiente que ficam represados e não são adequadamente assimilados pelo Ego, dando origem a uma situação traumática.


Ansiedade de alarme é uma função do ego que visa prevenir o trauma por meio da antecipação da ansiedade de uma situação traumática, em uma situação de perigo ou de perigo eminente.


A função normal da ansiedade é permitir ao Ego inibir os impulsos e desejos perigosos do Id.


Mecanismos de defesa do Aparelho Psíquico


Defesa (atividade defensiva do Ego) é o controle exercido pelo Ego sobre os impulsos do Id, usando a ansiedade que age sobre o "onipotente" princípio do prazer.


Contracatexia é a energia empregada pelos mecanismos de defesa e que faz oposição às catexias.


Supressão: atividade consciente de "esquecer" um conteúdo.



Mecanismos de Defesa:


  1. Repressão: atividade inconsciente em que um conteúdo é bloqueado ao acesso do consciente.

  2. Formação reativa: transformar um sentimento em seu oposto.

  3. Isolamento do sentimento: uma fantasia ou pensamento aparece no consciente isolada de seu respectivo sentimento.

  4. Anulação: ação que visa anular suposto dano.

  5. Projeção: atribuir impulso ou desejo seu a outra pessoa.

  6. Voltar-se contra si próprio: utilizar-se como meio de gratificação a um impulso destrutivo.

  7. Negação: negar a realidade externa.

  8. Identificação: introjetar as características de outrem.

  9. Regressão: voltar a uma fase anterior relacionada ao trauma que desencadeia o mecanismo.

  10. Sublimação: gratificar os impulsos por meio de uma atividade produtiva e aceita pelo Superego.


Os mecanismos de defesa raramente são empregados de modo isolado ou mesmo aos pares, ao contrário, muitos são usados em conjunto. Em geral um ou dois mecanismos sobressaem-se como sendo os mais importantes.


As Transformações Sofridas pelo Ego


Segundo Freud não haveria ego no recém-nascido, no início apenas o Id está presente. Madeleine Klein e outros refutam essa idéia, para os pós-freudianos o ego é inato.


O Ego Arcaico (ou Ego do prazer puro) já permite interação com o mundo exterior, mas é incapaz de diferenciar o "eu" do "não eu" por não possuir condições neurobiológicas para tanto. Nesta fase o bebê expele (projeta) tudo que for desagradável e retém (introjeta) tudo o que for agradável.


No Ego da Realidade Primitiva persiste a indiscriminação entre o "eu" e o "outro", a realidade exterior. O processo de representações no ego está em pleno andamento.


O Ego da Realidade Definitiva é o estágio em que a criança procura reencontrar no exterior um objeto real que corresponda à representação de um objeto primitivamente satisfatório e perdido.


As Funções do Ego


Freud definiu o Ego como sendo um conjunto de funções e de representações a nível inconsciente e consciente. Na Psicanálise Clássica a preocupação era com os conflitos que se processavam no plano inconsciente entre as pulsões e as defesas; já na Psicanálise Contemporânea Vincular, embora persista a valorização da abordagem clássica, é concedida grande importância a muitos outros aspetos do plano consciente.


As Funções Egóicas apresentam implicações inconscientes mas manifestam-se principalmente no plano consciente. Estão intimamente ligadas aos órgãos dos sentidos, contatam diretamente a realidade externa com a finalidade adaptativa.


As funções inconscientes do Ego são os mecanismos de defesa e a ansiedade.


Atividades com participação consciente do Ego:


Percepção: é como o indivíduo percebe o mundo exterior e a possível intenção dos outros, e como o indivíduo percebe a si próprio.


Pensamento: a capacidade para pensar de forma eficaz tem origem no plano inconsciente do ego. Depende da capacidade do sujeito se deprimir para possibilitar a formação de símbolos que permitam a generalização e abstração do pensamento. O ato de pensar requer o estabelecimento de confrontos e correlações entre idéias, fatos presentes e passados e entre aspectos contraditórios de si mesmo.


Juízo Crítico: supõe a capacidade do ego em articular e discriminar diversos pensamentos que são separados entre si, relaciona-se a capacidade de raciocínio (articulação de diversos juízos).


Capacidade de Síntese: consiste em juntar e integrar os mesmos elementos que estão sendo pensados, mas com um novo arranjo combinatório de modo a possibilitar um novo significado.


Conhecimento: função egóica importante na prática psicanalítica pois permite tomar ciência das verdades penosas, externas e internas.


Linguagem e Comunicação: dá boa ou má resolução das funções do pensamento e conhecimento, e resultará na qualidade da estrutura lingüística e comunicacional.


Ação: função do ego que se refere ao plano comportamental. Depende da harmonia entre as funções de pensamento de conhecimento com as funções de conduta (ação). A falha nesta função egóica acarretará na reprodução das vivências de impotência infantil e na descarga da ansiedade na forma de actings e de condutas sintomas.


Diferença entre a visão Psicanalítica da visão Behaviorista do comportamento: os Psicanalistas valorizam a participação do Ego (mundo interior) na conduta do indivíduo, já os Behavioristas preocupam-se apenas com os estímulos positivos e inibitórios provenientes do ambiente, que geram a resposta ou conduta exterior.


Atividades com participação inconsciente do Ego:


Formação de ansiedade: divide-se em dois tipos de angústia. A angústia automática ocorre quando há um excesso de estímulos que o Ego não consegue processar e, por isso, reprime-os. A angústia sinal é concebida como "sinal" emitido pelo ego diante de uma ameça, para então processar-se a repressão.


Mecanismos de defesa, também são uma atividade inconsciente do Ego.


Ansiedades e Angústias identificadas por Freud


Ansiedade: receio sem relação com qualquer contexto de perigo de causa psicológica inconsciente.


Angústia: ansiedade ou aflição intensa.


Angústia de Nascimento: situação traumática primal.


Angústia de Desamparo: deriva da incapacidade do ego em processar os traumas psíquicos e pode ser considerada como o protótipo de todas as demais angústias. Manifesta-se com uma terrível sensação de desvalia e abandono.


Angústia de perda: ocorre em momentos de separação do objeto catexizado.


Angústia de perda do amor dos pais: ocorre no complexo de édipo e é importante no desenvolvimento psicossexual da criança.


Angústia de castração: também ocorre no complexo de édipo. Quando mal resolvida pode gerar problemas como insegurança.


Angústia de culpa e medo diante do Superego: ameaça de punição em nível de vida mental caso houver transgressão do código de valores impostos pelo Superego.


Angústia devido à presença do instinto de morte (thanatos): desejo inato ao ser humano de autodestruição.


1ª. Teoria da Ansiedade: a ansiedade é resultado da descarga de um represamento inadequado da libido. A ansiedade era a libido transformada em uma manifestação patológica.


2ª. Teoria da Ansiedade: a ansiedade é o problema central da neurose e tinha uma base biológica herdada. Sendo o ego o local de todas as emoções, a ansiedade deveria, portanto, ser sentida no ego. Quanto mais desenvolvido for o ego mais ele será capaz de dominar ou descarregar os estímulos produzidos quer sejam eles de ordem interna ou externa. A situação se tornaria traumática apenas quando esses estímulos superarem a capacidade do ego de digerí-los adequadamente.


Diferença entre a 1ª Teoria da Ansiedade e a 2ª Teoria da Ansiedade: na primeira teoria a ansiedade é originada por estímulos internos, na segunda teoria a ansiedade pode tanto ser originada por estímulos internos quanto externos.


Mecanismos de Defesa do Ego


São processados pelo Ego e são praticamente inconscientes. Quanto mais imaturo e menos desenvolvido estiver o ego, mais primitivas e carregadas de magia serão as defesas. O mecanismo fundamental do ego é rejeitar de qualquer forma a vivência e a tomada de conhecimento de experiências emocionais ansiogênicas.


A importância dos mecanismos de defesa: todos os mecanismos de defesa participam do enriquecimento do Ego, ou seja, são estruturantes para a época do seu surgimento. A forma e o grau do emprego destes mecanismos diante da ansiedade é que vai determinar a natureza da formação de uma normalidade ou patologia nas diferentes estruturas psíquicas.


Símbolos


A Formação de Símbolos é uma capacidade exclusiva do ser humano e é por meio dela que a criança terá acesso a outras capacidades de conceituar, generalizar, abstrair, verbalizar, construir metáforas e criar, sendo que a aquisição e a verbalização da palavra que designa fatos e idéias – característica do processo secundário – representa um dos mais nobres símbolos.


Identificação


Identificação é a aquisição de um sentimento de identidade coesa e harmônica resulta do reconhecimento e da elaboração de diferentes identificações parciais que foram sendo incorporadas aos indivíduos pela introjeção dos valores dos pais que, por sua vez, transmitem os valores que assimilaram da sociedade.


Dois tipos de identificação


Proto-identificação: tem natureza arcaica e divide-se em 4 modalidades:


  • Adesiva, quando há uma fusão e não se forma uma identificação acompanhada de uma necessária individuação (o indivíduo absorve a característica como ela é, sem adaptá-la à sua subjetividade).

  • Especular, comum na infância quando a criança comporta-se como se fosse uma mera imagem que só reflete os desejos da mãe.

  • Aditiva, quando o indivíduo não encontra sua identidade própria e torna-se dependente de certas pessoas que complementam as lacunas de sua personalidade.

  • Imitativa, que é a identificação saudável, quando a criança introjeta as características sem anular-se, sem tornar-se dependente, e adaptando-as às sua subjetividade.


Identificação propriamente dita é aquela que resulta dos processos de introjeção de figuras paternais dentro do ego sob a forma de representação objetais - símbolos - e no superego.


Tipos e causas das identificações propriamente ditas


  • Com a figura amada e admirada, tipo mais sadio e harmônico de identificação;

  • Com a figura idealizada, costuma ser frágil devido à pequena tolerância às decepções e custa ao indivíduo um esvaziamento de suas capacidades afetivas;

  • Com a figura odiada, que configura a identificação com o agressor;

  • Com a figura perdida, base do processo depressivo;

  • Com a figura que, na realidade ou na fantasia, foi atacada - identificação com a vítima;

  • Com valores impostos pelos pais, mais evidente ao final do complexo de édipo.


A identificação pode se dar por meio da projeção, onde características do próprio indivíduo que, de início, não podem ser assimiladas por ele, são projetadas em outrem para então serem introjetadas.


A aquisição do sentimento de identidade se dá em vários planos - sexual, social, profissional - e inicia-se com as múltiplas identificações parciais ou totais, saudáveis ou não. A identidade sofre contínuas transformações ao longo da vida. Existem vários transtornos do sentimento de identidade, tais como os normais - como a adolescência -, até as formas patológicas que aparecem em indivíduos psicopatas.


Falso Self” é uma percepção errada que o indivíduo possui de si mesmo, que o leva a agir de maneira diferente àquela que seria de se esperar de sua formação.


Difusão de identidade é quando o indivíduo projeta suas características nos outros e as encontra de maneira desintegrada em si mesmo.