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terça-feira, 22 de julho de 2008

Albert Ellis e a Terapia Racional Emotiva Conduccional

Segue uma tradução de um trecho de um vídeo, disponível no Google Video, onde Albert Ellis explica sua Terapia do Comportamento Emotivo Racional. Como é uma tradução de um discurso falado, provavelmente espontâneo, a linguagem pode ser um pouco confusa; mas acredito que a leitura seja válida para conhecer algumas das idéias deste psicólogo, nas suas próprias palavras:

"A Terapia Racional ou Terapia do Comportamento Emotivo Racional, TCER, é baseada em várias proposições fundamentais, ou hipóteses.
E a primeira delas é a de que o passado não é crucial na vida de uma pessoa; o passado afeta bastante uma pessoa, mas esta pessoa afeta a si mesma muito mais do que o passado a afeta. Pois não importa o que ela aprendeu durante o seu desenvolvimento histórico, a única razão para que estas coisas que aconteceram a ela, que foram ditas a ela, continuem afetando ela agora, é por que ela continua doutrinando a si mesma com as mesmas filosofias de vida, os mesmos valores, que foram inicialmente incorporados e ensinados a ela, muito cedo, durante a sua infância.
Nós nos firmamos grandemente no presente, na Terapia do Comportamento Emotivo Racional, ao invés do passado. E nós acreditamos, que as experiências atuais do indivíduo, repletas de emoções negativas e comportamentos auto-derrotistas e ineficientes, são causadas por que o indivíduo, agora, continua doutrinando a si mesmo, com aquilo que chamamos de simples frases exclamatórias, que envolvem idéias.
Seres humanos podem introjetar idéias, em todos os tipos de linguagem - em figuras, linguagem de sinais, em expressões não verbais, equações matemáticas, por exemplo -, mas eles normalmente falam consigo na sua linguagem nativa. E quando eles falam consigo de maneira irracional ou ilógica, eles criam, literalmente, seus sentimentos negativos, ou emoções e comportamentos que se seguem.
Apenas para citar um exemplo, o indivíduo geralmente diz para si mesmo, quando está chateado, primeiro sentenças sãs, depois sentenças insanas. As sentenças sãs são algo do tipo: 'Eu não gosto daquilo que fiz, eu estou descontente com meu próprio comportamento.' E isso seria bom, mas infelizmente o que se segue são as sentenças insanas, nas quais ele diz para si mesmo: 'E porque eu não gosto do meu comportamento, eu sou uma droga, sou um inútil, eu não sou bom para nada.'
E estas sentenças razoavelmente insanas, que são sentenças de fé infundada, em fatos que não possuem evidências empíricas, que remetem a superstições ou a sistemas religiosos dogmáticos, criam o que conhecemos como ansiedade e, através da ansiedade, a depressão, a culpa e as outras formas de auto-derrotismo.
Ou então, o indivíduo diz para si mesmo as mesmas formas de sentenças sãs, quando ele pensa: 'Eu não gosto do teu comportamento.' Quando alguém agiu de forma inapropriada para com ele e, ao invés de seguir esta linha de pensamento com algo do tipo: 'E, mesmo que eu não goste do teu comportamento, eu ainda posso suportá-lo, e vou tentar modificá-lo.' Ele pensa: 'Eu não posso suportar o teu comportamento.' De uma maneira absolutamente categórica, onipotente e determinística, ele procede com: 'Você não deveria ser da maneira que você é, porque eu não gosto da maneira que você é.'
Agora, é o segundo tipo de sentença, as sentenças 'Ser', que chateiam o indivíduo. Outra maneira de se refirir à elas, é como Epitetus, o filósofo romano, disse muitos anos atrás: 'Não é o que acontece conosco que nos chateia, é SER, ou VER o que acontece conosco.' Na Terapia do Comportamento Emotivo Racional nós vamos atrás deste indivíduo, da visão do paciente, e mostramos para ele que, o que quer que ele pense que o está chateando - geralmente alguma situação externa, algo que uma outra pessoa fez - é, na verdade, o que ele está dizendo a si mesmo sobre esta situação, este evento. É isso que o chateia.
E ainda que ele jamais seja capaz de fazer algo em relação a este evento externo 'A', ele pode sim modificar o evento interno 'B', suas sentenças, suas crenças para consigo mesmo.
Na Terapia do Comportamento Emotivo Racional nós tentamos mostrar para o paciente três tipos de insight, o que nos distingue de algumas outras terapias que enfatizam apenas um insight principal. O primeiro tipo de insight que tentamos mostrar para ele é que todos os seus comportamentos, especialmente seus comportamentos negativos e derrotistas - nos quais nós estamos interessados e os quais estão chateando ele -, possuem antíteses ideológicas bem evidentes. Ele pode ter aprendido estas teses no passado, mas agora, neste momento, ele ainda continua acreditando nestas mesmas teses, caso contrário ele não conseguiria sustentar o comportamento negativo que se origina delas.
O insight número dois, que é o mais importante e que é, infelizmente, negligenciado em outros sistemas de psicoterapia, é que ele, criatura, 'o animal simbólico' como Ernst Cassirer disse certa vez, está continuamente doutrinando a si mesmo com estas ideologias, e este é o problema, é por isso que ele está agora perturbado.
E o insight número três é que, mesmo quando ele ver claramente o que ele está dizendo a si mesmo, e que o que ele está dizendo para si mesmo não faz sentido, apenas através do trabalho e da prática, continuamente repensando e reavaliando suas próprias assunções filosóficas, é que ele irá, eventualmente, melhorar.
Agora, nós damos ênfase ao fato de que AÇÃO também é necessário para mudar o indivíduo. Apenas falar sobre as coisas, e pensar sobre as coisas, é bom, mas não é a única condição necessária para que ocorra a mudança psicoterapêutica. O que o indivíduo tem de fazer, geralmente, é agir; e desta forma nos damos tarefas concretas a serem realizadas fora do ambiente terapêutico, e acompanhamos a execução destas tarefas e seus resultados conseguintes para saber se ele as está realizando.
E nosso objetivo final é fazer com que o indivíduo aprenda, e aprenda para o resto de sua vida, a desafiar e questionar seu próprio sistema de valores, seus próprios pensamentos, de maneira que ele realmente pense por si mesmo. Ele deve fazer isso, especialmente, quando ele se sentir miserável, quando ele se sentir ansioso, ou deprimido, ou culpado, ou frustrado demais, ou qualquer outra coisa que seja negativa quando ele se comportar muito ineficientemente.
Finalmente, quando ele estiver capacitado em pensar e repensar suas assunções, ele irá poder aplicar o que chamamos de o método científico às facetas da vida humana, e poderá ser verdadeiramente científico em seus comportamentos, questionando e desafiando suas próprias conclusões a maneira como fazemos na ciência, conseguindo minimizar ou, eventualmente eliminar, as terríveis ansiedades e as hostilidades atrozes que infelizmente afetam a maioria de nós nesta existência."

Faço algumas observações, neste primeiro momento, após ter assistido ao vídeo e traduzido esta introdução... A essência da Terapia do Comportamento Emotivo Racional ou, pelo menos, do sucesso nesta terapia, é justamente desprogramar ou desconstruir boa parte daquilo que a sociedade, em especial nos seus mecanismos de coerção e doutrinação, fazem com o indivíduo. Desde cedo a escola, a religião, nossos pais e a televisão nos ensinam como devemos pensar, o que devemos sentir, como devemos nos sentir em relação a cada tipo de situação ou evento e o que devemos desejar. Como boa parte destes ensinamentos, ou teses, ou hipóteses, seja lá como se queira chamar, são direcionados à interesses de terceiros, e não, realmente, aos interesses dos indivíduos envolvidos, não é de se surpreender que, a medida que estes mecanismos de doutrinação fiquem mais sofisticados, o nível de funcionamento relacional e pessoal do invidíduo fique mais e mais comprometido, sendo que a população que sofre de ansiedade, estresse e frustração é cada vez maior.
Pensar numa abordagem terapeutica para contrabalançar isso, é muito bom, mas também devemos questionar o que a própria sociedade, uma vez que esta não deixa de ser produto direto ou indireto das ações e escolhas de cada um de nós, está fazendo com os indivíduos e se esta é a sociedade que queremos.
Outra observação que faço é quanto ao nome da linha proposta por Ellis: Terapia do Comportamento Emotivo Racional. Eis ai um grande oximoro por nome! As palavras Racional e Emotivo, usadas no mesmo contexto, de maneira complementar, são quase um contra-senso... Digo quase pois, pessoalmente, não sei até que ponto é possível ser verdadeiramente emocional, ser legítimo para com suas emoções, sendo racional. Mas não faço disso uma crítica pessoal ao pensamento de Ellis, uma vez que entendo que esta seria uma interpretação totalmente equivocada do proposto por ele: reprogramar a racionalidade subjacente ao pensamento do indivído de maneira que esta faça com que a sua racionalidade manifesta e os sentimentos que brotarem dele sejam mais positivos e eficientes.

Ps.: em países de língua portuguesa, a terapia de Ellis parece se chamar Terapia Racional Emotiva Conduccional, mas prefiro a minha tradução, uma vez que o nome original em inglês é Rational Emotive Behavior Therapy.

Link para o vídeo no Google Video: Albert Ellis

domingo, 6 de abril de 2008

Retomando Carl Rogers

Fazem alguns dias que não escrevo aqui e, neste meio tempo, cruzei por diversos assuntos interessantes que prenderam em maior ou em menor medida a minha atenção. Eu poderia ter começado a escrever algo sobre batidas binaurais, uma ferramenta que, acredito, ainda é subutilizada por ter sido deturpada por teorias que carecem de fundamentação científica, poderia estar escrevendo sobre a incrível palestra do "Homem de 5 Cérebros", Murray Gell-Mann, que assisti no YouTube por cortesia do Google, poderia estar traduzindo algum texto interessante mas, por algum motivo, nada disso me despertou aquela vontade que move meus dedos no teclado, ou aquela voz que me diz: "Ei, isto é importante para ser compartilhado, escreve lá." - espero que entendam que a voz, da qual falo, é meramente um impulso da minha consciência e não uma voz de fato em minha cabeça.
Foi assim até que, folhando um livro sobre teoria da personalidade, resolvi parar e ler a parte introdutória sobre a teoria da personalidade centrada na pessoa, de Carl Rogers. Sinto grande prazer quando posso dispensar algum tempo com algum livro texto na mão e sem obrigação alguma de ler algo específico, quando me permito ficar passando de assunto em assunto, me detendo naquilo que me chama mais atenção, passando rapidamente por aquilo que, naquele momento, não me desperta interesse algum. Foi assim que passei apenas os olhos sobre a introdução biográfica de Carl Rogers, uma vez que a vida dele já havia sido abordada inúmeras vezes em aula, e acabei me detendo quando reencontrei alguns dos princípios que ele pode enumerar após milhares de horas de terapia. O livro cita apenas estes seis:
1. Nas minhas relações com as pessoas, descobri que não ajuda, a longo prazo, agir como se fosse aquilo que não sou.
2. Atribuo um enorme valor ao fato de poder permitir-me compreender uma outra pessoa.
3. A experiência é, para mim, a suprema autoridade... é sempre à experiência que me volto para me aproximar cada vez mais da verdade, no processo de descobri-la em mim.
4. Aquilo que há de único e de mais pessoal em cada um de nós é provavelmente o próprio elemento que, se fosse compartilhado ou expresso, falaria mais profundamente aos outros.
5. A experiência mostrou-me que as pessoas têm uma orientação fundamentalmente positiva.
6. A vida, no que tem de melhor, é um processo que flui, que se altera e onde nada é fixo.

Fonte: Rogers, 1961 apud Pervin e John. Personalidade: teoria e pesquisa. 8a. edição, Porto Alegre : Artmed, 2004.
O que dizer sobre isso? Sem dúvida que há a voz da experiência aí, pode-se dizer até que há um insight sobre a pessoa humana, sobre o que é ser humano. Quanto mais penso sobre cada uma destas afirmações a mais conclusões boas e positivas sobre a experiência individual humana eu sou remetido.
Acredito que todo ser humano, sem exceção, faz aquilo que acredita ser o seu melhor, ou o melhor para si, a cada momento, mesmo quando decide não dar o seu melhor: a nossa mente sempre é capaz de criar uma justificativa para a preguiça, para o desleixo, para o descaso; e mesmo que esta justificativa seja passível de ser refutada por uma breve análise logística, se ela era o que estava faltando para a tomada de uma decisão para a qual já estávamos inclinados a tomar, ela será aceita como válida, sem o menor critério.
Não é uma questão de errar por gosto, mas de não ser capaz de encontrar um curso de ação mais apropriado. Judicialmente se diz que é imputável aquele que possui a capacidade de entender as conseqüências de suas ações e saber que está causando dano a outra pessoa, à propriedade ou à sociedade. Mas será que algum jusfilósofo já parou para pensar na diferença entre potencialidade e capacidade? Todos os seres humanos, mais ou menos sãos, mais ou menos inteligentes, possuem a potencialidade para discernir o que é certo e o que é errado, mas nem em todas as situações e contextos todos os seres humanos serão igualmente capazes de fazer tal discernimento.
Isso vale também para os demais escopos da existência e da ação humana. Não damos cem por cento de nossas capacidade durante cem por cento do tempo em nenhuma das atividades ou relacionamentos dos quais tomamos parte e isso é natural.
Certa vez um professor do curso de Direito, durante uma aula de História do Direito, fez um elogio ao ócio. De início houve uma certa comoção da parte dos alunos, até que fossem esclarecidos pela idéia de ócio produtivo: se apenas saturarmos nossas mentes de informações, sem dar o tempo necessário para que estas informações sejam digeridas, não teremos resultados originais jamais. Informações, cultura, ciência, são como brinquedos para a mente. De que adianta encher continuamente uma criança de brinquedos e não lhe dar tempo para brincar com os brinquedos que ganha?
Voltando ao Carl Rogers, outra idéia dele que me vez pensar, foi a de que se compartilhássemos e expressássemos aquilo que temos de mais único e pessoal, poderíamos tocar mais profundamente as pessoas ao nosso redor. Entendo o que ele quer dizer, especialmente no contexto da terapia psicológica, da visão do psicólogo; e também concordo que tal conceito se expande e permeia outras relações da vida.
Quantas vezes tentamos e insistimos em mostrar um certo ponto para alguém usando de métodos indiretos em maior ou menor grau? Quem nunca se deparou com a conclusão, trazida pela pessoa a quem as tentativas eram dirigidas, de que seria mais fácil simplesmente ter dito ou se expressado com clareza e sem rodeios?
Porém existem outras situações em que as pessoas querem ardentemente expressar algo que possuem dentro de si e que consideram único e valoroso, mas que acaba sendo totalmente inadequado para o contexto. É comum, em grande parte das relações de aprendizagem, onde existe alguém tentando transmitir um conhecimento e um grupo que está lá supostamente para aprender, que a tarefa de ensinar seja dificultada, no início, por constantes interrupções por parte da pessoa que estaria lá para aprender, tentando expressar algo que, naquele momento, acredita que irá contribuir enormemente para aula.
Quando isso acontece de forma limitada e a pessoa pára, podemos chamar de adequação. A pessoa vai aprendendo que, às vezes, é preciso escutar um pouco mais, esperar um pouco mais, ser flexível quanto aquilo que propõe e refletir sobre aquilo que escuta. Mas tem casos em que a pessoa toma conta e acaba querendo contestar aquilo que é exposto sem fazer uso de uma argumentação adequada e sem seguir as regras de um debate equilibrado.
Nestes casos é preciso fazer a pessoa refletir se ela está lá realmente para aprender ou se ela está lá querendo ser ouvida ou querendo se expressar. Existem momentos, muitos momentos, em toda relação de aprendizagem, em que a pessoa pode se expressar livremente e pôr a prova o seu ponto de vista sobre aquilo que é relevante ao que se tenta transmitir. Estes momentos, quando o ensino é sistêmico e organizado, são calculados para que aquele que aprende já esteja de posse de algum conhecimento sólido e fundamentado quando for manifestar suas opiniões.
Mas quando é constante a necessidade daquele que aprende de falar sobre sua bagagem de conceitos pré-concebidos, trazidos do senso comum e da mídia de massa, em oposição ou justaposição àquele que ensina, então é preciso repensar e fazer uma análise mais aprofundada sobre os seus reais objetivos naquela relação e as suas reais necessidades.
E então voltamos ao que estávamos falando anteriormente, de que o ser humano acaba fazendo o melhor que é capaz de fazer, dada uma certa situação, um contexto; mas que ainda assim somos iludidos pelos nossas limitações e usamos nossas limitações para nos iludir e entrar em conformidade com elas, ao invés de travar uma luta direta com elas.
Alguém pode estar sentindo uma necessidade enorme de ser ouvido e não querer admitir isso, ou não ser capaz de encontrar alguém que lhe queira ouvir. Partindo disso, esse alguém passa a acreditar que quer se inserir em um grupo, onde ocorram debates, onde as pessoas se expressem, como em uma relação de ensino, e passa então a acreditar que quer aprender algo, para não ter que admitir a si mesmo a sua necessidade ou mesmo a sua incapacidade de suprir essa necessidade.
Por estar buscando algo que não é inteiramente compatível com o contexto e por ter objetivos divergentes daqueles propostos pelo contexto em que se inseriu, tal pessoa irá experienciar ou atrito constante ou frustração por não ter sua necessidade real suprida.
Mas, partindo da idéia de que esta pessoa não encontrou outros meios de se fazer ouvir e de que aquela foi a alternativa que restou e que pareceu viável, é justo dizer que tal pessoa estava fazendo o seu melhor, o seu máximo dentro de suas capacidades atuais. Poderíamos argumentar: "Mas por que então esta pessoa não fez isso, ou aquilo, ou ainda aquilo outro, se tudo o que ela precisava era ser ouvida?" - argumento este que poderia ser traduzido como: "Ei, esta pessoa tem a potencialidade - ou possibilidade - de agir melhor." - e que pode ser simplesmente respondido com: "Sim, mas ela não sabia." - que se traduz como: "Ter potencial não é a mesma coisa de ser capaz."
Todo ser humano, que não sofre de nenhuma doença mais séria, tem o potencial de pedalar 80 quilômetros em um dia e depois ir para uma festa. Eu mesmo tenho este potencial. Mas se eu me levantar agora do sofá, pegar a bicicleta, depois de mais de um ano de ócio produtivo, e tentar pedalar tal distância, antes de percorrer os primeiros 25 quilômetros irei descobrir que me falta a capacidade, no dado momento, de atingir o meu objetivo.
E digo mais, a capacidade precisa ser construída: não vai ser numa segunda ou numa terceira tentativa que vou me encontrar capaz de percorrer grandes distâncias. Só que muitas vezes, para muitas pessoas, diferentemente de esportes que se faz por prazer e por saúde, a sociedade trata o ser humano como algo que é ou que não é; e confunde o pode ser com o deve ser. Isso ocorre com os rótulos que são impostos, pelos estigmas que se carrega e que, acredito eu, todo profissional que trabalha diretamente com o ser humano e, em especial, todo profissional da saúde mental, deve lutar para desconstruir e evitar ao máximo alimentar, seja com palavras, atitudes ou ações.
Este é, mais ou menos, um paralelo que traço entre as coisas boas a que sou remetido pelas teorias humanísticas de Carl Rogers, e a maneira como percebo que a sociedade trata o indivíduo, a maneira como a sociedade leva os indivíduos a tratarem uns aos outros.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Debatendo o experimento de Maria, a supercientista.

Fazer um experimento mental é utilizar um cenário hipotético para poder melhor entender a maneira como as coisas realmente são ou como as coisas poderiam ser. O termo original Gedankenexperiment foi criado por Hans Christian Ørsted, um físico e químico dinamarquês que teve participação marcante no movimento filosófico pós-kantiano, além de ser famoso por ter descoberto a relação entre a eletricidade e o magnetismo, o electromagnetismo.
Embora o termo seja relativamente recente, o conceito remonta à grécia antiga, sendo que na filosofia alguns dos exemplos mais conhecidos encontram-se nas obras de Platão e de Sócrates, e na física já existiam alguns exemplos documentados desde a época de Galileu Galilei.
Os experimentos mentais fazem uso de perguntas cuidadosamente estruturadas e bem definidas para, por meio do raciocínio subjuntivo (dependente de), chegar a uma conclusão a priori, que seja verdadeira sob qualquer circunstância lógica.
Dentre alguns experimentos mentais que andei lendo, um dos mais interessantes foi aquele que se tornou conhecido como Maria, a supercientista, proposto por Frank Jackson, um filósofo australiano, em 1982:
"Maria é uma cientista brilhante que, por algum motivo, é forçada a investigar o mundo dentro de um quarto onde todos os objetos são nas cores preto e branco, inclusive o quarto. Sua ferramenta de estudo é um monitor preto e branco. Ela se especializa em neurofisiologia da visão e adquire, suponhamos, toda informação física que disponível sobre o que acontece quando nós vemos tomates maduros, ou o céu, ou uma banana, e usa termos como vermelho, azul, amarelo, etc. Ela descobre, por exemplo, qual a combinação de comprimentos de onda advindas do céu que estimulam a retina e exatamente como isto produz, por meio do sistema nervoso central, a contração das cordas vocais e a expulsão do ar dos pulmões que resultam na vocalização da sentença 'o céu é azul.' [...] O que irá acontecer quando Maria puder sair de seu quarto preto e branco ou receber um monitor colorido? Ela irá aprender alguma coisa ou não?"
Imagino que você, assim como eu, tenha encontrado alguns problemas nas proposições acima; mas tais problemas não invalidam a questão levantada por seu autor. Vamos analisar quais são os principais argumentos do experimento:
"Maria é uma cientista brilhante."
"Tudo aquilo que Maria vê, está nas cores preto e branco."
"Maria sabe tudo o que há para saber sobre neurofisiologia da visão." - o que implica, necessariamente, que ela tenha algum conhecimento sobre cores.
Acredito que o autor quisesse propor um cenário em que a protagonista soubesse tudo sobre cores e o modo como percebemos as cores. Enquanto optar por descrevê-la como uma neurofisiologista da visão tenha criado um cenário crível em que podemos conceber alguém que saiba tudo sobre o comprimento de ondas de cores, neurofisiologia humana e o modo como percebemos as cores, talvez fosse mais adequado descrevê-la como uma especialista em pintura artística.
Tal proposição seria mais difícil de ser concebida, pois abrangeria com mais clareza a importância da maneira como percebemos as cores, e o quanto o conhecimento da supercientista seria de segunda mão, ou indireto. Neste caso, talvez Maria não soubesse muito sobre o comprimento de onda das cores, mas saberia que as cores podem despertar sentimentos nos seres humanos. Ela estudaria as pinturas, podendo observá-las apenas em preto e branco e saberia, por meio de relatos documentados e estudos de outros especialistas, que a combinação das cores usadas em determinada pintura ajuda a evocar esse e aquele sentimento, nesta e naquela medida. Ela saberia que uma pintura como O Grito, de Edvard Munch, desperta um sentimento de angústia, desintegração e opressão; e talvez, tendo sentido estes sentimentos em algum momento de sua vida, ela fosse remetida a eles lendo a respeito nos estudos de outros especialistas em arte.
Neste caso, proponho que imaginemos que Maria saísse do quarto preto e branco, e a primeira coisa com que se deparasse fosse o quadro O Grito. Sem dúvida que ela saberia o que esperar emocionalmente neste momento, mas sua experiência subjetiva acrescentaria algo a todo aquele conhecimento acumulado durante seus estudos?
Você pode estar pensando agora: "Mas que pergunta idiota, é claro que a resposta é sim!" - e eu não discordo de você, a experiência humana é muito mais rica do que aquilo que podemos representar pelos meios disponíveis nas ciências naturais ou da linguagem formal. Mas existem alguns acadêmicos que acreditam não ser este o caso. Tais pessoas se fundamentam naquilo que julgo ser uma visão limitada do mundo e se utilizam das limitações da linguagem e do próprio conhecimento científico para defender esta visão (anfibologia proposital aqui).
Mês passado li um artigo na revista FILOSOFIA Ciência e Vida, ano II, nº 17 , intitulado MARY E O TOMATE ou os qualia são relevantes para o conhecimento do mundo? escrito por João de Fernandes Teixeira, PhD. Nele, o autor descreve sua versão do experimento mental, mais atual e, creio eu, mais bem formulada do que a original, ainda que mais econômica em palavras; e prossegue utilizando-se das palavras do próprio Jackson para descrever que a visão do fisicalista, que "[...] implica na tese de que toda informação é informação a respeito do mundo físico, ou seja, se sabemos a totalidade de fatos físicos, sabemos a totalidade de fatos que há no mundo."
Mas seu objetivo é justamente o oposto daquele de Frank Jackson. Para o autor, a experiência em primeira mão não irá acrescentar nada de relevante para quem já detêm o conhecimento teórico, classificando o experimento mental de Jackson como um argumento do conhecimento.
Eis o primeiro argumento que Teixeira usa, parafraseando Dennett (Daniel, filósofo americano), para chegar a esta conclusão: "É possível, por exemplo, refutar a história de Mary argumentando que ela não aumenta seu repertório de conhecimentos após acordar da neurocirurgia. Pois afinal de contas, não é uma das premissas do experimento que ela sabia tudo a respeito do cérebro humano e de como ele processa as cores?" Bom, de fato, a Maria (ou Mary) do experimento mental sabe tudo a respeito do cérebro humano e de como ele processa as cores, mas isso é diferente de saber tudo o que há para saber sobre as cores e o que as mesmas provocam no ser humano. Logicamente não basta dizer que as cores são capazes de provocar emoções, uma vez que poderia ser levantada a possibilidade de que, uma vez que emoções são estados físicos do sistema nervoso central, Maria poderia saber tudo sobre como elas se processam (é um experimento mental, tal argumento é válido). Com isso, voltaríamos a pergunta original, suscetível à mesma refutação já descrita, mas tornamos um pouco mais claro o meu objetivo ao usar as palavras experiência de primeira mão, ou invés das palavras experiência subjetiva.
Para sustentar o argumento anterior, Teixeira cita um outro experimento mental, proposto por Dennett, que possui o mesmo desenvolvimento do experimento mental original proposto por Jackson, mas termina com Maria sendo apresentada a uma banana azul, propondo as seguintes perguntas: "Será que ela passaria a acreditar que as bananas são azuis? Ou passaria ela acreditar que o que é azul deve ser chamado de amarelo?"Ao que dá o seguinte desfecho: "Certamente não. Segundo Dennett, o mais provável seria que ela exclamasse: 'Vocês estão tentando me enganar, as bananas são amarelas e essa é azul.'"
Respondo a esse argumento, sem questionar o argumento em si mas a sua finalidade, propondo a seguinte pergunta: qual seria o primeiro impulso de Maria ao constatar o engodo? Talvez sejamos levados a imaginar ela inicialmente perplexa e, logo em seguida, achando graça da "brincadeira"; mas devemos admitir que ela poderia ter ficado ofendida e sentido ira, especialmente sendo ela detentora de títulos que lhe concedem algum status, por ser submetida àquilo que ela poderia encarar como um teste de seus conhecimentos.
É inútil argumentar se esta seria uma reação exagerada e inadequada da parte dela, pois os seres humanos não se portam de maneira ideal em todas as situações, é um aspecto de algo chamado personalidade e que não pode ser descrito em termos físicos.
Também não acredito que utilizando-me do espectro de reações emocionais possíveis de Maria ao experimento proposto por Dennett, eu não esteja fugindo do foco deste tópico, uma vez que compreendo que qualia abrange o todo daquilo que a experiência humana é capaz de produzir em resposta a cada estímulos físico possível que seja percebido.
Teixeira continua, afirmando que o experimento mental proposto por Jackson está mal montado pois a neurociência e a Física são "disciplinas que mudam no decorrer do tempo e que no futuro podem vir a ter conceitos que nem sequer podemos imaginar no presente." Este argumento foi o que me levou a explicar brevemente a origem e o conceito de experimentos mentais no início deste post. O quê pensaria o Sr. Teixeira de um experimento mental como o Homem do Pântano?
Muito interessante, também, é esta afirmação seguida de um questionamento: "Mas há ainda outras formas de objetar o experimento mental de Mary. Podemos insistir na tese de que ela não adquire novo conhecimento ao ter a experiência de um tomate vermelho. Nesse caso, podemos perguntar se a cor vermelha corresponde realmente a algo que está no mundo ou não seria apenas alguma coisa que ocorre estritamente no âmbito da experiência subjetiva de Mary, por assim dizer, na cabeça dela - e das outras pessoas. E se for dessa maneira, nesse caso, seria esse conhecimento de quê? Será algo real?"
Caro Sr. Teixeira, ao levantar tais questionamentos o senhor não está objetando à finalidade do experimento original, mas concordando com as conclusões do mesmo. Se não fosse a nossa subjetiva percepção da realidade, jamais questionaríamos a mesma.
"Um robô pode não enxergar a vermelhidão dos tomates, mas, mesmo assim, obter as informações necessárias para agir sobre eles de forma adequada." - Sim, sem dúvida. Um robô é construído para agir de forma adequada. Os seres humanos agem de forma adequada, em boa parte do tempo. Nem sempre. Não é surpreendente me deparar com um resgate de argumentos mecanicistas (deveríamos atualizar para digitalista?) na época em que vivemos, especialmente quando o assunto envolve filosofia da mente; mas simplificar a afirmação anterior, no contexto em que está inserida, simplifica demais as perguntas de grande importância nas quais a filosofia da mente possui participação imprescindível na busca de respostas, como a viabilidade de uma inteligência artificial forte e a natureza que teria a consciência tal entidade.
Ainda quanto a conclusão do Sr. Teixeira, de que os qualia, ou experiência subjetiva ou de primeira mão, não acrescenta nada ao conhecimento humano, penso que são bons argumentos para refutar tal conclusão, o valor da ciência experimental e do conhecimento a posteriori, que é exclusivamente produzido pela mesma; o valor, na Academia, dos estágios práticos; e o conhecimento produzido na práxis que se dá com o maturamento profissional do indivíduo.
Muitos dos debates que se deram a cerca deste experimento foram propelidos pelos contextos utilizados nos argumentos da sua formulação original, dirigidos para contestar um pensamento que, uma vez formulado na interdisciplinariedade, faz com que conceitos mentalistas a priori interajam com conceitos a posteriori das ciências naturais. Fosse esta uma discussão meramente filosófica e estética, e tendo sido utilizados outros argumentos, seriam bem mais escassas as objeções.
Quero, ainda, adentrar um pouco mais no âmbito fisicista, trazendo para este post algo que é de conhecimento comum, que são as diferentes formas em que se manifestam os sentidos entre as espécies e na generalidade da espécie humana em si. Existem flagrantes variações que podem ser quantificadas experimentalmente e, até mesmo, qualificadas nos sentidos que possuímos para perceber a realidade. Tais variações estão ligadas a genética do indivíduo e, enquanto são mais evidentes em suas graduações quantitativas, têm seu aspecto qualitativo manifestado, mais comumente, no sentidos do paladar e do olfato e, em casos mais raros, nos sinestetas.
Uma questão que muitas vezes se perde nas discussões acadêmicas mas que está na raiz do experimento da Maria, é como nós vemos as cores. Crianças com daltonismo enxergam o mundo de maneira diferente, e até serem diagnosticadas podem sofrer embaraços na escola, em jogos que dependam de cores ou no estudo de mapas, e tais embaraços podem ser determinantes da formação da personalidade destas crianças. Estes são fatos completamente calcados no fisicismo, com relevância prática, e que confirmam de maneira facilmente compreensível o experimento proposto por Jackson.
Como diria Wittgenstein, não podemos compreender o que um leão fala, pois não vemos o mundo da mesma maneira que um leão vê. E isto não é verdadeiro apenas em uma abordagem lingüística ou filosófica, pois a mesma está atrelada às diferenças físicas entre as espécies. Nossa visão de mundo e a maneira como interagimos com o mesmo é construída tendo como base, além de nossas experiências, a maneira como podemos perceber e a compreensão que somos levados a ter sobre estas experiências.
Frank Jackson, que foi aluno de Wittgenstein, veio a capitular e crer que argumentos do conhecimento contra o fisicalismo, como o experimento de Maria e o argumento do Zumbi Filosófico podem levar a conclusões erradas. Não discordo dele nesta afirmação, uma vez que argumentos mentalistas contra o fisicalismo estarão indo contra o conhecimento que determina nossa capacidade de perceber, de raciocinar, de criar e fazer uso de experimentos mentais, e até de nossas diferenças nestas habilidades. Da mesma maneira, o fisicalismo irá percorrer um caminho tortuoso e chegar a conclusões duvidosas questionando o mentalismo, pois estará questionando sua própria razão de existir, a consciência humana.
Prova disso pode ser encontrada num exercício de comparação classificativa entre a inteligência humana e a inteligência atual de um computador, no tocante a perceber problemas em seu meio e resolvê-los. Tal medição, ainda que consideravelmente extrapolativa, pode ser obtida por meio de um computador normal e um programa de solução não assistida de problemas como o Soar ou com autômatos como os da RoboCup. Suas inteligências ficam, comparativamente, no nível de um molúsculo gastrópode, em relação à inteligência humana.
Por que, então, um computador como o DeepBlue, capaz de vencer um campeão mundial de xadrez, não se torna consciente? Nós, seres humanos, com nossos cérebros que não evoluíram nada ou não evoluíram muito nos últimos 200.000 anos, somos capazes de realizar milhões de cálculos simultâneos, alguns em nível inconsciente, como noções de posicionamento e força provida pelo cerebelo, mas não somos capazes de calcular matematicamente tão rápido quanto um computador. Imagina-se, hoje, que os computadores estão nos alcançando em capacidade de processamento bruto, mas ainda estão longe quando o assunto é consciência. O que falta? Seria os meios de interagir com o mundo? Não é tão difícil equipar um computador com sentidos que mimetizem, e em alguns casos e situações superem, os sentidos humanos. Ainda assim, mesmo equipado com todos os sentidos que temos a disposição, um computador não se tornaria imediatamente consciente.
Estaria aí o valor dos qualia? Enquanto sim, os qualia tem algo haver com essa questão, a resposta a que chego é: não exatamente. O ser humano cria a máquina, e na máquina o ser humano reproduz, ainda que grosseiramente, ao próprio ser humano e a natureza por ele conhecida. Até mesmo na sua variação genética. Tão variadas quanto são os humanos, são suas criações. Se nelas imprimimos nossas variações físicas enquanto espécie, é nas artes, na estética, que imprimimos nossos qualia.
Assim como nossas variações físicas possuem um importante papel no modo como iremos interagir e compreender o mundo, no momento em que imprimirmos arte em nossas criações físicas, estas também poderão adquirir características subjetivas de nossa experiência, de maneiras que no presente ainda é difícil conceber, se não de modo pitoresco como se dá na ficção científica popular.
Já chegou o momento de perceber que mentalismo e fisicalismo andam juntos e são interdependentes, pois novas questões esperam respostas e dependem da clareza de que ambos são parte daquilo que somos, para que então possamos progredir.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Qualia e Consciência

"Refere-se sempre a alguma
coisa diferente dela mesma."
Clique na imagem para ampliar.

Qualia, um termo estranho para algo que não poderia ser mais familiar para cada um de nós: a maneira como vemos as coisas. Considerando conscientemente nossa própria consciência estamos submetendo a mesma aos "seus" próprios qualia?

domingo, 30 de setembro de 2007

Carl Rogers

Partindo do meu entendimento da experiência terapêutica, vim a sentir que se eu fosse capaz de criar o clima apropriado, a relação apropriada, as condições apropriadas; o processo do movimento terapêutico irá, quase que inevitavelmente, acontecer em meu cliente.
Você pode se perguntar: O que é este clima? Que condições são estas? Irão elas existir com a mulher que estou prestes a falar; uma mulher que eu nunca havia visto antes? Deixe-me contar-lhe o que são estas condições da maneira como eu as vejo.
Primeiro de tudo, uma questão é: Posso ser sincero no relacionamento? Esta é uma questão que veio a ter uma importância cada vez maior para mim com o passar dos anos. Sinto que poder ser genuíno é outra maneira de descrever uma qualidade que eu gostaria de ter.
Gosto do termo congruência, com o qual quero dizer que o que estou experienciando no meu interior está presente na minha awareness, e emerge por meio da minha comunicação, no sentido de que, quando tenho essa qualidade, estou integralmente na relação. Há outra palavra que gosto de usar para descrever isso, sinto que gostaria ser transparente, para permitir que meu cliente pudesse ver através de mim, e que soubesse que não há nada, nada escondido. Quando sou sincero desta maneira que estou tentando descrever, sei que meus próprios sentimentos irão gerar uma awareness e serão expressos de maneiras que irão se impor no meu cliente.
Então a segunda questão é: Eu vou ser capaz de prezar esta pessoa? Vou ser capaz de me importar com essa pessoa? De maneira que não seja necessário fingir que me importo; mas que se eu persistir em não gostar do meu cliente eu venha a comunicar isso para ele. Eu sei que é muito mais provável que uma mudança construtiva venha a acontecer se eu vir a prezar espontaneamente este indivíduo em meu trabalho; prezar este ser que é único. Você pode chamar essa qualidade de aceitação, ou de cuidado, ou de um amor não possessivo, se quiser. Qualquer um desses termos serve para descrever essa qualidade. Sei que a relação irá provar-se mais construtiva se isso estiver presente.
A terceira questão é: Irei ser capaz de entender o mundo interno deste indivíduo? Serei capaz de ver através dos seus olhos? Serei capaz de ser suficientemente sensível para movimentar-me dentro do mundo dos seus sentimentos de maneira que eu saiba como é ser ele; de maneira que eu possa sentir não apenas suas motivações superficiais, mas algumas motivações que, de algum modo, permanecem sob a superfície? Sei que se eu puder me sensibilizar acuradamente dentro do mundo de experiência dessa pessoa, a mudança no movimento terapêutico é muito mais provável.
Então supunha que eu seja afortunado e venha a experienciar algumas destas atitudes na relação, e então? Bom, neste caso uma variedade de coisas podem acontecer. Tanto minha experiência clínica, quanto minha investigação em pesquisas, indicam que se atitudes como as que foram descritas estiverem presentes, um grande número de coisas irão acontecer. O cliente irá explorar alguns sentimentos e atitudes mais profundamente, irá descobrir alguns aspectos de si mesmo dos quais ainda não fora capaz de captar. Talvez se ele venha a sentir uma sinceridade em mim, ele poderá ser um pouco mais verdadeiro consigo mesmo. Suspeito que irá haver uma mudança na maneira como ele se expressa, pelo menos esta tem sido minha experiência em outras instâncias.
Partindo de estar, de certo modo, distanciado de sua própria vivência interior, é possível que ele possa se aproximar mais dessa vivência, e desta maneira ser capaz de sentir e expressar melhor o que está sentido no momento presente. Do sentimento de desaprovação para consigo mesmo, é bem provável que ele possa desenvolver um maior grau de aceitação de si mesmo. De uma relação baseada, de certo modo, no medo, ele possa ser capaz de se relacionar mais diretamente comigo, e de me confrontar mais diretamente.
Se antes o cliente construía sua vida dentro de padrões rígidos e monocromáticos, ele pode começar a experimentar novas maneiras de construir sua vivência e de ver os significados inerentes a esta vivência. De um locus de avaliação que é exterior a ele mesmo, o cliente pode começar a ver uma maior capacidade interior para fazer julgamentos e para chegar a conclusões.
Estas são algumas das mudanças que nós temos encontrado. Acredito que todas elas são mudanças características do processo terapêutico. Se eu tiver algum sucesso em criar o tipo de condições que descrevi inicialmente, então poderemos ver algumas dessas mudanças neste cliente, mesmo sabendo de antemão que este contato vai ser muito breve.


Esta é a tradução de uma entrevista concedida por Carl Rogers, em uma série de três entrevistas de três abordagens Fenomenológicas, que precediam, cada uma, um encontro de 30 minutos com uma cliente. A entrevista está disponível no Google Video no endereço: http://video.google.com/videoplay?docid=2085790194779298727

domingo, 19 de agosto de 2007

A vida vivida

Discordo que só estamos vivendo quando sentimos prazer. Sem o sofrimento, este grande professor, não estaríamos aptos a reconhecer e valorizar o prazer.
A vida é feita de momentos bons e ruins, não estamos o tempo todo cercado pelos amigos, mas também não vivemos sozinhos; choramos, sorrimos, trocamos carinho, experiências e, por vezes, brigamos. Essa é a vida que conhecemos, é a única que é garantida, é o tempo que temos para explorar tudo que está a nossa volta e no nosso interior. Importante é aproveitar ao máximo para conhecer àqueles que nos cercam e a nós mesmo.
Talvez o segredo da felicidade esteja em reconhecer a existência da dor e do sofrimento, e compreender que, assim como a felicidade, nenhuma dor dura para sempre. O diferencial está na maneira como vivenciamos estes momentos: é preciso saber partilhar dos momentos bons com aqueles que nos são queridos, para que nos momentos ruins possamos contar com essas pessoas. Toda carga fica mais leve se for dividida, esse é o sentido de viver em sociedade, e por isso precisamos viver em sociedade – a natureza da vida é dura e pesada demais para ser carregada por uma única pessoa.
E o sentido da vida? Este não está escrito em lugar algum, não existe uma fórmula pronta. Cada indivíduo precisar encontrar ou dar sentido para sua própria vida. Para isso não podemos depender dos outros, pois se atrelamos o sentido de nossa vida à outra pessoa, arriscamos a perdê-lo quando essa outra pessoa se for – todo relacionamento é efêmero, como uma bolha de sabão, mas o dias são uma constante, sempre haverá um amanhã.
Minha abordagem pessoal quanto ao sentido da vida não é nem um pouco hedonista. Nascemos em sofrimento e existe uma grande probabilidade de morrermos em agonia; não vou dedicar minha vida a uma infindável busca pelo prazer, isso só me traria frustração. Eu vivo cada dia de uma vez, planejo a longo prazo apenas para dar um rumo aos meus dias, estabeleço metas que possam me tornar melhor desde agora e, principalmente, gosto de compartilhar pois sei o quanto isso me deixa feliz – existe, sim, um sentimento egoísta até mesmo naquilo que se faz de bom para os outros, especialmente quando se sente prazer fazendo isso: nenhum carinho é impune, tudo volta.
Mas esse é o sentido que eu dou para a minha vida, cada um tem que achar o sentido para a sua vida, pois embora sejamos uma unidade enquanto humanidade, temos essa coisa chamada de subjetividade, que nos torna únicos. Minha fórmula é válida para mim, minha vida só precisa ter sentido para mim mesmo, pois esta é uma experiência da minha subjetividade.
O que podemos fazer para alargarmos os períodos (mais) significativos da nossa vida?
A resposta para esta pergunta vem muito facilmente, e passa por uma analogia muito utilizada para explicar o conceito de relatividade do tempo: quando estamos muito envolvidos em uma determinada situação que nos trás prazer, o tempo parece encolher e as horas passam como se fossem minutos; mas quando estamos em uma situação desconfortável os minutos parecem durar horas.
O motivo pelo qual as situações aborrecidas parecem demorar tanto para passar é fácil compreender, pois todo nosso ser biológico e/ou psicológico se mobiliza para nos alertar do incômodo; já o motivo pelo qual as situações agradáveis parece passar tão rápido é mais complexo. Acredito que ao criar a analogia acima, estavam se referindo à questão de que as pessoas, em situações agradáveis, ficam tão concentradas apenas em um aspecto que deixam-se inundar por apenas uma sensação, desligando seus demais sentidos – inclusive a noção da passagem do tempo. Mas não é só isso... Cada vez mais relevante, especialmente nos dias de hoje, é a insatisfação, que parece estar sempre presente. Não basta estar bom, tem que estar ótimo. E se estiver ótimo, ainda assim vão ficar descontentes pois acreditam de poderia estar excelente.
Isso acontece, em parte, porque as pessoas esqueceram que possuem um papel ativo no próprio prazer. O prazer que sentem não depende só dos estímulos externos, mas depende também de como esses estímulos são captados e processados.
Além de não se abrirem corretamente para o prazer, muitos deixam de aproveitar na totalidade o prazer a que tem alcance em determinado momento por estarem pensando em como aquele prazer poderia ser melhor, ou mesmo em outro prazer qualquer não relacionado.
Não só isso, mas é comum deixarem de lado um prazer que está acontecendo agora, para se concentrar em um aborrecimento futuro. Neste caso, se está trazendo o aborrecimento para um momento de prazer, por conseguinte é podando o tempo de prazer, e estendido o tempo de aborrecimento; trazendo e vivenciando um aborrecimento futuro para o presente.
Talvez a grande questão não seja se preocupar em alargar mais o momento de prazer, mas estender nossa percepção do momento. Mesmo que não estejamos preocupados com nada, nem insatisfeitos com o prazer, devemos fazer um exercício de ampliar nossa percepção daquele momento, e não tem nada de esotérico nisso. É uma questão de ficar aberto, fazer uma checagem para notar se todos os sentidos estão sendo usados e se todas as sensações estão sendo captadas. É, principalmente, viver o momento.
Vou aproveitar o assunto para discorrer sobre algo que a muito tempo venho pensando e que pode ser sintetizado com um recorte1 de diálogo de um filme, diálogo este que aborda uma visão científica e não-antropocêntrica do sentido da vida:

Grim: Se você sabe tudo, então qual é o sentido da vida?

Master Control: A vida não possui sentido, apenas máquinas inteligentes são realmente importantes em uma escala cósmica.

Isso porque, em um universo que estivesse em declínio, seria necessário uma máquina capaz de aproveitar o potencial computacional restante para processar um número cada vez maior de informação em uma progressão exponencialmente maior do que aquela que levaria a um colapso final. Segundo essa visão, o único propósito filosoficamente válido para a existência de vida inteligente, como seres humanos, seria a criação de maquinário inteligente. Assim como nós experienciamos dilatações e contrações em nossa percepção do tempo, um computador sofre algo similar ao lidar com funções que exijam mais ou menos sua capacidade de processamento – sem as perdas a que nós estamos sujeitos; explorando esse conceito é possível uma simulação daquilo que compreendemos como eternidade em um mundo virtual.
Para explicar isso de uma maneira mais fácil de entender, posso citar uma situação pela qual todas as pessoas que utilizam o computador com alguma freqüência já passaram, que é o que ocorre quando solicitamos a execução de diversos programas ao mesmo tempo e observamos o modo como o computador parece ficar “lento”. Na verdade o computador não fica mais lento, mas está executando um grande número de funções simultaneamente – ou preemptivamente, dependendo do caso.
Em uma linguagem coloquial2, é correto afirmar que nos computadores que utilizamos atualmente, aumentando a energia fornecida ao processador podemos aumentar sua velocidade, até o limite térmico dos componentes físicos. É fácil perceber isso nos notebooks modernos quando estamos executando um programa que exija mais recursos e ouvimos o som da ventoinha sendo acelerada para dissipar mais calor do processador, que está recebendo uma quantidade maior de energia do que em um estado de menor demanda de sua capacidade.
Imaginando um cenário em que a capacidade de processamento aumentasse rapidamente e mais informações fossem processadas em paralelo a medida que a capacidade fosse aumentando, qualquer número de dados que fossem processados – inclusive uma simulação da realidade da maneira como compreendemos o espaço e o tempo – teriam a aparência, como exemplo ilustrativo, de um filme sendo exibido muito acelerado para um suposto observador humano.
Mais uma vez é possível evocar algo conhecido do mundo digital para esclarecer esta idéia: quando se tenta executar um programa feito para um computador antigo em um computador novo a velocidade alcançada pode tornar o programa inutilizável pelo usuário, sendo necessária a utilização de algum recurso que deixe o computador novo mais lento – em alguns casos um programa que seja executado em paralelo ocupando a capacidade de processamento excedente.
Quando falamos em aumentar a capacidade de processamento utilizando a energia disponível, estamos nos referindo a uma suposta máquina consciente tecnologicamente apta a utilizar-se não apenas da energia de uma estrela, mas de um sistema estrelar por inteiro e além. Algo que talvez seja difícil de conceber para quem nunca flertou com esses conceitos, os quais obviamente estão muito além da nossa e das próximas gerações.
Tudo isso é relevante quando pensamos não apenas como seres humanos, mas como a humanidade como um todo, e quando pensamos nos motivos para a evolução de uma forma de vida inteligente e auto-consciente que, ao mesmo tempo, está fadada a ser um breve sonho na história cosmológica. A inteligência artificial é a pedra filosofal do nosso tempo. Pode ser que nunca venhamos a encontrá-la, mas nem por isso devemos deixar de estudar os caminhos que vão sendo iluminados por essa busca (como no texto).

Baseado em um trabalho para a disciplina de Fenomenologia.

sábado, 18 de agosto de 2007

Por um pouco de boa vontade

O filme Gênio Indomável (título original em inglês Good Will Hunting / algo como ‘Em busca da Boa Vontade’) conta a história de Will Hunting, um faxineiro do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) dotado de um grande conhecimento e muita facilidade para matemática. Para poder beneficiar-se dos seus dons, ele deve superar o seu “medo de abandono e se tornar capaz de confiar e amar as pessoas que se importam com ele, [...] é a história de um jovem e sua luta tanto consigo mesmo quanto com seus relacionamentos pessoais, tentando superar seus problemas para poder abrir-se aos outros e utilizar-se de seu potencial intelectual incalculável.”
Eu não tive a oportunidade de assistir ao filme na íntegra, mas fiquei perplexo pelas cenas de terapia que foram exibidas em sala de aula. Enquanto a imagem do psicólogo que temos formada em nosso imaginário é aquela de um profissional que se mantém sentado, na maior parte do tempo em silêncio, ouvindo e analisando o interlocutor, para em um dado momento, proclamar um diagnóstico e aplicar algum método de tratamento, o filme nos mostra um psicólogo que interage física e verbalmente com o paciente, abrindo capítulos de sua vida pessoal, levando o paciente para fora do consultório, enfim, utilizando-se de uma vasta gama de recursos para estabelecer uma comunicação com aquele sujeito que busca ajudar.
Dos momentos da terapia que foram exibidos em aula, considerei três como sendo os mais marcantes: o momento em que o psicólogo Sean Maguire, interpretado por Robin William, restringe os movimentos de Hunting, ameaçando-o fisicamente caso voltasse a desonrar a memória de sua esposa; o momento em que Maguire leva Hunting para fora do consultório, sentando-se com ele na beira de um lago e desafiando suas defesas com suposições quanto à maneira que ele responderia a abordagens mais tradicionais de tratamento; e o momento em que Hunting desafia Maguire a dar uma nova chance ao amor.
Enquanto as interações físicas entre psicólogo e paciente exibidas no primeiro momento foram um tanto caricatas e usaram da liberdade criativa típica dos filmes, os outros dois momentos pareceram delinear uma prática bastante interessante que, se aplicada responsavelmente pode vir a gerar bons resultados. Ainda acredito que o psicólogo deve ser extremamente cuidadoso ao expor suas próprias experiências a um paciente e deve sim, buscar evitar fazê-lo para não comprometer o profissionalismo da relação; mas dada a subjetividade humana que torna cada caso único, é possível que seja necessário ‘ceder um pouco de si’ em troca do estabelecimento de um vínculo de confiança da parte do paciente para com o psicólogo.
O filme também mostra os supostos benefícios que um psicólogo pode herdar com uma abordagem mais aberta e íntima para com o paciente, no momento em que Maguire decide dar um novo rumo ao seus relacionamentos amorosos. Mais uma vez, acredito que embora seja interessante pensar em benefícios pró-terapeuta, não devemos perder o foco do tratamento, que deve ser voltado para o paciente, que comumente vem até o profissional buscando ajuda.
Nos foi mostrada, também, um pouco da história do paciente. Um jovem adulto, com dificuldades um pouco fora de contexto para a idade que aparentava, uma vez que no filme ele é interpretado por um ator de uns 30 anos de idade, que precisava finalizar algumas questões mal resolvidas para encontrar seu lugar no mundo. A rebeldia e os padrões de comportamento demonstrados nos laços de relacionamento que puderam ser percebidos nas cenas exibidas, nos remete a um comportamento adolescente, em um corpo de adulto com uma mente poderosa. Como muitos adolescentes, me pareceu que Hunting estava na verdade clamando por alguém que lhe estendesse a mão, sem olhá-lo de cima; por alguém disposto a ouvir suas demandas e que lhe oferecesse compreensão e confiança. Hunting buscava por um modelo de adulto maduro com um pouco de boa vontade, para poder ele mesmo amadurecer e tornar-se aquilo que naturalmente tendia a ser.
Não posso deixar de traçar um paralelo, ressaltando aquela que foi a lição mais importante que pude apreender do filme, com um caso da vida real – um estudo realizado na ocasião da elaboração da biografia de um certo cidadão. O estudo buscava mensurar informalmente, dada as limitações das circunstâncias, a validade do teste Rorschach. Um dos biógrafos, Victor Goertzel, era um psicólogo que havia defendido seu pós-doutorado com base no teste Rorschach.
O sujeito havia participado em duas ocasiões do teste, sempre com entusiasmo. Em uma das ocasiões levou 29 minutos para transmitir suas impressões sobre os 10 cartões. Já os resultados da análise posterior às suas respostas não foi digno de tanto entusiasmo.
Vários psicólogos utilizaram seus conhecimentos no teste para analisar as impressões que foram coletadas: os dois psicólogos que aplicaram o teste, um psicólogo que conhecia o sujeito, e outros sete especialistas no teste, que concordaram em fazer uma análise ‘as cegas’ – sem saber de quem se tratava.
Em favor do teste e dos métodos empregados, é necessário ressaltar a homogeneidade dos resultados apresentados por todos os psicólogos. Resultados que delineavam um sujeito com “[...]muitas das características comuns às pessoas que se suicidam. A possibilidade de um suicídio deve ser cuidadosamente levada em conta e aqueles responsáveis por ele devem ser alertados [...] as composições encontradas relativas à falta de acuidade perceptual e de pensamento sugerem a possibilidade de esquizofrenia... ele parece propenso a episódios freqüentes de depressão ou turbulências emocionais... ele processa informações de maneira desorganizada e aleatória... sua concepção de si mesmo não é bem desenvolvida e é provavelmente distorcida. Sua auto-imagem inclui muito mais aspectos negativos do que deveria ter.”
O sujeito do teste certamente não era esquizofrênico, nunca demonstrou nenhum sinal de ser suicida e nunca precisou de ninguém para tomar conta dele.
Outros achados do teste indicavam que “[...]ocorreram muitos problemas no pensamento, lógica e síntese através das categorias cognitivas que, em termos tanto de freqüência e tipo de distorção, são similares aos indivíduos que sofrem de esquizofrenia.”
O sujeito avaliado pelo método Rorschach era ninguém menos que Linus Pauling, casado, pai de quatro filhos, cientista e ativista ganhador do Prêmio Nobel de Química em 1954 e do Prêmio Nobel da Paz em 1962, pioneiro na aplicação dos conceitos da mecânica quântica na química. Ficou conhecido pelo seu vasto conhecimento nas áreas da química inorgânica, química orgânica, metalurgia, imunologia, anestesiologia, psicologia, oratória, armamentos nucleares, mecânica quântica e biologia molecular.
Várias hipóteses – ou desculpas – foram levantadas para explicar os motivos para as incoerências entre a personalidade delimitada pelo teste e a personalidade real que realizou o teste. Entre elas as de que Pauling havia lido sobre processos de brainstorming e havia relacionado tais processos com o teste, distorcendo os resultados, ou ainda, apelando para o conhecido ditado de que a linha limite entre a insanidade e a genialidade é de difícil compreensão. Defensores do teste também alegam que um único resultado fora do normal não invalida o teste.
Para mim, este caso relaciona-se com o filme pela própria abordagem totalmente contrária em um teste que visa interpretar a subjetividade do sujeito padronizando o método de interpretação. Até mesmo as palavras subjetividade e padronizando não ficam bem na mesma frase. Para aqueles que buscam uma resposta rápida às particularidades individuais da mente alheia, penso que os testes podem se tornar uma ferramenta muito enganadora, deixando transparecer mais sobre os temores e fraquezas daquele de analisa – ou julga – do que sobre a real personalidade daquele que é analisado.
Faltou boa vontade em abrir-se para uma mente brilhante. Faltou coragem para entrar em contato com um mundo que pode ser radicalmente diferente do seu, mas capaz de criar coisas maravilhosas.

Baseado em um trabalho para a disciplina de Fenomenologia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Desassossegos

“Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também.” Fernando Pessoa

Como ocorre a construção das aspirações de uma vida? Será que alguém consegue se lembrar de quais fatores influenciaram suas motivações? Não posso afirmar que me lembro do processo exato pelo qual passei e que me levou a buscar as coisas que busquei, mas hoje vejo com mais clareza quais são os meus objetivos.
Procuro um ponto de conforto, um equilíbrio entre o sonho e a realidade, e ao mesmo tempo o conforto anda de mãos dadas com a conformidade. Toda vez que acredito ter encontrado algum equilíbrio me vejo tomado por um intenso tédio ou descubro que estava terrivelmente enganado. O tédio pode se traduzir em uma doce saudade, já os enganos costumam terminar em uma negra amargura.
A arte, na dança da vida, é estar em permanente desequilíbrio controlado: onde há equilíbrio não há movimento, a vida pára e se torna enfadonha; é preciso, por vezes, pender para o lado dos sonhos, acreditando naquilo que é ideal, e por vezes, pender para a realidade, caso contrário esta nos derruba com suas desilusões e desassossegos.
Difícil mesmo é manter o movimento, como uma média entre o sonho e a realidade, sem deixar a dança parar. Difícil é olhar para si mesmo em desequilíbrio: um estado que lembra a dança de Columbina e Arlequim. Esta dança, quando bem executada, acaba em uma serena reflexão daqueles que assistiram ao espetáculo da vida e permaneceram até o ato final.
Neste teatro somos todos platéia e somos todos atores, com a certeza de muitas estréias, despedidas e de que, para nós, as cortinas também irão se fechar.

Baseado em um trabalho para a disciplina de Fenomenologia.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A Fenomenologia de Babel

O filme Babel, dirigido por Alejandro González Iñárritu e escrito por Guillermo Arriaga, é a parte final dos dramas de narrativas múltiplas que ficaram conhecidos como “a trilogia da morte”, iniciada com Amores Perros e 21 Gramas. Babel expõe quatro narrativas compostas por diferentes grupos de personagens e diferentes situações, todas interrelacionadas, onde os eventos não são exibidos em uma seqüência natural, sacrificando a clareza. Enquanto este artifício parece ter funcionado com a crítica, já que o filme recebeu muitos prêmios e elogios, uma boa parte da audiência acredita que falta de clareza não é necessariamente uma qualidade, mas sim um meio de criar o efeito “a nova roupa do rei.”
Segundo Edmund Husserl, a fenomenologia é “o estudo reflexivo da essência da consciência da forma que esta é experienciada de uma perspectiva de primeira pessoa.” E foi justamente conversando com meus colegas que fiz algumas das conexões mais interessantes entre as situações exibidas no filme e essa vertente da fenomenologia. Uma colega me relatou algo assim: “Não, vê só, no começo do filme o homem dá uma arma para as crianças, dois guris deste tamanho , uma coisa horrível!” Outro colega me disse que o problema era “a japonesa tarada, porque o pai dela não dava atenção nem para ela e nem para a mãe dela.” Até então eu não havia assistido ao filme, mas guardei esses comentários para ver se concordaria ou não com eles.
Assistido ao filme, notei que o homem que dá uma arma para as crianças é um criador de cabras do Marrocos, e que as crianças são seus filhos. É realmente uma coisa horrível ver um pai entregando uma arma carregada para seus filhos, especialmente para nós, que crescemos em zonas urbanizadas. Mas na área rural, seja no Marrocos ou no Brasil, não é incomum que crianças trabalhem na criação de animais e que saibam manejar armas para proteger a criação dos predadores. Estaria minha colega equivocada no seu comentário? Não, a conseqüência do manejo da arma pelas crianças mostra que, eliminando aquilo que é adicionado ao fato – ou fenômeno – observado, o resultado é horror. Contudo, conhecendo um pouco melhor o ocorrido, desenvolve-se uma compreensão mais ampla sobre aquela situação em particular: a realidade de que crianças de áreas rurais aprendem, de uma forma não muito segura, a usar armas desde muito cedo. No modelo de produção rural familiar, os pais contam com os filhos para ajudar nas tarefas diárias, não como uma forma de explorar o trabalho dessas crianças – elas estão trabalhando para aquilo que lhes será deixado de herança – mas como uma maneira de passar adiante as ferramentas ou o conhecimento necessário para poder manter a herança deixada pelos pais. Seria o caso de condenar o modelo de produção rural familiar ou seria o caso de lidar com o problema em si? Talvez a ONU, ou alguma outra organização internacional, devesse imprimir uma cartilha com algumas regras de segurança para o manejo de armas, tais como: nunca, jamais, em hipótese alguma, apontar a arma para uma pessoa ou para uma habitação onde possam haver pessoas ou para um veículo que possa estar transportando pessoas; e distribuir tal cartilha entre as famílias que vivem dessa maneira em áreas com comércio irregular de armas de grande calibre. Com certeza os pais iriam passar a informação aos filhos, da mesma forma que ensinaram seus filhos a guiar o rebanho e outras funções da vida rural.
Também notei que a japonesa realmente tinha problemas de fundo emocional para lidar com pessoas do sexo masculino, e que o pai da japonesa realmente não era uma pessoa muito dedicada à filha. A observação do meu colega, embora não ficasse completamente clara no filme sendo, portanto, baseada em suposições, não estava completamente errada. Mas seria justo eliminar dessa equação os milhares de anos de história da construção da cultura japonesa? Anos estes que culminaram no surgimento de uma sociedade que, mesmo pelos padrões modernos, possui costumes que ainda são difíceis de aceitar dentro de uma visão ocidental. Uma vez que nós ocidentais reconhecemos o problema crescente de individualismo como modo de vida, pregado pela visão capitalista dominante, os japoneses possuem um individualismo sexista já enraizado em sua cultura e que apenas se fortaleceu com a queda do império e modernização dos modos de produção após o final da Segunda Guerra Mundial. Como exemplo dos extremos comuns aos japoneses podemos citar: a pressão e cobrança por sucesso pessoal; a manutenção da honra familiar que normalmente recai sobre os ombros dos filhos homens e está relacionada ao sucesso pessoal e enraizada até mesmo na religião professada pela maioria dos japoneses; o papel da mulher na sociedade japonesa, onde as mulheres ainda são sujeitas até mesmo a abusos sexuais nos metrôs como forma de uma manifestação da cultura oriental em si, embora admitidamente errada no contexto da atualidade. Seria justo esperar que naquela sociedade um pai agisse de maneira diferente da maneira que agiu o Sr. Wataya em relação às mulheres de sua família? É muito fácil julgar quando temos o sangue latino – indiscutivelmente passional – correndo pelas veias.
O filme, por se passar em locações e realidades tão diversas quanto os Estados Unidos, o Marrocos e o Japão, cruza diversas fronteiras culturais em que julgamentos devem ser feitos com extremo cuidado para não basearem-se no etnocentrismo ou em um viés cultural (cultural bias). Se, por um lado, na raiz da fenomenologia está a experiência imediata como descrita por Wundt, Husserl pega emprestado o conceito de intencionalidade de Betrano para que, livre de pré-conceitos o observador possa usar o discernimento ao avaliar um fenômeno. Foi justamente a falta do discernimento uma das críticas mais duras à introspecção, que levou a necessidade do desenvolvimento de novas vertentes e do desenvolvimento da própria Psicologia que temos o imenso prazer de estudar agora. Em um mundo perfeito, contaríamos com profissionais que fossem treinados para desprezar seus preconceitos e fossem detentores de discernimento suficiente para avaliar caso a caso o passado (background) de seus clientes. Infelizmente muitos ainda preferem pegar o atalho mais fácil e utilizar lentes culturais que enquadrem as realidades apresentadas – ou ainda por apresentar – em sua própria subjetividade. Desta maneira, jamais desenvolvem empatia alguma com seus clientes e jamais entram em contato com a realidade vivenciada por eles.
Eu gostaria de ter um conhecimento mais aprofundado da Gestalt Terapia de Perls para poder encaixar melhor a subjetividade vivenciada por ele no desenvolvimento de suas teorias à fenomenologia da maneira que se deixa transparecer no filme, mas estamos apenas nas primeiras aulas sobre esse teórico que já exerce certo fascínio. Para mim seria mais fácil relacionar com Sigmund Freud, que embora tenha vivido em um local e uma época extremamente etnocentrista, foi capaz de pensar fora-da-caixa e propor que o terapeuta se deixasse absorver pela subjetividade do paciente (ou cliente) pelo método de associação livre – pegando uma carona naquele trem e sentando na janela para observar a paisagem. Para nós, contemporâneos da Era Digital, é valido ressaltar que não é possível fazer isso sem conhecer a cultura e o passado do paciente, coisa especialmente complexa em um mundo globalizado onde as culturas se entrelaçam pela hiper-conectividade.
Ainda que tenhamos dificuldade para assimilar nossas diferenças culturais e pessoais, para melhor compreender as pessoas com as quais deveríamos nos encontrar no exercício da Psicologia, é no mínimo uma obrigação a utilização das ferramentas que nos são entregues por pessoas que foram capazes de ver muito além daquilo que vemos, tais como os teóricos/filósofos da Fenomenologia, para que tentemos alcançar essa sintonia e compreensão. Sem enganos, a vida é dura para as mulheres no Japão, assim como é dura para as crianças em áreas rurais do Marrocos, e até mesmo para o casal americano que tenta resolver suas crises conjugais em uma viagem exótica; é papel do psicólogo endurecer ainda mais essas vidas humanas? Eu acredito que não. Antes devemos entrar em contato com as diferentes realidades para depois tentar ser uma luz guia em direção à “arte do bem viver”. Caso contrário, podemos nos tornar iguais àqueles agentes da imigração do filme, impassíveis diante de qualquer argumentação, meras máquinas de reproduzir comandos e executar ordens. A sociedade já está repleta desse tipo de atitude, e consegue com isso provocar essa verdadeira epidemia de pessoas que não conseguem encarar a vida da maneira que é apresentada, recorrendo a diversas fugas por medo de uma coisa tão simples quanto olhar a si mesmo no espelho da consciência.

Baseado em um trabalho para a disciplina de Fenomenologia.