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sábado, 16 de outubro de 2010

Retomando Self, Mente e Personalidade

Ultimamente tenho dedicado muito tempo a estudar a aprender apenas aquilo que é proposto no curso de Psicologia e tenho dedicado praticamente nenhum tempo a estudar aquilo que mais me instiga. Como resultado disso, sinto como se me escapassem as ideias que eu vinha desenvolvendo sobre os temas que mais gosto. Este tem sido um sacrifício necessário em razão da minha transferência de uma instituição de ensino para outra.
Mas vejo que é muito danoso não me organizar a ponto de dedicar pelo menos um tempo mínimo para minhas questões pessoais, como estudar aquilo que realmente me interessa. Assim, vou aproveitar esta tarde de sábado para retomar algumas ideias, tentar deixá-las mais claras por meio de argumentos e farei isto no blog pois há sempre a possibilidade de alguém passar por aqui, comentar e apontar algum detalhe importante que precisa ser revisto ou melhorado.

Começo por três dos meus pressupostos:
1. A "Mente", ou seja, aquilo que de forma geral as pessoas chamam de mente: é o estado total atual eletroquímico do sistema nervoso. A mente não é o conjunto de neurônios suas sinapses, mas o estado metabólico destes e sua comunicação em um dado momento.
2. Personalidade: é a população e (a) a configuração sináptica das redes neuronais, que codificam a informação retida e mais (b) o funcionamento hormonal de um dado organismo, sendo que uma armazena informações e outra define, em especial, o quanto uma resposta a um dado estímulo será forte ou fraca.
3. O "Self": se trata da mente mais a personalidade em um determinado contexto ambiental; contexto que, vale destacar, é único para cada observador, uma vez que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo.
Ainda em relação ao ambiente, ainda que possamos imaginar que uma mesma experiência possa ser observada por dois corpos distintos, ao mesmo tempo e de um mesmo ponto, em um ambiente virtual, no cotidiano isso não é algo normal.

Agora vou tecer alguns argumentos com base nos pressupostos acima...
O cérebro faz parte do organismo, que por sua vez faz parte do ambiente. Em se tratando de conjuntos, podemos pensar em um conjunto corpo, do qual o cérebro faz parte, e um conjunto ambiente, do qual o corpo e seus constituintes fazem parte.
Mas é preciso ter clareza de que o cérebro não é o corpo, assim como o corpo não é o ambiente. O cérebro, parte do sistema nervoso central, assim como sua extensão, o sistema nervoso periférico, é um objeto delimitado. Se pensarmos em sistema nervoso, este termina nas placas terminais, de modo que é possível distinguir onde termina o sistema nervoso e começa o restante do corpo. Se pensarmos no corpo, este é delimitado em relação ao restante do ambiente, pela pele e pelas mucosas. Desta forma, enquanto que o cérebro e o corpo são partes constituintes de um conjunto, não é correto confundir as partes com o todo. O cérebro não é o ambiente.

{Sistema Nervoso} ⊇ {S.N.C., S.N.P.}
{Sistema Nervoso} ⊊ {Corpo}
{Corpo} ⊊ {Ambiente}

O cérebro, assim como o corpo, pode ser causa para alguns comportamentos. Por exemplo, uma pessoa sente fome, independentemente de lhe ser apresentado um estímulo para tanto. Dizer que a fome é "uma disposição para agir", uma "alta probabilidade de ingerir alimentos", não é o suficiente. A fome sem dúvida aumenta a probabilidade de um organismo, em uma determinada situação, ingerir alimentos. Obviamente, isso só é verdade se houverem alimentos disponíveis para serem ingeridos, caso contrário a probabilidade não irá aumentar e ainda assim, lá estará "a fome".
Mais que isso, para que a probabilidade de ingerir alimento aumente, além da disponibilidade de alimentos, também é necessário que o organismo, supondo um organismo consciente, esteja dotado de outras disposições não-concorrentes para ingerir o alimento.
Um indivíduo que nasça com os genes da doença de Huntington e que venha a desenvolver a doença, irá exibir determinados comportamentos, independente de estímulos ambientais. Desde tremores, até estados depressivos, todos terão origem no sistema nervoso do indivíduo, que é como é por conta de sua genética. Dizer que a doença de Huntington é uma disposição para tremer, apresentar sintomas depressivos, tiques, distúrbios na linguagem, etc, é falar de apenas um aspecto da doença, uma vez que há de fato 50% de chance do indivíduo a desenvolver. Porém é fato que a doença e um sistema nervoso são fatores necessários, condicionais, para que os sinais e sintomas apareçam.
Mas falo da doença de Huntington apenas para apontar um exemplo claro. Um cérebro é um fator condicional para que muitas características humanas apareçam, características que não podem ser encontradas em sua totalidade nos animais, e nem puderam ser emuladas em sua totalidade nos computadores.

Podem estas características serem descritas como comportamento? Não tenho dúvida que sim, inclusive aquelas mais peculiares aos indivíduos. Mas são comportamentos que acontecem em um substrato físico, localizado; de forma que o comportamento é um fenômeno, um efeito, uma atividade de um objeto. O pensamento não está flutuando em um balãozinho imaterial, de alguma energia etérea ou mística qualquer, ao redor da minha cabeça. Nenhum comportamento ocorre em algo imaterial. O fluxo de pensamento, que é contínuo, mesmo quando estamos em repouso e de olhos fechados, emerge da atividade metabólica de conjuntos de células. Este fluxo não pode ser afirmado como sendo completamente aleatório, e nem como sendo completamente determinado simplesmente pela atividade metabólica celular, pois estímulos internos - daquilo que sentimos de nossas vísceras ou da posição de nosso corpo - e estímulos externos estão constantemente chegando ao cérebro, ainda que na periferia de nossa atenção, e ainda há aquilo que conhecemos.

Só pensamos naquilo que conhecemos, só nos recordamos daquilo que experienciamos e que temos memória. Por exemplo, até alguns segundos atrás eu não poderia pensar e nem escrever sobre o município de Kelmè na Lituânia, pois nunca me foi dado a conhecer sua existência. Como pude então utilizá-lo aqui, neste exemplo? Acessei na Wikipédia o artigo Lituânia, pois foi o primeiro nome que me ocorreu enquanto pensava em um "país obscuro (pra mim) de nome engraçado", olhei como ele era dividido administrativamente, pois sei que os países assim são divididos, e procurei qualquer unidade administrativa que fosse interiorana. Até então, era possível pensar em um país do qual tenho pouco conhecimento, que provavelmente possui divisões administrativas como a maioria dos demais países, sendo que dentre estas unidades, algumas delas devem ter as características interioranas e outras devem ser capitais. Após esta busca sou capaz de pensar algo que até então eu absolutamente não era capaz: a Lituânia possui um município chamado Kelmè.
Se nos próximos dias eu estiver ocioso, de olhos fechados, e me ocorrer pensar sobre este município, a causa para tanto estará na elaboração deste exemplo, além é claro do fato de eu ter acesso a internet, de ter me ocorrido o nome Lituânia quando pensava em elaborar este exemplo, etc. Aonde quero chegar com isso? Na afirmação de que, a nível da experiência humana, o nada a nada dá origem. Tudo se origina de alguma coisa, ou sistema, que o preceda.Brain-ComputerO cérebro não é causa última para pensamento algum, mas é um elemento condicional para que o pensamento possa existir (pelo menos até o dia que inventarem um computador dotado de consciência ou alguma coisa semelhante). Em certas circunstâncias, contudo, um cérebro, pode dar origem a pensamentos, sem a presença de um estímulo externo. Por exemplo, para pensar em Kelmè não preciso que me ponham um mapa na frente dos meus olhos. É possível que se eu vir a comer um chocolate Laka nos próximos dias eu me lembre deste município. Mas neste caso estou falando de pareamento, pois estava comendo um chocolate enquanto bolava o aquele raciocínio, e o chocolate seria um estímulo externo eliciando o comportamento de lembrar-me de Kelmè.
Porém acredito na hipótese de que, se por algum motivo eu apresentasse alguma doença rara neurológica que me privasse de todo e qualquer input sensorial, mas mantivesse meu cérebro preservado, ainda assim eu pensaria. Pensaria em inúmeras coisas, provavelmente pensaria no horror da situação, de estar privado de qualquer forma de contato com o mundo exterior. Isso seria um comportamento reforçado pela remoção dos estímulos externos, ou seja, pode-se dizer que é de causa externa. Mas eventualmente, acredito, me voltaria para o mundo interno, tudo aquilo que está registrado nas minhas memórias. O que eu viesse a pensar, embora se originasse de experiências externas, seria evocado ao sabor do que estivesse acontecendo em minha vivência interna, privada, cerebral.

Esse comportamento só seria possível pois já experienciei o mundo. O que leva a outra hipótese que acredito, que é a de que o cérebro não surge dotado de experiências. Se imaginarmos um organismo humano que tenha se desenvolvido, desde a concepção, sem nenhum input sensorial, é viável afirmar que tal organismo, ainda que tenha um tecido cerebral preservado quando no momento do nascimento e pelo período que viver, não é consciente, não possui "vida mental". Acredito nessa hipótese por saber que organismos humanos privados do contato com a linguagem apresentam atrofia em áreas do cérebro relacionadas à linguagem. Provavelmente um organismo nas condições descritas não seria capaz de sobreviver muito tempo.

Embora o cérebro não possa ser causa última (origem) para pensamento algum, o cérebro pode ser causa para outros comportamentos, como tremores e tiques. Dizer que se é capaz de controlar certos tremores ou tiques não elimina sua origem no cérebro. Por exemplo, indivíduos com a síndrome de Tourette são capazes de controlar os tiques durante alguns momentos, até que cedem à necessidade de emitir aqueles dados comportamentos. Mas estes tiques não necessitam de estímulos externos para se fazer presentes, ainda que possam ser agravados ou amenizados por estímulos externos. Até mesmo o comportamento de tentar resistir aos tiques pode muito bem ser uma resposta ao tique, que é um estímulo interno.Voltando ao caso de uma experiência idêntica simulada artificialmente... Não é possível que dois observadores conscientes observem o mesmo fenômeno do mesmo ponto ao mesmo tempo na natureza. Seria mais ou menos possível se fosse ligado o output de um par de olhos a dois cérebros, ou então numa circunstância em que duas pessoas estivessem observando uma mesma cena, cuja qual ficasse chamando a atenção para um determinado foco, de um mesmo ponto em uma realidade virtual. Mas ainda assim, considerando que estes dois cérebros estariam recebendo outros inputs de seus respectivos corpos, a experiência total não seria a mesma. Caso contrário, assistir um filme em um cinema seria quase isso. Talvez o mais próximo possível a isso seria um par de gêmeos idênticos que, do momento do nascimento, fossem conectados a uma realidade virtual na qual são passivos, observam os eventos a partir do mesmo ponto no espaço, e apenas observam o desenrolar destes eventos, sem interagir com nada. Supondo que, de alguma forma, todo input sensorial destes gêmeos houvesse sido idêntico durante toda suas existências - mesmo intraútero, a nível de extrapolação - estaríamos falando possivelmente de duas consciências idênticas. Talvez, caso lhes fosse dado o controle sobre a ação em algum momento, ambos agiriam da mesma forma. Porém, se eles viessem a ser colocados em pontos diferentes da simulação, suas consciências se distinguiriam. Ou, se eles fossem simplesmente desconectados da simulação ao atingir a idade adulta, se deparariam com um Doppelgänger. O que seria verdade só até o momento da desconexão. A partir de então suas experiências se diversificariam e seriam apenas pessoas muito parecidas, mas cujas consciências iriam ser gradativamente preenchidas por conteúdos diversos.
A nível experimental, se eu considerar que meu computador de alguma forma uma extensão do meu cérebro, da minha memória, se eu clonar meu disco-rígido e colocar o disco com a cópia em outro computador idêntico, com o mesmo hardware, terei dois computadores exatamente iguais, com o mesmo conteúdo. Porém, se eu começa a utilizar eles alternadamente (sem uma configuração RAID 1), seus conteúdos irão se diversificar.

Neste momento, enquanto nunca foi feita clonagem ou espelhamento deste disco-rígido, não existe outro computador na face da Terra com o mesmo conteúdo do disco-rígido do meu computador. E o fato de meu computador ser único o faz funcionar de forma única. Apesar do sistema operacional ser um Linux, o mesmo de tantos outros computadores, o uso continuado fez com que eu fosse alterando diversos elementos funcionais, como a disposição e o conteúdo dos menus, a forma como eles surgem e exibem seus conteúdos, a forma como os dados são armazenados e evocados, etc. De modo geral, ao clicar num ícone de um arquivo, o arquivo - eventualmente - será exibido. Mas o que acontece de forma discreta ao usuário enquanto este arquivo é utilizado pelo usuário é particular nesta máquina, configurada para equilibrar o desempenho e a economia do SSD com alguma segurança para a integridade de dados. Pode ser que exista outra máquina que maneje os arquivos da mesma forma, mas seriam arquivos diferentes e outros aspectos funcionais seriam diferentes.
Se algo tão simples quanto um computador adquire diversidade por meio da intervenção de agentes conscientes, o que dizer do substrato dos agentes conscientes? As pessoas possuem gostos diferentes, pois ao longo da vida fizeram diferentes associações. A experiência de cada indivíduo é única e a linguagem é apenas uma janela, estreita e não muito transparente, para o que essa experiência realmente é.

Não sei se consegui ser claro até aqui. Mas pelo menos consegui me concentrar por algumas horas em um debate sobre assuntos que realmente me instigam a curiosidade e despertam minha imaginação. :D

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Inibição Transmarginal

A Inibição Transmarginal é a teoria segundo a qual se afirma que, diante de uma dor extrema ou forte estresse, o corpo irá desligar-se e impedir que a pessoa suporte o desconforto mental ou físico causado. Desta forma, uma pessoa sob intensa tortura ou que esteja passando por momentos de grande tensão irá cair inconsciente. O corpo também pode desligar-se parcialmente, fazendo com que a visão se turve ou cesse, assim como a audição, o controle motor e o tônus muscular cedam.
Fatores que podem levar a este estado incluem o aumento dos níveis de desconforto e a impossibilidade de prever quando o desconforto será experienciado.
Existe um nível limítrofe no qual o desligamento ocorre. Este nível varia de pessoa para pessoa, sendo que algumas são mais sensíveis e "quebram" mais rápido e com menos estímulos aversivos, enquanto outras possuem grande tolerância a diversos tipos de desconforto.
O primeiro a descrever a inibição transmarginal foi Ivan Pavlov, que descobriu que a experiência de tais extremos leva à perda de condicionamentos prévios.
A inibição transmarginal passa por estágios nos quais os padrões normais de estímulo-resposta (S-R) são transformados: a fase equivalente, na qual um grande estímulo elicia uma grande resposta e vice-versa, considerado o normal; a fase paradoxal, na qual ocorre um revés quantitativo e um grande estímulo elicia uma pequena resposta e vice-versa; e a fase ultraparadoxal, na qual ocorre um revés qualitativo e um estímulo negativo (a remoção de um estímulo aversivo) elicia uma resposta positiva (a presença de uma resposta ao estímulo removido) e vice-versa.
Para atingir os níveis de estresse necessários ao desligamento, ou à inibição transmarginal, Pavlov encontrou quatro mecanismos, que ficaram conhecidos como Os Quatro Estressores, que são estes: a dor, a exaustão física por meio de trabalho intenso ou privação de alimentos, a dissonância cognitiva causada por atrasos entre o estímulo e a recompensa (ou punição) esperada, e a confusão causada pela aleatoriedade e imprevisibilidade dos estímulos e conseqüências que visa aumentar a fadiga emocional.
Os estressores da dor e da exaustão física são diretamente orgânicos, enquanto os estressores causados pelo atraso e pela imprevisibilidade são emocionais, ou mentais; podendo ser divididos, da mesma forma, entre ameaças diretas ou erosão (emocional) indireta.
Na experiência humana do cotidiano é comum a presença de um ou mais destes estressores no dia a dia, especialmente os de erosão indireta. A mídia de massa é um poderoso mecanismo que trabalha diretamente com a mudança de valores, a limitação da reflexão racional, o engajamento em causas duvidosas, a culpa e a conversão ou transmissão da culpa associada a causas maiores meramente alegadas, a destruição paradoxal da identidade individual ao mesmo tempo que prega a isolação ou individualismo, e a distração do processo cognitivo pela saturação. Da mesma forma, também é comum encontrar elementos semelhantes em todas as religiões, visando a conversão e a imposição de dogmas, e em ambientes institucionalizantes, inclusive empresas com o intuito de obter comprometimento acima de qualquer ressalva.

Fontes:
Changing Minds: Transmarginal Inhibition, Four stressors, Conversion techniques.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O Behaviorismo Radical como Filosofia da Mente

O BEHAVIORISMO RADICAL COMO FILOSOFIA DA MENTE

Carlos Eduardo Lopes
José Antônio Damásio Abib
Universidade Federal de São Carlos

Resumo

O Behaviorismo Radical de B. F. Skinner é constantemente acusado de eliminar a mente de sua explicação do comportamento humano. Uma análise do livro The Concept of Mind, de Gilbert Ryle, sugere a possibilidade de defender a existência de uma mente relacional, diferente da categoria de existência da mente defendida em interpretações cartesianas (mente substancial). A análise de alguns textos de Skinner sugere que o conceito de uma mente relacional também pode ser defendido no Behaviorismo Radical. Esse fato, culminaria na possibilidade de que, além de filosofia da Ciência do Comportamento, o Behaviorismo Radical, também pode ser uma filosofia da mente, o que traria conseqüências ao estudo e à aplicação da Análise do Comportamento.

________________________
Artigo disponível na íntegra em:
http://www.scielo.br/pdf/prc/v16n1/16800.pdf

Comentários:
Artigo inteligente, bastante sóbrio que trás uma abordagem de engenharia reversa no estudo da mente partido daquilo que pode ser observado para inferir o que não pode ser observado. O autor procura desfazer alguns equívocos comuns causados pelo uso inapropriado do vocabulário ao abordar a mente, que faz com que efeitos sejam confundidos com causas e vice-versa; propondo uma categorização que permita que a mente exista sem que se torne um fantasma ou um espectro de si mesma. "Os desempenhos inteligentes abertos não são um vestígio do trabalho das mentes. Eles são esse trabalho." (Ryle apud Lopes e Abib)
Aqui, inteligência é o resultado de um comportamento adequado e não a causa do mesmo, tendo em vida que um indivíduo para ser considerado portador de inteligência, precisa ser capaz de demonstrar a mesma manifestando um padrão de comportamento de forma constante e observável.
Quando ao pensamento, esse é também é tratado como comportamento, mas que só pode ser observado por quem o realiza, sendo privado. Enquanto comportamento, faz-se dependente de variáveis de controle, que são externas ao indivíduo. Desta forma, o ambiente penetra os processos mais subjetivos da mente e a modela, sendo esta, sim, dependente do ambiente.
O autor conclui afirmando que o Behaviorismo Radical pode sim ser considerado uma Filosofia da Mente, que distingue-se da Filosofia da Mente tradicional (ou cartesiana, que entende a mente como uma substância imaterial e distinta do corpo) e da Filosofia da Mente mais atual e materialista (que entende a mente como sendo o cérebro enquanto estrutura, defendendo uma mente que emerge do conjunto de funções das estruturas cerebrais); o Behaviorismo Radical defende uma mente que é uma relação complexa entre ambiente e comportamento.
Sem dúvida concordo com o autor que este é um jeito válido de se abordar a mente e a questão mente e corpo, e todas as questões que são levantadas a partir disso. Porém, pelo menos neste artigo, sinto a falta de uma maior aproximação com os estudos atuais da Neurologia, que ao meu ver são indissociáveis de qualquer Filosofia da Mente no estágio em que o conhecimento humano encontra-se.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Retomando B. F. Skinner

Este post se destina a retificar algumas afirmações precipitadas e, no mais das vezes, erradas, que fiz sobre o psicólogo B. F. Skinner, fundador do Behaviorismo Radical. Minhas afirmações anteriores eram baseadas em uma leitura superficial e incompleta da obra de Skinner, e em conceitos incompletos e, de certo modo, até mesmo errados, que constam nos livros texto de Psicologia. Isso só confirma a importância da leitura das obras dos teóricos, acima da leitura de interpretações e resumos feitas com base nas mesmas. Agradeço ao Psicólogo e Professor Anderson de Moura Lima por me chamar a atenção quanto ao que eu havia escrito anteriormente, e por dedicar um longo tempo me enviando materiais de alta qualidade e debatendo o Behaviorismo Radical comigo.
"Educação é aquilo que sobrevive quando o que foi aprendido é esquecido."

"Uma pessoa que foi punida não irá tornar-se menos inclinada para se comportar daquela maneira; no máximo esta pessoa irá apenas aprender a evitar a punição."

O Behaviorismo Radical trata tudo aquilo que fazemos e tudo aquilo que conhecemos como mente, consciência e subjetividade, como sendo comportamento; ou seja, na visão do Behaviorista Radical, mente, consciência e subjetividade são comportamentos.
O Behaviorismo Radical é a vertente do estudo do comportamento, iniciada por Skinner, que se difere das demais, como os estudos de condicionamento de Ivan Pavlov, por sua ênfase nas conseqüências do comportamento ao invés dos estímulos que deflagram o comportamento; e, principalmente, se difere do Behaviorismo Metodológico de John Watson por não ignorar como epifenômeno (fenômeno que é um subproduto ocasional de outro, sobre o qual não exerce qualquer influência, e do qual é dependente - Aurélio) aquilo que é tratado como evento privado ou, em termos mentalistas, processos mentais.
O ato de pensar, o ato de sentir, o ato de criar, são todos atos, portando são comportamentos e podem ser estudados como tal. A consciência é tomar ciência de algo, sendo assim, também, um comportamento, ou melhor, um conjunto de comportamentos condicionados que nos leva a perceber o mundo da maneira como percebemos.
Somos causa e efeito, e tanto quanto exercemos nossas ações sobre o mundo, como Skinner ressalta, o mundo exerce seu efeito sobre nós. Desta forma, o Behaviorismo Radical tem uma visão bastante própria sobre ser humano: não há diferenciação entre ser humano e ambiente, nem grandes diferenciações entre ambiente externo e interno, somos um com o ambiente, somos moldados desta forma, agimos e reagimos frente às mudanças ambientais.
Os eventos privados, enquanto não podem ser observados pelo pesquisador ou pelo terapeuta, podem ser observados pelo indivíduo e podem ser relatados pelo comportamento verbal. Desta forma, nós mesmos somos importantes observadores dos nossos eventos privados e estes podem ser estudados por um profissional habilitado na Análise Comportamental.
A proposta do Behaviorismo Radical, como o próprio nome já deixa claro, trás consigo um rompimento drástico com idéias pré-concebidas que são nutridas socialmente, as memes virais às quais Daniel Dennett se refere, mas são importantes no sentido de que podem ser os argumentos mais fortes já criados em defesa da vida humana e dos direitos humanos.
Como isso? Skinner construiu toda sua base teórica fortemente fundamentada na ciência e na Filosofia (como fica evidente no livro Sobre o Behaviorismo, de autoria de B. F. Skinner); seus resultados são obtidos por meio da observação, quantificação e discussão. Não são afirmações baseadas em meras inferências e achismos, que dificilmente podem ser refutados e muitas vezes representam mais a visão do teórico do que a realidade que pode ser obtida pela experimentação; muito diferente disso: os postulados Behavioristas podem ser comprovados, os experimentos podem ser refeitos, as medições podem ser recriadas.
Além disso, Skinner não limitou seu trabalho aos animais, mas estudou o ser humano e a sociedade humana, levando em conta muitos os aspectos para os quais os Behavioristas que o precederam não possuíam respostas; sem, contudo, abrir mão do método científico. A aplicabilidade da Análise do Comportamento não se limita ao laboratório, mas possui respostas para a prática clínica, para as relações empresariais e para todo tipo de relação em sociedade.
Dentre estas respostas está a questão do livre-arbítrio e da responsabilidade. Até que ponto o ser humano é responsável por suas ações?
Ainda estamos presos à uma prática que vem desde a idade média e que foi ganhando força com a revolução industrial e a consolidação do modelo de produção capitalista; que é a prática de iludir as pessoas humildes para que elas se submetam e vendam sua mão de obra de forma barata sem questionar seu verdadeiro valor enquanto indivíduo. Para tanto temos o carnaval, o futebol, a cerveja e, talvez numa das facetas mais negras deste esquema de dissimulação, os bodes expiatórios, os segregados, os institucionalizados, que são aqueles indivíduos nos quais a população projeta todas suas fantasias destrutivas e toda sua frustração, sem nem ao menos tomar conhecimento de que estão agindo assim.
Ao afirmar que o ser humano é produto do ambiente e das contingências de reforço às quais foi submetido ao longo de sua vida, e sem esquecer da carga genética e fatores biológicos, Skinner questiona o valor da punição e conceitos como "a maldade da alma", "a perversão moral", "o caráter torpe", etc afirmando que eles são aquilo que são: mal adaptações do indivíduo, coisas que podem ser tratadas de maneira científica, com o método apropriado.
Com isso, é justo dizer que Skinner foi um dos cientistas que mais defendeu o ser humano, a liberdade do ser humano, e uma sociedade mais justa.

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Links recomendados:

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O que sabia Skinner sobre qualquer coisa?

"A concepção de que um mundo puramente físico poderia ser auto-suficiente fora sugerida há séculos atrás, na doutrina do paralelismo psicofísico, a qual sustentava a existência de dois mundos - um mental e um material - e de que nenhum deles exercia qualquer efeito sobre o outro. A demonstração freudiana do inconsciente, no qual uma consciência dos sentimentos ou estados mentais parecia desnecessária, apontava na mesma direção."
SKINNER, B. F. As causas do comportamento. In: Sobre o Behaviorismo. 10a ed. São Paulo : Cultrix, 2006. p. 18

Primeira aula de Teoria Psicanalítica, as cinco premissas da psicanálise: 1. Existe um inconsciente dinâmico (que exerce grande influência na conduta dos pacientes).

Parece que faltou até o básico para o Skinner. Posso citar mais pérolas do livro, como na página 14, em que o autor parece ignorar completamente anos de conhecimento médico acumulado sobre lesões cerebrais ao afirmar que modificações no cérebro não alteram o comportamento... Será possível que ele nunca travou conhecimento da prática de lobotomias ou de casos bem documentados como o de Phineas Gage?

"Mas as maiores dificuldades são de ordem prática: não podemos antecipar o que uma pessoa fará observando-lhe diretamente os sentimentos ou o sistema nervoso. Tampouco podemos mudar seu comportamento modificando-lhe a mente ou o cérebro." [grifo do autor] (p. 14)

Na mesma página, Skinner dá a impressão de total desconhecimento dos mecanismos fisiológicos que regulam a fome e a saciedade, entre outros.

Assim fica difícil Sr. Skinner. ):


* Inicialmente discutido por e-mail

sábado, 20 de outubro de 2007

Meu momento presente e o burro do Skinner

O meu momento presente em Andrômeda é diferente do de vocês

Um carro em movimento passa por uma pessoa parada em uma rua. À distância da galáxia de Andrômeda, no mesmo instante em que o carro passa pela pessoa parada, duas coisas em tempos diferentes estarão acontecendo simultaneamente. Para a pessoa que está em pé, parada, um general alienígena poderia estar decidindo se invade ou não a Terra; para a pessoa no carro, em movimento, uma frota alienígena já estará a caminho para a invasão.

A explicação: isso acontece se a relatividade especial for real, então cada observador terá um "plano de simultâneidade" que contém um conjunto de eventos único que constitui o momento presente do observador. Observadores movendo-se em velocidades diferentes terão planos de simultaneidade diferentes e diferentes conjuntos de eventos para o momento presente.

Para maiores explicações, só recorrendo à teoria da relatividade em si, mas eu não vou tão longe, para mim basta saber que: o meu momento presente em Andrômeda é diferente do de vocês. hehehehe (:


O Burro do Skinner

O burro do Skinner estava no celeiro e começou a sentir fome e sede. De um lado havia água, do outro, na mesma distância, havia alimento. O burro do Skinner, por não ser capaz de fazer nenhuma decisão racional, morreu de fome e sede...

Enquanto isso, Skinner sentou-se sozinho, em sua fazenda, para o café da manhã. Ao sentar-se, notou que havia posto os ovos mexidos com bacon de um lado, e o copo de leite do outro lado, exatamente na mesma distância. Por ser um behaviorista radical, Skinner não acredita no livre arbítrio e sente um forte bloqueio para decidir se deve matar a fome ou a sede primeiro. Skinner morreu de fome e sede.

Moral da história: se o homem é movido por estímulos e conseqüências, caso se encontrasse em uma situação de equilíbrio entre estímulos relativos à conseqüências de igual peso, seria incapaz de tomar uma decisão qualquer baseada na racionalidade.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

A Longa e Escura Noite do Behaviorismo

Update: Este post, baseado em uma tradução (fonte citada ao final), passa uma imagem equivocada daquela é, sem sombra de dúvida, a mais importante contribuição teórica à Psicologia e à intervenção em saúde mental já feita. Algumas (re)considerações podem ser encontradas aqui: http://psicologiarg.blogspot.com.br/2008/04/retomando-b-f-skinner.html
Escrevi este post durante minha formação (no primeiro ano do curso de Psicologia), e não me envergonho dele, especialmente por ter sido por meio de posts equivocados como este que me deparei com pessoas que me auxiliaram a retificar minhas concepções.

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O que aconteceu com os filhos do psicólogo J. B. Watson, sua neta Mariette Hartley, e com Deborah, a segunda filha do psicólogo B. F. Skinner?

Acredito que tenha sido Eric Berne, o fundador da psicoterapia de Análise Transacional1, que cunhou a expressão “a longa e escura noite do behaviorismo.” A abordagem behaviorista da psicologia experimental foi inaugurada por J. B. Watson em um manifesto intitulado “Psicologia da maneira como é vista pelos Behavioristas”, publicado em 1913 no Psychological Review. Ele era o editor deste jornal no momento da publicação, e chefe do departamento de psicologia da Universidade Johns Hopkins. O Behaviorismo tornou-se o paradigma mestre da psicologia por, no mínimo, cinqüenta anos, até o início da década de 1970, e provavelmente seu expoente mais bem conhecido seja B. F. Skinner. Para resumir o ponto de vista behaviorista, irei citar uma passagem do livro “Admirável Mundo Novo Revisado”2, de Aldous Huxley, publicado em 1958. Huxley usou a forma britânica de soletrar ‘behaviour’:
Por razões práticas ou teóricas, ditadores, homens de organizações e certos cientistas estão ansiosos por reduzir a enlouquecedora diversidade da natureza do homem para algum tipo de uniformidade gerenciável. No primeiro lampejo de seu fervor behaviourístico, J. B. Watson declarou repetidas vezes que ele não conseguia encontrar “nenhuma confirmação para padrões hereditários de comportamento, nem para habilidades especiais (música, arte, etc.) que são supostamente transmitidos pelas famílias.” E mesmo atualmente nós encontramos um distinto psicólogo, o Professor B. F. Skinner de Harvard, insistindo que “a medida que a exploração científica se torna mais e mais abrangente, a contribuição que pode ser atribuída ao indivíduo em si aproxima-se de zero. Os poderes criativos do homem, tão ostentados, suas realizações artísticas, científicas e morais, sua capacidade para escolher e nosso direito de o responsabilizarmos pelas conseqüências de sua escolha – nada disso é coerente com o novo auto-retrato científico.”
Huxley cometeu um pequeno engano em sua citação de Skinner que, na verdade, escreveu “suas realizações artísticas originais, científicas e morais...” Essa passagem pode ser encontrada no “Registro Cumulativo”3 de B. F. Skinner (edição reimpressa: Copley Publishing Group, 1999). Em outras palavras, os behavioristas consideravam que o comportamento humano era principalmente modelado pelo condicionamento ambiental, e que fatores hereditários eram de muito pouca importância. Esta foi a regra geral da a psicologia acadêmica por cinqüenta anos até que o vento mudou de direção.4 Agora a psicologia ‘evolucionária’ e a busca por ‘predisposições genéticas’ ganharam espaço. Parece muito difícil para a maioria dos psiquiatras e psicólogos das universidades entenderem que ambos os fatores estão fundamentalmente interligados.
Para a maioria dos estudantes de psicologia, o nome B. F. Skinner está associado à experimentos de condicionamento de ratos e pombas em ‘caixas de Skinner’, e o nome J. B. Watson com a indução de fobias em um bebê conhecido como ‘Pequeno Albert’ (ver o experimento do Pequeno Albert na Wikipédia)5. Desconhecemos que fim levou o Pequeno Albert.6

Os filhos de J. B. Watson

Watson submeteu seus filhos a um duro regime de criação, agendando as refeições e sem afetos físicos. Seu primeiro casamento com Mary Ickes lhe deu uma filha chamada Mary (também conhecida como Polly), e um filho chamado John. Polly tentou suicidar-se diversas vezes, e o ‘Pequeno John’ se tornou uma pessoa sem raízes, apagado por seu pai. O Pequeno John sofreu com problemas estomacais e fortes dores de cabeça durante toda sua vida, vindo a morrer com pouco mais de 50 anos de uma hemorragia causada por úlceras.
Depois de um escandaloso caso com a estudante Rosalie Rayner, que era jovem o suficiente para ser sua filha, sua esposa Mary pediu o divórcio e ele foi demitido da Universidade John Hopkins. Em seguida, ele casou-se com Rosalie e tiveram dois filhos, Billy e Jimmy. Na idade adulta, Billy rebelou-se contra o behaviorismo de seu pai e estabeleceu uma carreira bem sucedida com um psiquiatra psicanalista. Mas nem por isso deixou de tentar o suicídio. Em sua primeira tentativa foi impedido por seu irmão mais novo, Jimmy; vindo a morrer em sua segunda tentativa. Jimmy, por sua vez, sofreu de problemas estomacais crônicos durante anos (talvez um legado das refeições agendadas durante a infância?), mas conseguiu superar seus problemas após uma intensa terapia. Um artigo7 sobre J. B. Watson no site da Clayton State University refere-se ao suicídio de Billy:
Infelizmente, embora B. F. Skinner tenha se gabado que o “bebê em uma caixa” [de Watson] cresceu saudável e feliz, a experimentação de Watson com crianças carece de validade testemunhal: William, seu primogênito com Rosalie, cometeu suicídio aos 40 anos, apenas quatro anos após a morte de John Watson.

Em 1930, enquanto seus filhos ainda eram jovens, Rosalie Rayner Watson escreveu um artigo para a Parents Magazine intitulado “Eu sou a Mãe dos Filhos de um Behaviorista”8, no qual ela expressa o desejo de que seus filhos cresçam para apreciar a poesia e o drama da vida. Ela diz: “em alguns aspectos eu me curvo à grande sabedoria da ciência do behaviorismo, e em outros eu me rebelo. [...] gosto de estar feliz e contente, e de dar risadas. Os behavioristas pensam que risadas são um sinal de desajustamento.” Cinco anos depois ela morreu de pneumonia. Existe um artigo sobre John B. Watson e Rosalie Rayner na Johns Hopkins Magazine, publicado pela universidade onde ele foi professor de psicologia: Está tudo no Educação.9 John Broadus Watson tornou-se um recluso perto do final de sua vida. Ele queimou todos seus registros antes de morrer em 1958.

Mariette Hartley: Quebrando o Silêncio

Este não é o fim da saga familiar de Watson. Sua neta é Mary Loretta Hartley (também conhecida como Marietta ou Mariette)10, melhor conhecida por seus comerciais de TV para a Polaroid nos quais ela faz o papel de esposa de James Garner. Contudo, as circunstâncias de sua infância foram aterrorizantes. Sua mãe, silenciosa e repleta de ódio, era alcoólatra e repetidas vezes tentou o suicídio. Seu pai, um executivo do ramo do marketing, suicidou-se aos 67 anos depois de uma longa depressão. Mariette estava tomando café da manhã com sua mãe quando elas ouviram o tiro. Estas circunstâncias levaram Mariette a também tornar-se uma alcoólatra e a ter pensamentos suicidas, até o ponto em que sua carreira foi arruinada. Ela conseguiu superar seus problemas e reorganizar sua vida com a ajuda de um amigo e mentor.
Mais tarde em sua vida, ela escreveu as memórias de suas experiências no livro “Quebrando o Silêncio”11 (Putnam Group, 1990). Isto é o que ela tem a dizer sobre os princípios de criação de seu avô: “As teorias de meu avô infectaram a vida de minha mãe, a minha vida, e a vida de milhões. Como você pode encerrar um legado? Como você pode impedir a passagem de uma herança debilitante, de geração em geração, como se fosse uma falha genética?”
J. B. Watson foi o autor do sucesso de vendas “O Cuidado Psicológico do Bebê e da Criança”12, um manual para a educação de crianças. Depois de sua recuperação, Marietta Hartley tornou-se a diretora honorária da Fundação Americana de Prevenção ao Suicídio13, participando ativamente da campanha. Ela recebeu premiações humanitárias de inúmeras organizações incluindo, no seu estado natal, do Centro de Estudos da Família da Califórnia, da Associação Psicológica de Los Angeles e do Centro de Imagens Cerebrais da Universidade da Califórnia, em Irvine.
Mariette também escreveu e atuou na peça solo baseada em sua autobiografia. Em “Se você chegar em Belém, você foi longe demais”14, que irá estrear em janeiro de 2006, ela retrata os principais personagens que moldaram sua vida. Para mais informações sobre a família de J. B. Watson, seus casamentos e seus filhos, é interessante recorrer às notas de palestras no site da Sonoma State University, da Califórnia.15 Tais notas começam com trechos extraídos do livro de Mariette.

As filhas de B. F. Skinner

Talvez seja por causa das conseqüências atrozes do método de J. B. Watson de educação com seus próprios filhos que surgiu uma lenda urbana sobre o destino da segunda filha de B. F. Skinner, Deborah. Sua primeira filha, Julie (ver: http://www.julievargas.com), tornou-se uma psicóloga educacional. O mito de que Deborah cometeu suicídio surgiu com uma invenção de Skinner para substituir o berço tradicional, ou ‘babytender’. Skinner chamou sua invenção de Berço de Ar, mas também referia-se a ela como o ‘condicionador de herdeiros’16. Tratava-se de algo semelhante a uma grande incubadora como àquelas utilizadas nos hospitais, com um painel lateral de plexiglass que podia ser selado, permitindo que o interior fosse aquecido. Sua função era prover um local quente, silencioso e confortável para Deborah dormir nos invernos severos de Minnesota, sem ter que ser enrolada em diversas camadas de roupas e cobertores. Infelizmente, o artigo que Skinner escreveu sobre seu ‘babytender’ para o Ladies’ Home Journal em 1945, recebeu o título de “Bebê na Caixa” (Baby in a Box). Muitas pessoas chegaram à conclusão precipitada de que esta era uma variação da caixa de Skinner – utilizada em experimentos com animais – para bebês. A verdade é mais benígna. Deborah é uma artista e pintora bem sucedida. Você pode ler a opinião dela sobre o ocorrido em uma reportagem publicada em 2004 no jornal The Guardian.17 É sua resposta ao livro de Lauren Slater, “Abrindo a Caixa de Skinner: Grandes Experimentos Psicológicos do Século Vinte.”
É possível ver uma foto grande da versão comercial do Berço de Ar de Burrhus Frederic Skinner na Coleção de Aparatos18 nos Arquivos da História da Psicologia Americana da Universidade de Akron. A maioria dos Berços de Ar foram comprados por psicólogos.
Postado por Brad.
1Transactional Analysis psychotherapy.
2Brave New World Revisited – revisitado, no sentido de revisado. N.T.
3Cumulative Report
4No original: “[...] the pendulum swung in the other direction.” N.T.
5Endereço: http://en.wikipedia.org/wiki/the_Little_Albert_experiment
6Ver a passagem referente em DAVIDOFF, Linda. Introdução à Psicologia. 3ª edição. São Paulo : Makron, 2001. p. 106. N.T.
7Ver: http://a-s.clayton.edu/mccarty/PSYC3540/Web%20links/watson.html
8I Am the Mother of a Behaviorist’s Sons
9It’s all in the Upbringing – Ver: http://www.jhu.edu/%7Ejhumag/0400web/35.html
10Ver: http://www.mariettehartley.com
11Breaking the Silence
12The Psychological Care of Infant and Child
13American Foundation for Suicide Prevention
14If You Get to Bethlehem, You’ve Gone Too Far
15Ver: http://www.sonoma.edu/users/d/daniels/Watson.html
16Air Crib / ‘heir conditioner’.
17Ver: http://books.guardian.co.uk/departments/healthmindandbody/story/0,6000,1168052,00.html
18Ver: http://www3.uakron.edu/ahap/apparatus/apparatus.phtml?code_id=6&app_id=306

Fonte
RoboThink blog. Disponível em: http://robothink.blogspot.com/2005/09/long-dark-night-ofbehaviorism.html Acesso em: 08 de outubro de 2007.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Ficha - Filme Laranja Mecânica

Data: 02/10/2007

Título do Filme: Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)


1. Comente os aspectos mais significativos do filme.

A capa do filme já avisa: “Trazendo as aventuras de um jovem rapaz cujos principais interesses são o estrupo, ultra-violência e Beethoven” – partindo dessa premissa, somos levados ao futuro, no caso o ano de 1995, como indica o nome do carro pilotado em uma das cenas (Durango 95), da maneira como era imaginado em 1965. Tendo assistido ao filme anteriormente, assistir novamente em 2007 é quase um paradoxo ontológico: o diretor, Stanley Kubrick, nos leva por cenários que por vezes nos fazem imaginar que se trata de um futuro distópico, e por vezes nos trazem uma sensação estranhamente familiar – na segunda vez parece que estamos olhando para o passado, e não para o futuro.

Lembrando da primeira vez que assisti a esse filme, por volta de 1994, a sensação era de que ele não se passava no futuro, apenas se tratava de uma realidade onde as pessoas usavam roupas e cortes de cabelo realmente esquisitos, e falavam de maneira pitoresca... Ora, essa realidade não difere muito daquilo que sempre foi e ainda é a Inglaterra. Naquele tempo eu usava fitas-cassete para gravar músicas, que eram escutadas em um toca-fitas portátil. Bom, já havia discos compactos, mas utilizávamos muito mais as fitas-cassetes. No filme Alex usava fitas-cassete compactas, como aquelas que são utilizadas em gravadores de voz.

Agora, em 2007, o filme parece incrivelmente atrasado. Problema? Mais parece um acerto, uma vez que a projeção prevista pelo diretor era 1995. Como muitos filmes futuristas, o futuro apresentado tornou-se passado, mas diferente da maioria dos filmes que fazem especulações sobre o futuro, este encontrou um lugar muito próximo no presente.

Outro aspecto interessante do filme é a preferência musical do protagonista/narrador; quando eu estava passando pelo processo de divórcio e fui questionar a guarda da minha filha, uma assistente social me perguntou: “Que tipo de filme e que tipo de música você mais gosta?” – a mesma pergunta foi repetida por uma psicóloga quase um ano depois, e em ambas ocasiões eu sabia que era uma pergunta repleta de preconceitos, sendo que escolhi uma resposta vaga, apelando para a generalidade e ecleticismo. Não adiantou muito pois aquelas pessoas já possuíam uma idéia formada a meu respeito antes mesmo de me entrevistar, mas teria sido pior se eu tivesse simplesmente respondido que adoro assistir filmes de terror trash, com muito sangue de molho de tomate e gosma de massinha de modelar, e ouvir punk rock. A questão é que os gostos subjetivos de uma pessoa não a tornam melhor ou pior.

Em 1999 culminava uma onda de violência nas escolas americanas, que vinha crescendo ao longo da década, com o massacre de Columbine. Na época, muito mais do que questionar o bullying, a prescrição indiscriminada de psicotrópicos, e o fácil acesso às armas de fogo nos EUA, apontaram para as músicas que os atiradores escutavam, para as roupas que eles vestiam, e para os jogos presentes em seus computadores.

Semana passada, no programa Fantástico da Rede Globo, os repórteres acusavam o movimento punk e o movimento skinhead de promover a violência em São Paulo. O problema não está no grupo ou nos gostos de um grupo: alguns anos atrás alguns garotos de classe média alta do Distrito Federal puseram fogo em um índio; e outros, da mesma classe, amarram uma cadela prenha a um carro e a arrastaram pelas ruas da cidade de Pelotas. Dirão então que os playboys são um problema?

O filme mostra um jovem psicopata carismático e bem articulado – apesar das gírias, que escuta Beethoven e se veste de branco para roubar, espancar, estuprar e matar pessoas sem motivo algum. Como suas preferências encaixariam-se nos esteriótipos que nossa sociedade tanto recorre quando precisa espiar suas próprias faltas?

Também me marcou muito a cena onde o protagonista é agredido de forma teatral e degradante em frente à duas platéias, uma na tela e outra na sala de aula, provocando reações iniciais de riso, que foram diminuindo à medida que a violência persistia e aumentava. Uma vez que o protagonista estava enquadrado como um criminoso, um pária, ele se torna alvo de toda violência reprimida do restante da sociedade, que espera que as autoridades expressem essa violência de forma física, moral e psicológica. As fantasias destrutivas que todos temos guardadas encontram sua gratificação na negação do aspecto reintegrador, no esquecimento do aspecto reparativo, e no uso desmedido do aspecto punitivo da pena – a base tríplice do direito penal. Em busca desse tipo de gratificação, a sociedade ignora que muitos desses indivíduos irão voltar para as ruas, mais violentos, mais experientes e mais doentes do que quando foram institucionalizados.

Em um documentário exibido recentemente no Discovery Channel, foi abordada uma lei aprovada no estado da Califórnia, durante um período de comoção pública em decorrência a um crime violento, que prevê uma pena de 25 anos à prisão perpétua para qualquer criminoso que fosse condenado pela terceira vez, independente do crime que tenha cometido: não importa se o indivíduo foi condenado pela terceira vez por furtar uma garrafa de uísque levado pelo alcoolismo, ele será condenado à uma pena que o tornará um fardo para os cofres públicos, e um fantasma em vida, sem esperança de recuperação. A realidade no Brasil, embora no papel não seja tão absurda, não é muito diferente. As instituições rotulam os indivíduos, e ignoram séculos de teorias que vem sendo elaboradas desde o direito romano, passando pelos textos de Beccaria e Ihering, até o burocrático movimento legislativo brasileiro, que não possui velocidade para acompanhar as transformações sociais, e nem mesmo se importa em cumprir com seus pressupostos de eqüidade, humanismo, reparação e recuperação. Basta fazer a vontade do povão, basta empregar a punição.

Reflexo disso está no sucesso do filme Tropa de Elite, visto como divertido e como violência justificada. Embora não tenha visto o filme, ouvi comentários que diziam: “Então o policial começou a bater no guri de 14 anos, depois botou o ‘saco’ na cara dele... Não, mas a violência foi justificada, o policial queria saber onde morava o traficante.” Não sei se compreendi direito a lógica desse pensamento, mas não vejo justificativa, primeiro porque o policial estava agredindo um adolescente e não o traficante, segundo porque a legitimidade do poder do policial emana das leis, que por sua vez não endossam a tortura em caso algum. Mas entendo o prazer obtido pelo público, ao ver o policial espancando o garoto, o marginal, eles se colocam na pele do policial, e estão espancando aquele chefe que não sai do pé, aquele flanelinha que riscou o carro, o político corrupto... Acontece que o chefe continuará sendo chefe, o flanelinha vai continuar nas sinaleiras, e o político continuará sendo corrupto; e talvez algum garoto, de alguma favela, que foi de fato espancado por um policial, pegue uma arma e resolva descontar sua raiva, buscar uma gratificação para esse sentimento destrutivo, coincidentemente num dos espectadores do filme que vibraram com a violência policial.

Estes foram os três aspectos que mais me chamaram atenção nos trechos do filme Laranja Mecânica que foram exibidos em aula.



2. Destaque possíveis críticas e posicionamentos do argumento do filme.

O filme questiona conceitos de justiça, moralidade, bondade e liberdade. Um momento bastante ilustrativo disso foi o pensamento do protagonista ao sair da prisão: “Agora estou livre.” Como foi levantado pelo padre, após a terapia de aversão Alex se comportaria como um cidadão exemplar, mas não por livre escolha, ele simplesmente não conseguiria agir de maneira diferente. É a mecanização do ser humano que dá origem ao título do filme, “uma laranja mecânica” - assim se comportaria o indivíduo condicionado.

Também, como comentado anteriormente, o filme discute sobre como a sociedade tende a responder violência com violência, por meios que utilizam-se de seus dotes intelectuais para fins não racionais – uma vez que os resultados tendem a voltar-se contra a sociedade: o final do filme dá a entender que, após superar sua terapia de aversão, Alex aceita um cargo no governo, já imaginando como irá resumir de maneira mais dissimulada sua agressividade.

No filme, Alex está condicionado a um comportamento agressivo e cruel, cuja causa se encontra numa psicopatologia de personalidade anti-social, psicopata. Seriam seus amigos também psicopatas? Todos os jovens que agem de maneira irresponsável, destrutiva e agressiva são psicopatas? Acredito que não; sem recorrer às hipóteses estereotipantes já descartadas na primeira questão, defendo que parte da crueldade infantil se deve a um córtex pré-frontal ainda em formação, e parte da agressividade e impulsividade adolescente se devem a uma maior atividade do sistema límbico. Ao atingir a maturidade, a atividade desse sistema, relacionado justamente aos impulsos agressivos, à sexualidade, à emoção, diminui, e uma atividade maior no lobo frontal, relacionado ao juízo e ao controle das emoções, pode ser notada. A maturação biológica do sistema nervoso não é desculpa para atos de vandalismo, o ser humano vive em sociedade, e na sociedade desenvolve-se de maneira civilizada... Ou não?

Seriam os jovens que, desprovidos de deficiências mentais, cometem atos reprováveis, vítimas do corpo social que o cerca, seu núcleo familiar, sua escola, amigos e exemplos adultos, uma mídia que glamoriza a violência e a impunidade? Se são as regras da sociedade que são quebradas, e se tais regras devem ser introjetadas no jovem pelo corpo social que o cerca, então considero justo atribuir à sociedade parte da falha no desenvolvimento do caráter daquele que é taxado de delinqüente. Ao invés de, por dentro, nos regozijarmos com a violência sofrida por esses indivíduos quando são punidos, deveríamos sofrer junto com eles por nossa falta.



3. Associe as idéias apresentadas às Teorias Comportamentais.

Vejo o filme como uma crítica à psicologia behaviorista como proposta por Watson e Skinner. O aparato utilizado para manter o protagonista imóvel e de olhos abertos lembra o gosto behaviorista pelas máquinas e uma questão que muitos estudantes se fazem ao ouvir, por exemplo, a história de Pavlov e seus cães: como Pavlov poderia considerar que, um cachorro que teve seu aparelho bucal perfurado para a implantação de um medidor de salivação feito de metal, estaria demonstrando um comportamento normal, “num ambiente controlado e livre de influências externas?”

Mais que isso, a utilização da segregação de ratos, pombas e outros animais para a realização de experiências num ambiente que não é em nada natural ao animal, também deve influir sobre seu comportamento, da mesma maneira que já foi comprovado que ao serem observados por pesquisadores, grupos de seres humanos se comportam de maneira diferente do usual – em geral procurando responder de maneira positiva à espectativa manifesta consciente ou inconscientemente pelo pesquisador. Técnicas como a double-blind já foram elaboradas para minimizar esses e outros vicariantes, mas a crítica do filme é dirigida ao behaviorismo clássico. Ao ver o protagonista na cadeira, que procura exercer algum nível de domínio sobre sua atenção, não pude deixar de me lembrar imediatamente da foto da cadeira projetada por Skinner para seu uso pessoal, cuja a finalidade era a mesma: controlar sua atenção.

O tipo de comportamento modelado na cena dos filmes é o comportamento operante, pois procurava modificar as ações violentas voluntárias do protagonista. Ao definir o que é e o que não é sua ciência de modificação do comportamento, Skinner alega que seu objetivo é “aliviar os problemas humanos.” Em resposta a isso, o filme levanta a questão: quem decide o que é um problema e o que não é um problema? Um indivíduo completamente violento certamente é um problema, mas um indivíduo incapaz de se defender está fadado à morrer de maneira horrível.

Fazendo uma comparação, recentemente fiquei surpreso na aula de Psicofisiologia ao saber que as deformidades apresentadas pelos portadores da doença de Hansen (vulgarmente conhecidos como leprosos) não são causadas pela doença, mas pela incapacidade desses indivíduos de sentir dor, dessa maneira, quando sofrem algum ferimento, ou quando da infecção por fungos ou bactérias, não buscam tratamento até que seja tarde demais, além de sofrerem ferimentos por não serem capazes de sentir o aviso de dano tissular durante suas atividades cotidianas; de maneira semelhante a um indivíduo que não é capaz de se defender, porém, a diferença crucial é que tal indivíduo sente a dor, seja ela moral ou física.

O grande problema da terapia aversiva vista no filme foi a completa eliminação do impulso agressivo, ao invés de um moderamento do mesmo, e a situação incapacitante em que o reflexo condicionado à agressão deixava o indivíduo, impedindo que esse recorresse à fuga de tal situação, quando a esquiva não fosse possível. A técnica Ludovico aleijou psicologicamente o protagonista.

O abuso da punição por diferentes indivíduos, quando a modalidade de punição negativa é usada recorrentemente, também está presente no decorrer filme. O protagonista já havia cumprido um certo tempo de prisão, e teria sua capacidade defensiva maculada, quando implorou para que não prejudicassem seu gosto por música clássica, ao que o cientista respondeu “que este poderia ser o elemento punitivo.” Mais adiante, na demonstração para políticos e para administradores institucionais, o protagonista é novamente punido, vindo a ser punido outra vez ao chegar em casa, e mais uma vez quando é capturado por uma de suas vítimas.

Não sou um defensor dos malfeitores, assim como os defensores dos direitos humanos também não são. Quero um mundo seguro e melhor para todos, uma sociedade justa e harmoniosa; e é justamente por isso que quero mecanismos legais que não piorem aqueles que cometeram delitos mas, tendo consciência da realidade legal do país, de que esses indivíduos voltarão às ruas mais cedo ou mais tarde, que eles pelo menos tenham a chance de uma recuperação, ou que recebam os cuidados cabíveis quando tal recuperação não for possível. Se eu tivesse que responder à pergunta clássica daqueles que defendem penas cada vez mais duras, do “e se fosse com um ente amado, com alguém da tua família?”, eu admitira desconhecer a minha reação, mas caso eu não tivesse a coragem de fazer justiça com as minhas próprias mãos e depois arcar com as conseqüências legais das minhas ações – que fossem consqüências justas ou injustas, eu estaria sendo duplamente covarde se esperasse que o instrumento coercitivo do governo agisse com iniqüidade ou me sentisse vingado com isso.

Ironicamente, foi uma das vítimas do protagonista que promoveu sua recuperação instantânea durante um procedimento de punição negativa, ao fazer com que ele tentasse suicídio.


“Seres humanos e sociedades fazem parte de um processo cíclico que se move pra frente e para trás no tempo, entre a bondade e a maldade, o totalitarismo e a liberdade.”

Anthony Burgess

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Estudo do Questionário de TC

Parte 1:


1. Qual a influência do Darwinismo na utilização da etologia na Teoria Comportamental?


As descobertas de Darwin indicavam o parentesco biológico, geneticamente determinado, entre os seres humanos e os outros animais, tornando possível o estudo comparado de seus comportamentos. Além disso, com a popularização do Darwinismo no séc. XIX, tais estudos enfrentaram menos resistência das forças políticas da sociedade. Tais estudos comparativos do comportamento foram imprescindíveis para o desenvolvimento da Teoria Comportamental, que fundamenta-se na experimentação, dadas as limitações éticas e morais1 para o estudo experimental em seres humanos.


▲ eto-. [Do gr. éthos, eous-ous.] El. comp. = ´costume´, ´uso´: etocracia, etognosia2.

etologia [De eto- + -log(o)- + -ia.] S. f. 1. Tratado dos costumes, usos e caracteres humanos. 2. Estudo dos hábitos dos animais e da sua acomodação às condições do ambiente: “Os cientistas Karl von Frisch e Konrad Lorenz, austríacos, e Nikolas Tinbergen, holandês, ganharam o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1973 por terem criado uma nova ciência, a Etologia, que faz o estudo comparado do comportamento dos animais.” (Jornal do Brasil, 12.10.73). 3. Parte da botânica que estuda as adaptações observadas nos vegetais.


2. O que pretendia Wundt ao se utilizar do método da introspecção?


Wundt pretendia, por meio da introspecção, fazer uma observação indireta, porém baseada em um método definido e rigoroso, dos processos mentais. Estes não podiam ser observados por meios objetivos e mecanicistas e, embora Wundt tenha tentado seguir tais pressupostos, estes acabaram sendo os propelentes das críticas ao seu método.


introspecção. [Do lat. introspectione] S. f. Observação da vida interior pelo próprio sujeito; exame que alguém faz dos próprios pensamentos e sentimentos. [Var.: introspeção.]


3. O que focava a Psicologia Objetiva?


A Psicologia Objetiva, que iniciou-se como uma crítica ao método da introspecção por considerá-lo por demais subjetivo, buscava instrumentalizar a Psicologia com métodos objetivos dentro dos paradigmas das ciências naturais.


4. Por que os Funcionalistas criticavam o Estruturalismo?


Os Funcionalistas tinham uma visão pragmática3 da mente humana, logo não se interessavam pela estruturada mesma. Os Funcionalistas criticavam a artificialidade do método da introspecção e a decomposição dos fenômenos mentais complexos e simples, inerente a este método, e a estreiteza do âmbito da investigação.


5. William James afirmava que a visão pragmática é fundamental para a investigação científica, explique porquê.


A doutrina do pragmatismo baseia-se na comprovação da validade de uma idéia ou de um conceito mediante a análise de suas conseqüências práticas, promovendo o pensamento objetivo e voltado para a utilidade funcional, e descartando aquilo que – segundo esta visão – parece inútil e ilógico (Lâmina de Occam4).


6. Trace um paralelo entre as idéias defendidas por Watson e as idéias defendidas por Pavlov.


Tanto Pavlov quanto Watson defendiam uma abordagem comparativa, funcional e determinista na experimentação e estudo do comportamento. Ivan Pavlov iniciou as pesquisas com o condicionamento respondente (também conhecido como condicionamento pavloviano), desvendando a influência das funções autônomas dos seres vivos nos seus comportamentos. Watson deu prosseguimento a essas idéias utilizando-as para a modelagem comportamental, para maior cientificidade na Psicologia e para opor-se ao mentalismo de Wundt.


7. Para Skinner, como se opera o controle do comportamento humano?


Para Skinner o condicionamento depende dos resultados obtidos a partir de uma ação iniciada conscientemente por um ser vivo, de maneira que, se estes resultados aumentarem a probabilidade do animal repetir a ação em uma situação semelhante, terá sido alcançado o controle do comportamento na forma do condicionamento operante. Skinner, assim como Pavlov e Watson, preocupava-se com a objetividade dos estudos comportamentais, dando grande ênfase ao controle do ambiente onde ocorriam as experiências.


behaviorismo. [Do ingl. behaviorism] S. m. Filos. Restrição da psicologia ao estudo objetivo dos estímulos e reações verificadas no [plano] físico, com desprezo total dos fatos anímicos.



Parte 2:


1. A teoria da evolução de Darwin foi percebida em grande medida como um ataque à religião. Explique:


A teoria da evolução de Darwin foi diretamente contra a visão teocêntrica ainda vigente na época em que Darwin publicou a sua Evolução das Espécies; ao afirmar que o homem era uma evolução dos demais primatas, ele estava contestando o postulado bíblico de que o homem havia sido criado a imagem e semelhança de Deus.


2. Qual a importância de Wundt para a Psicologia?


Wundt editou, divulgou e promoveu as idéias de Fechner, além de ter formado uma nova escola dividindo a psicologia em psicologia experimental e psicologia social. Wundt também fundou a primeira revista e o primeiro laboratório de psicologia. Por esses motivos Wilhelm Wundt ficou conhecido como o pai da Psicologia.


3. O método de Pavlov contribuiu para quais avanços na Psicologia?


O método de condicionamento pavloviano deu início ao que viria a ser a Teoria Comportamental e a grandes avanços na psicologia objetiva e comparativa. Este método proporcionou a psicologia um elemento básico do comportamento, possibilitando a redução deste a unidades concretas passíveis de estudo e observação em condições laboratoriais.


4. Qual a contribuição de Watson para o Behaviorismo?


Watson, em sua cruzada para transformar a psicologia em uma ciência “respeitável”, teve um importante papel na afirmação e divulgação das idéias Behavioristas, tendo elaborado as premissas que ainda hoje exercem influência nos praticantes desta escola. Baseando-se nos estudos iniciados por Pavlov, Watson afirma que o comportamento, por poder ser observado, quantificado e qualificado, é o verdadeiro objeto de estudo da psicologia, descartando a introspecção de Wundt.


5. Quais são os princípios do Behaviorismo?


O Behaviorismo propõe uma psicologia basicamente experimental, tendo contribuído muito para a compreensão da aprendizagem e da motivação. Segundo o Behaviorismo os psicólogos devem estudar os eventos ambientais e os comportamentos observáveis com objetividade e metodologia. Além de aprender pela experimentação, utilizando, também, a etologia – partindo da comparação dos organismos mais simples para os mais complexos. A subjetividade5 deve ser descartada.


6. Qual a associação da Psicologia Behaviorista com as ciências naturais?


É a tentativa de aproximação da psicologia com os paradigmas das ciências naturais, como a objetividade, metodologia, etc., na tentativa de validar seus postulados e métodos.


7. Qual a crítica de Skinner ao Mentalismo?


Skinner acreditava que os argumentos em favor do mentalismo eram inconsistentes por não serem observáveis de forma direta e por seus resultados estarem sujeitos à subjetividade humana.


psicologia. [De psic(o)- + -log(o)- + -ia] S. f. 1. A ciência dos fenômenos psíquicos e do comportamento. 2. Conjunto de estados e disposições psíquicas de idéias de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos: Conhece bem a psicologia do povo francês. 3. Conjunto de conhecimentos relativos a essa ciência ou que têm implicações com ela, ministrados nas respectivas faculdades: estudante de psicologia. 4. Estudo psicológico de uma obra de arte, de um tema, etc.: a psicologia da guerra; a psicologia do séc. XX. 5. Conhecimento intuitivo e/ou empírico dos sentimentos de outrem; aptidão para prever ou compreender comportamentos alheios: Faltou-lhe psicologia quando repreendeu o filho em público. ♦ Psicologia animal. Ramo da psicologia que tem por objeto o estudo descritivo e a análise experimental do comportamento dos animais. Psicologia clínica. Ramo da psicologia que estuda o comportamento do indivíduo (ou do grupo) por meio de técnicas apropriadas, tais como testes de inteligência, personalidade, entrevistas, etc., numa tentativa de compreender-lhe os conflitos. Psicologia diferencial. Estudo comparativo da psicologia de diferentes seres ou classes de seres: psicologia diferencial dos sexos; psicologia diferencial dos povos. Psicologia estrutural. Método ou tratamento sistemático psicológico que estuda e descreve a composição e integração de diversos estados psíquicos e experiências conscientes. Psicologia evolutiva. Ramo da psicologia que estuda desenvolvimento dos psiquismos, a transformação da criança em adulto, os progressos e os estágios por que ela passa, procurando compreender o significado funcional desses progressos e estágios. Psicologia experimental. Ramo da psicologia que submete à experimentação científica os fatos conhecidos pela observação a fim de verificá-los e deles extrair leis gerais. Psicologia industrial. Conhecimentos psicológicos aplicados aos problemas humanos da indústria. Psicologia racional. Filos. Parte da metafísica que estuda o princípio e a causa dos fenômenos do pensamento humano. Psicologia social. Ciência que estuda os comportamentos dos indivíduos considerados como tais, dentro do campo social, por ele influenciados, mas igualmente reagindo a ele e transformando-o. Ex.: a psicologia do comportamento do líder.


Obras Consultadas:


FERREIRA, Aurélio B. et al. NOVO DICIONÁRIO AURÉLIO DA LÍNGUA PORTUGUESA. 2ª ed. rev. e amp. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1986.


1ética. [Fem. substantivado do adj. ético.] S. f. Estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível a qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto. [Cf. moral (1) e hética.]

moral. [Do lat. morale, ´relativo aos costumes´.] S. f. 1. Filos. Conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada. [Cf. amoral (4) e ética (1).] 2. Conclusão moral que se tira de uma obra, de um fato, etc. ● S. m. 3. O conjunto de nossas faculdades morais; brio, vergonha. 4. O que há de moralidade em qualquer coisa. ● Adj. 2 g. 5. Relativo à moral. 6. Que tem bons costumes. 7. Relativo ao domínio espiritual (em oposição a físico ou material). [Cf. mural.] ~ V. ciências morais, comédia –, consciência –, igualdade –, indiferença –, lei –, morte –, necessidade –, personalidade –, pessoa – e senso –. ♦ Moral da história. Conclusão ou lição moral inerente a um fato narrado. [Us., às vezes, ironicamente.]

2etognosia. [De eto- + -gnos(i)(o)- + ia.] S. f. Filos. Conhecimento profundo dos costumes, paixões e caracteres do homem. [Cf. etografia.]

3pragmatismo. [Do ingl. pragmatism] S. m. Filos. 1. Doutrina de Charles Sanders Peirce, filósofo americano (1839-1914), cuja tese fundamental é que a idéia que temos de um objeto qualquer nada mais é senão a soma das idéias de todos os efeitos imagináveis atribuídos por nó a esse objeto, que possam ter um efeito prático qualquer; pragmaticismo. 2. Doutrina segundo a qual a verdade duma proposição é uma relação totalmente interior à experiência humana, e o conhecimento é um instrumento a serviço da ação, tendo o pensamento caráter puramente finalístico: a verdade de uma proposição consiste no fato de que ela seja útil, tenha alguma espécie de êxito ou de satisfação. [Cf. ativismo (1), humanismo (1) e naturalismo (5).]

4William de Ockham (também transcrito como Occam) defendeu o princípio de que a natureza é por si mesma econômica, sempre escolhendo o caminho mais simples; criando assim o princípio expresso e popularizado pela obra Ordinatio de Sir William Hamilton (séc. XIX) segundo o qual todo conhecimento racional tem base na lógica, em acordo com os dados proporcionados pelos sentidos. Uma vez que só conhecemos entidades palpáveis e concretas, nossos conceitos não passam de meios lingüísticos para expressar uma idéia; logo, tais idéias precisam de comprovação através da realidade física.

5subjetivo. [Do lat. subjectivu.] Adj. 1. Relativo a sujeito. 2. Existente no sujeito. 3. Individual, pessoal; particular: É muito subjetiva a sua visão do assunto. 4. Passado unicamente no espírito de uma pessoa. 5. Filos. Válido para um só sujeito. 6. Filos. Que pertence unicamente ao pensamento humano, em oposição ao mundo físico, i.e., à natureza empírica dos objetos a que se refere. ~ V. direito –, idealismo –, material –, novação –a e pronome –. ● S. m. 7. Aquilo que é subjetivo.