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sábado, 16 de outubro de 2010

Retomando Self, Mente e Personalidade

Ultimamente tenho dedicado muito tempo a estudar a aprender apenas aquilo que é proposto no curso de Psicologia e tenho dedicado praticamente nenhum tempo a estudar aquilo que mais me instiga. Como resultado disso, sinto como se me escapassem as ideias que eu vinha desenvolvendo sobre os temas que mais gosto. Este tem sido um sacrifício necessário em razão da minha transferência de uma instituição de ensino para outra.
Mas vejo que é muito danoso não me organizar a ponto de dedicar pelo menos um tempo mínimo para minhas questões pessoais, como estudar aquilo que realmente me interessa. Assim, vou aproveitar esta tarde de sábado para retomar algumas ideias, tentar deixá-las mais claras por meio de argumentos e farei isto no blog pois há sempre a possibilidade de alguém passar por aqui, comentar e apontar algum detalhe importante que precisa ser revisto ou melhorado.

Começo por três dos meus pressupostos:
1. A "Mente", ou seja, aquilo que de forma geral as pessoas chamam de mente: é o estado total atual eletroquímico do sistema nervoso. A mente não é o conjunto de neurônios suas sinapses, mas o estado metabólico destes e sua comunicação em um dado momento.
2. Personalidade: é a população e (a) a configuração sináptica das redes neuronais, que codificam a informação retida e mais (b) o funcionamento hormonal de um dado organismo, sendo que uma armazena informações e outra define, em especial, o quanto uma resposta a um dado estímulo será forte ou fraca.
3. O "Self": se trata da mente mais a personalidade em um determinado contexto ambiental; contexto que, vale destacar, é único para cada observador, uma vez que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo.
Ainda em relação ao ambiente, ainda que possamos imaginar que uma mesma experiência possa ser observada por dois corpos distintos, ao mesmo tempo e de um mesmo ponto, em um ambiente virtual, no cotidiano isso não é algo normal.

Agora vou tecer alguns argumentos com base nos pressupostos acima...
O cérebro faz parte do organismo, que por sua vez faz parte do ambiente. Em se tratando de conjuntos, podemos pensar em um conjunto corpo, do qual o cérebro faz parte, e um conjunto ambiente, do qual o corpo e seus constituintes fazem parte.
Mas é preciso ter clareza de que o cérebro não é o corpo, assim como o corpo não é o ambiente. O cérebro, parte do sistema nervoso central, assim como sua extensão, o sistema nervoso periférico, é um objeto delimitado. Se pensarmos em sistema nervoso, este termina nas placas terminais, de modo que é possível distinguir onde termina o sistema nervoso e começa o restante do corpo. Se pensarmos no corpo, este é delimitado em relação ao restante do ambiente, pela pele e pelas mucosas. Desta forma, enquanto que o cérebro e o corpo são partes constituintes de um conjunto, não é correto confundir as partes com o todo. O cérebro não é o ambiente.

{Sistema Nervoso} ⊇ {S.N.C., S.N.P.}
{Sistema Nervoso} ⊊ {Corpo}
{Corpo} ⊊ {Ambiente}

O cérebro, assim como o corpo, pode ser causa para alguns comportamentos. Por exemplo, uma pessoa sente fome, independentemente de lhe ser apresentado um estímulo para tanto. Dizer que a fome é "uma disposição para agir", uma "alta probabilidade de ingerir alimentos", não é o suficiente. A fome sem dúvida aumenta a probabilidade de um organismo, em uma determinada situação, ingerir alimentos. Obviamente, isso só é verdade se houverem alimentos disponíveis para serem ingeridos, caso contrário a probabilidade não irá aumentar e ainda assim, lá estará "a fome".
Mais que isso, para que a probabilidade de ingerir alimento aumente, além da disponibilidade de alimentos, também é necessário que o organismo, supondo um organismo consciente, esteja dotado de outras disposições não-concorrentes para ingerir o alimento.
Um indivíduo que nasça com os genes da doença de Huntington e que venha a desenvolver a doença, irá exibir determinados comportamentos, independente de estímulos ambientais. Desde tremores, até estados depressivos, todos terão origem no sistema nervoso do indivíduo, que é como é por conta de sua genética. Dizer que a doença de Huntington é uma disposição para tremer, apresentar sintomas depressivos, tiques, distúrbios na linguagem, etc, é falar de apenas um aspecto da doença, uma vez que há de fato 50% de chance do indivíduo a desenvolver. Porém é fato que a doença e um sistema nervoso são fatores necessários, condicionais, para que os sinais e sintomas apareçam.
Mas falo da doença de Huntington apenas para apontar um exemplo claro. Um cérebro é um fator condicional para que muitas características humanas apareçam, características que não podem ser encontradas em sua totalidade nos animais, e nem puderam ser emuladas em sua totalidade nos computadores.

Podem estas características serem descritas como comportamento? Não tenho dúvida que sim, inclusive aquelas mais peculiares aos indivíduos. Mas são comportamentos que acontecem em um substrato físico, localizado; de forma que o comportamento é um fenômeno, um efeito, uma atividade de um objeto. O pensamento não está flutuando em um balãozinho imaterial, de alguma energia etérea ou mística qualquer, ao redor da minha cabeça. Nenhum comportamento ocorre em algo imaterial. O fluxo de pensamento, que é contínuo, mesmo quando estamos em repouso e de olhos fechados, emerge da atividade metabólica de conjuntos de células. Este fluxo não pode ser afirmado como sendo completamente aleatório, e nem como sendo completamente determinado simplesmente pela atividade metabólica celular, pois estímulos internos - daquilo que sentimos de nossas vísceras ou da posição de nosso corpo - e estímulos externos estão constantemente chegando ao cérebro, ainda que na periferia de nossa atenção, e ainda há aquilo que conhecemos.

Só pensamos naquilo que conhecemos, só nos recordamos daquilo que experienciamos e que temos memória. Por exemplo, até alguns segundos atrás eu não poderia pensar e nem escrever sobre o município de Kelmè na Lituânia, pois nunca me foi dado a conhecer sua existência. Como pude então utilizá-lo aqui, neste exemplo? Acessei na Wikipédia o artigo Lituânia, pois foi o primeiro nome que me ocorreu enquanto pensava em um "país obscuro (pra mim) de nome engraçado", olhei como ele era dividido administrativamente, pois sei que os países assim são divididos, e procurei qualquer unidade administrativa que fosse interiorana. Até então, era possível pensar em um país do qual tenho pouco conhecimento, que provavelmente possui divisões administrativas como a maioria dos demais países, sendo que dentre estas unidades, algumas delas devem ter as características interioranas e outras devem ser capitais. Após esta busca sou capaz de pensar algo que até então eu absolutamente não era capaz: a Lituânia possui um município chamado Kelmè.
Se nos próximos dias eu estiver ocioso, de olhos fechados, e me ocorrer pensar sobre este município, a causa para tanto estará na elaboração deste exemplo, além é claro do fato de eu ter acesso a internet, de ter me ocorrido o nome Lituânia quando pensava em elaborar este exemplo, etc. Aonde quero chegar com isso? Na afirmação de que, a nível da experiência humana, o nada a nada dá origem. Tudo se origina de alguma coisa, ou sistema, que o preceda.Brain-ComputerO cérebro não é causa última para pensamento algum, mas é um elemento condicional para que o pensamento possa existir (pelo menos até o dia que inventarem um computador dotado de consciência ou alguma coisa semelhante). Em certas circunstâncias, contudo, um cérebro, pode dar origem a pensamentos, sem a presença de um estímulo externo. Por exemplo, para pensar em Kelmè não preciso que me ponham um mapa na frente dos meus olhos. É possível que se eu vir a comer um chocolate Laka nos próximos dias eu me lembre deste município. Mas neste caso estou falando de pareamento, pois estava comendo um chocolate enquanto bolava o aquele raciocínio, e o chocolate seria um estímulo externo eliciando o comportamento de lembrar-me de Kelmè.
Porém acredito na hipótese de que, se por algum motivo eu apresentasse alguma doença rara neurológica que me privasse de todo e qualquer input sensorial, mas mantivesse meu cérebro preservado, ainda assim eu pensaria. Pensaria em inúmeras coisas, provavelmente pensaria no horror da situação, de estar privado de qualquer forma de contato com o mundo exterior. Isso seria um comportamento reforçado pela remoção dos estímulos externos, ou seja, pode-se dizer que é de causa externa. Mas eventualmente, acredito, me voltaria para o mundo interno, tudo aquilo que está registrado nas minhas memórias. O que eu viesse a pensar, embora se originasse de experiências externas, seria evocado ao sabor do que estivesse acontecendo em minha vivência interna, privada, cerebral.

Esse comportamento só seria possível pois já experienciei o mundo. O que leva a outra hipótese que acredito, que é a de que o cérebro não surge dotado de experiências. Se imaginarmos um organismo humano que tenha se desenvolvido, desde a concepção, sem nenhum input sensorial, é viável afirmar que tal organismo, ainda que tenha um tecido cerebral preservado quando no momento do nascimento e pelo período que viver, não é consciente, não possui "vida mental". Acredito nessa hipótese por saber que organismos humanos privados do contato com a linguagem apresentam atrofia em áreas do cérebro relacionadas à linguagem. Provavelmente um organismo nas condições descritas não seria capaz de sobreviver muito tempo.

Embora o cérebro não possa ser causa última (origem) para pensamento algum, o cérebro pode ser causa para outros comportamentos, como tremores e tiques. Dizer que se é capaz de controlar certos tremores ou tiques não elimina sua origem no cérebro. Por exemplo, indivíduos com a síndrome de Tourette são capazes de controlar os tiques durante alguns momentos, até que cedem à necessidade de emitir aqueles dados comportamentos. Mas estes tiques não necessitam de estímulos externos para se fazer presentes, ainda que possam ser agravados ou amenizados por estímulos externos. Até mesmo o comportamento de tentar resistir aos tiques pode muito bem ser uma resposta ao tique, que é um estímulo interno.Voltando ao caso de uma experiência idêntica simulada artificialmente... Não é possível que dois observadores conscientes observem o mesmo fenômeno do mesmo ponto ao mesmo tempo na natureza. Seria mais ou menos possível se fosse ligado o output de um par de olhos a dois cérebros, ou então numa circunstância em que duas pessoas estivessem observando uma mesma cena, cuja qual ficasse chamando a atenção para um determinado foco, de um mesmo ponto em uma realidade virtual. Mas ainda assim, considerando que estes dois cérebros estariam recebendo outros inputs de seus respectivos corpos, a experiência total não seria a mesma. Caso contrário, assistir um filme em um cinema seria quase isso. Talvez o mais próximo possível a isso seria um par de gêmeos idênticos que, do momento do nascimento, fossem conectados a uma realidade virtual na qual são passivos, observam os eventos a partir do mesmo ponto no espaço, e apenas observam o desenrolar destes eventos, sem interagir com nada. Supondo que, de alguma forma, todo input sensorial destes gêmeos houvesse sido idêntico durante toda suas existências - mesmo intraútero, a nível de extrapolação - estaríamos falando possivelmente de duas consciências idênticas. Talvez, caso lhes fosse dado o controle sobre a ação em algum momento, ambos agiriam da mesma forma. Porém, se eles viessem a ser colocados em pontos diferentes da simulação, suas consciências se distinguiriam. Ou, se eles fossem simplesmente desconectados da simulação ao atingir a idade adulta, se deparariam com um Doppelgänger. O que seria verdade só até o momento da desconexão. A partir de então suas experiências se diversificariam e seriam apenas pessoas muito parecidas, mas cujas consciências iriam ser gradativamente preenchidas por conteúdos diversos.
A nível experimental, se eu considerar que meu computador de alguma forma uma extensão do meu cérebro, da minha memória, se eu clonar meu disco-rígido e colocar o disco com a cópia em outro computador idêntico, com o mesmo hardware, terei dois computadores exatamente iguais, com o mesmo conteúdo. Porém, se eu começa a utilizar eles alternadamente (sem uma configuração RAID 1), seus conteúdos irão se diversificar.

Neste momento, enquanto nunca foi feita clonagem ou espelhamento deste disco-rígido, não existe outro computador na face da Terra com o mesmo conteúdo do disco-rígido do meu computador. E o fato de meu computador ser único o faz funcionar de forma única. Apesar do sistema operacional ser um Linux, o mesmo de tantos outros computadores, o uso continuado fez com que eu fosse alterando diversos elementos funcionais, como a disposição e o conteúdo dos menus, a forma como eles surgem e exibem seus conteúdos, a forma como os dados são armazenados e evocados, etc. De modo geral, ao clicar num ícone de um arquivo, o arquivo - eventualmente - será exibido. Mas o que acontece de forma discreta ao usuário enquanto este arquivo é utilizado pelo usuário é particular nesta máquina, configurada para equilibrar o desempenho e a economia do SSD com alguma segurança para a integridade de dados. Pode ser que exista outra máquina que maneje os arquivos da mesma forma, mas seriam arquivos diferentes e outros aspectos funcionais seriam diferentes.
Se algo tão simples quanto um computador adquire diversidade por meio da intervenção de agentes conscientes, o que dizer do substrato dos agentes conscientes? As pessoas possuem gostos diferentes, pois ao longo da vida fizeram diferentes associações. A experiência de cada indivíduo é única e a linguagem é apenas uma janela, estreita e não muito transparente, para o que essa experiência realmente é.

Não sei se consegui ser claro até aqui. Mas pelo menos consegui me concentrar por algumas horas em um debate sobre assuntos que realmente me instigam a curiosidade e despertam minha imaginação. :D

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Experimento do João da Mão

Eu posso te dizer como é, mas
só você pode saber o quanto é.

Estive relendo o experimento mental de Mary, a supercientista, e discutindo com um amigo a respeito do assunto, quando me dei conta de algo crítico em relação ao experimento: embora muitas vezes uma percepção consciente visual possa ser carregada de emoções fortes, em geral, na maior parte do tempo, nossa percepção visual não é algo que desperte reações fisiológicas/emocionais realmente fortes em nossos corpos. Observar uma revista masculina ou mesmo uma mulher despindo-se está longe, em termos de reações que ocorrem no nosso organismo, de ser o mesmo que uma relação sexual.
No experimento de Mary, a supercientista, em suas várias versões, basicamente a protagonista do experimento deixa um quarto preto e branco, ou sofre uma operação para adquirir a visão colorida, e se depara com algum estímulo tal como uma banana, ou uma rosa, ou um quadro... Convenhamos, são coisas de certo modo interessantes, especialmente para quem nunca viu cores, mas são estímulos que não eliciam grandes respostas do organismo, com excessão da banana, caso a pessoa esteja faminta, ou do quadro, se for um quadro realmente espetacular. Além disso, com excessão de que a protagonista estivesse com fome -- no caso de uma banana -- ou fosse sinesteta -- nos demais casos, apenas uma modalidade perpectiva seria evocada em maior medida.
No cérebro, na vida, as coisas não são tão simples, são mais dinâmicas, as modalidades perceptivas interagem em grande medida -- ouvimos um som e quase como que por reflexo viramos nossos olhos em direção ao som, ou fechamos os olhos no caso de uma grande explosão, etc --, e em algumas experiências em especial, muitas modalidades interagem para dar o sentido à experiência. Bons chefs de cozinha sabem que grande parte do sucesso de um prato depende da apresentação do mesmo, a aparência, suas cores, além, é claro, do paladar e do aroma.
Mas mais do que a interação entre as diferentes modalidades perceptivas, algumas experiências em especial desencadeiam fortes reações fisiológicas que modificam a maneira como nos sentimos no momento em que elas ocorrem. Após nos alimentarmos, por exemplo, temos a sensação de saciedade. Mas não é uma sensação tão relevante, pois pode-se dizer que é uma sensação fácilmente ignorada -- não é a toa que a obesidade é um problema nos dias atuais.
Por isso tudo, proponho que o experimento de Mary, a supercientista, venha a ser remodelado ou substituído por um experimento que envolvesse a interação de diferentes modalidades de percepção e também uma forte reação fisiológica que não pudesse ser ignorada.
Dentre as experiências possíveis, é possível citar o medo, mas acredito que mais interessante seria a experiência sexual. O ato sexual envolve em grande medida todos os sentidos: tato, propriocepção (interocepção e exterocepção, sem dúvida), paladar, olfato, visão, audição, além das respostas motoras e gladulares. Não apenas todos os músculos do corpo são utilizados, mas em especial os músculos que coordenam a fala, pois o comportamento verbal também é importante nestas horas. Enfim, no cérebro tudo interage, as diferentes áreas se afetam mutuamente, e sem dúvida tal interação é importantíssima para a subjetividade da experiência consciente.
Então o experimento que proponho seria mais ou menos assim...
Imagine um rapaz adolescente, que não tem muito sucesso com as garotas, e que já passou dos 15 anos de idade, dos 16, dos 17, e está chegando aos 18 sem ter tido nenhuma experiência sexual envolvendo outra pessoa. Tudo o que este rapaz sabe sobre sexo é aquilo que ele ouviu falar na televisão e em conversas com amigos, aquilo que ele aprendeu em palestras de prevenção de DSTs na escola, alguma coisa que ele aprendeu nas classes de biologia, aquilo que ele leu e viu em revistas masculinas e em filmes adultos. Mas este é um rapaz singular, muito inteligente e determinado, com uma memória quase sobrehumana e uma ótima capacidade de compreensão. Ele também é um grande admirador da linha de pensamento do Daniel Dennett e resolve que, se ele não consegue ter a coisa real, ele irá estudar a fundo o assunto até que saiba tudo a respeito. Nada faltaria a ser acrescentado, então, por sua falta de experiência prática no assunto.
O rapaz, que neste experimento se chama João, resolve então assistir a aulas de antropologia, de psicanálise -- claro --, de psicologia social, de fisiologia humana, estuda o comportamento reprodutivo animal, adquire e lê vários livros e documentários sobre reprodução humana e sobre sexo e, por fim, participa de um curso extensivo, porém apenas teórico, com alguns dos maiores sexólogos contemporâneos.
Assim, João fica sabendo tudo o que há para saber a respeito de sexo: tudo o que ocorre fisiologicamente no corpo tanto do homem quando da mulher durante todos os passos que levam ao sexo e durante o sexo, como se dá a reprodução, todas as posições do kama sutra e das centenas de filmes adultos que assistiu... João até mesmo exerceu muito o cinco contra um durante todo esse processo de aprendizagem, utilizando todos estes recursos audio-visuais e imaginativos. Ao completar, João acreditava que não havia mais nada que o sexo pudesse lhe acrescentar, que ele já não soubesse... Ou será que havia?
João já havia visto como um homem toca uma mulher durante o sexo, e como uma mulher toca um homem, mas até então João apenas havia tocado a si mesmo. Mesmo assim, ele sabe descrever toda a fisiologia táctil. João já havia ouvido gemidos e frases em filmes adultos, mas jamais havia ouvido nada disso próximo ao seu ouvido, acompanhado do hálito quente de uma mulher, ou da estimulação táctil da língua dela no ouvido externo. João já havia feito muito o cinco contra um, mas esta prática não envolve sentir o peso de outra pessoa, nem o cheiro, nem a temperatura do corpo, nem todo o feedback que se recebe para o próprio comportamento.
É como quando você está prestes a chegar ao orgasmo, você olha para o rosto da pessoa -- ou para as costas da pessoa, ou para qualquer parte do corpo da pessoa que a posição permitir, mas é especialmente olhar para o rosto da pessoa -- você olha para o rosto da pessoa e o que você vê? Você vê pupilas dilatadas, ou os olhos entreabertos, você vê a boca entreaberta, e escuta um gemido, os lábios vermelhos dos beijos e/ou da pressão sangüínea que aumenta, você vê a face tornar-se rubra... Vermelho. O cânon dos qualia.
É possível descrever como você vê, como ocorrem as percepções envolvidas: fótons são captados pelas moléculas de rodoxina nas células fotorreceptoras da retina, que transformam este estímulo em impulsos nervosos, que são invertidos no quiasma óptico e enviados ao colículo superior, que localiza-se logo acima do colículo inferior na parte dorsal do mesencéfalo, que por sua vez recebe os impulsos nervosos do nervo auditivo; posteriormente a informação visual sobe ao núcleo geniculado lateral, próximo ao núcleo geniculado medial que recebe informação auditiva, e é enviada à área V1 do córtex visual, enquanto que a informação auditiva é enviada ao córtex auditivo no lobo temporal; a informação visual, depois de processada pelo córtex visual, se divide em duas correntes que são enviadas dorsal e ventralmente, sendo que a corrente ventral irá para o lobo temporal onde curiosamente coisas como rostos ganham significado. Tanto a informação auditiva quanto visual e táctil são trafegam no cérebro em correntes, ou vias, que acabam interagindo de uma forma ou de outra pela excitação das áreas especializadas próximas as áreas de destino, é fácil compreender isso observando o homúnculo do córtex motor, próximo a área de broca, pelo fato da área que controla os movimentos envolvidos na fala ficar próxima a área que controla os movimentos das mãos, por isso gesticulamos e conseguimos escrever. De certa forma, pode-se dizer que a escrita era algo biologicamente determinado para a espécie humana.
Bom, mas tudo isso diz respeito a apenas visão e audição, ainda que da mesma forma pudessem ser descritos todos os demais sentidos. E mesmo que se descrevesse de forma mais detalhada do que a forma como foram descritos acima, todos os sentidos envolvidos, ainda faltaria descrever o orgasmo em si. O gozo. Não apenas o gozo fisiológico, toda a imensa e forte cascata química que deflagra as sensações de prazer que ocorrem junto com a ejaculação, mas também o gozo cognitivo, aquele que se dá quando o ato sexual é da espécie mais complexa de comportamento, quando o quale, a qualidade do orgasmo em si, está atrelada a empatia que se tem pela contraparte que participa do ato e pelo desejo de que pra ela seja interessante e intenso também.
Tudo isso pode ser descrito de uma forma ou de outra. Mas é o suficiente, não fica faltando um pedacinho de informação?
Esse é o pedacinho de informação que diz respeito à experiência consciente em primeira pessoa, e -- vejam só que engraçado -- é justamente por meio deste pedacinho de informação que foge do alcance da linguagem, que se dá, de fato, a apropriação da experiência. O como é, o sentir, o experienciar.
Acredito que este experimento precisa ser lingüisticamente mais lapidado, de forma a economizar em argumentos e descrições e ser mais objetivo quanto ao que se quer demonstrar, mas quem quer que tenha entendido o ponto, acho que ele não só serve para apontar o aspecto inefável, ou que não pode ser transmitido, dos qualia, mas mais do que isso, pelo menos ao meu ver, ele também é uma forma de explorar o conceito de que a apropriação da experiência não depende da linguagem.

Ver: Daniel Dennett, em Crenças Científicas.

*** Aquilo que se pode descrever é justamente diferente daquilo que de fato é a apropriação da experiência, daquilo que torna a experiência única para cada indivíduo. Como, então, podem afirmar que a aquisição da linguagem é condicional para a apropriação da experiência, se justamente é naquilo que escapa da linguagem que se dá a apropriação?

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Determinismo e a Mente

Determinismo é a proposição filosófica de que todo evento, incluindo a cognição, o comportamento, as decisões e as ações humanas, é determinado causualmente por uma cadeia inquebrável de ocorrências anteriores.
É um erro comum assumir que o determinismo necessariamente afirma que a humanidade ou que os indivíduos humanos não possuam influência alguma sobre o futuro e seus eventos (uma posição conhecida como fatalismo); contudo, os deterministas acreditam que o nível no qual os seres humanos terão influência sobre seus futuros é dependente, por si, do presente e do passado. O determinismo causal é associado e dependente das idéias do materialismo e da causalidade.
O materialismo afirma que a única coisa que pode realmente ter sua existência comprovada é a matéria (e suas diferentes formas ou estados), e é considerado uma forma de fisicalismo.
O fisicalismo defende que tudo aquilo que existe não se estende além dos limites de suas propriedades físicas; ou seja, não existem coisas outras que não sejam as materiais. O fisicalismo é uma forma de monismo, a visão de que todas as coisas podem ser classificadas como uma única substância, em uma única categoria de existência.

Monismo -> Fisicalismo -> Materialismo -> Determinismo

Para o materialismo, todas as coisas são compostas de matéria e todos os fenômenos (inclusive a consciência) são resultantes de interações materiais. Matéria é a única substância na visão do materialismo.
Segundo o determinismo causal (ou nomológico), os eventos futuros são determinados pelos eventos passados e presentes em conjunção com as leis da natureza. Daí o predicado da suposição científica de que todos os eventos possuem uma causa e um efeito e de que a combinação precisa de eventos em um momento específico irá ter um resultado em particular, estando esta suposição diretamente relacionada com a previsibilidade. A falta de previsibilidade em um evento não está relacionada à uma falha no determinismo, mas sim à ausência de informações suficientes ou ao excesso de complexabilidade.
Assim, o determinismo associa-se à física newtoniana, segundo a qual a matéria do universo opera conforme um conjunto fixo de leis que podem ser conhecidas. Conforme a física newtoniana, uma vez que se tornem conhecidas as condições iniciais de um evento, o resto da história irá se desenrolar de forma inevitável. Se fosse possível obter total e completo conhecimento sobre a matéria e todas as leis que regem a matéria a todo momento, seria possível computar o momento e o local onde cada evento já ocorreu e onde cada evento irá ocorrer.
Nos níveis de interação da escala humana (relativos aos fenômenos conforme percebemos, sentimos e operamos em nossa forma orgânica), a mecânica newtoniana é capaz de fazer previsões bastante acuradas. Erros são causados pela dependência no conhecimento das condições iniciais, sendo que pequenos erros em tal conhecimento podem resultar em desvios grandes em relação ao objetivo previsto.
Da mesma forma que em relação à física newtoniana, o determinismo associa-se à biologia. Conhecendo o funcionamento dos mecanismos genéticos de um organismo será possível prever como este irá desenvolver-se em dadas condições ambientais. Conhecendo os mecanismos metabólicos dos organismos, é possível prever como este irá reagir à introdução de diferentes substâncias em seus sistemas.
Se fosse possível conhecer todas as leis que regem a genética humana, assim como todas as regras de seus mecanismos biológicos desde o nível intracelular, e todas as variáveis ambientais ou experiências mundanas pelas quais um determinado indivíduo irá passar, seria possível fazer previsões acuradas sobre seu comportamento, desenvolvimento e personalidade.
Algumas pessoas argumentam que o materialismo não é capaz de apresentar um entendimento completo a respeito do universo pois, enquanto é capaz de descrever determinadas interações entre coisas materiais, ele ignora os conceitos de mente e de alma de seres dotados de consciência.
A respeito de alma, não vou nem mesmo entrar no assunto, pois considero completamente inútil e perda de tempo falar sobre uma coisa que simplesmente não é causa e nem efeito sobre a realidade. Alma é apenas um conceito criado pela religião, um mecanismo fictício de coerção que só oprime aqueles que nela acreditam: "Fulano se comporta dessa ou daquela maneira por medo de ir para o inferno (perde sua alma), e não por acreditar racionalmente que esta ou aquela maneira é a melhor conduta que ele possa tomar."
Quanto a mente, acredito nela como resultado da complexidade do organismo em relação à riqueza do ambiente. Nem por isso a vejo como uma substância imaterial. A mente, e todo seu conteúdo, é resultado de interações entre as diversas estruturas do sistema nervoso e destas com o ambiente. As idéias, a linguagem, as memórias e os sentimentos também possuem bases biológicas que já estão sendo desvendadas e cada vez tornar-se-ão mais claras a medida que a ciência progride.
Sabemos que é possível eliciar memórias de pessoas, em pessoas, por estimulação direta de algumas estruturas cerebrais, localizadas na altura da ínsula do córtex. A subjetividade, neste caso, está no fato de que não será eliciada a memória de uma pessoa 'A' em uma pessoa 'B', se a pessoa 'B' jamais viu ou tomou conhecimento a respeito da pessoa 'A'.
Sabemos o quanto é importante o hipocampo para a fixação de novas lembranças, assim como a importância do lobo frontal na tomada de decisões e no planejamento, assim como o papel da amígdala no controle emocional e, por conseguinte, sua interação junto ao lobo frontal na tomada de decisões.
Sabemos do papel das áreas de Wernicke e de Broca, assim como do córtex auditivo, na aquisição e domínio da linguagem. Sabemos da importância do corpo caloso na comunicação dos hemisférios cerebrais.
Desta forma, a consciência nada mais é do que o resultado da interação destas diferentes estruturas em face aos inputs externos.
Proponho o seguinte exercício de imaginação: um cirurgião, por algum motivo qualquer, vivissecta o córtex visual de um paciente, mantendo a irrigação sangüínea do mesmo, de forma que, enquanto o córtex visual estivesse separado das demais estruturas do sistema nervoso, permaneceria recebendo os nutrientes necessários à sua manutenção e permaneceria ligado ao aparelho visual. Seria este córtex visual, separado do restante do sistema nervoso, dotado de consciência? Seria o indivíduo portador desta configuração, cego ou não? Acredito que, assim como alguém que tem o córtex visual danificado, esta pessoa diria estar cega, incapacitada de visualizar o mundo; ainda que as estruturas das quais dependem a sua visão estivessem funcionando.
Retornando ao comportamento em relação ao determinismo, estados mentais, assim como a vontade e o arbítrio, são - na maneira como vejo as coisas - estados materiais, logo o comportamento humano e as decisões do indivíduo são completamente determinadas. De fato, não vejo como as pessoas possam determinar-se por si mesmas quanto ao que fazem - as pessoas não são livres.
Existe a posição compatibilística do determinismo, segundo a qual as pessoas são determinadas por leis naturais e, ao mesmo tempo, são capazes de tomar decisões próprias. Dois defensores desta posição são David Hume e Daniel Dennett.
Para os compatibilistas, um ato de livre-vontade é um ato no qual o agente (ou indivíduo, ou organismo) poderia ter tomado outro curso de ação caso houvesse assim escolhido. Um exemplo simples de tal visão seria: Fulano está sentido fome e vai a cozinha. Na cozinha ele abre a geladeira e encontra geléia de morango e mamão em fatias. Fulano escolhe a geléia de morangos e sacia sua fome.
Agora eu pergunto: será que o Fulano poderia ter escolhido o mamão ao invés da geléia de morangos?
No relato não havia nenhum impedimento explícito para tanto. Mas então eu pergunto: por qual motivo Fulano escolheu geléia de morango?
A resposta pode ser que ele estava com vontade de comer algo doce, ou que Fulano adora morangos, ou ainda que ele não gosta muito de mamão, etc... Caso qualquer uma destas justificativas se aplicasse ao relato, digamos que a justificativa de que ele estivesse com vontade de comer algo doce fosse o caso, eu torno a fazer a pergunta: Poderia Fulano ter escolhido o mamão, sabendo agora que ele estava com vontade de comer algo doce?
Se fosse o caso dele escolher entre dois doces, como geléia de morango ou geléia de uva, o mesmo ainda seria aplicável. Quer ele tivesse escolhido geléia de morando ou geléia de uva, por gostar mais de uma ou de outra, ou por estar com mais vontade de uma ou de outra, a causa determina o efeito. E, em relação ao caso de "ter mais vontade" disso ou daquilo, basta perguntar novamente: por qual motivo? Sempre vai haver um motivo, e havendo um motivo o curso de ação já está traçado.
É claro que este é um exemplo extremamente simples, no tocante ao comportamento humano as motivações são as mais diversas, em diferentes ordens de intensidade, estão relacionadas à atenção, à saúde geral do organismo, etc. Mas nem por isso deixam de ser determinadas e sujeitas à investigação.
Se nossa vontade não for determinada por alguma coisa, então nossos desejos e aspirações são produto de mero acaso, ou seja, são aleatórias. E aleatórias seriam nossas ações.
Na natureza conhecida, dentro da escala humana das coisas, existem dois tipos de ações: aquelas que são determinadas por leis naturais, e aquelas que chamamos de aleatórias por nossa incapacidade de lidar com a complexidade das informações ou pela falta de informações suficientes a respeito. Existe outro tipo de ação que possa ser concebido, que não seja nem determinado, nem aleatório?
Posso, lingüisticamente, dizer: Eu fiz isso por este motivo (vontade/necessidade/etc); da mesma forma posso dizer: Eu fiz isso por acaso (sem querer/aleatoriamente/etc); Mas é possível encontrar outra forma de descrever uma ação? Acredito que não. Por isso não vejo como o compatibilismo possa ser lógico.
Ainda sobre a mente, é importante o conceito de Self, ou o "Eu". O conceito de Self enquanto um núcleo essencial e imutável da personalidade do indivíduo, deriva da idéia de uma alma imaterial - idéia que, para os propósitos da ciência, eu refuto. Acredito no self como um núcleo material e inconstante por sua própria natureza: quando dizemos que o aprendizado só termina com a morte (psicologia da aprendizagem), ou que estamos constantemente sendo condicionados (teoria comportamental), já estamos explicitando a idéia de que o Self não pode ser completamente fixo. Se a mente é o resultado da soma total dos estados intersinápticos, idéia defendida por Joseph LeDoux e conclusão a qual cheguei antes mesmo de ter conhecimento do trabalho dele, o Self se atualiza a uma razão de mil ciclos por segundo, a medida que os padrões sinápticos mudam. O que não quer dizer que a personalidade seja completamente instável, uma vez que as modificações nas conexões sinápticas são dependentes de mecanismos genéticos de metabolismo e síntese de proteínas, e que nosso cérebro é capaz de codificar informação de forma mais ou menos sintética e estável.
Quanto a liberdade, esta existe, mais como uma força de expressão, na medida que somos capazes de conhecer nosso próprio organismo e ter consciência de nossos hábitos se estes são saudáveis ou não e conhecer nosso próprio meio e aquilo que nos causa estresse e as coisas que nos condicionam. Quanto mais informações detivermos, mais deterministicamente salutares e apropriadas serão nossas ações para conosco e para com os outros.

...

E nada disso torna a vida menos engraçada ou alegre... No meu decurso determinístico de hoje eu traduzi um poema, ouvi algumas boas músicas no youtube, escrevi este texto e logo mais vou para aula ter alguns bons momentos com meus colegas. (:

...

Da comunidade Materialismo, no Orkut:

Desta vida nada se leva,
Só se deixa
Então, te deixo o meu melhor...
Meu melhor sorriso,
Meu maior abraço,
Minha melhor história,
Minha melhor intenção,
Toda minha compreensão
E do meu amor, a maior porção
Só quero ficar na memória de alguém
como outro alguém que era do bem!
Com carinho, Cintia.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Motivado pela falta do que fazer

Uma demonstração muito comum, hoje em dia realizada em meio a brincadeiras ou para ilustrar conceitos de física teórica, é a pergunta: "Qual é a menor distância entre dois pontos?" em conjunto com uma folha de papel onde dois pontos são desenhados.
Em geral, a pessoa responde, como Kant em Crítica da Razão Pura, que a menor distância é uma linha reta.

Ao que se corrige, dobrando a folha de maneira de maneira a juntar os dois pontos e dizendo, que segundo Einstein, o espaço é passível de ser dobrado, virtualmente eliminando a distância entre dois pontos.

Humm... Ainda que seja assim, será que juntar os dois pontos no espaço, em uma folha de papel, seria a menor distância? Observe a trajetória dos pontos ao dobrar a folha:
O que ocorre é uma parábola... Mas neste caso alguém podia argumentar que eu não estou realmente "dobrando" o espaço. Ok, tudo bem então. Observe o próximo desenho:
Desta vez o "espaço" foi dobrado, e os dois pontos deslizaram para a proximidade; posso dizer até que se encontraram em uma outra dimensão... do papel, uma vez que, neste desenho, o papel foi dobrado de maneira à face oposta ao desenho dos pontos se encontrar. Mas poderia ser feito de outro modo também, sem problemas. O que ocorre é que, ainda assim, a trajetória dos dois pontos desenhou uma linha reta no processo.
E, o que é mais importante, neste processo de dobrar a folha, é possível argumentar que se despendeu uma energia muito maior do que desenhando uma simples reta. Se o gasto de energia for levado em consideração, a reta ainda é a melhor opção... Ou talvez a segunda melhor opção. Podemos usar a visão, movendo nossos olhos em direção ao nariz, para ver ambos os pontos juntarem-se sem que saiam do lugar.
Talvez a menor distância entre dois pontos seja, de fato, a imaginação.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O Estranho diário de Tristram Shady

No romance "The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman" de Laurence Sterne, escrita em 1759, o personagem Tristram Shandy se dedica a escrever sua autobiografia de maneira tão detalhada que para cada dia, sobre o qual fossem relatados os eventos em seu diário, era necessário cerca de um ano para elaborar e escrever a entrada. Sendo Tristram Shandy mortal, ele jamais seria capaz de terminar sua tarefa. Fugindo um pouco da história original de Sterne, podemos imaginar que Tristram tenha dado início ao seu diário escrevendo sobre o dia em que resolveu começar a escrever o seu diário; desta maneira, ao terminar de escrever sobre o dia em questão teria se passado um ano, fazendo com que a distância entre os eventos relatados no diário e os eventos atuais da vida de Tristram se tornasse cada vez maior. Contudo, se Tristram fosse imortal e vivesse para sempre, nenhuma parte do seu diário permaneceria sem ser escrita, pois para cada dia de sua vida um ano correspondente seria devotado à descrição daquele dia - infinitos anos para descrever infinitos dias, tal é a estranheza de se contemplar o conceito de infinitude enquanto somos seres finitos.
De início, ao imaginar tal coisa, pensei em Tristram escrevendo incessantemente, para descrever dias que remontavam às suas lembranças mais antigas, e o que ocorreria, imaginando um Tristram imortal, quando ele chegasse ao ponto em que começou a escrever o diário. Não bastaria uma descrição do tipo: "Neste dia eu comecei a escrever este diário", pois isso não lhe tomaria um ano inteiro. Também não faria muito sentido ele descrever a maneira como desenhou cada letra em seu diário, pois isso provavelmente aumentaria o tempo necessário para a descrição de cada dia. Com isso, comecei a me questionar como seria possível ocupar tanto tempo descrevendo um único dia. Imaginei, então, que Tristram descrevia detalhadamente cada uma de suas experiências, incluindo quais foram suas impressões iniciais e posteriores sobre cada uma destas experiências e, também, o que se passava por sua mente a cada momento. Imaginei, também, que Tristram considerava todas as possibilidades que ele era capaz de divisar e enumerar a cada momento de sua vida, e como fazia o processo de decisão, o que o levava a escolher por esta ou aquela alternativa; quais seriam as alternativas que foram sendo descartadas a cada momento e por quê.
Tendo isso em mente, pensei novamente sobre o que aconteceria quando ele chegasse ao ponto, ao dia, em que começou a escrever o seu diário. Neste caso ele iria falar, também, sobre as impressões que teve, sobre as experiências já descritas, e quais sentimentos estas memórias lhe trouxeram. Dada a similaridade e óbvia familiaridade da situação, Tristram experienciaria uma espécie de laço, ou um circuito de 360º em sua experiência, uma quasi-metacognição sobre seu passado, ao descrever seu passado remoto, sendo descrito no presente, e o que isto lhe trás... O mesmo laço voltaria a acontecer quando ele, aeons depois, viesse a descrever o dia em que descreveu o dia em que começou a escrever seu diário, tornando, em si, de fato, uma extensão da análise de cada dia, do momento em que o primeiro laço ocorresse: se, de início, Tristram levava um ano para descrever cada dia, ao chegar ao dia em que começou a descrever cada dia, ele levaria 365 anos descrevendo o ano que passou descrevendo um único dia.
A dilatação, se assim devemos chamar, se tornaria maior a cada laço: Tristram descrevendo a si mesmo descrevendo a si mesmo o dia em que começou a descrever a si mesmo, que neste caso ele teria de descrever os 133.225 dias que levou para descrever o ano que passou descrevendo um único dia, o que lhe tomaria o mesmo número de anos.
Por outro lado, isso tudo dependeria das regras às quais ele se submetesse para elaborar as descrições e para escrever o seu diário. Tristram poderia, ao invés de ficar escrevendo incessantemente, ocupar apenas uma pequena fração de cada um dos seus dias para a elaboração do diário, ainda sendo prolixo nos detalhes, mas num grau bem menor do que na hipótese anterior.

Para ver a obra original de Laurence Sterne no Google Books: The Life and Opinions of Tristram Shandy, 1857.
Também disponível no Projeto Gutenberg: EText-No. 1079

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Entre a dama e o tigre

Segue a minha tradução, adaptada, de uma síntese de um conto de Frank R. Stockton:
"A muito tempo atrás, em uma terra distante, um rei semi-barbárico fazia uso de uma forma peculiar para administrar a justiça nos domínios do seu reino. Quando alguém era capturado pelos guardas do reino cometendo alguma ofensa, esse alguém era levado a julgamento em uma arena onde haviam apenas duas portas, ou saídas. Atrás de uma das portas ficava encerrada uma linda mulher, escolhida a dedo pelo rei, e atrás da outra porta ficava um tigre faminto. O suspeito, alheio a qual das portas encerrava a mulher ou o tigre, era então obrigado a escolher uma das portas. Caso ele escolhesse a porta na qual estava a linda mulher, ele seria declarado inocente de todas as acusações e, como recompensa, independentemente do seu estado civil prévio, era obrigado a casar-se com aquela linda mulher que restituiu-lhe a vida. Porém, caso ele escolhesse a porta que ocultava o tigre, ele seria declarado culpado e o tigre iria devorá-lo (não necessariamente nesta ordem).
Certo dia, o rei semi-barbárico tomou conhecimento de que sua filha, a princesa, havia ido longe demais com um plebeu. Não podendo tolerar que tal coisa acontecesse em seu reino, e visando restaurar a honra de sua filha, o rei mandou prender o plebeu e marcou uma data para o seu julgamento na arena.
No dia do julgamento, o plebeu foi posto na arena, perante ao rei, à princesa, e a todos demais integrantes da corte e da plebe. A sua frente estavam as duas portas, a sua direita estavam o rei e a princesa. O plebeu lançou um olhar em direção à princesa, esperando que esta lhe desse alguma indicação discreta quanto a porta que lhe pouparia a vida. A princesa, por sua vez, sabia qual porta encerrava a mulher e sabia qual porta encerrava o tigre. Neste momento, tomada de emoção, a princesa encontrou-se diante de um grande dilema: se ela indicasse a porta que ocultava o tigre, o homem a quem amava seria morto no ato; porém, se ela indicasse a porta onde estava presa a mulher, ele seria obrigado a casar-se com aquela mulher e, embora sua vida lhe fosse poupada, ele jamais poderia aproximar-se dela novamente.
Finalmente, após alguns momentos de hesitação, ela indicou qual porta ele deveria abrir, e assim ele fez..."

Conto original por Frank R. Stockton, no Projeto Gutenberg:
http://www.gutenberg.org/etext/396


Então, pergunto a vocês, o que havia atrás da porta que o homem abriu, e por quê?

terça-feira, 20 de maio de 2008

O Experimento da Terra Gêmea

Assim é proposto o experimento da Terra Gêmea por Hilary Putnam:
"Nós começamos supondo que em algum lugar do Universo existe um planeta que é exatamente igual à Terra em virtualmente todos os respeitos, ao qual iremos nos referir como sendo a 'Terra Gêmea' (também devemos supor que o entorno da Terra Gêmea é idêntico àquele da Terra; ela se move ao redor de uma estrela que parece ser exatamente como nosso Sol, etc). Na Terra Gêmea existem equivalentes gêmeos para todas as pessoas e para todas as coisas daqui da Terra. A única diferença entre os dois planetas é que não existe água na Terra Gêmea. Ao invés de água existe um líquido que é superficialmente idêntico à água, mas diferente em sua composição química que, ao invés de ser H2O, é feito de alguma outra fórmula mais complicada que iremos abreviar como sendo 'XYZ'. Os seres terrestres da Terra Gêmea que se referem à sua linguagem como sendo 'português' chamam XYZ de 'água' [assim como aqueles que se referem à sua linguagem como sendo 'inglês' chama XYZ de 'water', etc]. Finalmente, nós devemos especificar a data do nosso experimento mental para que seus acontecimentos tenham se passado a vários séculos atrás, em uma época na qual os seres da Terra e da Terra Gêmea não tivessem meios de saber que os líquidos aos quais se referem como sendo 'água' são H2O e XYZ respectivamente. A experiência dos seres da Terra com H2O e a experiência dos seres da Terra Gêmea com XYZ seria idêntica.
Agora uma pergunta surge: quando um ser da Terra, por exemplo um chamado Óscar, e seu gêmeo da Terra Gêmea dizem 'água', eles estão se referindo à mesma coisa? (Observação: o gêmeo também é chamado Óscar em seu próprio planeta, evidentemente. De fato, os habitantes da Terra Gêmea chamam seu próprio planeta de 'Terra'. É por conveniência que nós nos referimos à este planeta putativo como 'Terra Gêmea', e estendemos esta convenção nominal aos objetos e pessoas que lá habitam; neste caso, referindo ao gêmeo de Óscar como Óscar Gêmeo, ou Góscar, e à água gêmea como gágua.) Ex hypothesi [de acordo com as assunções feitas, ou segundo a [nossa] hipótese], seus cérebros são molecularmente idênticos. Ainda assim, pelo menos de acordo com Putnam, quando Óscar diz água, ele se refere à H2O, enquanto quando Góscar diz 'água', ele se refere à XYZ. O resultado disso é que o conteúdo do cérebro de uma pessoa não é suficiente para determinar a referência dos termos que esta pessoa irá usar, uma vez que é preciso examinar a história causal que leva este indivíduo a adquirir o termo (Óscar, neste caso, aprendeu a palavra 'água' em um mundo repleto de H2O, enquanto Góscar aprendeu a palavra 'água' em um mundo repleto de XYZ)."
Bom, logo de início já encontro alguns problemas bastante relevantes neste experimento mental. Seria possível conceber uma substância superficialmente semelhante à água, porém tendo outra formulação química, certamente diversas de suas propriedades seriam diferentes. Sendo um experimento mental e, por tanto, tolerando uma certa extrapolação, podemos relevar este fato por boa parte do que é exposto, até o momento em que é feita a referência à igualdade molecular dos cérebros de Óscar e Góscar: se a composição química daquilo que é chamado de "água" na Terra é H2O e a composição química daquilo que é chamado de "água" na Terra Gêmea é XYZ, então, evidentemente, ambas as substâncias são molecularmente diferentes entre si, uma vez que H2O se refere a duas moléculas de hidrogênio e a uma molécula de oxigênio; tendo em mente que cerca de 77% do volume do cérebro de um habitante da Terra é composto de água, ou seja, moléculas de hidrogênio e oxigênio, então é errado dizer que o cérebro de um habitante da Terra Gêmea, onde não existe tal composição de H2O, é molecularmente idêntico ao cérebro de um habitante da Terra.
Se imaginarmos que tanto o composto H2O e o composto XYZ possuem as mesmas propriedades, sendo que, embora suas moléculas sejam diferentes, da união delas tenhamos um elemento idêntico à água (mesmas propriedades tais como massa, peso, densidade, condutividade, etc), o experimento todo fica um tanto sem sentido. É como dizer que "embora estas duas coisas sejam diferentes, elas são exatamente iguais." Neste caso, a resposta óbvia seria: "mas o que isso importa?"; uma vez que, se assim fosse, mesmo que toda a água da Terra fosse substituída pela água da Terra Gêmea e vice-versa, não sentiríamos nenhum efeito notável, a não ser pelo expanto dos químicos e físicos ao perceber que um dos elementos primodiais à vida foi substituído por algo que exerce as mesmas funções e possui as mesmas características mas difere-se em sua composição molecular; ou nem isso, uma vez que o experimento se passa em uma época em que não teríamos acesso a este conhecimento.
Assim sendo, é possível imaginar que, na verdade, a vários séculos atrás, nossa Terra era repleta de XYZ e a Terra Gêmea era repleta de H2O. Até que alguma entidade cósmica com um senso de humor duvidoso e uma tecnologia altamente avançada realizou uma troca completa de XYZ por H2O entre os planetas, de maneira que àquilo a que nos referimos como sendo água já não é mais a mesma coisa à qual nos referíamos como sendo água antes da troca ser feita. Porém jamais saberíamos disso pois quando havia XYZ em nosso planeta, não éramos capazes de estudar a composição molecular da matéria.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Debatendo o experimento de Maria, a supercientista.

Fazer um experimento mental é utilizar um cenário hipotético para poder melhor entender a maneira como as coisas realmente são ou como as coisas poderiam ser. O termo original Gedankenexperiment foi criado por Hans Christian Ørsted, um físico e químico dinamarquês que teve participação marcante no movimento filosófico pós-kantiano, além de ser famoso por ter descoberto a relação entre a eletricidade e o magnetismo, o electromagnetismo.
Embora o termo seja relativamente recente, o conceito remonta à grécia antiga, sendo que na filosofia alguns dos exemplos mais conhecidos encontram-se nas obras de Platão e de Sócrates, e na física já existiam alguns exemplos documentados desde a época de Galileu Galilei.
Os experimentos mentais fazem uso de perguntas cuidadosamente estruturadas e bem definidas para, por meio do raciocínio subjuntivo (dependente de), chegar a uma conclusão a priori, que seja verdadeira sob qualquer circunstância lógica.
Dentre alguns experimentos mentais que andei lendo, um dos mais interessantes foi aquele que se tornou conhecido como Maria, a supercientista, proposto por Frank Jackson, um filósofo australiano, em 1982:
"Maria é uma cientista brilhante que, por algum motivo, é forçada a investigar o mundo dentro de um quarto onde todos os objetos são nas cores preto e branco, inclusive o quarto. Sua ferramenta de estudo é um monitor preto e branco. Ela se especializa em neurofisiologia da visão e adquire, suponhamos, toda informação física que disponível sobre o que acontece quando nós vemos tomates maduros, ou o céu, ou uma banana, e usa termos como vermelho, azul, amarelo, etc. Ela descobre, por exemplo, qual a combinação de comprimentos de onda advindas do céu que estimulam a retina e exatamente como isto produz, por meio do sistema nervoso central, a contração das cordas vocais e a expulsão do ar dos pulmões que resultam na vocalização da sentença 'o céu é azul.' [...] O que irá acontecer quando Maria puder sair de seu quarto preto e branco ou receber um monitor colorido? Ela irá aprender alguma coisa ou não?"
Imagino que você, assim como eu, tenha encontrado alguns problemas nas proposições acima; mas tais problemas não invalidam a questão levantada por seu autor. Vamos analisar quais são os principais argumentos do experimento:
"Maria é uma cientista brilhante."
"Tudo aquilo que Maria vê, está nas cores preto e branco."
"Maria sabe tudo o que há para saber sobre neurofisiologia da visão." - o que implica, necessariamente, que ela tenha algum conhecimento sobre cores.
Acredito que o autor quisesse propor um cenário em que a protagonista soubesse tudo sobre cores e o modo como percebemos as cores. Enquanto optar por descrevê-la como uma neurofisiologista da visão tenha criado um cenário crível em que podemos conceber alguém que saiba tudo sobre o comprimento de ondas de cores, neurofisiologia humana e o modo como percebemos as cores, talvez fosse mais adequado descrevê-la como uma especialista em pintura artística.
Tal proposição seria mais difícil de ser concebida, pois abrangeria com mais clareza a importância da maneira como percebemos as cores, e o quanto o conhecimento da supercientista seria de segunda mão, ou indireto. Neste caso, talvez Maria não soubesse muito sobre o comprimento de onda das cores, mas saberia que as cores podem despertar sentimentos nos seres humanos. Ela estudaria as pinturas, podendo observá-las apenas em preto e branco e saberia, por meio de relatos documentados e estudos de outros especialistas, que a combinação das cores usadas em determinada pintura ajuda a evocar esse e aquele sentimento, nesta e naquela medida. Ela saberia que uma pintura como O Grito, de Edvard Munch, desperta um sentimento de angústia, desintegração e opressão; e talvez, tendo sentido estes sentimentos em algum momento de sua vida, ela fosse remetida a eles lendo a respeito nos estudos de outros especialistas em arte.
Neste caso, proponho que imaginemos que Maria saísse do quarto preto e branco, e a primeira coisa com que se deparasse fosse o quadro O Grito. Sem dúvida que ela saberia o que esperar emocionalmente neste momento, mas sua experiência subjetiva acrescentaria algo a todo aquele conhecimento acumulado durante seus estudos?
Você pode estar pensando agora: "Mas que pergunta idiota, é claro que a resposta é sim!" - e eu não discordo de você, a experiência humana é muito mais rica do que aquilo que podemos representar pelos meios disponíveis nas ciências naturais ou da linguagem formal. Mas existem alguns acadêmicos que acreditam não ser este o caso. Tais pessoas se fundamentam naquilo que julgo ser uma visão limitada do mundo e se utilizam das limitações da linguagem e do próprio conhecimento científico para defender esta visão (anfibologia proposital aqui).
Mês passado li um artigo na revista FILOSOFIA Ciência e Vida, ano II, nº 17 , intitulado MARY E O TOMATE ou os qualia são relevantes para o conhecimento do mundo? escrito por João de Fernandes Teixeira, PhD. Nele, o autor descreve sua versão do experimento mental, mais atual e, creio eu, mais bem formulada do que a original, ainda que mais econômica em palavras; e prossegue utilizando-se das palavras do próprio Jackson para descrever que a visão do fisicalista, que "[...] implica na tese de que toda informação é informação a respeito do mundo físico, ou seja, se sabemos a totalidade de fatos físicos, sabemos a totalidade de fatos que há no mundo."
Mas seu objetivo é justamente o oposto daquele de Frank Jackson. Para o autor, a experiência em primeira mão não irá acrescentar nada de relevante para quem já detêm o conhecimento teórico, classificando o experimento mental de Jackson como um argumento do conhecimento.
Eis o primeiro argumento que Teixeira usa, parafraseando Dennett (Daniel, filósofo americano), para chegar a esta conclusão: "É possível, por exemplo, refutar a história de Mary argumentando que ela não aumenta seu repertório de conhecimentos após acordar da neurocirurgia. Pois afinal de contas, não é uma das premissas do experimento que ela sabia tudo a respeito do cérebro humano e de como ele processa as cores?" Bom, de fato, a Maria (ou Mary) do experimento mental sabe tudo a respeito do cérebro humano e de como ele processa as cores, mas isso é diferente de saber tudo o que há para saber sobre as cores e o que as mesmas provocam no ser humano. Logicamente não basta dizer que as cores são capazes de provocar emoções, uma vez que poderia ser levantada a possibilidade de que, uma vez que emoções são estados físicos do sistema nervoso central, Maria poderia saber tudo sobre como elas se processam (é um experimento mental, tal argumento é válido). Com isso, voltaríamos a pergunta original, suscetível à mesma refutação já descrita, mas tornamos um pouco mais claro o meu objetivo ao usar as palavras experiência de primeira mão, ou invés das palavras experiência subjetiva.
Para sustentar o argumento anterior, Teixeira cita um outro experimento mental, proposto por Dennett, que possui o mesmo desenvolvimento do experimento mental original proposto por Jackson, mas termina com Maria sendo apresentada a uma banana azul, propondo as seguintes perguntas: "Será que ela passaria a acreditar que as bananas são azuis? Ou passaria ela acreditar que o que é azul deve ser chamado de amarelo?"Ao que dá o seguinte desfecho: "Certamente não. Segundo Dennett, o mais provável seria que ela exclamasse: 'Vocês estão tentando me enganar, as bananas são amarelas e essa é azul.'"
Respondo a esse argumento, sem questionar o argumento em si mas a sua finalidade, propondo a seguinte pergunta: qual seria o primeiro impulso de Maria ao constatar o engodo? Talvez sejamos levados a imaginar ela inicialmente perplexa e, logo em seguida, achando graça da "brincadeira"; mas devemos admitir que ela poderia ter ficado ofendida e sentido ira, especialmente sendo ela detentora de títulos que lhe concedem algum status, por ser submetida àquilo que ela poderia encarar como um teste de seus conhecimentos.
É inútil argumentar se esta seria uma reação exagerada e inadequada da parte dela, pois os seres humanos não se portam de maneira ideal em todas as situações, é um aspecto de algo chamado personalidade e que não pode ser descrito em termos físicos.
Também não acredito que utilizando-me do espectro de reações emocionais possíveis de Maria ao experimento proposto por Dennett, eu não esteja fugindo do foco deste tópico, uma vez que compreendo que qualia abrange o todo daquilo que a experiência humana é capaz de produzir em resposta a cada estímulos físico possível que seja percebido.
Teixeira continua, afirmando que o experimento mental proposto por Jackson está mal montado pois a neurociência e a Física são "disciplinas que mudam no decorrer do tempo e que no futuro podem vir a ter conceitos que nem sequer podemos imaginar no presente." Este argumento foi o que me levou a explicar brevemente a origem e o conceito de experimentos mentais no início deste post. O quê pensaria o Sr. Teixeira de um experimento mental como o Homem do Pântano?
Muito interessante, também, é esta afirmação seguida de um questionamento: "Mas há ainda outras formas de objetar o experimento mental de Mary. Podemos insistir na tese de que ela não adquire novo conhecimento ao ter a experiência de um tomate vermelho. Nesse caso, podemos perguntar se a cor vermelha corresponde realmente a algo que está no mundo ou não seria apenas alguma coisa que ocorre estritamente no âmbito da experiência subjetiva de Mary, por assim dizer, na cabeça dela - e das outras pessoas. E se for dessa maneira, nesse caso, seria esse conhecimento de quê? Será algo real?"
Caro Sr. Teixeira, ao levantar tais questionamentos o senhor não está objetando à finalidade do experimento original, mas concordando com as conclusões do mesmo. Se não fosse a nossa subjetiva percepção da realidade, jamais questionaríamos a mesma.
"Um robô pode não enxergar a vermelhidão dos tomates, mas, mesmo assim, obter as informações necessárias para agir sobre eles de forma adequada." - Sim, sem dúvida. Um robô é construído para agir de forma adequada. Os seres humanos agem de forma adequada, em boa parte do tempo. Nem sempre. Não é surpreendente me deparar com um resgate de argumentos mecanicistas (deveríamos atualizar para digitalista?) na época em que vivemos, especialmente quando o assunto envolve filosofia da mente; mas simplificar a afirmação anterior, no contexto em que está inserida, simplifica demais as perguntas de grande importância nas quais a filosofia da mente possui participação imprescindível na busca de respostas, como a viabilidade de uma inteligência artificial forte e a natureza que teria a consciência tal entidade.
Ainda quanto a conclusão do Sr. Teixeira, de que os qualia, ou experiência subjetiva ou de primeira mão, não acrescenta nada ao conhecimento humano, penso que são bons argumentos para refutar tal conclusão, o valor da ciência experimental e do conhecimento a posteriori, que é exclusivamente produzido pela mesma; o valor, na Academia, dos estágios práticos; e o conhecimento produzido na práxis que se dá com o maturamento profissional do indivíduo.
Muitos dos debates que se deram a cerca deste experimento foram propelidos pelos contextos utilizados nos argumentos da sua formulação original, dirigidos para contestar um pensamento que, uma vez formulado na interdisciplinariedade, faz com que conceitos mentalistas a priori interajam com conceitos a posteriori das ciências naturais. Fosse esta uma discussão meramente filosófica e estética, e tendo sido utilizados outros argumentos, seriam bem mais escassas as objeções.
Quero, ainda, adentrar um pouco mais no âmbito fisicista, trazendo para este post algo que é de conhecimento comum, que são as diferentes formas em que se manifestam os sentidos entre as espécies e na generalidade da espécie humana em si. Existem flagrantes variações que podem ser quantificadas experimentalmente e, até mesmo, qualificadas nos sentidos que possuímos para perceber a realidade. Tais variações estão ligadas a genética do indivíduo e, enquanto são mais evidentes em suas graduações quantitativas, têm seu aspecto qualitativo manifestado, mais comumente, no sentidos do paladar e do olfato e, em casos mais raros, nos sinestetas.
Uma questão que muitas vezes se perde nas discussões acadêmicas mas que está na raiz do experimento da Maria, é como nós vemos as cores. Crianças com daltonismo enxergam o mundo de maneira diferente, e até serem diagnosticadas podem sofrer embaraços na escola, em jogos que dependam de cores ou no estudo de mapas, e tais embaraços podem ser determinantes da formação da personalidade destas crianças. Estes são fatos completamente calcados no fisicismo, com relevância prática, e que confirmam de maneira facilmente compreensível o experimento proposto por Jackson.
Como diria Wittgenstein, não podemos compreender o que um leão fala, pois não vemos o mundo da mesma maneira que um leão vê. E isto não é verdadeiro apenas em uma abordagem lingüística ou filosófica, pois a mesma está atrelada às diferenças físicas entre as espécies. Nossa visão de mundo e a maneira como interagimos com o mesmo é construída tendo como base, além de nossas experiências, a maneira como podemos perceber e a compreensão que somos levados a ter sobre estas experiências.
Frank Jackson, que foi aluno de Wittgenstein, veio a capitular e crer que argumentos do conhecimento contra o fisicalismo, como o experimento de Maria e o argumento do Zumbi Filosófico podem levar a conclusões erradas. Não discordo dele nesta afirmação, uma vez que argumentos mentalistas contra o fisicalismo estarão indo contra o conhecimento que determina nossa capacidade de perceber, de raciocinar, de criar e fazer uso de experimentos mentais, e até de nossas diferenças nestas habilidades. Da mesma maneira, o fisicalismo irá percorrer um caminho tortuoso e chegar a conclusões duvidosas questionando o mentalismo, pois estará questionando sua própria razão de existir, a consciência humana.
Prova disso pode ser encontrada num exercício de comparação classificativa entre a inteligência humana e a inteligência atual de um computador, no tocante a perceber problemas em seu meio e resolvê-los. Tal medição, ainda que consideravelmente extrapolativa, pode ser obtida por meio de um computador normal e um programa de solução não assistida de problemas como o Soar ou com autômatos como os da RoboCup. Suas inteligências ficam, comparativamente, no nível de um molúsculo gastrópode, em relação à inteligência humana.
Por que, então, um computador como o DeepBlue, capaz de vencer um campeão mundial de xadrez, não se torna consciente? Nós, seres humanos, com nossos cérebros que não evoluíram nada ou não evoluíram muito nos últimos 200.000 anos, somos capazes de realizar milhões de cálculos simultâneos, alguns em nível inconsciente, como noções de posicionamento e força provida pelo cerebelo, mas não somos capazes de calcular matematicamente tão rápido quanto um computador. Imagina-se, hoje, que os computadores estão nos alcançando em capacidade de processamento bruto, mas ainda estão longe quando o assunto é consciência. O que falta? Seria os meios de interagir com o mundo? Não é tão difícil equipar um computador com sentidos que mimetizem, e em alguns casos e situações superem, os sentidos humanos. Ainda assim, mesmo equipado com todos os sentidos que temos a disposição, um computador não se tornaria imediatamente consciente.
Estaria aí o valor dos qualia? Enquanto sim, os qualia tem algo haver com essa questão, a resposta a que chego é: não exatamente. O ser humano cria a máquina, e na máquina o ser humano reproduz, ainda que grosseiramente, ao próprio ser humano e a natureza por ele conhecida. Até mesmo na sua variação genética. Tão variadas quanto são os humanos, são suas criações. Se nelas imprimimos nossas variações físicas enquanto espécie, é nas artes, na estética, que imprimimos nossos qualia.
Assim como nossas variações físicas possuem um importante papel no modo como iremos interagir e compreender o mundo, no momento em que imprimirmos arte em nossas criações físicas, estas também poderão adquirir características subjetivas de nossa experiência, de maneiras que no presente ainda é difícil conceber, se não de modo pitoresco como se dá na ficção científica popular.
Já chegou o momento de perceber que mentalismo e fisicalismo andam juntos e são interdependentes, pois novas questões esperam respostas e dependem da clareza de que ambos são parte daquilo que somos, para que então possamos progredir.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Números apenas na sua mente

"Um número é uma idéia abstrata utilizada para contar e para medir. Os símbolos usados para representar os números são chamados de numerais, mas na linguagem coloquial a palavra número é utilizada tanto para a idéia quanto para o símbolo."

As pessoas costumam dar muito crédito às informações que são acompanhadas por números. A grande verdade é que números são, em maior ou menor grau dependendo da idéia que querem expressar, imprecisos e existem apenas enquanto idéia. O numeral "um" sozinho, sem nada relacionado que o preceda ou siga, e sem um contexto próprio, não quer dizer nada, apenas o símbolo que o representa (1).

Imaginem uma representação numérica de duas xícaras de arroz. Ambas as xícaras tiveram seus grãos contados, para que contivessem exatamente o mesma quantidade de grãos de arroz. Ficou estabelecido que em cada xícara haviam 445 grãos de arroz. Agora eu pergunto: existem dois grãos de arroz exatamente iguais (em forma, tamanho, massa, etc)?
Então como dois grãos de arroz, diferentes entre si, tem um valor equivalente anexado em uma quantificação? Enquanto o grão "dois" (2) pressupõe a existência do grão "um" (1); em relação ao grão "um", tendo em conta sua massa, seria o grão dois, na verdade, o grão "dois e meio", ou "um e três quartos", ou qualquer outro valor?
Dependendo do propósito da quantificação, dariam preferência a medida da massa dos grãos, ao invés de sua contagem unitária. Mas não seria prático, na vida real, realizar ambas medidas; até para não ter que lidar com um dilema quantitativo.
O que é importante, é ter em mente as limitações das quantificações numéricas, especialmente quando aplicadas de forma descritiva aos seres humanos. Tais imprecisões podem ser, e efetivamente são, utilizadas de má fé para manipular opiniões.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

O Besouro de Wittgenstein

Imagine que você possui uma caixa de fósforos, e que o seu amigo possui uma caixa igual a sua. Dentro destas caixas existe algo a que ambos pretendem se referir com a palavra besouro. Agora imagine que você não possa olhar dentro da caixa do seu amigo; e que ele não possa olhar dentro da sua caixa. Vocês só podem afirmar conhecer o que é um besouro olhando dentro de suas próprias caixas.
Wittgenstein sugere que, nesta situação, a palavra besouro não pode ser o nome de alguma coisa específica, tendo em conta a possibilidade de que cada pessoa possa er algo completamente diferente dentro de sua caixa (ou mesmo nada).
O que seria um besouro nesta linguagem manifestada por você e pelo seu amigo?
Extrapolando um pouco o proposto por Wittgenstein, deixando de lado a utilização de suas formulações, peço para que você imagine um bezouro agora, neste momento. O que você imaginou? Seria o mesmo que eu imaginei? Seria o mesmo que o amigo que você imaginou, enquanto realizava o exercício acima, imaginaria?
Talvez se estivéssemos frente a frente poderíamos vocalizar descrições de nossos besouros subjetivos e, com certeza, elas teriam diferenças marcantes. Ainda que tivéssemos acesso a essas descrições, que nada mais são do que uma desconstrução da figura atual formada em nossa mente com referência à bezouros, as peças que compõem essas figuras seriam reconstruídas com a referência única que temos delas em nossas mentes, inevitávelmente resultando em besouros mais semelhantes àqueles inicialmente imaginados, mas ainda assim diferentes.

"Aquilo que eu falo não é a mesma coisa que você entende, mas meramente o suficiente para que minhas palavras possam fazer algum sentindo."

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Compêndio de Experimentos Mentais

Abaixo, uma série de experimentos mentais adaptados de forma bem humorada para facilitar o diálogo entre meus colegas.

Instruções:

Os experimentos mentais foram idealizados para facilitar a utilização da capacidade criativa e da imaginação de nossas mentes para simular situações que nos levem a questionar conceitos e valores, além de facilitar e aprofundar a discussão sobre assuntos filosóficos e psicológicos. Alguns deles exigem que façamos extrapolações da realidade, onde situações inusitadas e irrealísticas devem ser imaginadas para que possamos fazer o exercício; em outros, como o paradoxo do mentiroso, as palavras devem ser entendidas literalmente (i.e. sempre significa sempre – ou seja, todas as vezes).
Leiam com atenção, fazendo uma pausa para simular mentalmente a situação proposta a cada experimento.

Experimento mental I: Fábio e a toxina

Um bilionário insano põe um frasco com uma toxina diante do Fábio e fala o seguinte: - Se você beber essa toxina, irá sentir-se dolorosamente doente durante um dia, mas não terá sua vida ameaçada e não haverá risco de morte ou de efeitos duradouros. Eu irei te pagar um milhão de dólares amanhã pela manhã se, a meia-noite de hoje, você intencionar beber a toxina até amanhã a tarde.

Ele enfatiza que não há necessidade de beber a toxina para receber o dinheiro; de fato, o dinheiro já estará depositado no banco horas antes do tempo limite para que a toxina seja ingerida... Caso ele seja bem sucedido. Tudo o que ele precisa fazer é ter a intenção, a meia noite de hoje, de ingerir o líquido do frasco até amanhã a tarde. Ele é perfeitamente livre para mudar de idéia e não beber a toxina após receber o dinheiro.

É possível intencionar beber a toxina, se você sabe que não precisa bebê-la?

Experimento mental II: o Taimon do Pântano

Vamos supor que o Taimon foi passear em um pântano e foi morto por um relâmpago. Ao mesmo tempo, nas proximidades, outro relâmpago rearranja espontaneamente um amontoado de moléculas de maneira que, inteiramente por coincidência, elas tomam exatamente a mesma forma que as moléculas do corpo do Taimon no momento em que ele morreu.
Sendo assim, o Taimon do Pântano possui, evidentemente, um cérebro que é estruturalmente idêntico àquele que o Taimon original tinha, logo, presumivelmente, comporta-se exatamente da mesma maneira que o Taimon iria se comportar. Ele irá sair do pântano, voltar para a Faculdade Atlântico Sul, fazer os mesmos comentários em sala de aula e interagir da mesma maneira que sempre interagiu com seus colegas e amigos.
Não havendo nenhuma diferença, já que ninguém iria perceber nada, o Taimon do Pântano iria reconhecer seus amigos, mas é impossível para ele realmente conhecê-los, uma vez que ele jamais os havia visto anteriormente. Qual é a verdadeira natureza do conhecimento?

Experimento mental III: Cid, o carro desgovernado e o médico louco

Cid estava indo para a faculdade quando vê um carro desgovernado indo em direção a 5 pessoas que foram amarradas no meio da estrada por um filósofo maluco. Felizmente ele encontra um interruptor que, se pressionado, irá fazer o carro desviar para uma outra estrada. O único problema é que na outra estrada existe uma única pessoa amarrada. Deverá o Cid acionar o interruptor?
O interruptor não funciona, o carro está se aproximando rapidamente das 5 pessoas que estão amarradas na estrada. O único modo de parar o carro é jogar um grande peso no caminho. Coincidentemente há um homem muito gordo parado na calçada do lado do Cid. Deverá ele empurrar o homem gordo para salvar as cinco pessoas?
Por fim, o Cid chega em aula mas começa a se sentir um pouco mal. Ele resolve consultar um médico. O médico que o Cid escolhe possui outros cinco pacientes, cada qual necessitando do transplante de um órgão diferente, sem o qual irão certamente morrer. Infelizmente não há órgãos disponíveis para o transplante de nenhum dos cinco pacientes. Ao examinar o Cid, o médico descobre não apenas que ele está saudável, como também que ele é um doador compatível para todos os cinco pacientes que estão morrendo. Deverá o médico realizar os transplantes?

Experimento mental IV: o Cérebro Psicologia

Supunha que toda a turma de Psicologia fosse reordenada para simular o funcionamento de um único cérebro (ou seja, agir como uma mente de nos moldes do Funcionalismo). Cada aluno age como um neurônio e comunica-se através de um rádio com os demais alunos. O estado mental atual do cérebro Psicologia é mostrado pelo data-show da sala de aula; e o cérebro Psicologia estaria conectado a um corpo controlado via rádio. Este corpo proveria as informações sensoriais (input) e manifestaria as respostas comportamentais (output) do cérebro Psicologia.
Desta maneira, o cérebro Psicologia teria todos os elementos do modelo Funcionalista de mente: informações sensoriais, respostas comportamentais, estados mentais internos casualmente relacionados a outros estados mentais. Se a turma de Psicologia pudesse ser organizada desta maneira, então, de acordo com o Funcionalismo, seria um sistema detentor de uma mente.
Deixando de lado o fato óbvio que este experimento busca demonstrar, que o modelo Funcionalista de mente não existe, é interessante imaginar os resultados de tal experimento. Qual seria o tipo de mente que nossa turma iria manifestar?

Experimento Mental V: Dilema dos Prisioneiros Fábio e Taimon

Dois suspeitos, Fábio e Taimon, foram presos pelo policial Cid tentando roubar revistinhas do Sandman utilizando punhais de gelo para ameaçar o jornaleiro. Uma vez que os punhais derreteram, Cid não possui evidências suficientes para a condenação máxima.

Tendo separado os dois prisioneiros em salas diferentes, Cid ofertou o mesmo acordo para cada um deles: se um depor para a condenação do o outro e o outro permanecer em silêncio, aquele que depor será posto em liberdade e aquele que permanecer em silêncio receberá uma sentença de 10 anos sem direito a condicional por roubo a mão armada. Se ambos permanecerem em silêncio, ambos serão sentenciados a apenas 6 meses de prisão por furto qualificado. Se ambos se acusarem, ambos receberão uma sentença de 5 anos.

Fábio e Taimon devem escolher entre cagüetar o companheiro ou permanecer em silêncio, sem saber qual será a atitude do outro. Então este é o dilema: como você agiria se fosse um dos prisioneiros?

Aspecto psicológico do jogo: Se esse jogo fosse repetido múltiplas vezes por jogadores dotados de memória e raciocínio, os jogadores acabariam aprendendo a estimar a tendência do outro jogador e sua própria experiência seria influenciada pelo comportamento do outro jogador. Estimativas mostram que jogadores inexperientes tendem, em geral, a conseguir interações atipicamente boas ou ruins com os demais jogadores.

As transações iniciais experienciadas por um jogador novato irão ter um maior impacto em suas futuras jogadas do que terão nas jogadas de um jogador experiente, determinado se o jogador novato irá adotar uma estratégia mais ou menos agressiva no futuro.

O jogo é útil para demonstrar como as experiências passadas na infância e na adolescência influenciam as atitudes do futuro adulto e os mecanismos que agem quando uma pessoa que sofreu agressão em tenra idade se torna um agressor.