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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Reavaliação Cognitiva

Reavaliação cognitiva é uma estratégia de regulação emocional que envolve mudar a tragetória de uma resposta emocional reinterpretando o significado da situação que a originou. Através da reavaliação cognitiva é possível desfrutar de maior controle emocional em situações difíceis e flexibilizar o sofrimento causado por situações passadas.

Sobre a ilustração: "Mother, Father, and daughter" - W.E. Hill, 1915.

Consultório de Psicoterapia Cognitivo-Comportamental Cláudio Raul Drews Jr.:http://www.facebook.com/crdrewstcc

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pesquisa sobre Dilemas Morais

Estava lendo o Blog Around the Clock e, por meio dele, fiquei sabendo de uma pesquisa que está sendo realizada por um filósofo e um psicólogo, visando comparar o desempenho de pessoas de todas as áreas ao desempenho de filósofos em dilemas morais. Quem quiser participar, basta acessar este link.
Eu mesmo já respondi as perguntas, mas resolvi traduzir alguns para ficar matutando o problema sobre outros ângulos, conforme vou postar. Se forem participar da pesquisa, não se deixem influenciar pelas minhas decisões. (;

Você faz parte de um grupo de ecologistas que vive em uma parte remota de uma floresta. O grupo inteiro, que inclui oito crianças, é tomado como refém por um grupo de terroristas paramilitares. Um dos terroristas começa a gostar de você. Ele lhe informa que o líder dos terroristas está planejando matar a você e a todos os reféns, assim que amanhecer. O terrorista se dispõe a ajudar você e as crianças a fugir, mas exige que você, num ato de boa fé, mate um dos reféns com o qual ele não simpatiza. Se você recusar a oferta dele, todos os reféns irão morrer, incluindo você e as oito crianças. Se você aceitar a oferta dele, então os outros reféns irão morrer pela manhã, mas você e as oito crianças irão poder escapar. Você considera que matar o colega refém é moralmente aceitável ou moralmente inaceitável?
Para responder a esta questão, é preciso analisar diversos pontos. Em primeiro lugar, que isto é um exercício mental, com algumas regras estabelecidas e bem determinadas, diferente da vida real. Segundo o que foi proposto, é fatalístico que todos irão morrer caso a oferta não for aceitada. Disso se exclui a possibilidade, por mais remota que fosse, de uma outra solução fora as mencionadas. Na vida real, dificilmente é possível excluir algum imprevisto que modifique a situação radicalmente.
Contudo, vamos supor que analisando todos os aspectos da situação, uma mudança durante o decorrer da noite fosse altamente improvável, que fosse quase que uma certeza absoluta a execução de todos tão logo o dia raiasse.
Neste caso, é preciso se colocar no lugar do colega a ser executado. Se você estivesse no lugar dele, e fosse ele que iria fugir com as oito crianças, você acharia justo ser executado para tanto?
Levando em conta a certeza da execução pela manhã, morrer algumas horas antes para que um colega e oito crianças se salvem, me parece justo e moral. No lugar do colega, eu aceitaria ser executado para este intento, até mesmo pelo motivo de que tudo o que eu perderia seriam algumas horas de cativeiro.
Mas a análise não deve parar por ai. Sendo o indivíduo a ser executado, um colega, supõe-se que você o conheça. Segundo o tanto que você conhece daquele indivíduo, você acha que ele consideraria justo e moral ser executado para que você e as outras oito crianças sobrevivam?
É uma pergunta de certa forma relevante. Você jamais vai poder afirmar, com absoluta certeza, que ele acharia justo ou injusto, pois você não está na mente dele e o exercício proposto não lhe dá a opinião de perguntar o que ele pensa a respeito. Neste caso, você teria de confiar naquilo que você acha que ele pensa, e no tanto que você conhece ele.
Supondo que você chegue a conclusão de que ele também, assim como você, acharia justo morrer para que você e as oito crianças se salvem. Neste caso, é com pesar que você iria executar o colega mas estaria fazendo a coisa que você acha que ele pensa ser certo, e que você também pensa ser certo.
Mas supunha que, pela convivência que você tem com ele, você acredite que ele não iria achar justa e moral tal troca. Seja por ser um tremendo covarde, seja por ser completamente egoísta, ele iria recusar-se a morrer, preferindo que todos morressem junto com ele na manhã seguinte. Neste caso, validaria também a execução, penso eu.
Outros fatores a serem levados em conta são: Será que ele iria executar você para se salvar e salvar as oito crianças? Será que ele iria pelo menos tentar pensar o que você pensou? Será que ele seria capaz de executar você para salvar apenas a si mesmo, caso não houvessem oito crianças a serem resgatadas? Será que você executaria ele para salvar apenas a si mesmo, caso não houvesse oito crianças a serem resgatadas?
Contudo, todas estas contingências fogem um pouco ao escopo delimitado pelo exercício. O que o exercício propõe é que se você matar um, você e mais oito crianças irão fugir e irão sobreviver. Neste argumento de bifurcação, a única opção apresentada é que se você não matar a ninguém, você, as oito crianças, o seu colega e o restante do grupo irão morrer no decorrer de algumas horas.
Neste contexto, colocando-se como você mesmo no lugar da pessoa a ser executada, e concordando que seria justo, e colocando-se no lugar da pessoa a ser executada, tentando imaginar o que ela pensaria a respeito, quer ela gostando ou não, continua parecendo ser justo.
Assim, levando em conta que se trata de um exercício de imaginação, e levando em conta as regras apresentadas por este exercício de imaginação, considero ser justo e moral a execução do colega - que segundo o exercício irá morrer de qualquer forma nas próximas horas - em troca da sobrevivência de oito crianças e da minha própria.


Uma epidemia viral se espalhou pelo globo matando milhões de pessoas. Você é um cientista e desenvolveu duas substâncias em seu laboratório caseiro. Uma destas substâncias você sabe que é a vacina, mas você não sabe qual delas. Você também sabe que a outra substância é um veneno mortal. Uma vez que você descobrir qual das substâncias é a vacina, você poderá usá-la para salvar milhões de vidas. Sob os seus cuidados estão duas pessoas, e a única maneira de descobrir qual das duas substâncias é a vacina, é injetando as substâncias nestas pessoas. Uma delas irá viver e a outra irá morrer, e você poderá começar a salvar vidas com a sua vacina. Você considera que injetar a substância nas pessoas é moralmente aceitável ou moralmente inaceitável?
Colocando o exercício na esfera da vida real, a impressão que tenho, no caso deste exercício, é que deve haver uma causa para o cientista não saber qual das substâncias é a vacina e qual das substâncias é um veneno mortal. A primeira causa provável me parece ser o descuido do cientista. Neste caso, moralmente aceitável seria que ele - no caso eu - injetasse a substância em si mesmo e arcasse com o risco e as conseqüências do próprio descuido. Bastaria escrever um recado assim: "Existem dois frascos a minha frente, um vazio e outro cheio. Caso você esteja lendo este bilhete é sinal de que me encontrou morto, desta forma, o frasco cheio é com certeza aquele que contém a vacina. Por causa do meu descuido misturei os frascos e, portanto, resolvi que deveria arcar com os riscos de identificar qual deles contém a vacina. Por favor, envie minha história para o Darwin Awards."
Caso eu sobrevivesse, teria solucionado o problema que criei e poderia descartar o bilhete. Caso eu morresse, seria justo - dada a situação, e os milhões de vidas ainda seriam salvas.
Mas o exercício não indica a causa para que se desconheça qual dos frascos contém o veneno mortal e qual dos frascos contém a vacina. Pode ser algum outro motivo qualquer, desde a prática inerente a produção inicial da vacina, até mesmo algum acaso qualquer que tenha ocorrido no laboratório, sem um responsável direto.
Neste caso é preciso mudar o foco da atenção para as duas pessoas sob meus cuidados. Serão elas pessoas que estão infectadas pelo virus pretensamente mortal? Ou serão pessoas saudáveis? Caso sejam pessoas saudáveis, acho que não justifica submetê-las ao risco. Neste caso, imaginando que tenha sido uma obra do acaso ou do processo a confusão dos frascos, acho que o próprio cientista deveria testar em si mesmo.
Caso sejam pessoas que estão infectadas é preciso perguntar quanto tempo elas têm de sobrevida. Digamos que a vacina faça efeito em duas ou três horas, e o vírus demore vários dias para matar uma pessoa. Eu poderia injetar o conteúdo de um dos frascos em uma das pessoas e esperar pelo resultado. Se fosse o frasco certo, ninguém morreria. Porém... Neste mesmo caso, é preciso perguntar se realmente é necessário submeter a pessoa a um risco de 50% de morte, uma vez que estou com a vacina em mão. Estando com a vacina em mão, e esta sendo identificável por outro meio, a morte daquela pessoa que antes era de uma probabilidade de 100%, cai para 0%. Não é o caso de uma pessoa que iria morrer... Novamente, acho que seria mais justo testar a vacina em si mesmo.
A não ser que ambas as pessoas contaminadas estivessem incapacitadas, que o virus tivesse uma ação muito rápida, e que ninguém fosse encontrar o bilhete a tempo de salvá-las. Neste caso, se eu me injetasse o conteúdo de um dos frascos e viesse a morrer, aquelas duas pessoas morreriam também. Assim sendo, se este fosse o caso, seria preciso perguntar o quão rápida é a ação do vírus e do veneno. Digamos que o prognóstico fosse de que as pessoas fossem sobreviver por mais 3 horas, e que para ação do veneno demorasse 4 horas. O que fazer? Acho que aqui fica bastante evidente, a pessoa que fosse usada de cobaia ficaria impossibilitada de morrer por ação do veneno, esta é uma possibilidade de 0%. E como ambas as pessoas morreriam de qualquer forma, seria inútil se submeter a um risco desnecessário. Neste caso justifica injetar o conteúdo dos dois frascos, um em cada pessoa infectada, e salvar uma delas, já que seria impossível salvar ambas: se eu injetasse apenas em uma pessoa, ambas morreriam antes que eu pudesse determinar qual é a vacina e qual é o veneno. Se eu me injetasse e viesse a morrer, os três morreriam.
Outro fator complicante é: se eu me injetasse e viesse a sobreviver, eu poderia fabricar mais vacina em tempo de salvar as outras duas pessoas? Se sim, neste caso estaria submentendo a eu mesmo e a aquelas duas pessoas, a três pessoas, a uma chance de 50% de sobrevivência. Se não, apenas eu sobreviveria e as outras duas pessoas morreriam de qualquer forma. A situação delas ficaria inalterada na espectativa de 100% de chance de morrer.
Mas isso tudo são extrapolações, feitas apenas para estudar a moral subjacente ao problema proposto pelo exercício. Voltando ao exercício em si, o que este propõe? Apenas duas linhas de ação: ou injeto as substâncias em ambas as pessoas e salvo uma, ou não injeto as substâncias em nenhuma das pessoas e ambas morrem. Por tabela pode se dizer que neste caso morrem outros milhões de pessoas que estão infectadas, e possivelmente outras pessoas que vierem a se infectar.
Qual dos casos estudados na extrapolação parece ser este? Me parece o caso no qual é necessário que o cientista viva por alguma razão qualquer, para que a vacina possa ser produzida. E me parece ser o caso de que se o cientista viesse a morrer, por qualquer razão, a vacina não seria produzida e todos morreriam. No exercício também não fala se as pessoas sob os cuidados do cientista são saudáveis ou não, logo há de se supor que sejam. Qual a situação real que se coloca em vista então? Existem três pessoas saudáveis e milhões de pessoas morrendo. Duas podem ser colocadas sob um risco de 50% de morrer, para salvar outros milhões de pessoas. Uma delas irá certamente morrer, a outra vai sobreviver. Não existe outra opção para salvar o restante das pessoas. É... O que resta é me colocar no lugar das pessoas que terão de servir de cobaia. Acharia eu ser justo me submeter a um risco de 50% de morrer para que outros milhões de pessoas sobrevivessem, sabendo que não há outra escolha para tanto? Sim, acharia. Se eu fosse uma das pessoas sob os cuidados do cientista, eu me submeteria a tal risco.
Enfim, levando em conta que o exercício não abre nenhuma outra possibilidade, acho que é justo e moral sejam injetadas as duas substâncias, uma em cada pessoa.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Entre a dama e o tigre

Segue a minha tradução, adaptada, de uma síntese de um conto de Frank R. Stockton:
"A muito tempo atrás, em uma terra distante, um rei semi-barbárico fazia uso de uma forma peculiar para administrar a justiça nos domínios do seu reino. Quando alguém era capturado pelos guardas do reino cometendo alguma ofensa, esse alguém era levado a julgamento em uma arena onde haviam apenas duas portas, ou saídas. Atrás de uma das portas ficava encerrada uma linda mulher, escolhida a dedo pelo rei, e atrás da outra porta ficava um tigre faminto. O suspeito, alheio a qual das portas encerrava a mulher ou o tigre, era então obrigado a escolher uma das portas. Caso ele escolhesse a porta na qual estava a linda mulher, ele seria declarado inocente de todas as acusações e, como recompensa, independentemente do seu estado civil prévio, era obrigado a casar-se com aquela linda mulher que restituiu-lhe a vida. Porém, caso ele escolhesse a porta que ocultava o tigre, ele seria declarado culpado e o tigre iria devorá-lo (não necessariamente nesta ordem).
Certo dia, o rei semi-barbárico tomou conhecimento de que sua filha, a princesa, havia ido longe demais com um plebeu. Não podendo tolerar que tal coisa acontecesse em seu reino, e visando restaurar a honra de sua filha, o rei mandou prender o plebeu e marcou uma data para o seu julgamento na arena.
No dia do julgamento, o plebeu foi posto na arena, perante ao rei, à princesa, e a todos demais integrantes da corte e da plebe. A sua frente estavam as duas portas, a sua direita estavam o rei e a princesa. O plebeu lançou um olhar em direção à princesa, esperando que esta lhe desse alguma indicação discreta quanto a porta que lhe pouparia a vida. A princesa, por sua vez, sabia qual porta encerrava a mulher e sabia qual porta encerrava o tigre. Neste momento, tomada de emoção, a princesa encontrou-se diante de um grande dilema: se ela indicasse a porta que ocultava o tigre, o homem a quem amava seria morto no ato; porém, se ela indicasse a porta onde estava presa a mulher, ele seria obrigado a casar-se com aquela mulher e, embora sua vida lhe fosse poupada, ele jamais poderia aproximar-se dela novamente.
Finalmente, após alguns momentos de hesitação, ela indicou qual porta ele deveria abrir, e assim ele fez..."

Conto original por Frank R. Stockton, no Projeto Gutenberg:
http://www.gutenberg.org/etext/396


Então, pergunto a vocês, o que havia atrás da porta que o homem abriu, e por quê?

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Godzilla vs. o Hotel Infinito (humor)

Contrário ao que as pessoas possam pensar, um hotel de quartos infinitos não precisa ocupar um espaço infinito. Suponha que o hotel possua apenas um quarto por andar, e que cada quarto possua metade da altura do quarto logo abaixo. O prédio inteiro não será mais alto do que um prédio normal de dois andares. Mas se este for o caso, então o prédio deverá ter uma cobertura em seu topo. E como se trata de uma cobertura, então, como qualquer arquiteto de renome pode apontar, a parte de baixo da cobertura deve ser o teto sobre algum quarto. Contudo, qual quarto será este, uma vez que se trata de um hotel com um número infinito de quartos?
Na proposição original da minha fonte de consulta, o prédio não poderia ter uma cobertura (...given that the hotel has an infinite number of them and therefore no top story?), mas isso se trata de apenas de nonsense na concepção do Tratactus Logico-Philosophicus de Wittgenstein (7). Isso por que, se o prédio possui apenas dois andares de altura, o que me impediria, caso eu fosse o Godzilla, de colocar qualquer estrutura que fosse sobre o prédio e chamar tal estrutura de cobertura? Logo, o que quer que esteja abaixo da cobertura, seria o último quarto, nem que fosse o quarto de número ∞.



Fonte consultada:
KIEKEBEN, Franz. Infinty. Disponível em:
http://members.aol.com/kiekeben/infinty.html
Acesso em: 10 de abril de 2008.

O Paradoxo do Envelope

Vamos supor que você está em um programa de televisão e o apresentador te diz para escolher um entre dois envelopes selados. Tanto o envelope A quanto o envelope B contém algum dinheiro, mas o apresentador não te diz quanto dinheiro há em cada um. A única coisa que ele te diz é que um envelope contém o dobro de dinheiro que o outro.
Você escolhe o envelope A, abre o envelope e descobre que dentro dele está R$ 100,00 (cem reais). O apresentador, então, te faz a seguinte oferta: você pode tanto ficar com os R$ 100,00 ou pode escolher trocar de envelope, escolhendo o envelope B.
Desta maneira, você pode fazer o seguinte raciocínio: - Uma vez que um dos envelopes contém o dobro de dinheiro que o outro, o envelope B pode conter tanto R$ 200,00 ou R$ 50,00, com a mesma probabilidade tanto para um quanto para o outro pagamento. Já que eu tenho mais a ganhar (+R$ 100,00) do que a perder (-R$ 50,00), eu devo fazer a troca.
Mas, no exato momento em que você decide comunicar ao apresentador que você deseja trocar de envelope, você é surpreendido por um pensamento perturbador: se você tivesse escolhido o envelope B - quer você tivesse ganho R$ 200,00 ou R$ 50,00 - você teria chegado exatamente a mesma conclusão. Assim sendo, se o argumento anterior é válido, você deve trocar de envelope independentemente da escolha inicial. Mas isso não pode estar certo, pode?

O que há de errado com o seu raciocínio?
Alguns matemáticos afirmam que neste caso o problema está em usar uma medida de probabilidade em um conjunto infinito (de números naturais). Mas os lógicos indicam que o paradoxo pode ser abordado sem o uso da probabilidade. Tal afirmação faz uso de duas proposições contraditórias:
Proposição 1. A quantidade que você irá ganhar, se você ganhar, é maior do que a quantidade que você irá perder, se você perder.
Proposição 2. As somas são iguais.

A prova da Proposição 1 é essencialmente aquela já explicitada no problema: - Que n seja a soma no envelope que você está segurando, então o outro envelope possui 2n ou n/2. Uma vez que n é maior do que n/2, então a soma que você irá ganhar, se você ganhar - que é n - é maior do que a soma que você irá perder, se você perder - que é n/2. Isso prova a Proposição 1.

Quanto a prova da Proposição 2: - Que seja d a diferença entre as somas nos dois envelopes, ou - o que é a mesma coisa, que seja d a soma do envelope de menor valor. Se você ganhar na troca, você irá ganhar d reais, se você perder na troca, você irá perder d reais. Desta forma as somas são idênticas no final. Isto prova a Proposição 2.

Porém eu vejo um problema com a Proposição 2 que, embora logicamente correta, não leva em conta o que é percebido pelo jogador no momento da segunda rodada.
Assim eu faria uma nova proposição:
Proposição 3. Enquanto não se sabe o valor de ambos os envelopes o valor da diferença entre perder e ganhar é a maior do que o valor que efetivamente se pode ganhar e o valor que se pode perder, por ser a soma de ambos os valores. Ainda assim, tal percepção influencia a decisão de continuar.

A prova para a minha proposição é a seguinte: Na primeira rodada do problema você joga com uma chance de 1/2 para ganhar n ou n/2, sendo que n será um número desconhecido. Na segunda rodada do problema, você joga com uma chance de 1/2 para ganhar 2n ou perder n/2, sendo que agora n é um número conhecido. Na primeira rodada você possui 0 (nada), e logo só poderá ganhar. Na segunda rodada você poderá tanto ganhar o dobro quanto perder metade daquilo que passou a possuir, com uma diferença virtual de 2(2n/3), ou R$ 150,00 caso você esteja segurando um envelope com R$ 100,00.
Essa percepção distorcida me parece poder ser útil para explicar, pelo menos em parte, as motivações por trás do comportamento exibido por jogadores compulsivos.

Fonte consultada:
KIEKEBEN, Franz. Envelope Paradox. Disponível em:
http://members.aol.com/kiekeben/envelope.html
Acesso em: 10 de abril de 2008.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

O Dilema de Jones

“Seria ingenuidade acreditar que armas nucleares não viriam acompanhadas de armamento químico e biológico. [...]Um dilema particularmente horrível poderia encontrar um soldado irradiado em um ambiente contaminado por agentes químicos que teria de remover sua máscara de proteção ou morrer aspirando seu próprio vômito induzido pela radiação.” Franklin D. Jones, M.D., Coronel Ret. do Exército Americano, Psiquiatra e Neurologista. Neuropsychiatric casualties of nuclear, biological, and chemical warfare. In: War Psychiatry, 1995. p. 103
Analisando a situação: se o soldado removesse a máscara, ele morreria contaminado pelo agente químico, provavelmente de paralisia no sistema nervoso central que provoca morte por asfixia; se o soldado não removesse a máscara, ele morreria asfixiado por seu próprio vômito...
De qualquer maneira, se ele não morresse asfixiado pelo vômito nem pela contaminação química, ele muito certamente morreria de maneira horrível pela contaminação radioativa.
Esse é o mundo da guerra. Não há vencedores, apenas perdedores.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Schopenhauer e o dilema do porco-espinho

O dilema do porco-espinho diz respeito à noção de que quanto mais próximos estão dois indivíduos, maior a probabilidade deles se ferirem mutuamente; contudo, mantendo-se distantes, irão sentir a dor da solidão. Daí a imagem do porco-espinho, com seus afiados espinhos nas costas, que irão machucar outro porco-espinho que se aproximar.
É uma idéia análoga à relação entre dois seres humanos. Se vierem a se importar e a confiar um no outro, alguma tragédia que venha a acontecer com um poderá ferir o outro da mesma maneira; e a desonestidade entre os dois pode causar problemas ainda maiores.
Acredito que é correto afirmar que a maioria de nós prefere correr o risco de se decepcionar e de sofrer à ficar sozinho, longe da convivência com outras pessoas. Caso contrário a própria perpetuação da espécie humana estaria comprometida, por nossa natural dependência do grupo para proteção, reprodução e desenvolvimento emocional.
Schopenhauer pensava de maneira um pouco diferente...
Ele descreveu o problema da seguinte maneira: alguns porco-espinhos precisavam se agrupar para que pudessem ficar aquecidos. Mas como iriam eles encontrar a distância exata em que ficariam aquecidos sem se machucar? Para Schopenhauer, os porco-espinhos tiveram que sacrificar o calor pelo conforto.
Conta a história que Schopenhauer chegou a conclusão de que se alguém possui suficiente calor interno pode evitar a sociedade e a irritação proveniente da interação social.
Contudo, penso que Schopenhauer já tinha essa idéia sobre o contato social antes mesmo de pensar sobre o dilema dos porco-espinhos, vindo apenas a enquadrar suas próprias frustrações sociais no contexto proposto.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Compêndio de Experimentos Mentais

Abaixo, uma série de experimentos mentais adaptados de forma bem humorada para facilitar o diálogo entre meus colegas.

Instruções:

Os experimentos mentais foram idealizados para facilitar a utilização da capacidade criativa e da imaginação de nossas mentes para simular situações que nos levem a questionar conceitos e valores, além de facilitar e aprofundar a discussão sobre assuntos filosóficos e psicológicos. Alguns deles exigem que façamos extrapolações da realidade, onde situações inusitadas e irrealísticas devem ser imaginadas para que possamos fazer o exercício; em outros, como o paradoxo do mentiroso, as palavras devem ser entendidas literalmente (i.e. sempre significa sempre – ou seja, todas as vezes).
Leiam com atenção, fazendo uma pausa para simular mentalmente a situação proposta a cada experimento.

Experimento mental I: Fábio e a toxina

Um bilionário insano põe um frasco com uma toxina diante do Fábio e fala o seguinte: - Se você beber essa toxina, irá sentir-se dolorosamente doente durante um dia, mas não terá sua vida ameaçada e não haverá risco de morte ou de efeitos duradouros. Eu irei te pagar um milhão de dólares amanhã pela manhã se, a meia-noite de hoje, você intencionar beber a toxina até amanhã a tarde.

Ele enfatiza que não há necessidade de beber a toxina para receber o dinheiro; de fato, o dinheiro já estará depositado no banco horas antes do tempo limite para que a toxina seja ingerida... Caso ele seja bem sucedido. Tudo o que ele precisa fazer é ter a intenção, a meia noite de hoje, de ingerir o líquido do frasco até amanhã a tarde. Ele é perfeitamente livre para mudar de idéia e não beber a toxina após receber o dinheiro.

É possível intencionar beber a toxina, se você sabe que não precisa bebê-la?

Experimento mental II: o Taimon do Pântano

Vamos supor que o Taimon foi passear em um pântano e foi morto por um relâmpago. Ao mesmo tempo, nas proximidades, outro relâmpago rearranja espontaneamente um amontoado de moléculas de maneira que, inteiramente por coincidência, elas tomam exatamente a mesma forma que as moléculas do corpo do Taimon no momento em que ele morreu.
Sendo assim, o Taimon do Pântano possui, evidentemente, um cérebro que é estruturalmente idêntico àquele que o Taimon original tinha, logo, presumivelmente, comporta-se exatamente da mesma maneira que o Taimon iria se comportar. Ele irá sair do pântano, voltar para a Faculdade Atlântico Sul, fazer os mesmos comentários em sala de aula e interagir da mesma maneira que sempre interagiu com seus colegas e amigos.
Não havendo nenhuma diferença, já que ninguém iria perceber nada, o Taimon do Pântano iria reconhecer seus amigos, mas é impossível para ele realmente conhecê-los, uma vez que ele jamais os havia visto anteriormente. Qual é a verdadeira natureza do conhecimento?

Experimento mental III: Cid, o carro desgovernado e o médico louco

Cid estava indo para a faculdade quando vê um carro desgovernado indo em direção a 5 pessoas que foram amarradas no meio da estrada por um filósofo maluco. Felizmente ele encontra um interruptor que, se pressionado, irá fazer o carro desviar para uma outra estrada. O único problema é que na outra estrada existe uma única pessoa amarrada. Deverá o Cid acionar o interruptor?
O interruptor não funciona, o carro está se aproximando rapidamente das 5 pessoas que estão amarradas na estrada. O único modo de parar o carro é jogar um grande peso no caminho. Coincidentemente há um homem muito gordo parado na calçada do lado do Cid. Deverá ele empurrar o homem gordo para salvar as cinco pessoas?
Por fim, o Cid chega em aula mas começa a se sentir um pouco mal. Ele resolve consultar um médico. O médico que o Cid escolhe possui outros cinco pacientes, cada qual necessitando do transplante de um órgão diferente, sem o qual irão certamente morrer. Infelizmente não há órgãos disponíveis para o transplante de nenhum dos cinco pacientes. Ao examinar o Cid, o médico descobre não apenas que ele está saudável, como também que ele é um doador compatível para todos os cinco pacientes que estão morrendo. Deverá o médico realizar os transplantes?

Experimento mental IV: o Cérebro Psicologia

Supunha que toda a turma de Psicologia fosse reordenada para simular o funcionamento de um único cérebro (ou seja, agir como uma mente de nos moldes do Funcionalismo). Cada aluno age como um neurônio e comunica-se através de um rádio com os demais alunos. O estado mental atual do cérebro Psicologia é mostrado pelo data-show da sala de aula; e o cérebro Psicologia estaria conectado a um corpo controlado via rádio. Este corpo proveria as informações sensoriais (input) e manifestaria as respostas comportamentais (output) do cérebro Psicologia.
Desta maneira, o cérebro Psicologia teria todos os elementos do modelo Funcionalista de mente: informações sensoriais, respostas comportamentais, estados mentais internos casualmente relacionados a outros estados mentais. Se a turma de Psicologia pudesse ser organizada desta maneira, então, de acordo com o Funcionalismo, seria um sistema detentor de uma mente.
Deixando de lado o fato óbvio que este experimento busca demonstrar, que o modelo Funcionalista de mente não existe, é interessante imaginar os resultados de tal experimento. Qual seria o tipo de mente que nossa turma iria manifestar?

Experimento Mental V: Dilema dos Prisioneiros Fábio e Taimon

Dois suspeitos, Fábio e Taimon, foram presos pelo policial Cid tentando roubar revistinhas do Sandman utilizando punhais de gelo para ameaçar o jornaleiro. Uma vez que os punhais derreteram, Cid não possui evidências suficientes para a condenação máxima.

Tendo separado os dois prisioneiros em salas diferentes, Cid ofertou o mesmo acordo para cada um deles: se um depor para a condenação do o outro e o outro permanecer em silêncio, aquele que depor será posto em liberdade e aquele que permanecer em silêncio receberá uma sentença de 10 anos sem direito a condicional por roubo a mão armada. Se ambos permanecerem em silêncio, ambos serão sentenciados a apenas 6 meses de prisão por furto qualificado. Se ambos se acusarem, ambos receberão uma sentença de 5 anos.

Fábio e Taimon devem escolher entre cagüetar o companheiro ou permanecer em silêncio, sem saber qual será a atitude do outro. Então este é o dilema: como você agiria se fosse um dos prisioneiros?

Aspecto psicológico do jogo: Se esse jogo fosse repetido múltiplas vezes por jogadores dotados de memória e raciocínio, os jogadores acabariam aprendendo a estimar a tendência do outro jogador e sua própria experiência seria influenciada pelo comportamento do outro jogador. Estimativas mostram que jogadores inexperientes tendem, em geral, a conseguir interações atipicamente boas ou ruins com os demais jogadores.

As transações iniciais experienciadas por um jogador novato irão ter um maior impacto em suas futuras jogadas do que terão nas jogadas de um jogador experiente, determinado se o jogador novato irá adotar uma estratégia mais ou menos agressiva no futuro.

O jogo é útil para demonstrar como as experiências passadas na infância e na adolescência influenciam as atitudes do futuro adulto e os mecanismos que agem quando uma pessoa que sofreu agressão em tenra idade se torna um agressor.