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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Sentido da Vida

"Life has no meaning; only machine intelligence is truly significant on a cosmic scale."
The Grim Adventures of Billy & Mandy

Esta é uma das minhas citações favoritas embora seja, a princípio, uma afirmação que nega a si mesma. Resolvi criar um mapa de argumento:
O Sentido da Vida
Desta forma, a menos que seja possível a emergência da consciência e da inteligência em entidades não-biológicas sem a intervenção de uma entidade biológica consciente e inteligente - ou seja, de forma natural - a vida se justifica por sua necessidade para o projeto e construção da primeira geração de máquinas inteligentes. Ainda assim, vale dizer que esta razão não se aplica caso adotemos o mecanicismo, segundo o qual entidades biológicas são apenas máquinas extremamente complexas.

Anfibologia

"Acreditaria mesmo que mentisse. Sua mentira não muda minha fé." - estava escrito no Twitter hoje.
Pergunto: conseguem notar o que há de errado com o argumento acima?
1. "Acreditaria mesmo que mentisse."
-- a. Quem acreditaria?
-- b. Quem mentisse?
Esta frase exige estas questões, e a questão "acreditar no quê?", estando claramente mal elaborada e, de certo modo, ambígua. Uma anfibologia.
Poderia ser "[Ele] acreditaria mesmo que [eu] mentisse" ou "[Eu] acreditaria mesmo que [ele] mentisse" ou mesmo "[Eu] acreditaria mesmo que [eu] mentisse".
No contexto em que se encontra a frase, somos levados a depreender algo como "[Eu] acreditaria [na minha fé] mesmo que [ele] mentisse" ou, mais provavelmente na intenção do autor, "[Eu] acreditaria [na minha fé] mesmo que [tu] mentisse[s]".
Mas, por consequência, a meme acima leva ato de linguagem de "[Eu] acreditaria [na minha fé] mesmo que [eu] mentisse." A fé é dogmática, está além dos questionamentos.
2. "Sua mentira não muda minha fé."
-- a. Onde na sociedade contemporânea está a mentira de lesa-fé? Onde senão na ciência? Como então defender que a ciência proclama mentiras contra a fé de um indivíduo ou grupo de indivíduos quando a ciência, para ser ciência, é um construto de conhecimentos baseados em fatos e admitidamente passíveis a falseabilidade: ou seja, não há dogmas na ciência, no máximo paradigmas, que são derrubados com a chegada de novos fatos que os contradigam. Os fatos, que são oriundos da Natureza, é que compõe o corpo de conhecimento científico, inclusive quando este desmente as crenças da(s) fé(s). Não há interesse científico em atacar a fé, uma vez que o interesse final da ciência é a busca da verdade.
O antônimo da verdade é a mentira. Logo, eis o motivo pelo qual imputo o ato de mentir ao autor da frase acima, quando este diz: "Acreditaria mesmo que mentisse." - o crédulo mente pra si mesmo, para negar a verdade que o incomoda. E verdades científicas, em geral, incomodam por remover do ser humano seu papel central e absoluto na Natureza, uma necessidade de um ser que chega ao ponto de criar um deus a sua imagem e semelhança.
Logo, ao complementar seu pensamento com a oração "sua mentira não muda minha fé", o autor está transferindo sua própria falha para aqueles a quem pretende atacar, numa forma de falácia do homem de palha.
Crença sem questionamentos e sem critério dá nisso: falácias e mais falácias que sustentem suas necessidades de distorcer a realidade para que essa lhe pareça tolerável.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Falácia da Bifurcação

Ela estava agitada, bastante emocional, trazendo diversos argumentos sobre aquilo que a incomodava, e ele estava calmo, completamente impassível, e respondeu sem se alterar:
"Vais me deixar por causa disso? Então nem briga, vai logo. Ou, se vais ficar comigo, então não perde tempo brigando e esquece isso."
Seu argumento a deixou visivelmente frustrada, possivelmente mais triste do que já estava... Mas deu um fim a discussão. Afinal, se era para ficarem juntos, ficar discutindo algo que já havia passado - e o tempo não volta atrás - era perda de tempo, e se era algo que não poderia ser superado, então, da mesma forma, não havia por que discutir. Ou, pelo menos, era isso que ele pensava.
Muito tempo depois, sozinho, em uma fria noite de inverno, ele lembrou-se da discussão e, tendo um pouco mais de compreensão, notou seu erro: mais do que lógico ou racional, seu argumento era, na verdade, uma falácia da bifurcação, uma resposta que apela para a redução de uma situação complexa propondo apenas dois cursos de ação com conseqüências extremas e opostas entre si, e que desconsidera toda e qualquer outra possibilidade na busca de um consenso.
Este tipo de falácia mostrou-se útil para encerrar uma discussão mas, por outro lado, não é adequado para tratar com as pessoas por quem se tem apreço.
Então que ele continue pensando sobre isso, sozinho, nas longas noites de inverno. Talvez encontre outras falhas em seus próprios argumentos.

Imagem de Brasilescola.com: Sociologia: Body Modification - valor ilustrativoImagem obtida no site Brasil Escola em
Sociologia: Body Modification. Embora eu
não seja nem um pouco fã destas práticas,
não consigo pensar em uma ilustração
mais apropriada para este tipo de falácia.
Outro link interessante do mesmo site:
Monografias: Regras da ABNT.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Indução forte

Outro diálogo de fórum...

mrbin> E eu sou da opinião de que quanto mais o Windows copiar o Linux, mais a Microsoft estará assumindo sua inferioridade em relação ao sistema aberto. Agora, quando o Linux copia o Windows, é apenas um exercício de liberdade! Afinal, apenas copiamos a parte que nos interessa, que achamos boa. É um aperfeiçoamento.

t1000> Isso fere o princípio da eqüidade... d:

mrbin> Humor e ironia se fazem ferindo princípios de eqüidade e de outras cositas más.

Como responder a tão forte argumento de indução? Embora minha análise inicial tenha sido perfeita, o contra-argumento dele foi excepcional!

Análise: As premissas iniciais, de que ao copiar o Linux, o Windows está assumindo sua inferioridade, e de que ao copiar o Windows, o Linux está exercendo a sua liberdade, formam uma comparação inconsistente. Neles há uma bifurcação em que ambos levam a argumentos homem de palha, uma vez que são premissas totalmente questionáveis. Ao afirmar que "apenas copiamos a parte que nos interessa", acredito haver um circulus in probando. Tal atitude seria um exercício de uma liberdade questionável, mais uma vez um argumento homem de palha. A conclusão, por ser baseada em argumentos que claramente indicam um petitio principii, seria não mais do que um ignoratio elenchi, uma tese irrelevante. A maior fraqueza do argumento estava na óbvia falta de eqüidade.
Porém ao contra-argumentar minha sucinta observação, ele transformou o sentido inicial das premissas em um reductio ad absurdum, ingrediente comum dos "chistes", em especial ironias. Uma comparação propositadamente desproporcional com o intuito de induzir ao pensamento abstrato e subseqüente riso. Para tanto ele não recorre a um sofisma, mas a uma indução forte uma vez que a razão apresentada, o "ferir a eqüidade", é uma instância admitidamente verdadeira na formulação de ironias.

Acho que essa minha análise de discurso não ficou muito boa... Estou fora de forma... E cansado. Quem sabe amanhã eu melhoro ela.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Ubuntu também é cultura: exemplo de programação neurolingüística

Citando piras:
"O problema é que a máquina para a qual o teclado teima em ficar olhando é bem pior que aquela para a qual ele inexplicavelmente dá as costas..."
Premissa: A máquina A é pior que a máquina B.

1. Afirmação: O teclado teima em ficar olhando para a máquina A.
Objeção: teclados não possuem a capacidade de enxergar, ou mesmo de teimar. Reductio ad absurdum.

2. Afirmação: O teclado inexplicavelmente dá as costas para a máquina B.
Objeção: considerado o aspecto emocional da ação de "dar as costas", um teclado não poderia realizar tal ação. Reductio ad absurdum.

3. Afirmação: A máquina A é pior que a máquina B.
Objeção: os motivos levantados não parecem sustentar a conclusão, sendo que a mesma parece não ter relação com a questão levantada. Ignoratio Elenchi.

Contudo achei a frase genial. Li uma vez, duas vezes... Ativou fortemente a parte subconsciente do meu cérebro pra buscar um sentido. (:

Fonte: Ubuntu Fórum Br

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Equívoco e anfibologia

Equívoco é o uso de um termo, em um silogismo, dando um significado diferente a cada vez que o termo aparece. O uso da ambigüidade de uma palavra em uma explicação também é uma falácia de anfibologia.
Todo equívoco é uma anfibologia, mas nem toda anfibologia é um equívoco. Um exemplo de uma anfibologia pura é a frase: "Veio o Maomé a montanha." Neste caso há um erro gramatical, que torna a frase ambígua. Teria o Maomé ido à montanha, ou ao Maomé a montanha teria ido? Ainda no mesmo exemplo é interessante notar que na língua falada, a inversão do gênero impossibilita a ambigüidade.
Nem toda anfibologia depende de um erro gramatical: "Certa vez atirei em um elefante vestindo meu pijama." Nesta frase, de Groucho Marx, não fica claro quem estava vestindo o pijama, se era ele ou o elefante. Contudo, a tentativa de uma explicação na qual o elefante estaria vestindo o pijama certamente cairia em redução ao absurdo.
As incoerências nos exemplos acima são bastante evidentes, mas são exemplos úteis na demonstração de como a interpretação de uma ambigüidade pode levar à conclusões errôneas.
Escolhendo a possibilidade de que o elefante estivesse vestindo o pijama, poderíamos presumir que:
1. Mesmo o pijama do homem mais obeso do planeta deve servir apenas em um elefante muito jovem;
2. Marx deve ser absurdamente obeso para que seu pijama sirva em um elefante muito jovem;
3. O pijama deve ser singularmente resistente para ser capaz de permanecer cobrindo o corpo do elefante.
A cena, muito pouco provável, que se forma é a de um homem extremamente obeso atirando em um elefante muito jovem vestido com um pijama singularmente resistente (nylon rip-stop, talvez).
Todas estas inferências derivam da interpretação de uma frase ambígua.
É possível que o ouvinte mais atento decida formar as duas cenas possíveis dada a permissividade da frase. Neste caso, as seguintes conclusões emergiriam:
1. Marx vestia o pijama;
2. Marx alvejou um elefante.
Resultando na cena mais verossímil de um homem atirando em um elefante, independente de maiores explicações para que o ato fosse possível no mundo natural que conhecemos.
Tendo ambas as possibilidades consideradas, por meio da lei da parcimônia na sua forma mais clara, a que deu origem ao conceito da Lâmina de Occam, parafraseada como "se todas as demais coisas forem equivalentes, a solução mais simples é a melhor", seria fácil optar pela segunda cena descrita, que necessita de uma quantidade menor de elementos para se tornar viável.
Além da defecção da formulação inicial, a parcimônia seria a outra alternativa aceitável para lidar com frases ambíguas que podem surgir acidentalmente em uma discussão oral.
Contudo, não é raro que o ouvinte despreze a formulação mental das diversas possibilidades que surgem da ambigüidade de frases faladas, muitas vezes optando por um atalho de interpretação baseado naquilo que ele julga saber do interlocutor. E é assim que ocorrem muitos dos desentendimentos, nas mais diversas formas de relacionamento.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Pequena lista de Falácias (atualizada)

Argumentum ad antiquitatem

Consiste em afirmar que algo é verdadeiro ou bom só porque é antigo ou "sempre foi assim."

Ad hoc

Ocorre por causa da diferença entre um argumento e uma explicação. Se "B" é utilizado como evidência para confirmar "A", a senteça "A por causa de B" é um argumento. Se estamos tentando tornar "B" verdadeiro, então a sentença "A por causa de B" é uma explicação. A explicação se torna falaciosa quando não se aplica a outras situações.

Argumentum ad hominem

Em vez de provar a falsidade de um enunciado, o argumentador ataca a pessoa que fez o enunciado.

Argumentum ad hominem tu quoque

O enunciado é refutado porque a pessoa não agiu de acordo com o argumento.

Argumentum ad ignorantiam

Ocorre quando se afirma que algo é verdadeiro simplesmente porque não foi provado que é falso.

Argumento da incredulidade pessoal

Ocorre quando se afirma que algo é falso só porque, pessoalmente, a pessoa se vê incapaz de acreditar na sua veracidade.

Non sequitur

A conclusão não segue as premissas, sem fundamentação.

Argumentum ad Baculum

Utilização de algum tipo de privilégio, força, poder ou ameaça para impor uma conclusão.

Argumentum ad Populum / Argumentum ad Numerum

É a tentativa de ganhar apelando a uma grande quantidade de pessoas.

Argumentum ad Verecundiam

Argumentação baseada no apelo a alguma autoridade para comprovar uma premissa.

Dicto Simpliciter

Uma regra geral é aplicada em um caso específico.

Generalização Apressada

Uma regra específica é atribuída ao caso genérico.

Falácia da Composição

A propriedade das partes é aplicada ao todo. Bastante comum em anúncios de vendas de computadores.

Falácia da Divisão

A propriedade do todo é aplicada a cada parte.

Falácia do homem de palha

Consiste em defender um ponto de vista fraco ou reprovável.

Cum hoc ergo propter hoc

Afirma que, apenas porque dois eventos ocorreram simultaneamente, eles estão relacionados.

Post hoc ergo propter hoc

Cria relação entre eventos por terem ocorrido em um curto espaço de tempo.

Circulus in Demonstrando

Ocorre quando alguém assume como premissa a conclusão a que se quer chegar.

Questão complexa / Falácia da interrogação / Falácia da presuposiçao

A pergunta já trás uma afirmação implícita.

Ignoratio Elenchi

Conclusão sofismática, irrelevante. Uma conclusão que não tem relação com os argumentos utilizados.

Anfibiologia

Premissas ambíguas devido à má elaboração gramatical.

Bifurcação (falácia da dicotomia)

Ocorre com a apresentação de apenas duas hipóteses para uma situação.

Argumentum ad Crumenam

Utiliza o dinheiro como premissa.

Argumentum ad Lazarum

Oposto ao "ad Crumenam".

Argumentum ad Nauseam

É a repetição constante de uma afirmação e a crença de que ela seja verdade.

Plurium Interrogationum

Quando se exige uma resposta simples para uma questão complexa.

Red Herring

Quando material irrelevante é introduzido no assunto discutido para desviar a atenção ou desvirtuar a conclusão.

Tu Quoque

Falácia do "você também".

Apelo à Natureza

Utilizar-se da natureza para justificar condutas ou eventos humanos. Ou utilizar-se da qualidade subjetiva de natural, ou normal, ou anormal, como justificativa.

Non causa pro causa

Quando se justifica algo com alguma coisa não relacionada.

Inversão do ônus da prova

Fazer uma afirmação e desafiar a outra parte a provar o contrário.

Argumento escorregadio

Se um evento ocorrer, outros eventos ruins irão se seguir; sem prova de correlação.

Petitio Principii

Ocorre quando as premissas são tão questionáveis quanto as conclusões a que se quer chegar.

Falácia da Falácia

Consiste em tomar uma afirmação como falsa por ser falaciosa.... Uma afirmação falaciosa não é necessariamente uma mentira, mas é uma afirmação cuja estrutura não dá suporte àquilo que é dito.